Vencedores do Oscar 2012

Turma de O Artista: virada no Oscar

Ok, confesso. Não fui tão bem nas minhas previsões do Oscar este ano. Mas pelo menos ganhei o bolão da minha turma! Das 20 categorias que postei aqui, acertei apenas 9. Como iria adivinhar que o filme A Invenção de Hugo Cabret iria morrer na praia? Começou ganhando tudo e depois foi entregar tudo de mão beijada para O Artista! Pena que não postei minhas apostas para os curtas. Acertei todos os 3: curta, curta-documentário e curta de animação!

Billy Crystal: Talvez esteja na hora de se aposentar do Oscar?

Bom, antes de começar a comentar os resultados, não curti tanto o Billy Crystal. Ele está meio enferrujado nas músicas e na língua, que era mais afiada antes. Não acreditei que ele fosse cantar “It’s aaaaa wonderful night for Oscar! Oscar! Oscar! Who will win?” com 9 (nove!) filmes indicados a Melhor Filme, mas no fim nem fez tanta diferença porque foi tudo muito rápido. Não é de hoje que defendo a volta de Jon Stewart (do Daily Show), que apresentou muito bem em 2006 e 2008. Também gostaria de ver a Ellen DeGeneres pelo menos mais uma vez. Mas dá pra dar um desconto para o Billy Crystal porque ele foi chamado às pressas para substituir Eddie Murphy, que teve que pular fora do barco por causa do cabeça-oca do Brett Ratner, ex-produtor do Oscar que andou falando mais do que devia em programas de entrevistas.

Mas minha maior crítica talvez seja a produção do Oscar em si. Achei que o produtor Brian Grazer estava tão preocupado em respeitar o horário do show que esqueceu dos demais atrativos. Sabe aquela expressão “by the book”? A cerimônia em si ficou quadrada e fraquinha. Nem sequer teve bons clipes (aquele da opinião de O Mágico de Oz tinha boa intenção, mas parou por aí), os diálogos dos apresentadores estavam batidos e aquele número do Cirque du Soleil estava parecendo um repeteco genérico de 2002. Poxa, custava fazer algo mais inovador? Ah sim, tinha as moças jeitosas (cigarette girls) servindo saquinhos de pipocas nos corredores! Aliás, vou repassar essa ótima idéia para a Rede Cinemark (que é “muito mais que cinema”).

Ok, vamos aos resultados. O balanço final ficou assim:

O Artista e A Invenção de Hugo Cabret empataram com 5 Oscars, sendo que o primeiro ficou com os principais prêmios da noite.

Direção de Arte esplendorosa de Hugo: recriação e criação

A Dama de Ferro com 2 Oscars.

Os Descendentes, Histórias Cruzadas, Meia-Noite em Paris, Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres, Toda Forma de Amor, Rango, A Separação e Os Muppets todos levaram uma estatueta para casa, confirmando assim uma espécie de distribuição democrática de prêmios.

Talvez os maiores perdedores da noite foram o filme de beisebol, O Homem que Mudou o Jogo, e o drama bélico, Cavalo de Guerra, que saíram de mãos vazias da cerimônia. As duas produções são boas e não mereciam ficar de fora do Oscar democrático. Enquanto o filme de Brad Pitt tinha um roteiro forte com diálogos rápidos e bons atores, o filme de Spielberg tem um classicismo à la John Ford que ressalta a boa e velha catarse com uma bela fotografia e enquadramento do pôr-do-sol. Porém, em ambos os casos, acabaram não ganhando porque tiveram fortes concorrentes em suas categorias.

A fotografia intimista de A Árvore da Vida

Apesar de ter gostado de A Invenção de Hugo Cabret, não concordo em tanto reconhecimento técnico. Por exemplo, gosto da fotografia, mas não dava para esnobar o trabalho de Emmanuel Lubezki em A Árvore da Vida. Não somente pelo aspecto National Geographic das cenas da Natureza, mas pela forma intimista que Lubezki trata a família, como uma espécie de entidade divina, que faz com que o filme de Malick seja interpretado desta maneira. Além disso, os efeitos visuais de Planeta dos Macacos: A Origem mereciam o prêmio pelo ótimo realismo dos personagens símios (e seria uma excelente forma de compensar toda a série e o trabalho excepcional de maquiagem). E para finalizar, o Oscar de som poderia ter ido para Cavalo de Guerra, que trabalha minuciosamente os sons dos armamentos da Primeira Guerra Mundial.

Já a direção de arte de A Invenção de Hugo Cabret é um trabalho primoroso de Dante Ferretti e Francesca LoSchiavo, pois consegue recriar os sets de filmagens de Georges Méliès de forma majestosa e cria toda uma estação de trem da Paris dos anos 30. Esse Oscar ninguém tirava…

Meryl Streep e o Oscar: feitos um para o outro.

Se a cerimônia em si foi meio previsível, pelo menos duas surpresas me agradaram bastante. Quer dizer, não dá pra classificar exatamente como “surpresa”, mas acho que a vitória de Woody Allen e Meryl Streep me agradaram bastante. Até pouco antes de começar o Oscar, achava que a Viola Davis roubaria a 3ª estatueta de Meryl Streep, mas felizmente eu estava errado. Até a Meryl Streep estava mais confiante desta vez, usando um vestido todo dourado! Mas parabéns a ela, pois trata-se de uma das maiores e melhores atrizes em atividade no mundo. Espero que ela consiga ganhar um quarto ou quinto Oscar, pois a longevidade de sua carreira muito se assemelha à recordista do Oscar de atriz: a grande Katharine Hepburn, vencedora 4 vezes como melhor atriz.

