Cavalo de Guerra (War Horse), de Steven Spielberg (2011)

Cavalo de Guerra

Steven Spielberg prova que ainda entende de catarse

Finalmente posso parar de dizer: “Não vejo um bom filme do Spielberg desde Munique (2005)”. Não que Cavalo de Guerra possa se equiparar à época de ouro do diretor (assim como o próprio Munique), mas se pegarmos os últimos trabalhos do diretor, como O Terminal, Guerra dos Mundos, Prenda-me se for Capaz e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, parece que Spielberg está voltando a ficar inspirado.

Mas ainda falta muito para se recuperar. Na minha opinião, ele perdeu muita credibilidade quando alterou seu filme E.T. – O Extraterrestre. Pra quem não se recorda, no aniversário de 20 anos do filme, em 2002, o diretor relançou o filme e digitalmente tirou das mãos dos policiais suas armas e as trocou por walkie talkies por achar que foi um exagero. Isso se chama Síndrome George Lucas. Ficar remexendo no trabalho (leia-se Star Wars) é coisa de retardado e sem criatividade. Se em 1982 ele achou que os policiais deveriam estar armados, então eles devem permanecer armados. Querer apagar o passado, literalmente, só por ser politicamente correto 20 anos depois é patético. É quase como a Xuxa querer comprar todas as fitas do seu filme soft pornô, Amor Estranho Amor (1982), do mercado por ter vergonha dele.

E.T. Remix – Spielberg dando uma de George Lucas

Além disso, como Peter Pan, personagem que ele trabalhou em Hook – A Volta do Capitão Gancho, Spielberg parece não querer crescer às vezes. Depois de O Resgate do Soldado Ryan, parece que só quer fazer filmes que seus filhos podem ver. Ele pode não ter perdido a mão de diretor, mas certamente perdeu muita da coragem que tinha quando fez Tubarão e os filmes do Indiana Jones. O próprio reconhece essa teoria num depoimento de making of e ainda acrescenta que hoje também mudaria o final de Contatos Imediatos do Terceiro Grau. (Quem não viu o filme, pule essa próxima sentença) Ele não deixaria o protagonista entrar na nave! Uma das melhores coisas no filme e ele também quer mudar…

Mas apesar de todas as minhas críticas, Spielberg tem crédito na casa. E muito. Não se fazem mais cineastas como ele, e não é à toa que seu nome virou sinônimo de qualidade. Ele tem o chamado “toque de Midas”: tudo que toca se transforma em ouro. E nesse Cavalo de Guerra, seu grande mérito vem de sua decisão de prestar uma bela homenagem a outro grande diretor americano por excelência: John Ford. Especialmente nas cenas que se passam na fazenda, há elementos clássicos “fordianos” como aquele belo plano do pôr-do-sol, aquelas nuvens feito pinturas impressionistas, a porteira aberta e personagens no contra-luz. Obviamente o crédito técnico pertence ao diretor de fotografia, Janusz Kaminski, mas a intenção de engrandecer uma sequência e tornar o filme em épico é de Spielberg, que com isso me fez queimar a língua ao dizer que a idéia de um filme sobre cavalo na guerra era estúpida. Curiosamente, ele já prestou uma homenagem mais explícita a Ford em E.T. – O Extraterrestre ao incluir a cena que John Wayne puxa Maureen O’Hara no filme Depois do Vendaval.

Homenagem a John Ford

Se por um lado ele acerta com John Ford, por outro, erra num detalhe importante. Na guerra de Spielberg, todos os personagens falam um bom Inglês. Não sou contra personagens de outras nacionalidades falarem outro idioma. O espectador pode muito bem aceitar e quebrar essa barreira da língua. Entretanto, nessa hipótese, gostaria que o filme assumisse essa licença poética por completo e evitasse essa terrível mania de transfigurar os diálogos em Inglês com sotaque carregado. A intenção de facilitar para o público que fala Inglês acaba indo por água abaixo ao desviar a atenção para esse sotaque. Faltou bom senso.

A narrativa é pontuada pela troca de dono do cavalo Joey. A cada troca, novos personagens surgem e um novo ambiente é desmistificado, atingindo o objetivo maior do roteiro de fazer com que o espectador visse todos os ângulos de uma guerra e concluísse que não há necessidade de ela existir. O cavalo passa entre os britânicos, os alemães e os inocentes (franceses e os que querem fugir da guerra), resgatando valores básicos e essenciais da vida. O filme levanta a bandeira branca do início ao fim.

Joey encanta a todos que conhece

Aliás, a cena mais comentada do filme é quando o cavalo consegue uma pausa na guerra. Como o cavalo sofre muito fisicamente nessa sequência (fica todo enroscado em arame farpado), e para manter o bom e velho “Nenhum animal foi maltratado durante as filmagens”, a produção providenciou um cavalo animatronic, uma técnica antiga que utiliza robôs para reproduzir criaturas vivas como a rainha em Aliens, o Resgate (1986). O resultado impressiona pela combinação de iluminação, a lama e os efeitos sonoros.

Cavalo-robô: Quase um transformer

Outro fato curioso nessa produção foi a entrada de Spielberg na era digital. Após décadas montando seus filmes na moviola (mesa-trambolho usada para cortar as películas), finalmente parte para o software de edição. Apesar do salto tecnológico, talvez tenha trazido má sorte, pois o veterano montador Michael Khan não conseguiu uma indicação ao Oscar, mas o filme conquistou 6 indicações, incluindo Melhor Filme. E se está longe dos anos dourados de um Spielberg corajoso, Cavalo de Guerra é um belo filme que consegue demonstrar a maturidade de um diretor que entende da boa e velha catarse. O público comprova ao levar os lenços aos olhos lacrimejantes no final da sessão.

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