Apostas para o Globo de Ouro

Antes de prosseguir com o texto, uma errata: A cerimônia do Globo de Ouro será transmitida pelo canal TNT este ano, e não pela Sony. E, de acordo com o anúncio no Guia da Folha de S. Paulo, a TNT também se encarregará da transmissão dos seguintes prêmios:

15/01: GLOBO DE OURO. Pré-show a partir das 22h. Comentários de Rubens Ewald Filho.

29/01: SAG Awards. A partir das 23h.

12/02: GRAMMY. A partir das 23h.

26/02: OSCAR. Pré-show a partir das 20h30.

Ricky Gervais, único host que bebe enquanto apresenta

Bom, dito isso, estou ansioso pela entrega dos Globos de Ouro neste domingo. Mas confesso que estou um pouco mais ansioso para ouvir as piadas ácidas do anfitrião da noite, o ator britânico Ricky Gervais (mais conhecido pela série original do The Office), do que os próprios resultados. Explico: Gervais deixou quase todos indignados com seu humor nas últimas 2 edições do prêmio. Ele foge daquelas piadinhas prontas de teleprompter que os apresentadores recitam como se fossem T. S. Elliott. Nessas circunstâncias, torna-se um deleite observar esse improviso todo num evento tão bem preparado e programado para ser perfeito. Além disso, vemos como alguns alvos de piadas reagem (quando a câmera os pegam) e/ou rebatem os insultos. Tem gente que encara de boa, mas outros levam a sério e mostram aquele sorrisão amarelo.

Eis algumas pérolas que ele soltou no palco:

* Comentando sobre o filme O Turista: “Foi um grande ano para os filmes em 3-D… Parece que tudo este ano foi tridimensional. Exceto pelos personagens de O Turista!”

* Sobre os shows de Cher: “Você quer ir e ver a Cher? Não! Por que não? Porque não é 1975.”

* Aconselhando Crystal Harris (de 24 anos), noiva de Hugh Hefner (de 85): “Apenas não olhe quando você tocar!” – fazendo gestos de masturbação e ânsia ao mesmo tempo.

* Introduzindo Bruce Willis: “Por favor, dêem boas-vindas ao pai de Ashton Kutcher!”

* Introduzindo o presidente da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, Philip Berk: “Eu o ajudei no banheiro a encaixar seus dentes!” – Quando Berk alcança o microfone, ele retruca: “Ricky, da próxima vez que você quiser ajuda para classificar seu filme, procure outra pessoa!”

Pode soar cruel demais, mas acredite: espanta o sono quando começa a ficar chato!

Ok, ok… vamos aos prêmios! Mas antes de continuar, já aviso que não é possível fazer uma análise completa, porque infelizmente as distribuidoras dos filmes querem aguardar as indicações ao Oscar para poder aproveitar a publicidade no lançamento. Tudo bem, atitude compreensível. Mas quem sai perdendo é o público que muitas vezes assiste ao Oscar sem ter conferido várias produções indicadas.

Bom, vou tentar simplificar, dividindo por categorias. Lembrando que o Globo de Ouro divide as categorias de filme, ator e atriz em duas sub-divisões: Drama e Comédia/Musical com o intuito de promover mais trabalhos.

 MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Jessica Chastain (que está a cara da Jessica Lange em Céu Azul)

Quem deve vencer: Jessica Chastain (A Árvore da Vida)

Meu voto: Shailene Woodley (Os Descendentes)

Pela quantidade de filmes que fez em 2011, Jessica Chastain já teria vitória garantida e isolada.  Apesar de seu reconhecimento ser maior pelo filme A Árvore da Vida, ela foi indicada pela dramédia Histórias Cruzadas. Seu trabalho no filme de Terrence Malick se resume à naturalidade de seus gestos. Ela compõe uma mãe submissa de família, que se vê dividida entre o amor do marido e de seus filhos. Apesar de seu papel ser menor, seu modo de atuação é conciso, semelhante ao de Benicio del Toro em Traffic. Mas enfim, Histórias Cruzadas só estréia por aqui no dia 3 de fevereiro. Meu voto vai para a jovem Shailene Woodley que, sob a firme direção de Alexander Payne, parece ter encontrado um ótimo ponto de equilíbrio com George Clooney. 

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Christopher Plummer: prêmio por puro mérito ou conjunto da obra?

Quem deve vencer: Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)

Quem deveria vencer: Albert Brooks (Drive)

Não menosprezando o trabalho de Plummer, mas quando se tem um papel de idoso com doença terminal e se descobre homossexual, parece mais fácil causar uma catarse no público e esconder mais a atuação. Além disso, Plummer já é uma figura conhecida e querida desde que interpretou o Capitão Von Trapp em A Noviça Rebelde e nunca levou o prêmio. Pelo trailer de Drive, é possível notar que o personagem de Brooks é mais contido e as nuances ficam mais em evidência. 