E Woody Allen sempre é uma boa surpresa. Mesmo que seja um outsider e não goste de marcar presença em premiações (apesar que ele estava presente no último Festival de Cannes), o cineasta é muito querido pelo seu público e com este filme, Meia-Noite em Paris, ele consegue atingir uma gama ainda maior de espectadores com a sua inatingível paixão por Paris e por seus escritores. Gostaria muito de ter visto Woody recebendo o prêmio, sendo aplaudido de pé por todos e dando um discurso belíssimo e bem-humorado. Mas seu filme já faz isso por ele e nós, cinéfilos, só temos que agradecer à Academia por premiá-lo depois de tanto tempo.

Asghar Farhadi recebendo o 1º Oscar do Irã das mãos da poliglota Sandra Bullock

Jean Dujardin, Octavia Spencer e Christopher Plummer confirmaram seus favoritismos, assim como o diretor Michel Hazanavicius. Rango e o iraniano A Separação também ganharam em suas categorias e merecidamente. Aliás, foi a primeira produção iraniana a ganhar um Oscar! Quem diria? O cinema iraniano pode não ter grandes recursos, estrelas e nem trabalho de direção de arte (pois segue a escola neo-realista italiana), mas tem bons atores e um intenso roteiro. Pode soar banal dizer isso, mas são justamente os problemas do cinema brasileiro. Ok, temos um ótimo Tropa de Elite 2, Cidade de Deus, Central do Brasil e outros filmes bons, mas ainda há muito a progredir. Como muitos filmes ainda dependem demais da captação de recursos de leis de incentivo e de empresas, o cinema fica restrito à opinião de terceiros para que saia do papel. Então, materiais mais alternativos como filmes de terror, suspense, fantasia, épicos são poucos ou quase inexistentes no cenário nacional. Espero e torço para que filmes mais ousados consigam recursos e que criem escolas de atuação PARA CINEMA, pois o que me incomoda são atores “globais” atuando no cinema como se estivessem fazendo novela, com caras e bocas! Isso precisa parar. São dois meios de comunicação completamente diferentes.

Jim Henson e seus filhos

E fazendo um adendo, infelizmente, a canção de Rio não ganhou. Perdemos para os Muppets! A canção deles não era tão boa, mas entendo que a Academia queria premiar o legendário e falecido criador dos Muppets, Jim Henson, que foi o pioneiro em produções envolvendo bonecos como Labirinto – A Magia do Tempo.

Bom, mas voltando aos vencedores, gostei que a Academia premiou 2 ótimos filmes que tratam justamente do Cinema em seus primórdios. Enquanto A Invenção de Hugo Cabret presta uma bela homenagem ao pioneiro dos efeitos visuais, Georges Méliès, através de um filme em 3D, o filme francês O Artista discute os efeitos da chegada do som no cinema mudo, sempre valorizando um cinema de qualidade independente dos recursos técnicos, deixando nítido uma crítica em relação ao cinema atual, repleto de pirotecnias, efeitos de computador e estrelas, mas vazios de conteúdo. A Academia pode ser considerada muito conservadora, mas nesse aspecto de apoiar filmes que têm essa perspectiva sai ganhando pontos valiosos de nós, cinéfilos e espectadores de Cinema.

E fechando, os vestidos do tapete vermelho do Oscar:

Jessica Chastain: acertou em tudo...

Jessica Chastain não acertou só no vestido. Acertou nos cabelos um pouco presos (valorizando seu belo cabelo ruivo) e seus brincos. A cor preta do vestido valoriza sua pele bastante alva e os bordados em dourado dão o tom de festa. Não sou especialista em moda, mas da minha opinião masculina, a atriz foi a mais bela do tapete vermelho. Um essshpetáculo!!!

... e errou tudo: Viola Davis

E por outro lado, quem errou completamente em tudo foi a atriz Viola Davis. Não entendi até agora seu traje. Seu vestido a deixou com um ar meio vulgar por deixar seus seios muito… (caham!) cheios e à mostra. E seu cabelo curtinho e tingido de uma cor que não combina com nada ficou muito bizarro… Ok, eu cheguei a cogitar uma defesa para Viola. Quem sabe ela não está filmando uma produção em que a personagem dela tem esse cabelo? Sim, é possível, mas mesmo assim, acho que cabia uma peruquinha ou aplique, não? Sinto muito, Viola Davis. Você é uma excelente atriz, mas está precisando de uma consultora de moda urgente!

