007 – Operação Skyfall (Skyfall), de Sam Mendes (2012)

007 – Operação Skyfall

Após um longo hiato de quatro anos, finalmente a franquia mais lucrativa do cinema retorna às telas do cinema. 007 – Operação Skyfall acabou sofrendo esse atraso devido ao processo de falência do estúdio MGM (Metro Goldwyn Meyer), mas agora os produtores asseguraram que esse equívoco não voltará a acontecer, lembrando que Daniel Craig já assinou novo contrato para mais dois filmes com lançamento previsto para 2014 e 2016, com produção e filmagens acontecendo simultaneamente, dando a entender que se tratam de filmes sequenciais.

Com a aproximação da data comemorativa de 50 anos de James Bond, os produtores da série Barbara Broccoli e Michael G. Wilson buscavam algo grandioso que causasse uma reformulação. Para isso, chamaram o vencedor do Oscar de direção por Beleza Americana, Sam Mendes, para comandar o show. Em entrevista, Mendes revela que só passou a aceitar a idéia de dirigir um filme de Bond depois que o diretor Marc Forster foi convocado para assumir 007 – Quantum of Solace (2008), uma vez que Forster tem raízes mais autorais com uma filmografia que inclui o forte drama A Última Ceia (que rendeu o Oscar de melhor atriz para Halle Berry) e o drama O Caçador de Pipas, baseado no best-seller de Khaled Hosseini.

Sam Mendes (a esq.) dirigindo Daniel Craig na sequência inicial

Essa preocupação de Sam Mendes se mostra bastante pertinente, pois os diretores que assumem os filmes costumam ter esse rótulo de marionete dos produtores, não tendo qualquer poder e palavra final, algo considerado um terror pra diretores autorais como Mendes. Além desse aspecto, ele declarou numa entrevista ao site The Playlist que antes de aceitar a proposta, não considerava um desafio atraente. “Eu nunca fui interessado e não acho que vi todos os filmes com o Pierce Brosnan. Mas quando Daniel Craig foi escalado em 007 – Cassino Royale (2006), passei a me interessar porque ele era um amigo com quem trabalhei em Estrada Para a Perdição (2001). Inicialmente não considerei uma boa escolha, mas aí eu vi o filme e mudei de idéia, e até fiquei ansioso para ver o próximo. Fiquei levemente desapontado com 007 – Quantum of Solace, contudo acho que existem coisas boas numa boa olhada. Mas quando encontrei Daniel e ele me perguntou se eu estava interessado ou não, fui pego de surpresa dizendo sim de forma rápida. Foi apenas um bom timing.”

Com a contratação do diretor acertada, seus colaboradores assíduos tomaram as posições em seus respectivos departamentos. Assim, a série ganhou muito em qualidade, especialmente na trilha musical, com Thomas Newman substituindo David Arnold, e a fotografia belíssima de Roger Deakins, indicado nove vezes ao Oscar, mas sem nenhuma vitória. Aliás, não é exagero algum afirmar com certeza que o trabalho de fotografia de Deakins é o melhor de toda a série (23 filmes). Todas as sequências são imageticamente deslumbrantes, em especial ao clímax que se passa na Escócia, quando o vilão Silva destrói um casarão com granadas (foto abaixo).

O vilão Silva num belíssimo contra-luz do diretor de fotografia Roger Deakins

Para o roteiro, os frequentes Neal Purvis e Robert Wade, que trabalham em conjunto desde 007 – O Mundo Não é o Bastante (1999), receberam suporte final do competente John Logan, indicado ao Oscar três vezes por Gladiador (2000), O Aviador (2004) e o recente A Invenção de Hugo Cabret (2011). Seu trabalho deu muito mais consistência ao trabalho da dupla, além de diálogos marcantes entre Bond e seu algoz, mas vale ressaltar que algumas idéias principais foram copiadas de Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008), de Christopher Nolan, principalmente no fato do vilão Raoul Silva ser um anarquista cibernético e em seguida se deixar ser preso de forma planejada para que pudesse fazer mais estrago e atingir seu objetivo como fez o Coringa de Heath Ledger.

