O Artista (The Artist), de Michel Hazanavicius (2011)

O Artista, de Michel Hazanavicius

A essência do Cinema em O Artista reconquista o público da era 3D

Não resisti aguardar até a estréia do filme e fui conferir o tão comentado trabalho de Michel Hazanavicius em pré-estréia. Talvez com receio da típica “recepção calorosa” do público da rede Cinemark dos shoppings com filmes alternativos, resolvi ver o filme num complexo de rua. Felizmente, a escolha surtiu efeito. A sala estava lotada e toda calada de seres humanos (não os animais que costumo criticar). Parecia um sonho! Ok, como nem tudo é perfeito, tinha que ter um gordinho do meu lado respirando ofegante como Darth Vader…

Não é muito curioso um filme mudo calar o espectador numa era repleta de efeitos visuais e de 3D? Fiquei estupefato. Se todos na sala estivessem trajados socialmente, poderia apostar que estávamos no túnel do tempo. À princípio, muita gente pode achar que se trata apenas de uma obra saudosista (o que não deixa de ser verdade também), mas O Artista resgata valores básicos que o Cinema proporciona desde o início do século XX. Não importa qual o orçamento milionário de uma produção, elenco de celebridades e a tecnologia aplicada, um bom filme sempre tem como base uma história bem contada (infelizmente, com tantas cifras a cuidar, muitos produtores atuais ainda se esquecem desse detalhe primário).

George Valentin passando a tocha para Peppy Miller

À respeito da história em si, O Artista reconta o momento em que o som chegou às produções hollywoodianas no final dos anos 20, e como esse fato alterou a vida do protagonista, o ator e astro do cinema mudo, George Valentin (uma óbvia referência ao jovem Rodolfo Valentin), vivido pelo ótimo Jean Dujardin. Ainda em seu auge, ele dá uma oportunidade para a desconhecida Peppy Miller (a bela Bérènice Bejo) estrelar ao seu lado. Contudo, com a revolução sonora, Valentin abraça seu orgulho e afunda juntamente com o cinema mudo, enquanto Peppy decola em Hollywood com os chamados talkies (filmes falados). O único laço que os mantêm unidos é uma paixão secreta. Pra ser bem sincero, a trama lembra bastante o musical Cantando na Chuva, de Gene Kelly e Stanley Donen, mas no lugar da música e das coreografias, Hazanavicius usufruiu da ausência de som e de cor pra contar sua história.

Apesar da história ser bastante simples, bem na base do “boy meets girl”, o roteiro consegue sustentar o filme mudo. Já que não podia contar com o som, o diretor explora com precisão suas demais ferramentas, evitando até o excesso das placas com diálogos, pois conta com as expressões faciais e corporais de seus atores centrais. Particularmente, Dujardin é dono de um timing cômico impecável. Como se não bastasse, a trilha musical de Ludovic Bource consegue a proeza de substituir as próprias vozes das personagens.

Jean Dujardin e Bérènice Bejo: química perfeita

Entretanto, apesar de tantas qualidades, não foi um caminho fácil para O Artista. Logo em sua estréia no último Festival de Cannes, muitos jornalistas torceram o nariz antes da sessão por se tratar de um filme mudo e em preto-e-branco, mas bastaram 10 minutos de projeção para mudar a opinião de muitos, tanto que Dujardin saiu premiado como melhor ator. Mais recentemente, em Janeiro, o filme levou 3 Globos de Ouro: filme, ator e trilha musical e pelo SAG Awards, levou melhor ator para Jean Dujardin, que conquistou público e crítica em parceria também com o seu cãozinho Uggie.

Uggie posando com o Globo de Ouro de Melhor Filme (by Kevin Winter)

Agora o filme caminha como um favorito com 10 indicações ao Oscar. Muitos podem não crer numa vitória de Melhor Filme por se tratar de uma produção francesa, mas 2 fatores de peso podem fazer a diferença: 1. A distribuidora nos EUA é a Weinstein Company, cujos produtores foram responsáveis pelas vitórias de Shakespeare Apaixonado e O Paciente Inglês no Oscar. 2. O filme é mudo e as placas de diálogo são em Inglês, ou seja, não há aquela barreira da legenda que os norte-americanos odeiam (porque ver um filme e ler legendas atrapalha e cansa).

E outro adendo em relação ao Oscar: Particularmente, acredito que Bérènice deveria ter sido indicada como Melhor Atriz pela importância de sua personagem na trama, mas concorre como coadjuvante porque os produtores acreditam que suas chances seriam maiores dessa maneira. Sim, estratégias mirabolantes para ganhar mais um prêmio e alavancar as cifras.

A estonteante Bérènice Bejo preenche a tela

Mas por que tanto alarde por um filme mudo? Seria apenas por esse paradoxo do antigo com o muito novo das salas de cinema? Não. O filme francês carrega o grande mérito de provar ao grande público que ainda é possível se emocionar sem som, transformando o próprio Cinema numa linguagem universal. Obviamente, não se trata de uma tarefa fácil. Não é apenas tirando o som e a cor que o mundo vai encher seu filme de prêmios. Michel Hazanavicius confessa que estudou detalhadamente os filmes de John Ford, Fritz Lang e Tod Browning a fim de trabalhar a metalinguagem de forma que respeite a linguagem desse cinema. E para aquele espectador que nunca teve a oportunidade de assistir a um bom filme mudo de Charles Chaplin na tela do cinema através de uma mostra especial, esta pode ser uma oportunidade única de viajar no tempo e se encantar com a fábula como uma criança.

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2 Comentários

  1. Marinha Luiza

     /  fevereiro 10, 2012

    Esse filme é incrível! Muito bom mesmo! Adorei!

    Depois lê uma crítica que fiz: http://contraargumento.com/o-artista-ascensao-e-queda/

    Responder
    • Oi, Marinha! Acabei de ler sua crítica de O Artista. Pelo visto, escrevemos muitas idéias semelhantes e ambos gostamos do filme. Mas como vc escreveu antes, tá parecendo que fiz plágio! hahahah Fiquei bastante supreso com o público quieto e entretido. Não sei como é aí em Minas, mas isso é meio raro aqui nos cinemas. Parece que o pessoal tá em casa…

      Responder

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