Lista dos vencedores do Oscar 2012:

Christopher Plummer é como vinho: Melhora com o tempo

Melhor Filme: O Artista (The Artist)

Melhor Atriz: Meryl Streep (A Dama de Ferro)

Melhor Ator: Jean Dujardin (O Artista)

Melhor Atriz Coadjuvante: Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)

Ator Coadjuvante: Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)

Melhor Diretor: Michel Hazanavicius (O Artista)

Melhor Edição: Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres

Melhor Documentário: Undefeated, de Daniel Lindsay, T.J. Martin e Rich Middlemas

Melhor Animação: Rango, de Gore Verbinski

Melhor Trilha Musical: O Artista, Ludovic Bource

Melhor Canção Original: Man or Muppet, Os Muppets (Bret McKenzie)

Melhor Roteiro Original: Woody Allen (Meia-Noite em Paris)

Melhor Roteiro Adaptado: Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash (Os Descendentes)

Melhor Som: A Invenção de Hugo Cabret

Melhor Efeitos Sonoros: A Invenção de Hugo Cabret

Melhores Efeitos Visuais: A Invenção de Hugo Cabret

Melhor Documentário-Curta: Saving Face

Melhor Curta-Metragem: The Shore, de Terry George e Oorlagh George

Melhor Curta-Metragem de Animação: The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore, de William Joyce, Brandon Oldenburg

Melhor Filme Estrangeiro: A Separação, de Asghar Farhadi (Irã)

Melhor Maquiagem: A Dama de Ferro

Melhor Figurino: O Artista, Mark Bridges

Melhor Direção de Arte: A Invenção de Hugo Cabret, Dante Ferretti e Francesco LoSchiavo

Melhor Fotografia: A Invenção de Hugo Cabret, Robert Richardson

Alexander Payne saiu com o Oscar de Roteiro Adaptado: mericidíssimo!

Quem vai ganhar o Oscar 2012?

Oscar 2012: Pronto para mais um Oscar?

Não, não tenho bola de cristal. Não sou membro da Academia. E sequer assisti a todos os filmes que estão concorrendo. Aliás, tarefa literalmente impossível para quem vive aqui no Brasil, pois algumas produções são absolutamente inalcançáveis. Alguém aí viu o documentário Undefeated? Não? Pois é, está concorrendo. E W.E. – O Romance do Século, filme dirigido pela Madonna? Não? Que azar o seu! Está concorrendo a melhor figurino! E o filme polonês In Darkness? Foi bom esse film… o quê?! Não viu? Não acredito! Vai ficar por fora da categoria de filme estrangeiro!

É, você e todo o Brasil vai ficar por fora, porque as distribuidoras, mesmo diante de uma indicação ao Oscar, parecem não se importar se você quer ver um filme com apenas uma indicação. Não tem pelo menos 5 indicações e não tem astros de Hollywood? Tá, depois eu te ligo…

Sou meio linha dura com esse negócio, mas por outro lado entendo os motivos comerciais das empresas que compram os direitos de exibir um filme aqui no Brasil. Mas peço (não tão gentilmente) para que tentem mudar esse panorama porque quanto menos oferta e diversidade houver, mais o público ficará estagnado na mesmice do cinema de blockbuster hollywoodiano. Eu mesmo conheço pessoas que já confessaram: “Estou cansado de ver essas tranqueiras do cinema. Onde posso ver filmes mais alternativos?” – Normalmente eu respondo um “Vá pra Europa ou Ásia!”. OK, eu sei, está fora de cogitação. Mas para finalizar meu conselho, costumo indicar mostras dedicadas a produções alternativas e independentes que cinemas de rua podem proporcionar (antes que acabem virando igrejas ou lojas de departamento).

Enfim, voltando à corrida do Oscar, a cada ano, os resultados parecem mais previsíveis, mas não são. A Academia adora lançar pelo menos algum favorito na fogueira, seja da categoria de atuação, filme estrangeiro ou até efeitos visuais. Vou citar exemplos recentes das 3 categorias que citei, respectivamente: Adrien Brody (nem ele acreditou que ganhou sobre 4 grandes favoritos), O Segredo dos seus Olhos (argentino que levou filme estrangeiro sobre o favorito alemão A Fita Branca) e os efeitos visuais de A Bússola de Ouro (reinando sobre o grande favorito Transformers). Então, refletindo a respeito disso, não me culpem quando houver uma bombástica surpresa. Não me responsabilizo pela saúde dos cardíacos mundo afora.

A fim de seguir um padrão, vou dar meu voto (lembrando que minhas escolhas independem da minha opinião pessoal, mas quem deve acabar levando de fato a estatueta) e por que votei nesse ou naquele filme. Não vou incluir as categorias de curtas e nem documentário. Se você está participando de um bolão, vá no bom e velho chutômetro!

MELHOR ANIMAÇÃO: Rango, de Gore Verbinski

Ok, se As Aventuras de Tintim estivesse concorrendo, poderíamos estar diante de uma briga feia, mas como não é o caso… I rest my case!

MELHOR FILME ESTRANGEIRO: A Separação, de Asghar Farhadi (Irã)

É uma das mais imprevisíveis categorias, pois como disse num post anterior, tem muito velhinho judeu desocupado votando. Mas eu vi o filme iraniano e ele é bom e tem uma linguagem bastante universal que deve agradar a gregos e troianos.