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

The Living Proof, de Mary J. Blige

Quem deve vencer: The Living Proof (Histórias Cruzadas)

Quem deveria vencer: The Living Proof (Histórias Cruzadas)

Como este ano não tem nenhum favorito como um My Heart Will Go On, provavelmente o prêmio deve ir para Histórias Cruzadas pelo tema de racismo e pela credibilidade de Mary J. Blige. A música apresenta uma letra bonita que ostenta a liberdade individual e coletiva.

 

MELHOR TRILHA MUSICAL

Quem deve vencer: Ludovic Bource (The Artist)

Quem deveria vencer: Howard Shore (A Invenção de Hugo Cabret)

Ludovic Bource (The Artist)

Por se tratar de um filme mudo, a trilha de Ludovic Bource certamente fica mais em evidência do que qualquer outro trabalho. A música carrega mais o filme do que complementa como em outros casos, pois influi diretamente nas atuações do elenco. Mas não se deve deixar de lado o trabalho de Howard Shore, que é colaborador assíduo de David Cronenberg e Martin Scorsese. Já levou 3 Globos de Ouro e Oscars, sendo a maioria pela trilogia de O Senhor dos Anéis. Talvez por isso, não deve ganhar mais uma vez. 

MELHOR ROTEIRO

Alexander Payne, Jim Rash e Nat Faxon (Os Descendentes)

Quem deve vencer: Alexander Payne, Jim Rash e Nat Faxon (Os Descendentes)

Quem deveria vencer: Alexander Payne, Jim Rash e Nat Faxon (Os Descendentes)

Como no Globo de Ouro, a categoria de Roteiro não se divide em Original e Adaptado, a competição fica bem mais acirrada. E pela primeira vez, Alexander Payne está indicado como produtor, ou seja, está com 3 indicações este ano e não deve sair de mãos abanando, já que é muito bem reconhecido pela Associação de Imprensa Estrangeira (venceu por As Confissões de Schmidt e Sideways – Entre Umas e Outras). Sim, e eu sei que Woody Allen está competindo e tem grandes chances, mas por mais fantasioso e lúdico que seja seu Meia-Noite em Paris, ainda considerado um trabalho inferior à sua era de ouro da década de 70.

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

O filme iraniano A Separação

Quem deve ganhar: A Separação, de Asghar Farhadi (Irã)

Quem deveria ganhar: A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar (Espanha)

Se nos basearmos apenas nos prêmios da crítica, o filme iraniano já estaria com a mão na taça, mas como premiação às vezes é imprevisível, tudo pode acontecer. Estou apostando no iraniano pelo histórico do Globo de Ouro, que já premiou o cinema do oriente médio, do palestino Paradise Now ao afegão Osama. Já o cinema do espanhol Almodóvar sempre tem a sua cara, aderindo uma universalidade que conquista facilmente o público internacional.

MELHOR ANIMAÇÃO

Rango, de Gore Verbinski.

Quem deve ganhar: Rango, de Gore Verbinski

Quem deveria ganhar: Rango, de Gore Verbinski

Sou fã do personagem Tintim, mas tenho minhas dúvidas da adaptação feita por Spielberg e Peter Jackson. Visualmente, o motion capture parece muito bem feito, mas como fica preso à referência de Hergé, pode desapontar, e muito. Já Rango é uma história muito bem contada que se passa no deserto, protagonizada por um camaleão com todos os trejeitos de Johnny Depp. O diretor, Gore Verbinski, conhecido pela trilogia de Piratas do Caribe, teve a credibilidade de convencer Depp e criar essa ótima salada de referências do western, que vai dos filmes western spaghetti de Sergio Leone até a aparição do mito Clint Eastwood.

 MELHOR ATOR – COMÉDIA OU MUSICAL

Jean Dujardin (The Artist): sósia do Gene Kelly

Quem deve ganhar: Jean Dujardin (The Artist)

Quem deveria ganhar: Jean Dujardin (The Artist)

Confesso que nunca vi um filme com Jean Dujardin, uma vez que sua carreira sempre ficou limitada a produções francesas. Mas depois desse The Artist, certamente as opções de roteiro devem melhorar consideravelmente. Dujardin foi reconhecido em círculos de críticos americanos e lembra um pouco Gene Kelly em Cantando na Chuva, por isso, não deve ter grandes problemas para levar o ouro pra casa.

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA OU MUSICAL

Seria Michelle Williams (Sete Dias com Marylin) ou Miss Monroe?

Quem deve vencer: Michelle Williams (Sete Dias com Marylin)

Quem deveria vencer: Michelle Williams (Sete Dias com Marylin)

Assim como na ala masculina, a atriz Michelle Williams não tem uma competição tão acirrada na categoria. Ok, temos nomes de peso como Jodie Foster, Kate Winslet e Charlize Theron, mas os filmes pelos quais estas foram indicadas não foram tão bem recebidas pela crítica. Já Williams vem recebendo elogios pela semelhança que conseguiu alcançar com a diva Marylin Monroe. E dizem as más línguas que ela teria usado um acessório para aumentar o bumbum.