Para acompanhar a influência de Nolan, o diretor Sam Mendes confirmou a importância que o segundo filme da trilogia de Batman para a realização de 007 – Operação Skyfall. “Estamos agora numa indústria onde os filmes são muito pequenos ou muito grandes e não há quase nada no meio. E seria uma tragédia se todos os filmes sérios fossem muito pequenos e todos os filmes pipoca fossem muito grandes e não tivessem nada a dizer. E o que Nolan provou é que você pode fazer um filme enorme que seja emocionante e divertido, e ao mesmo tempo, ter um monte de coisas a dizer sobre o mundo em que vivemos. E olha que Batman – O Cavaleiro das Trevas nem se passa em nosso mundo! Parecia que o filme era sobre o nosso mundo pós-11 de setembro, discutindo sobre nossos medos e por que eles existiam e achei que aquilo era incrivelmente corajoso e interessante. Isso ajudou a me dar a confiança para assumir este filme em direções que, sem Batman, não poderia ter sido possível. E não seria necessário temer uma reação negativa do público, pois dá pra se apoiar no tom negro do filme de Nolan que faturou zilhões de dólares nas bilheterias. Quer dizer, é possível fazer um filme mais obscuro que as pessoas querem ver.”

Além da base anarquista e a obsessão por destruição do Coringa, o vilão Raoul Silva apresenta como base outra personalidade contemporânea fortíssima: Julian Assange, o porta-voz do site WikiLeaks. Em 2006, o jornalista australiano e ciberativista se tornou o editor-chefe da WikiLeaks, um site de denúncias e vazamentos, responsável pela publicação de documentos secretos do governo do Quênia, de resíduos tóxicos na África, e a forte denúncia sobre o tratamento dado aos prisioneiros da Prisão de Guantánamo, que ele obtém como hacker de sites de algumas nações. Com ninguém satisfeito com a invasão de Assange, ele perdeu a cidadania sueca e desde junho desse ano, foi obrigado a se refugiar na embaixada do Equador em Londres, onde vive até hoje sob fortes ameaças. O vilão de Bond pegou emprestado o visual loiro e sua estratégia de vazar a identidade secreta de agentes britânicos infiltrados em facções terroristas no Youtube.

O vilão Raoul Silva (Javier Bardem). No detalhe, Julian Assange.

Com esse perfil cibernético, o personagem de Silva poderia facilmente ser um homem mais franzino, mas como os fãs da série preferem vilões que Bond possa ter uma luta corpo-a-corpo equilibrada, chamaram o encorpado Javier Bardem, que certamente ganhou o papel depois de assustar a todos com seu personagem Anton Chigurh de Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), dos irmãos Coen. Curiosamente, Bardem é o primeiro ator espanhol a interpretar o vilão principal do agente 007 e ele o fez com maestria. Seu Raoul Silva aparece na tela a partir da segunda metade do filme e mesmo assim consegue aparentar uma constante ameaça. Pelas qualidades citadas acima, já entraria para a galeria dos vilões de Bond mais memoráveis, mas existe uma outra vertente que o torna ainda mais interessante: seu lado homo-erótico. Sim, James Bond tem um antagonista homossexual! Obviamente, essa opção sexual do vilão fica apenas sugerida e nunca explícita por se tratar de um filme altamente comercial, no entanto, em sua primeira aparição, Silva senta em frente a Bond amarrado numa cadeira e abre sua camisa para checar seus ferimentos (foto abaixo), enquanto profere palavras de duplo sentido.

James Bond encara Raoul Silva pela primeira vez com um diálogo picante

Para este fã de James Bond, o fato do vilão ter tendências homossexuais não impressiona. Aliás, até torna as coisas mais interessantes! Mas a resposta que James dá a uma indireta de Silva causou certo furor na minha sessão, repleta de fanáticos pelo agente secreto. (Para quem não viu o filme e não quer saber, não leia o fim deste parágrafo). Quando Silva sugere que Bond experimente uma nova experiência sexual, ele retruca um inesperado “e quem disse que é a minha primeira vez?”, deduzindo que o agente secreto mais mulherengo da história do cinema seria bissexual! 50 anos de Bond e os roteiristas entregam uma faceta totalmente inédita do personagem de Ian Fleming. Aliás, estaria ele rolando em seu caixão depois dessa? Com certeza, muitos fãs machistas adoradores da masculinidade extrema de Connery ficaram pasmos e irritados.

Apenas uma curiosidade em relação ao homossexualismo de Silva, apesar de muitos acreditarem que se trata do primeiro vilão gay da série, os assassinos mercenários Mr. Kidd e Mr. Wint foram os primeiros em 007 – Os Diamantes São Eternos (1971), estrelado por Sean Connery. Contudo, o homossexualismo da dupla se mostra mais uma amizade colorida e inofensiva. Em defesa de seu personagem, Javier Bardem comentou que o sexualismo exposto demonstraria poder diante de um oponente forte como Bond: “A cena era mais sobre colocar outra pessoa em uma situação muito desconfortável, tanto que até James Bond não saberia como resolver”.