MELHOR SOM: A Invenção de Hugo Cabret

Diz a lenda que o filme mais barulhento ganha e talvez este filme fique entre Transformers 3 e Cavalo de Guerra, mas pensei comigo mesmo: Quem vai premiar um terceiro filme chato de robô? E não acredito que um filme do Spielberg vá sair do Oscar apenas com um Oscar de Melhor Som! Tá, tem boas chances na Fotografia, mas não creio muito…

MELHORES EFEITOS SONOROS: A Invenção de Hugo Cabret

Normalmente, esse prêmio vai para aquele filme que tem cenas mais fantasiosas e surreais em que o efeito sonoro (aquele criado em estúdio) tem mais importância. O pensamento da categoria de Som vale aqui também, pois Transformers 3 e Cavalo de Guerra são fortes candidatos, mas só aquela sequência do trem na estação de A Invenção de Hugo Cabret já vale meu voto.

MELHORES EFEITOS VISUAIS: Planeta dos Macacos: A Origem

Eu sei que a artilharia tá pesada, ainda mais que um tal de Harry Potter está na área, mas os efeitos do novo mago dos efeitos digitais Joe Letteri são praticamente uma unanimidade hoje. Veja seus trabalhos anteriores que, aliás, ganharam Oscars. Sente o calibre: O Senhor dos Anéis: As Duas Torres, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei e King Kong. Só não citei o primeiro filme do Senhor dos Anéis porque não foi ele que fez, mas também ganhou Oscar…

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Real in Rio” (Rio)

Muita gente pode pensar que eu estaria pensando com o coração neste voto, mas eu vi a animação Rio e acredito que a música é realmente a alma do filme. Tá, eu não vi o filme dos Muppets, mas a canção indicada em si é meio deprê…

MELHOR TRILHA MUSICAL: Ludovic Bource (O Artista)

Não que eu ache que Ludovic Bource seja melhor que John Williams ou mesmo Alberto Iglesias, mas a trilha musical de O Artista acaba chamando mais a atenção por se tratar de um filme mudo. É praticamente como ver um quadro repleto de homens em preto-e-branco com uma mulher de vermelho no centro.

MELHOR MAQUIAGEM: Harry Potter e as Relíquias da Morte

Lembra quando o último filme do Star Wars foi indicado e todo mundo achou que levaria porque a nova trilogia do titio George Lucas não ganhou nadica de nada? Pois é, na ocasião, o filme perdeu para o primeiro filme da série As Crônicas da Nárnia. Este ano, os 3 indicados têm um trabalho de maquiagem razoável. Não tem nenhum trabalho marcante e excepcional de um Rick Baker, então nesse caso, acredito que a maquiagem do sem nariz Valdemort possa contar alguns pontinhos. Ah sim, e aquela sujeirinha na cara dos atores principais pra dar aquele ar de heróis contemporâneos…

MELHOR FIGURINO: Arianne Phillips (W.E. O Romance do Século)

Talvez seja a minha escolha mais suicida, mas se você olhar bem pra categoria, verá que os figurinos são fracos. Pensei em votar na queridinha da Academia, Sandy Powell, mas os figurinos de A Invenção de Hugo Cabret não mudam quase nada e não têm tamanha importância quanto um filme de época.

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Dante Ferretti e Francesca LoSchiavo (A Invenção de Hugo Cabret)

Esse foi meu primeiro voto de 100% de certeza. O trabalho de cenografia de mestre Ferretti é estupendo e se mostra a alma do filme. A estação de trem em Paris dos anos 30 e os próprios cenários recriados de Georges Méliès são um deleite para o público.

MELHOR FOTOGRAFIA: Emmanuel Lubezki (A Árvore da Vida)

Quando resolveram indicar A Árvore da Vida para Melhor Filme e Diretor, pensei: Alguém aí vai ganhar. Ok, talvez seja Terrence Malick, mas é quase impossível ignorar o trabalho de iluminação e fotografia de Lubezki. O que seria da história, atores e diretor se não fossem as belas imagens paradisíacas criadas por Emmanuel Lubezki? Tudo bem que eu já vi trabalhos tão bons quanto esse serem roubados como o de Eduardo Serra em Moça com Brinco de Pérola, mas acredito que a Academia não cometerá este mesmo erro… não neste ano!

MELHOR MONTAGEM: Kevin Tent (Os Descendentes)

Nesta categoria, a regra parece dizer que o filme com mais cortes típicos de filmes de ação deve ganhar, vide filmes vencedores como Rocky – Um Lutador, Bullitt e mais recentemente O Ultimato Bourne. O filme mais bem montado nesse sentido seria Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres, mas os mesmos montadores ganharam ano passado pelo ótimo A Rede Social. Ou poderia ir para A Invenção de Hugo Cabret, mas a montadora Thelma Schoonmaker levaria seu 4º Oscar. Então, meu voto vai para a eficiente montagem de Kevin Tent, grande colaborador dos filmes de Alexander Payne, que privilegia o timing cômico de cada cena do filme Os Descendentes.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Michel Hazanavicius (O Artista)

Apesar da história ser bastante simples, O Artista soube trabalhar algumas minúcias dos efeitos da chegada do som nos astros do cinema mudo como aquele sonho sonoro de Valentine e aquele diálogo entre ele e Peppy Miller em que ela está dando entrevistas no restaurante. Infelizmente não vi o Margin Call, mas meu favorito seria o Woody Allen por Meia-Noite em Paris pelo misto de fantasia e filosofia que há muito não vi num filme. Mas como Woody é um outsider de premiações, não acredito que deva levar… Nessa eu até preferia estar errado. Seria a melhor surpresa da noite!