MELHOR ATOR – DRAMA

Geroge Clooney (Os Descendentes) em seu melhor papel?

Quem deve ganhar: George Clooney (Os Descendentes)

Quem deveria ganhar: Michael Fassbender (Shame)

Eu gosto do George. Mas por mais que falem que neste papel ele faz seu melhor trabalho, ainda o considero um pouco limitado. Por isso, meu voto vai para Fassbender, que já provou ser ótimo ator através do filme independente Fish Tank, de Andrea Arnold, e Hunger, de Steve McQueen. Também leva a sério produções de Hollywood como X-Men: Primeira Classe. Neste drama sobre vida sexual ativa, Shame, Fassbender conquistou a crítica de vez. Tem um futuro brilhante pela frente. 

MELHOR ATRIZ – DRAMA

Meryl Streep como A Dama de Ferro

Quem deve vencer: Meryl Streep (A Dama de Ferro)

Quem deveria vencer: Viola Davis (Histórias Cruzadas)

O fight da categoria deve ficar entre as duas atrizes acima. Meryl Streep dispensa qualquer apresentação. Esta é “apenas” sua 26ª indicação ao Globo de Ouro, sendo 25 em Cinema e 1 em TV, pela série Angels in America. Deve ganhar seu 8º Globo de Ouro e deixar pra Academia decidir se finalmente Streep leva seu terceiro Oscar, que está demorando quase 30 anos pra sair! Pra quem viu o trailer ou mesmo foto, percebeu que a atriz passou por um processo de maquiagem e pronúncia britânica característica da então primeira-ministra Margaret Thatcher. Mas não devemos esquecer que Viola Davis, que se destacou no filme Dúvida (2008), é uma grande atriz em ascensão. Ela pode roubar a cena por sua performance em Histórias Cruzadas

MELHOR DIRETOR

Michel Hazanavicius: primeira indicação e grandes chances por The Artist

Quem deve vencer: Michel Hazanavicius (The Artist)

Quem deveria vencer: Michel Hazanavicius (The Artist)

Não sei quanto à direção em si de Hazanavicius, mas ele deve ganhar só pela coragem de fazer um filme PB , mudo, sobre o cinema de Hollywood dos anos 20. Scorsese seria um excelente concorrente pela fábula metalinguística de A Invenção de Hugo Cabret, mas como ele ganhou recentemente por Os Infiltrados, o diretor francês deve levar a melhor.

 

MELHOR FILME – COMÉDIA OU MUSICAL

The Artist, de Michel Hazanavicius

Quem deve vencer: The Artist, de Michel Hazanavicius

Quem deveria vencer: Meia-Noite em Paris, de Woody Allen

Se minhas previsões estão certas, The Artist deve sair da festa com 4 Globos de Ouro com este Melhor Filme – Comédia ou Musical. Mas seria muito interessante se o filme de Woody Allen levasse como prêmio de consolação (se é que “Melhor Filme” é consolação). Há muito tempo, o diretor nova-iorquino não acertava tão bem uma comédia inteligente com ótimos atores. Até de Owen Wilson ele conseguiu extrair uma boa atuação! Mas o que mais me chamou a atenção é a forma fantasiosa que Allen demonstra sua paixão pela Arte. Ele tira uma licença poética para criar viagens no tempo para analisar as gerações de autores, pintores, cineastas que já brilharam e deixaram sua marca eternamente. E levanta uma questão importantíssima: “Quando a Arte está em decadência, uma nova Arte está para surgir?”. Espero MUITO que sim. 

MELHOR FILME – DRAMA

Os Descendentes, de Alexander Payne

Quem deve vencer: Os Descendentes, de Alexander Payne

Quem deveria vencer:  Os Descendentes, de Alexander Payne

O filme de Martin Scorsese parece ser muito bom pelo conjunto. Tem um ótimo elenco, com nomes consagrados como Ben Kingsley e Jude Law, ótima direção de arte de Dante Ferretti, fotografia de Robert Richardson e mexe com um tema muito forte do Cinema: os efeitos especiais ainda na época do pioneiro Georges Méliès. Mas o filme de Alexander Payne tem conquistado muitos prêmios e não deve sair sem esse prêmio. Apesar do diretor ter levado 7 anos para dirigir outro filme depois do sucesso de Sideways – Entre Umas e Outras, suas escolhas de projetos são feitas a dedo. Ele busca algum tema que aborde a natureza humana, expondo seus personagens a momentos embaraçosos, deixando-os vulneráveis, e ainda conseguindo a proeza de extrair um humor refinado. Na minha opinião, esse é um dos fortes motivos do sucesso de Payne e seu Os Descendentes.

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