Há muito tempo não víamos um vilão de Bond com fortes características sexuais. O último foi a sádica Xenia Onnatop, interpretada por Famke Janssen em 007 Contra GoldenEye (1995). Ela tinha orgasmos múltiplos ao matar pessoas e tinha como golpe favorito torcer suas pernas em volta do abdômen da vítima e asfixiá-la. Com tamanhas qualidades, ficou marcada na história de Bond como uma das melhores vilãs.

Seguindo com as comemorações dos 50 anos, existem algumas boas referências dos filmes anteriores como o automóvel Aston Martin DB5, com assento do passageiro ejetável, utilizado em 007 Contra Goldfinger, e principalmente na reformulação das personagens clássicas e fixas da série como o chefe de Bond, M, sua secretária Miss Moneypenny, e o que a maioria dos fãs estavam aguardando: o retorno do mestre-quarteleiro Q.

Na cena de introdução de Q, Ben Wishaw e Daniel Craig têm um diálogo bastante esclarecedor a respeito dos novos tempos tecnológicos, defendendo muito bem o motivo do personagem reaparecer tão jovem (o ator que viveu Q, Desmond Llewelyn estreou em Moscou Contra 007 (1963) com quase 50 anos de idade). Assim que Q se apresenta com aquele look nerd (óculos, penteado meio emo e aparência franzina), 007 não se aguenta e responde: “Você deve estar brincando.”

Apesar do diálogo esclarecedor, por se tratar de uma série antiga, houve críticas à juventude de um personagem conhecido como um senhor mais experiente e conservador. Contudo, como mostrado em A Rede Social, a nova geração de nerds realmente se mostra muito poderosa no mundo de hoje.

Ben Wishaw como o novo Q, armeiro do MI6. Começando com uma Walther PPK e um rádio transmissor.

Além da forte presença de M (Judi Dench), 007 – Operação Skyfall faz bonito na escalação das Bond girls. Ao contrário da época de Sean Connery e Roger Moore, as mulheres deixaram há muito de serem figuras frágeis e dóceis. Nesta produção, duas personagens femininas tridimensionais integram o hall das Bond girls como uma das melhores duplas dos últimos anos. A atriz francesa Bérénice Marlohe vive a misteriosa Sévérine, que presencia um assassinato e se torna peça chave no quebra-cabeça que James Bond deve seguir. Com um olhar bastante forte e sensual, Marlohe demonstra a fragilidade necessária para atrair Bond, deixando sua marca no filme, mesmo que em poucas cenas.

Bérénice Marlohe como a misteriosa Sévérine

Por este lado da lei, temos outra Bond girl excepcional, a britânica Naomie Harris. Ela teve seu primeiro papel de destaque no terror de zumbis moderno de Extermínio (2002), de Danny Boyle, e nos anos seguintes, atuou em alguns filmes de ação em destaque como Piratas do Caribe: O Baú da Morte (2006), Piratas do Caribe: No Fim do Mundo (2007), Miami Vice (2006) e curiosamente em O Ladrão de Diamantes (2004), estrelado pelo então James Bond, Pierce Brosnan. Com maior experiência em ação, Harris foi escalada para viver a agente novata Eve, que tem participação fundamental na sequência inicial.

Naomie Harris como Eve

Como se trata de um personagem altamente sexual, vale ressaltar aqui que em 007 – Operação Skyfall, James Bond tem relações com três mulheres, algo que nunca aconteceu desde que Daniel Craig assumiu o smoking. Seria um sinal de retomada até nesse quesito? Felizmente, os produtores souberam escolher belíssimas atrizes. Bérénice Marlohe, Naomie Harris e Tonia Sotiropoulou formam a grande beleza do filme.

Aliás, ainda no assunto da presença feminina, a cantora de sucesso Adele compôs a música-tema homônima Skyfall, que foi lançada na internet no dia 05 de outubro, quando Bond completava 50 anos. Além de já ter alavancado um grande sucesso nas paradas, sendo uma das mais compradas no iTunes, a canção remete ao tom mais clássico das músicas de 007, especialmente Shirley Bassey e sua majestosa Goldfinger. Pelo sucesso da canção, da intérprete Adele e do filme nas bilheterias, existe uma forte possibilidade de ser indicada a Melhor Canção Original no Oscar 2013, fato que não acontece desde 1982, quando For Your Eyes Only de Sheena Easton (007 – Somente Para Seus Olhos) foi indicada ao Oscar. Segue vídeo com a música de Adele abaixo:

Contudo, a figura feminina mais importante certamente é M. Sua personagem se encontra sob forte pressão neste filme e representa as mudanças necessárias para entender o mundo de hoje do pós-11 de setembro sob o olhar da segurança da sociedade.