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash (Os Descendentes)

Alguns meses atrás, muito se falou que Os Descendentes venceria melhor filme. Mas, como se pode ver, recebeu “apenas” 5 indicações e tem chances remotas de ganhar nessa categoria. Por isso, deve ser compensado em outras. Talvez eu até esteja exagerando um pouco dando montagem, ator e roteiro adaptado, mas são as melhores coisas do filme de Alexander Payne. Eu também indicaria o belo trabalho de Shailene Woodley, pois a química dela com Clooney move o filme pra frente.

MELHOR ATOR COADJUVANTE: Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)

Com a exclusão de Albert Brooks por Drive, o caminho fica praticamente livre para Plummer levar seu primeiro Oscar. O veterano só deve ficar preocupado com outro veterano, que já trabalhou com Ingmar Bergman incontáveis vezes, já foi exorcista e parece que é velho há 50 anos. Sim, o sueco Max von Sydow concorre pelo papel do Inquilino de Tão Forte e Tão Perto. Ele rouba a cena o filme de Stephen Daldry e pode roubar o Oscar de Plummer. Cuidado…

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)
Se o filme tivesse que sair com um Oscar na noite, este seria o de atriz coadjuvante, pois já abocanhou quase todos os prêmios da categoria na temporada 2012. É claro que a bela Bérènice Bejo seria uma baita (e merecida) surpresa se ganhasse. Ainda mais se seu companheiro de tela, Jean Dujardin, não ganhasse, a Academia tentaria recompensar as performances com um prêmio de “consolação”.

MELHOR ATOR: George Clooney (Os Descendentes)

Talvez esta seja a categoria mais disputada, pois todos têm chances reais de ganhar. Sim, até mesmo o mexicano Demián Bichir, pois no quesito “para que vamos dar um Oscar para um ator já consagrado?”, ele seria o mais bem recompensado e sua carreira deslancharia de vez em Hollywood. Mas será que é isso que eles querem este ano? Premiar outro “underdog” como Adrien Brody? Acredito na figura de George Clooney como ator carismático que aceitou um papel que poderia torná-lo ridículo e, também, pela pessoa solidária que demonstra fora das telas, participando de inúmeras campanhas de caridade. E não, não porque vende mais máquinas da Nespresso…

MELHOR ATRIZ: Viola Davis (Histórias Cruzadas)

Como os americanos dizem: “It’s a tough call” – É uma decisão difícil. Finalmente dar o 3º Oscar a Meryl Streep seria algo tão difícil assim? Sim. Se olharmos para seu retrospecto de indicações ao Oscar, Meryl deu azar mesmo na maioria, pois suas concorrentes acabaram oferecendo performances mais concretas e mais laureadas por isso. Aí, quando foram ver a situação, já era meio tarde para premiá-la de qualquer maneira. Para entregar um 3º Oscar para Meryl, teria que ser um papel de enorme importância em que ela não só demonstre seu talento na dicção e pronúncia, mas na arte de virar um camaleão dentro da personagem. Seria ela Margareth Thatcher? Importância e sotaque britânico: checked! MAS a ex-Primeira Ministra nunca foi uma unanimidade e, por mais que o filme tenta buscar humanidade em sua figura fria, talvez o Oscar vá para Viola Davis… Seu papel em Histórias Cruzadas tem consistência e a cada expressão da atriz temos a impressão de que estamos vendo uma mulher verdadeira.

MELHOR DIRETOR: Martin Scorsese (A Invenção de Hugo Cabret)

Se já premiaram mais de uma vez diretores como John Ford, William Wyler, Billy Wilder, George Stevens e Steven Spielberg por que não Scorsese?  Ele fez obras-primas ao longo de sua carreira e tem um importante papel na restauração de filmes antigos que merece ser mais uma vez reconhecida. É claro que o Oscar pode ir para Michel Hazanavicius, pois ele ganhou o prêmio do sindicato dos diretores, mas ele ainda é jovem e certamente, se fizer as escolhas certas, terá um caminho bastante promissor.

MELHOR FILME: A Invenção de Hugo Cabret

Ok, muitos falaram que O Artista era barbada. Mas tenho que tentar ser coerente aqui. Se O Artista ganha, terminaria com 3 Oscars. E Se o filme de Scorsese ganhar, termina com 4. Além disso, A Invenção de Hugo Cabret é um filme bem mais completo do que o francês em praticamente todos os departamentos. Muito bem produzido e com uma alma que tem a cara de Scorsese e sua paixão pelo Cinema. Merece ser laureado!

Gente, bom Oscar 2012 para todos! Aconselho assistirem à cerimônia, obviamente, pelo TNT, porque, como todos sabem, a Globo prefere passar essa tranqueira de Big Brother. Aliás, só comprou os direitos do Oscar para que o SBT ou qualquer outra emissora não passe. Ditadura na TV é uma m****.

Enquanto isso, assistam a esse engraçado vídeo intitulado: Kids Predict the 2012 Oscars, que prova que não sabemos de nada mesmo…

Um pouco de pimenta no tempero do Oscar 2012

O Ditador feliz com seus dois ingressos para o Oscar

Se a festa do Oscar não conta com um anfitrião bêbado e de língua solta como Ricky Gervais, talvez o ator e comediante Sacha Baron Cohen (dos filmes Borat e Bruno) possa dar um jeito nisso.

