Nora Ephron (1941 – 2012)

Nora Ephron

Nesta terça-feira, dia 26 de junho, os cinéfilos perdem a cineasta norte-americana Nora Ephron, morta aos 71 anos num hospital de Nova York. De acordo com o jornal Washington Post, a causa da morte foi uma síndrome mielodisplásica (tipo de doença sanguínea) com a qual Ephron foi diagnosticada há seis anos.

Para o grande público, talvez, o nome de Ephron não soe tão familiar, mas quando se menciona que fora roteirista da comédia Harry & Sally – Feitos um Para o Outro (1989), na hora vem à memória a antológica cena de Meg Ryan fingindo um orgasmo num restaurante (foto) depois que Harry a desafia. Como se isso não a tornasse sinônimo de comédia romântica, dirigiu ainda Sintonia de Amor (1993) e Mens@gem Para Você (1998), formando um casal de química notável: Tom Hanks e Meg Ryan. Também dirigiu Michael – Anjo e Sedutor (com um John Travolta ressurgindo depois do sucesso de Pulp Fiction) e mais recentemente, seu último trabalho no cinema: Julie & Julia (2009), sobre a influência da culinária de Julia Child sobre a blogueira Julie Powell, que rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz para Meryl Streep.

Famosa cena de Harry & Sally

Nora começou sua carreira como jornalista, escrevendo para o New York Post, Esquire e New York, já tratando de temas mais feministas que culminariam numa coletânea intitulada Crazy Salad: Some Things about Women, com textos ousados envolvendo seios e vaginas, pois acreditava que o movimento feminista seria melhor assimilado com mais humor.

Por seu trabalho no cinema, Nora Ephron foi indicada 3 vezes ao Oscar, todas como melhor roteiro original: Em 1984 por Silkwood – O Retrato de uma Coragem, em 1990 por Harry & Sally – Feitos um Para o Outro e em 1994 por Sintonia do Amor. Infelizmente, nunca levou o prêmio para casa, mas certamente seu nome ficará marcado na História do Cinema como uma diretora e roteirista que conseguiu renovar o gênero da comédia romântica. Não somente pelas ótimas tiradas, mas pela forma espontânea como tratava os sentimentos amorosos, espantando com profundidade qualquer pieguice do melodrama das décadas anteriores. Se os filmes românticos dos anos 90 tivessem uma face, esta seria a de Ephron.

Meg Ryan e Tom Hanks em Sintonia de Amor

Obviamente, Harry & Sally se sobressai por ter apresentado um questionamento que permanece atual ainda hoje: “É possível haver amizade entre um homem e uma mulher?” Segundo Harry, personagem interpretado por Billy Crystal: “Não. Porque a parte do sexo sempre vai atrapalhar”. Se puder, reveja e pense a respeito. Ah, vale lembrar que as cenas em que o casal aparece numa espécie de sala de psiquiatra (que tentaram imitar em Sr. e Sra. Smith) deu origem àquelas propagandas marcantes da Brastemp.

Não é nenhuma Brastemp…

Muitas vezes, Nora Ephron foi comparada ao diretor conterrâneo Woody Allen. E merecidamente. A neurose das personagens criadas por ambos compartilhava uma mesma essência. Nada era simples como deveria, mas no final, diziam: “Se for simples demais, não tem graça”. Recentemente, foi postado uma breve entrevista com o diretor Rob Reiner, que trabalhou com Ephron pelo filme Harry & Sally.  Em algumas palavras, Reiner resume a amiga e colaboradora: “brilhante escritora, grande observadora da relação do homem com a mulher… nem te conto o prazer que era receber uma ligação dela, convidando pra jantar: você sabia que iria ter boa comida e boa conversa”.

Vale a pena ver uma apresentação de Nora Ephron num evento que homenageava a atriz Meryl Streep pelo AFI (American Film Institute). Aí podemos confirmar a genialidade e o humor sofisticado de uma das melhores roteiristas do cinema americano, e como ela tinha um carinho recíproco dos atores com quem trabalhou. Quem sabe um dia Meryl Streep não a interprete num filme?

Nora Ephron:

“Ela (Meryl Streep) interpreta todos nós melhor que nós mesmos. Contudo, é um pouco deprimente saber que se você fizer um teste de audição para interpretar você mesmo, você perderia para ela”

“Às vezes, quando estou tendo um dia difícil, eu ligo pra Meryl e ela me substitui. Ela é tão boa que as pessoas nem percebem! Eu a chamo no final do dia, descubro como eu fiz e inevitavelmente se torna um dos melhores dias da minha vida!”

Vencedores de Cannes 2012

O grande vencedor de 2012: Michael Haneke e seu Amour

Era pra ser uma das melhores edições de Cannes nos últimos anos pelos nomes consagrados presentes na lista da cobiçada Palma de Ouro. Mas, talvez pelo excesso de altas expectativas, a premiação não se mostrou tão acirrada assim.

O presidente do júri deste ano, o cineasta italiano Nanni Moretti, tinha na seleção do festival trabalhos recém-saídos do forno de autores competentes como David Cronenberg, Michael Haneke, Jacques Audiard, Alain Resnais, Abbas Kiarostami, Wes Anderson, Ken Loach, Matteo Garrone, Thomas Vinterberg, Walter Salles entre outros. Quem não gostaria de premiar sabiamente diretores desse naipe?