Judi Dench como a chefe operacional M

Após o atentado, muitos se questionam se as autoridades estão realmente preparadas para esse novo tipo de ameaça. Esse constante e contínuo medo assola toda a população, que teme novos atentados pelo mundo todo. E este novo filme de 007 traz essa questão à tona, colocando uma ultrapassada porém experiente M numa audição com uma jovem Ministra de Defesa, respondendo à pergunta: “Qual o papel de agentes secretos no século XXI?”. Devido aos recentes erros que M cometeu, dá a entender que ela está defasada para o cargo, porém, ela defende a importância e o valor de seus espiões subordinados diante da invisibilidade do inimigo de hoje, pois não tem nação ou bandeira para identificá-lo. Esse cenário repleto de paranóia e racismo é o pano de fundo dos últimos filmes de James Bond, que sempre primaram em refletir características da sociedade de sua época. 007 – Operação Skyfall adiciona mais um importante capítulo deste início do século XXI.

O 23º filme de Bond vale por tudo isso, mas o fato de alguns elementos principais terem sido quase um plágio de Batman – O Cavaleiro das Trevas me incomodou um pouco. Além disso, pecou pela quebra de ritmo no meio do filme (cabiam mais umas duas sequências de ação) e a sequência final com o vilão Silva se tornou morosa e desgastante pra pouca novidade. Também acrescento que a personagem de Albert Finney, o velho Kincade, ficou mal aproveitado.

Skyfall deu um passo importante na série. Os produtores provaram que estão dispostos a largar o conservadorismo de vez e inserir James Bond em seu devido lugar no século XXI. Esperamos que o nível de qualidade do diretor escolhido para a próxima aventura esteja do mesmo nível de Sam Mendes, assim como os atores principais. Valeu também pela inclusão de Ralph Fiennes, pois os filmes ganham uma credibilidade notória com sua presença.

Avaliação: BOM

A equipe principal responsável por 007 – Operação Skyfall. Da esquerda para a direita: Javier Bardem, Bérénice Marlohe, Sam Mendes, Judi Dench, Daniel Craig, Naomie Harris e os produtores Barbara Broccoli e Michael G. Wilson (photo by Sony Pictures realeasing)

Anúncios

Reality, de Matteo Garrone (2012)

Reality, de Matteo Garrone

Depois de ganhar notoriedade internacional com seu filme sobre a máfia italiana, Gomorra (2008), o diretor Matteo Garrone retornou esse ano em Cannes com Reality, uma comédia sobre a influência dos reality shows na sociedade. Sagrou-se novamente com o Grande Prêmio do Júri, considerado o segundo lugar na competição do Festival, que laureou Amour, de Michael Haneke.

Matteo Garrone pode ser considerado um cineasta do século XXI. Não dizem que o cinema do futuro será feito por todos? Pra realizar Gomorra, o diretor liberou uma bagatelazinha de 26 mil euros para mafiosos locais por proteção durante as filmagens em Nápoles. Em troca, a máfia declarou que tinha direito a opinião no corte final do filme. Essa relação da Arte com dinheiro é muito antiga, que vem desde a época do mecenato, em que artistas eram patrocinados pelos mecenas, ficando à mercê de suas opiniões pessoais.

Curiosamente, dois filmes lançados em 1994 abordam essa questão. Em Tiros na Broadway, de Woody Allen, John Cusack é um diretor de teatro na década de 20, que se vê obrigado a escalar a namorada sem talento de um gângster em sua peça para que seja produzida. Já no filme de Tim Burton, Ed Wood, o diretor precisa empurrar toda a sua equipe para o batismo para conseguir o dinheiro da igreja local e produzir seu longa de ficção científica.

Neste novo trabalho, Matteo Garrone tem uma nova polêmica. O protagonista de Reality, Aniello Arena, não pôde ir a Cannes para promover o filme. Atrasou-se? Ficou doente? Morreu? Não… ele estava preso! Sim, Aniello Arena está cumprindo uma pena de vinte anos por duplo homicídio!

Protagonista de Reality, Aniello Arena: 2 horas de fama e 20 anos de prisão.

Garrone o conheceu através de uma peça de teatro encenada por presidiários e já queria chamá-lo para atuar em Gomorra, mas o juiz não havia permitido. Apelando à justiça para liberá-lo, o diretor conseguiu o aval. Durante o dia, Aniello trabalhava no filme e de noite, voltava sob custódia da polícia.

Agora, imaginem como era o clima no set de filmagem? Quem atuaria tranquilamente ao lado de um assassino? Não sei como Matteo Garrone conseguiu essa proeza, mas as atuações no estilo italiano ficaram muito cômicas. Felizmente, a escolha de Aniello foi muito bem acertada, pois ele esbanja o carisma necessário para sua personagem e fotografa bem (lembra Roy Scheider e Sylvester Stallone) Em entrevista, Matteo Garrone negava as acusações de que teria contratado Aniello como forma de retribuição a Gomorra.