Há poucos dias da cerimônia, os produtores do evento barraram Cohen na festa, pois ele declarou que sua intenção era comparecer ao tapete vermelho trajado como seu personagem O Ditador a fim de promover seu filme com a mídia “gratuita” do Oscar. Tudo acabou sendo um mal entendido. Brian Grazer, produtor deste ano do Oscar e até então, vilão da história, foi bastante sucinto e formal, rebatendo as manchetes da seguinte maneira: “We absolutely respect him as an artist and he’s allowed to come. He’s part of the show… as himself.” (Nós o respeitamos de forma absoluta como um artista e ele está permitido a vir. Ele é parte do show…. como ele mesmo).

Independente do desfecho dessa história (se a Academia vai barrá-lo como apresentador no palco ou não), Sacha Baron Cohen já conseguiu o que queria. Publicidade! Bem naquela do “falem mal, mas falem de mim”. Grazer até tem seus motivos concretos para tentar evitar uma catástrofe, pois na festa do MTV Movie Awards de 2009, a fim de promover seu filme Bruno, o comediante armou uma surpresa: vestiu-se de anjo e foi parar no colo do rapper Eminem, formando um 69 um tanto inusitado.

Sacha Baron Cohen: um anjo caindo do céu...

...direto para o colo do Capeta Eminem

É claro que nenhum produtor vai concordar com o que vou dizer, mas esse tipo de improviso faz com que os milhares de telespectadores esqueçam a caretice e previsibilidade da premiação. E não sou eu apenas que digo. Você pode ver que em muitas edições da Oscar, eles apresentam clipes com os “melhores momentos” e sempre rola esses momentos inusitados como o famoso streaker que subiu ao palco.

Streaker cortando o barato de David Niven: ou seria o inverso?

Para a infelicidade do sujeito nu, o apresentador era David Niven e ele está sempre preparado: “Well, ladies and gentlemen, that was almost bound to happen… But isn’t it fascinating to think that probably the only laugh that man will ever get in his life is by stripping off and showing his shortcomings?” (Bem, senhoras e senhores, aquilo estava quase certo de que aconteceria… Mas não é fascinante pensar que provavelmente a única risada que aquele homem vai conseguir na vida é se despindo e mostrando seus defeitos?). Isso é Oscar também!

Com 3 indicações ao Oscar, vale a pena adiantar a estréia, certo?

Bom, também gostaria de aproveitar o post para fazer alguns esclarecimentos. Num dos posts anteriores, publiquei as previsões de datas de estréia dos filmes que concorrem ao Oscar, mas as distribuidoras me passaram a perna e me desmentiram! Malditos caça-níqueis! Então, algumas das minhas mentiras desmascaradas foram:

Albert Nobbs e Tão Forte e Tão Perto tiveram suas estréias antecipadas para o dia 24 de fevereiro para que nós, cinéfilos e consumidores, pudéssemos ter a honra de conferir os 9 filmes indicados a Melhor Filmes antes do Oscar. (Joinha pra vocês!).

E Drive que tinha tudo pra estrear foi adiado porque recebeu uma mísera indicação a Melhores Efeitos Sonoros. (Sim, what the fuck!? Mas lero-lero pra vocês, porque eu assisti ANTES. HA!)

Bom, é isso. Vou ver se corro para ver os filmes que faltam antes do Oscar porque as distribuidoras mandam nesse país. Beijos.

(Se der tempo, mando as minhas previsões ao Oscar)

Drive (Drive), de Nicolas Winding Refn (2011)

Drive, de Nicolas Winding Refn

Filme trabalha minúcias e nuances para cobrir diálogos escassos

Não, não usufruí de meios ilegais para conferir Drive antes de sua estréia no Brasil. Consegui uma cópia em blu-ray, liguei as caixas de som e  mandei ver. Confesso que tive uma expectativa alta um tempo atrás porque muitos críticos e cinéfilos elegeram o longa como o melhor filme de 2011 (e recentemente foi esnobado pela Academia, indicado apenas para Melhores Efeitos Sonoros).

Carga Explosiva: personagem semelhante?

A primeira vez que o filme chamou atenção foi no último Festival de Cannes, no qual fora indicado para a Palma de Ouro e levou o prêmio de Melhor Diretor. Foi a partir dali que percebi que não se tratava de um mero filme de ação. Aliás, muitos que assistirem a Drive, especialmente aqueles viciados nos 46 filmes da série Velozes e Furiosos, poderão até acusar o filme de plágio, pois pela sinopse, há alguns elementos semelhantes com Carga Explosiva (The Transporter, 2002). “Um motorista trabalha entregando pacotes sem fazer perguntas. Complicações surgem quando ele quebra sua regra” poderia ser a mesma sinopse para ambas as produções. Porém, já aviso desde já para que não haja espectadores decepcionados que costumam sair indignados da sala e pôr a culpa no filme que são duas produções completamente diferentes. Já presenciei esses espectadores indignados quando fui ver o belo filme sueco Let the Right One In e o público xingou até a avó da pessoa que inventou o marketing do cartaz: “Se você gostou de Crepúsculo, vai adorar este filme”.