Após algumas discussões entre os membros do júri (formado também por ilustres como o diretor Alexander Payne e a atriz Diane Kruger), os premiados foram anunciados pelo presidente Nanni Moretti:

PALMA DE OURO: Amour, de Michael Haneke

GRANDE PRÊMIO DO JÚRI: Reality, de Matteo Garrone

PRÊMIO DO JÚRI: The Angels’ Share, de Ken Loach

MELHOR DIRETOR: Carlos Reygadas (Post Tenebras Lux)

MELHOR ATOR: Mads Mikkelsen (The Hunt)

MELHOR ATRIZ: Cristina Flutur e Cosmina Stratan (Beyond the Hills)

MELHOR ROTEIRO: Cristian Mungiu (Beyond the Hills)

CAMERA D’OR: Beasts of the Southern Wild, de Benh Zeitlin

Grande Prêmio do Júri: Reality, de Matteo Garrone

Obviamente, como toda premiação e competição, não tem como agradar gregos e troianos, ainda mais em se tratando de Arte. A imprensa internacional reportou algumas críticas, sendo a ausência total de filmes franceses nessa seleção a maior delas. Entre eles, Holy Motors, de Leos Carax, foi a ausência mais sentida. Jean-Paul Gaultier, um dos membros do júri, justificou numa entrevista que, apesar de gostar bastante de filmes franceses, os indicados não agradaram o suficiente para ganharem um prêmio. E Moretti revelou que gostaria de premiar o filme Reality, de Matteo Garrone, com a Palma de Ouro, mas ponderou ao prever uma possível retaliação da mídia ao premiar um filme de seu conterrâneo. “Teria sido patriotada entre italianos”. E o Prêmio do Júri consagrou uma comédia do engajado diretor britânico Ken Loach: “The Angels’ Share é uma comédia muito humana e divertida”,

Controvérsias à parte, esta é a segunda Palma de Ouro do diretor alemão Michael Haneke. Ele ganhou a primeira vez há 3 anos pelo filme A Fita Branca, que chegou a concorrer ao Oscar de Filme Estrangeiro. Assim, ele integra uma ilustre lista de autores que venceram o prêmio máximo de Cannes 2 vezes que incluem: Jean-Pierre e Luc Dardenne, Emir Kusturica, Bille August e Francis Ford Coppola. Segundo o júri, o filme Amour deve grande parte de seus méritos ao casal de atores Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, que interpretam Georges e Anne, um casal de idosos na casa dos 80 anos, que terão seus laços de amor testados quando ela sofre um ataque cardíaco.

Os atores Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva são aplaudidíssimos em Cannes

Desde 1997, com o polêmico filme Violência Gratuita (Funny Games), Haneke vem chamando a atenção como um cineasta que gosta de explorar temas aparentemente gratuitos mas sob um olhar diferenciado que normalmente dialoga com a própria linguagem do cinema. Foi assim com Código Desconhecido e Caché. E como o Festival de Cannes sempre buscou um cinema inovador, Haneke é novamente honrado.

Outro destaque do festival foi o diretor romeno Cristian Mungiu, que venceu a Palma de Ouro em 2007 pelo 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias sobre aborto. Nesta edição, seu filme faturou 2 prêmios: Melhor Atriz (com um empate técnico de Cristina Flutur e Cosmina Stratan) e Melhor Roteiro. Beyond the Hills conta uma história inspirada em caso real de exorcismo na Romênia que terminou na trágica morte da jovem em 2005. Mungiu defende seu filme ao revelar que gostaria de fazer um filme sobre a atualidade e a obediência cega às religiões. Particularmente, acho muito interessante ter um filme sobre exorcismo sob uma visão mais crítica do que o habitual filme de terror.

O diretor Cristian Mungiu no meio de suas atrizes novatas Flutur e Stratan

Já o dinamarquês Mads Mikkelsen, mais conhecido por ter interpretado o vilão Le Chiffre de 007 Cassino Royale, levou o prêmio de ator. Porém, ressalta que seu papel em The Hunt de abusador de criança foi um desafio muito grande. “O interessante do filme é tratar de abuso infantil sem acusações”, elogiou o ator.

Mads Mikkelsen recebe o prêmio da atriz Gong Li

E apesar da predominância de filmes americanos, nenhum deles recebeu prêmios. Obviamente, muitos foram bem comentados como Cosmópolis, do Cronenberg e The Paperboy, de Lee Daniels, mas saíram todos de mãos abanando. E o filme de Walter Salles, Na Estrada, foi bem recebido, contudo os membros do júri comentaram que adaptar uma obra de Jack Kerouac para o cinema é praticamente impossível. Sobre esse “esquecimento” de alguns desses diretores renomados, Moretti  tentou justificar polidamente: “Muitos diretores nos pareceram mais comprometidos com o próprio estilo do que em dar testemunhos sobre a realidade ou seus personagens”.

A 65ª edição de Cannes foi bastante democrática. Pode não ter sido unânime, mas não dava pra reclamar do júri. Agora, para nós brasileiros, resta aguardar o lançamento desses filmes em nossos cinemas. Espero que não dependam exclusivamente da Mostra Internacional de Cinema em outubro, pois está cada vez mais impossível de frequentar com público falastrão, ingresso caro e seleção de filmes fraca.