Elenco de Reality: o jeitão italiano de ser ao lado de um assassino

Em Reality, acompanhamos a história de Luciano (Aniello Arena), pai de família que tem uma peixaria e consegue uma renda extra revendendo eletrodomésticos. Certo dia, sua família insiste para que ele participe da seleção do reality show italiano do Big Brother (ou como eles chamam por lá: Il Grande Fratello). A proposta começa despretensiosa, apenas para agradar as filhas pequenas, mas ao longo dos próximos dias, Luciano se anima com a chance de ficar famoso e ganhar muito dinheiro, criando uma expectativa colossal para ser chamado.

Da segunda metade para o final, o espectador acompanha a degradação do protagonista, marcada pela ilusão e pela paranóia crescente de que pessoas ligadas ao Big Brother estariam observando-o e avaliando seu comportamento. Essa mania de perseguição lembra o cult A Conversação (1974), de Francis Ford Coppola, obviamente num nível light. Contudo, essa paranóia também causa estragos permanentes em Luciano e na desestruturação de sua família.

A produção foi indicada à Palma de Ouro ao lado de fortes concorrentes como Além das Montanhas, de Cristian Mungiu; Cosmópolis, de David Cronenberg; Moonrise Kingdom, de Wes Anderson; Um Alguém Apaixonado, de Abbas Kiarostami; Na Estrada, de Walter Salles; Ferrugem e Osso, de Jacques Audiard. Reality ficou com o Grande Prêmio do Júri, o segundo na curta carreira de Matteo Garrone.

Ele merece os créditos pela crítica à banalidade dos reality shows e pela coragem de escalar um presidiário para o papel principal. Poderia ter dado tudo errado com o ator transformando o set de filmagem num cenário sangrento, mas a história teve seu final feliz. Se formos justos, Aniello Arena merecia o prêmio de ator, mas acho que os organizadores do festival não estão preparados para esse tipo de reconhecimento.

Matteo Garrone recebendo o Grande Prêmio do Júri por Reality.

Assisti ao filme numa das sessões da 36ª Mostra de Cinema de São Paulo, que ocorre entre os dias 19 de outubro a 1º de novembro (com uns dias a mais de repescagem no final). Infelizmente, Reality ainda não tem previsão de estréia no Brasil. E não, Reality não é o representante da Itália no Oscar, mas Caesar Must Die, de Paolo Taviani e Vittorio Taviani. Curiosamente, o filme dos Taviani retrata um grupo de presidiários reais encenando Júlio César, de William Shakespeare.

Tina Fey e Amy Poehler vão apresentar o Globo de Ouro 2013

Globo de Ouro 2013: novidades no hosting

Depois de dois anos consecutivos aguentando as saias justas e piadas ácidas de Ricky Gervais, as celebridades venceram. Vão substituir Gervais com a dupla Tina Fey e Amy Poehler, amigas e colegas de profissão do programa televisivo Saturday Night Live e que já trabalharam juntas nas comédias Meninas Malvadas (2004) e Uma Mãe Para o meu Bebê (2008).

Tina Fey e Amy Poehler vão apresentar o Globo de Ouro 2013

A presidente da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, Aida Takla-O’Reilly, justificou a escolha: “Os telespectadores vão querer ver a Tina e a Amy em ação. Estamos muito entusiasmados por tê-las na gala do 70.º aniversário”. Ambas têm trabalho fixo na TV. Enquanto Tina Fey continua na série de sucesso 30 Rock, co-estrelando com Alec Baldwin, Amy Poehler atua em Parks & Recreation.

A rede de TV NBC, que comanda a cerimônia, acredita que o fato da dupla ter uma química natural para a comédia vai ajudar a promover o show. Obviamente, a equipe está concentrada em atrair mais público para a premiação com o prestígio das duas comediantes e acredito que acertaram na escolha para uma tentativa de humor mais light e dinâmico por contar com duas hosts. Mas convenhamos que as celebridades estavam cansadas de ser motivo de chacota de Ricky Gervais, que criticava os filmes, performances dos atores e histórico negativo dos astros. Ele falava tudo na lata, rindo de forma acintosa e portando sempre um copo de bebida na mão. Isso era Ricky Gervais e isso incomodava muita gente. Ele sabia que poderia perder o posto facilmente no ano seguinte, mas felizmente fazia do seu trabalho um carpe diem.