Felizmente, as semelhanças entre Carga Explosiva e Drive terminam na sinopse. Ryan Gosling entrega um motorista hábil (e não que faz milagres como o personagem de Jason Statham) e que de dia ganha a vida sendo dublê de filmes e mecânico, e de noite, recolhe assaltantes da cena do crime. Homem de pouquíssimas palavras, o Driver possui algumas regras rígidas para sua própria segurança, e como na vida pessoal, mantém-se fechado em sua rotina. Até que ele sai do casulo quando seu instinto protetor acolhe sua vizinha Irene (vivida pela ótima Carey Mulligan) e seu filho pequeno Benicio, cujo pai está na cadeia.

É muito interessante ver a forma como dois personagens tão quietos e contidos demonstram interesse mútuo, assim como a interpretação dos atores. Eles trabalham essa importante química através de olhares tão intensos quanto despretensiosos que parecem durar vários minutos, dispensando contato físico. E esse sentimento tão forte, porém tão contido, faz com a paixão se eleve à sua essência e conquiste o público e sua torcida.

Ryan Gosling e Carey Mulligan: atuações contidas que não desgastam

Essa “tática” se mostra indispensável, uma vez que o marido de Irene retorna da prisão e interrompe os pombinhos. Como o Driver se apegou demais à sua nova família, ele oferece ajuda ao marido enrrascado com uma dívida através de seu serviço atrás do volante. E é aí que as coisas se complicam para todos.

Bullitt, de Peter Yates: Ótima referência.

Devido à trama simples, poderia terminar um filme arroz-com-feijão, mas a abordagem de Nicolas Winding Refn faz toda a diferença. Ele absorve referências clássicas dos filmes estrelados por Steve McQueen (especialmente Bullitt), o Homem Sem Nome e calado de Clint Eastwood dos western spaghettis, e a violência dos filmes de Quentin Tarantino e até do filme coreano Oldboy pela sequência do martelo.

Contudo, mesmo desfrutando da fonte de outros cineastas, Drive é um filme de Nicolas Winding Refn. Ele cria tensão de forma dramática, utilizando-se de todas as suas ferramentas como a atuação de seu elenco; pela fotografia que explora a luz do sol e o brilho da metrópole; pela montagem que varia de cortes rápidos numa cena de perseguição à câmera lenta pontuada pela trilha de batida de Cliff Martinez. E, ciente do silêncio e escassez de diálogo de seus personagens centrais, o diretor escolhe à dedo algumas canções que, pela letra, expressam os pensamentos como “A Real Hero” da banda alternativa brasileira College e “Under Your Spell”, de Desire. Além disso, a forte presença das músicas dão um tom meio melancólico à la anos 80, quando as canções permeavam a história.

Nicolas Winding Refn: dinamarquês pousa em Hollywood com futuro brilhante

Aliás, o personagem de Albert Brooks, o agiota ex-produtor de cinema, Bernie Rose, tem um diálogo meio saudosista ao relembrar suas produções cinematográficas: “Eu produzia filmes. Nos anos 80. Tipo filmes de ação. Coisa sexy. Um crítico os chamava de Europeus. Eu achava que eram uma merda”. Pode soar estranho, mas interpretei essa deixa como uma espécie de crítica ao cinema atual de pirotecnias vazias.

Realmente Drive se mostra um filme atípico, pois insere conteúdo numa trama de ação, com inteligência e precisão, evitando excessos desnecessários (as chamadas “firulas”). As minúcias do diretor dinamarquês ainda têm lugar num detalhe de uma perseguição, pois a capotagem de um carro é mostrada numa tomada dentro do veículo com a atriz dentro. 

Apesar de tantas qualidades e prêmios de várias associações de crítica como o LAFCA, NYFCC e National Board of Review, Drive foi esnobado pelo Oscar. Muitos esperavam pela menos uma indicação para Albert Brooks como coadjuvante, montagem e até diretor, ator e filme. Mas os conservadores da Academia falaram mais alto e a violência extrema do filme acabou sendo uma barreira. Acontece. Com certeza Cidade de Deus, Tropa de Elite, filmes coreanos sofreram com isso antes. Por que não Drive?

Infelizmente, houve manifestação pelo Twitter pela ausência no Oscar. Enquanto Albert Brooks postou um “You don’t like me. You really don’t like me” (Vocês não gostam de mim. Vocês realmente não gostam de mim) – fazendo menção ao discurso de Sally Field quando ganhou seu segundo Oscar (“You like me. You really like me!”), o indignado Russell Crowe fez uso de toda sua sutileza com um “Ryan Gosling didn’t get an Academy nomination? There’s some bullshit right there” (Ryan Gosling não foi indicado? Tem alguma merda aí).

Albert Brooks: foi garfado no Oscar?

Na parte da indignação, concordo plenamente pois caberia um reconhecimento maior ao filme do que apenas melhores efeitos sonoros (sem querer desmerecer a categoria e os profissionais que ficam semanas vivendo num estúdio de som). Mas esse tipo de manifestação acaba colaborando com a idéia de que na Arte existe melhor ou pior.