Ricky Gervais falando mal das celebridades e com o copo de cerveja

Como espectador do Globo de Ouro, realmente torço para que Tina Fey e Amy Poehler façam um bom trabalho e deixem a festa mais animada não somente para as celebridades. Contudo, já sinto falta de Ricky e seu humor do tipo ácido corrosivo, afinal, ele apenas falava a verdade que muitos empurravam para debaixo do tapete.

A 70ª cerimônia de premiação da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood acontece no dia 13 de janeiro de 2013, e deverá ser transmitida no canal Sony.

Prévia do Oscar 2013: Melhor Atriz

Meryl Streep, vencedora do último Oscar de Melhor Atriz por A Dama de Ferro

Nos últimos dez anos, apenas três atrizes com idade acima de 40 anos foram premiadas nessa categoria: Helen Mirren, Sandra Bullock e Meryl Streep. Esse fato denota a queda na oferta de bons papéis no cinema para mulheres maduras. Por isso, muitas delas migraram para as séries e mini-séries de TV como fizeram Kathy Bates (Harry’s Law), Glenn Close (Damages), Jessica Lange (American Horror Story), Julianne Moore (Virada no Jogo), Emma Thompson (The Song of Lunch), Judy Davis (Page Eight) e Maggie Smith (Downton Abbey), só pra citar nomes mais recentes. É claro que isso não significa que mudaram de time permanentemente, mas aproveitando a demanda da TV por material de qualidade, coisa que o cinema tem deixado de fazer há um bom tempo.

Na corrida do Oscar, a maioria das atrizes normalmente está na casa dos 20 e 30, até mesmo porque o cinema se tornou um entretenimento mais para o público juvenil. E sob essa perspectiva, Jennifer Lawrence deve figurar entre as favoritas. Além de sua performance elogiada no Festival de Toronto por Silver Linings Playbook, ainda conta com o sucesso de seu blockbuster Jogos Vorazes. Este é o equilíbrio perfeito entre sucesso de crítica e público que a Academia costuma buscar em seus vencedores de atuação, pois agrada aos críticos enquanto seu sucesso comercial atrai o público de TV e, obviamente, mais patrocinadores do show.

Ainda em se tratando de jovens, o Oscar 2013 pode ter dois novos recordes. A atriz-mirim Quvenzhané Wallis, protagonista do drama fantástico Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild), de apenas 8 anos pode se tornar a atriz mais jovem indicada na categoria. A marca atual pertence à australiana Keisha Castle-Hughes de A Encantadora de Baleias (2003), que na época tinha apenas 13 anos.

Contudo, em 2013, as jovens estão em baixa, abrindo espaço para atrizes mais experientes e consagradas. A francesa Emmanuelle Riva, de 85 anos, estrela do clássico Hiroshima mon Amour, pode ser uma surpresa na lista de indicadas, batendo o recorde de Jessica Tandy (que ganhou aos 81). Logo em seguida, as setentonas Judi Dench e Maggie Smith são fortes candidatas por O Exótico Hotel Marigold e Quartet, respectivamente.

Amigas e colegas de profissão, Nicole Kidman (44) e Naomi Watts (43) também fazem parte do grupo de atrizes experientes com boas chances de concorrer ao prêmio. Kidman encara um papel mais ousado em The Paperboy, enquanto Watts busca esperança em meio à tragédia de O Impossível.

Particularmente, (e já declarei isso várias vezes aqui) prefiro o reconhecimento de atrizes experientes no Oscar. Mas o Oscar é um prêmio que reconhece os melhores do ano, e não pelo conjunto da obra. Se uma atriz de oito anos deu a melhor performance do ano, por que não lhe premiar com o Oscar? Que vença a melhor!

Marion Cotillard em Ferrugem e Osso

MARION COTILLARD (Ferrugem e Osso)

Marion Cottilard foi a primeira atriz francesa a ganhar o Oscar de Melhor Atriz falando a sua língua natal, e a segunda estrangeira depois de Sophia Loren, que ganhou em 1962 por Duas Mulheres (La Ciociara). Seu Oscar foi um dos mais comemorados pela comunidade hollywoodiana.

Tanto que acabou abraçada pelo diretor Christopher Nolan, que a incluiu nos blockbusters A Origem (2010) e Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012). Mesmo carregando um sotaque no inglês, Marion Cotillard se saiu bem e deu maior credibilidade aos papéis que viveu. Além de Nolan, outros diretores fizeram questão de contar com a atriz. Michael Mann (Inimigos Públicos), Rob Marshall (Nine), Woody Allen (Meia-Noite em Paris) e Steven Soderbergh (Contágio) foram beneficiados pelo talento da francesa.

Agora, voltando a fazer filmes franceses, Cotillard atua sob direção do diretor em extrema ascensão Jacques Audiard (de O Profeta, que concorreu a Melhor Filme Estrangeiro em 2010) no drama Ferrugem e Osso (Rust and Bone), que concorreu à Palma de Ouro em Cannes desse ano. Havia até uma forte expectativa de que o prêmio de atuação feminina seria dela.

No filme, Marion Cotillard vive Stéphanie, uma treinadora de baleias orcas que sofre um acidente que lhe tira parte das pernas. O tipo de papel, somado à credibilidade do Oscar que ganhou, facilmente lhe garantiria uma nova indicação, mas por se tratar de um filme em língua francesa, as chances dela podem reduzir consideravelmente numa briga mais acirrada com outras atrizes.

Judi Dench em O Exótico Hotel Marigold

JUDI DENCH (O Exótico Hotel Marigold)

Ainda não consegui engolir a derrota de Dame Judi Dench para Helen Hunt naquele Oscar 98. Ela competia por um papel imponente e interpretação impecável em Sua Majestade Mrs. Brown. No ano seguinte, a Academia resolveu compensá-la ao lhe entregar o Oscar de coadjuvante por Shakespeare Apaixonado, no qual ela atua por apenas oito minutos.

Para o grande público, Dench ficou conhecida como M, a chefe do agente secreto britânico James Bond, que voltará no novo filme 007 – Operação Skyfall, mas deve ser sua última participação na série. Porém, a atriz tem muito mais história no teatro, tendo atuado nas companhias de prestígio Royal Shakespeare Company, o National Theatre e Old Vic Theatre, além de ter vencido muitos prêmios do palco como o Laurence Olivier Theater Award na década de 80 e 90.

Em O Exótico Hotel Marigold, já disponível em DVD e Blu-ray, muitos atores consagrados são reunidos para contar histórias da terceira idade em meio ao caos da Índia e o hotel do título. Judi Dench encabeça essa lista que conta ainda com Maggie Smith, Tom Wilkinson e Bill Nighy. Como em todo filme, a atriz empresta sensibilidade e carisma a seu personagem Evelyn, que fica bastante desamparada na vida depois que seu marido morre.

Apesar do filme ser independente, o peso do nome da atriz pode lhe conferir sua sétima indicação ao Oscar. Ela já foi indicada por Sua Majestade Mrs. Brown (1997), Shakespeare Apaixonado (1998), Chocolate (2000), Iris (2001), Sra. Henderson Apresenta (2005) e Notas Sobre um Escândalo (2006).

Nicole Kidman em The Paperboy

NICOLE KIDMAN (The Paperboy)

Toda vez que eu vejo Nicole Kidman na TV, seja no tapete vermelho ou na premiação, vejo uma mulher recatada e reprimida sexualmente. Então, não foi uma surpresa vê-la num papel de mulher da vida nesse novo drama de Lee Daniels, diretor de Preciosa. Nicole cresceu demais depois que se separou do mala da Cientologia Tom Cruise; passou a buscar novos desafios sem medo de parecer ridícula.

A história comprova essa teoria. Foi só se divorciar dele que estrelou dois grandes sucessos de público e crítica em seguida: Os Outros, de Alejandro Amenábar, e Moulin Rouge – Amor em Vermelho, de Baz Luhrmann, que lhe conferiu sua primeira indicação ao Oscar.

Nos anos seguintes, Nicole trabalhou com diretores competentes como Lars von Trier, Anthony Minghella e ganhou seu Oscar pelo papel marcante da escritora Virginia Woolf em As Horas, de Stephen Daldry. Muita gente poderia achar que ela venceu somente pelo peso da personagem e maquiagem (uma prótese de nariz fora aplicada), mas a atriz continua na jornada em busca de novos desafios. Essa atitude nada fácil de seguir deveria ser comum na profissão, mas não é.

Em The Paperboy, ela aceita um tipo de papel que nunca encarou antes. Charlotte Bless é uma vagabunda que tem fetiche por homens encarcerados. Contudo, Nicole não faz isso de forma condescendente, mas de um jeito que sua personagem pareça mais aceitável e ganhe a torcida do público. Suas chances são médias, mas se o filme não for bem aceito pela crítica americana, Nicole pode comparecer ao Oscar apenas para apresentar um prêmio.