O Artista (The Artist), de Michel Hazanavicius (2011)

O Artista, de Michel Hazanavicius

A essência do Cinema em O Artista reconquista o público da era 3D

Não resisti aguardar até a estréia do filme e fui conferir o tão comentado trabalho de Michel Hazanavicius em pré-estréia. Talvez com receio da típica “recepção calorosa” do público da rede Cinemark dos shoppings com filmes alternativos, resolvi ver o filme num complexo de rua. Felizmente, a escolha surtiu efeito. A sala estava lotada e toda calada de seres humanos (não os animais que costumo criticar). Parecia um sonho! Ok, como nem tudo é perfeito, tinha que ter um gordinho do meu lado respirando ofegante como Darth Vader…

Não é muito curioso um filme mudo calar o espectador numa era repleta de efeitos visuais e de 3D? Fiquei estupefato. Se todos na sala estivessem trajados socialmente, poderia apostar que estávamos no túnel do tempo. À princípio, muita gente pode achar que se trata apenas de uma obra saudosista (o que não deixa de ser verdade também), mas O Artista resgata valores básicos que o Cinema proporciona desde o início do século XX. Não importa qual o orçamento milionário de uma produção, elenco de celebridades e a tecnologia aplicada, um bom filme sempre tem como base uma história bem contada (infelizmente, com tantas cifras a cuidar, muitos produtores atuais ainda se esquecem desse detalhe primário).

George Valentin passando a tocha para Peppy Miller

À respeito da história em si, O Artista reconta o momento em que o som chegou às produções hollywoodianas no final dos anos 20, e como esse fato alterou a vida do protagonista, o ator e astro do cinema mudo, George Valentin (uma óbvia referência ao jovem Rodolfo Valentin), vivido pelo ótimo Jean Dujardin. Ainda em seu auge, ele dá uma oportunidade para a desconhecida Peppy Miller (a bela Bérènice Bejo) estrelar ao seu lado. Contudo, com a revolução sonora, Valentin abraça seu orgulho e afunda juntamente com o cinema mudo, enquanto Peppy decola em Hollywood com os chamados talkies (filmes falados). O único laço que os mantêm unidos é uma paixão secreta. Pra ser bem sincero, a trama lembra bastante o musical Cantando na Chuva, de Gene Kelly e Stanley Donen, mas no lugar da música e das coreografias, Hazanavicius usufruiu da ausência de som e de cor pra contar sua história.

Apesar da história ser bastante simples, bem na base do “boy meets girl”, o roteiro consegue sustentar o filme mudo. Já que não podia contar com o som, o diretor explora com precisão suas demais ferramentas, evitando até o excesso das placas com diálogos, pois conta com as expressões faciais e corporais de seus atores centrais. Particularmente, Dujardin é dono de um timing cômico impecável. Como se não bastasse, a trilha musical de Ludovic Bource consegue a proeza de substituir as próprias vozes das personagens.

Jean Dujardin e Bérènice Bejo: química perfeita

Entretanto, apesar de tantas qualidades, não foi um caminho fácil para O Artista. Logo em sua estréia no último Festival de Cannes, muitos jornalistas torceram o nariz antes da sessão por se tratar de um filme mudo e em preto-e-branco, mas bastaram 10 minutos de projeção para mudar a opinião de muitos, tanto que Dujardin saiu premiado como melhor ator. Mais recentemente, em Janeiro, o filme levou 3 Globos de Ouro: filme, ator e trilha musical e pelo SAG Awards, levou melhor ator para Jean Dujardin, que conquistou público e crítica em parceria também com o seu cãozinho Uggie.

Uggie posando com o Globo de Ouro de Melhor Filme (by Kevin Winter)

Agora o filme caminha como um favorito com 10 indicações ao Oscar. Muitos podem não crer numa vitória de Melhor Filme por se tratar de uma produção francesa, mas 2 fatores de peso podem fazer a diferença: 1. A distribuidora nos EUA é a Weinstein Company, cujos produtores foram responsáveis pelas vitórias de Shakespeare Apaixonado e O Paciente Inglês no Oscar. 2. O filme é mudo e as placas de diálogo são em Inglês, ou seja, não há aquela barreira da legenda que os norte-americanos odeiam (porque ver um filme e ler legendas atrapalha e cansa).

E outro adendo em relação ao Oscar: Particularmente, acredito que Bérènice deveria ter sido indicada como Melhor Atriz pela importância de sua personagem na trama, mas concorre como coadjuvante porque os produtores acreditam que suas chances seriam maiores dessa maneira. Sim, estratégias mirabolantes para ganhar mais um prêmio e alavancar as cifras.

A estonteante Bérènice Bejo preenche a tela

Mas por que tanto alarde por um filme mudo? Seria apenas por esse paradoxo do antigo com o muito novo das salas de cinema? Não. O filme francês carrega o grande mérito de provar ao grande público que ainda é possível se emocionar sem som, transformando o próprio Cinema numa linguagem universal. Obviamente, não se trata de uma tarefa fácil. Não é apenas tirando o som e a cor que o mundo vai encher seu filme de prêmios. Michel Hazanavicius confessa que estudou detalhadamente os filmes de John Ford, Fritz Lang e Tod Browning a fim de trabalhar a metalinguagem de forma que respeite a linguagem desse cinema. E para aquele espectador que nunca teve a oportunidade de assistir a um bom filme mudo de Charles Chaplin na tela do cinema através de uma mostra especial, esta pode ser uma oportunidade única de viajar no tempo e se encantar com a fábula como uma criança.