Keira Knightley em Anna Karenina

KEIRA KNIGHTLEY (Anna Karenina)

Esta jovem atriz britânica começou a chamar a atenção na comédia sobre futebol feminino Driblando o Destino (Bend it Like Beckham), que pelo sucesso chegou a ser indicado a Melhor Filme – Comédia/Musical no Globo de Ouro 2003. Naquele ano, Keira Knightley deu um salto para a fama internacional com o blockbuster Piratas do Caribe – A Maldição do Pérola Negra, mas muitos duvidavam do talento da moça, que tinha tudo para se tornar mais uma daquelas Bond girls que só serviam para enfeitar a tela e gritar.

Felizmente, firmou uma forte aliança com o diretor Joe Wright ao interpretar o cobiçado papel de Elizabeth Bennet de Orgulho e Preconceito, adaptação do clássico literário homônimo de Jane Austen, que acabou resultando numa indicação para o Oscar para Knightley. Entretanto, mais importante do que o início bem-sucedido da parceria com o diretor (Anna Karenina é a terceira colaboração da dupla), seria a descoberta dessa obsessão de Keira com os filmes de época.

Depois de Orgulho e Preconceito, ela vestiu figurinos de décadas e séculos passados em mais sete oportunidades. Acho que as figurinistas já sabem as medidas dela de cor e salteado! Existem atores que gostam de interpretar vilões, mocinhos, e existem atrizes que se apegam tanto a filmes de História que ficam marcadas e até rotuladas no mercado, como se não tivessem capacidade de viver personagens atuais.

Porém não deve ser o caso de Keira Knightley. Ela mesma deve estar ciente desse excesso de filmes de época e vem buscando projetos diferenciados como a comédia Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo (2012) e a refilmagem de ação Jack Ryan, prevista para estrear em 2013. Até lá, ela aproveitou para voltar a trabalhar com seu diretor favorito nesse Anna Karenina, adaptação da obra de Leo Tolstoy.

Com a constante evolução da parceria Knightley-Wright, a atriz tem chances de obter sua segunda indicação, mas uma vitória seria considerada uma zebra. Por outro lado, Anna Karenina tem ótimas chances nas categorias de direção de arte e figurino, como nos trabalhos anteriores de Joe Wright, que prima nesses departamentos.

Jennifer Lawrence em Silver Linings Playbook

JENNIFER LAWRENCE (Silver Linings Playbook)

Seria burrice da Academia se ignorasse o trabalho da jovem atriz Jennifer Lawrence em 2013, afinal ela estrelou dois filmes em destaque na mídia: o blockbuster Jogos Vorazes (Hunger Games) e esta “dramédia” Silver Linings Playbook, dirigido pelo diretor em ascensão David O. Russell, de O Vencedor.

Desde que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo independente Inverno da Alma (Winter’s Bone) em 2011, Jennifer Lawrence recebeu incontáveis propostas em Hollywood. Todos os diretores queriam trabalhar com ela. Felizmente, ela tem dado preferência ao equilíbrio nas escolhas de projetos, participando de filmes de terror, aventura, comédias e dramas. Já tem retorno acertado para as sequências X-Men: Days of Future Past (2014) e Jogos Vorazes: Em Chamas (2013).

Em Silver Linings Playbook, Lawrence encarna Tiffany, uma recém-viúva, que tenta lidar com a dor enquanto se envolve com o recém-saído do hospital psiquiátrico Bradley Cooper. Trata-se de um filme de direção de atores e isso David O.Russell já comprovou para todos com os dois Oscars de coadjuvantes de O Vencedor. O longa foi muito bem recebido no Festival de Toronto, vencendo o cobiçado prêmio People’s Choice Award e, pelo Hamptons International Film Festival, o Audience Award (prêmio concedido pelo público). O reconhecimento de Toronto vem sendo cada vez mais importante para o crescimento na reta final do Oscar. A vitória anterior de O Discurso do Rei foi um belo exemplo, batendo o franco-favorito A Rede Social em 2011.

Apesar de muito jovem (22 anos), Jennifer Lawrence tem grandes chances no Oscar. Ela foi indicada apenas uma vez em 2011 como Melhor Atriz por Inverno da Alma.

Laura Linney em Hyde Park on Hudson

LAURA LINNEY (Hyde Park on Hudson)

Laura Linney foi conquistando seu espaço de forma bem gradativa nos anos 90. Papéis menores e de coadjuvante permearam o início de sua carreira, participando de filmes em destaque como Dave – Presidente por um Dia (1993), Congo (1995), As Duas Faces de um Crime (1996) e O Show de Truman – O Show da Vida (1998). Cansada de personagens secundários, partiu para o cinema independente americano. Foi uma decisão de extrema importantância, pois pôde finalmente ser protagonista e dona de uma personagem rica de emoções no drama Conte Comigo, do talentoso Kenneth Lonnergan. Ali a atriz se sentiu mais à vontade e esbanjou seu talento que muitos diretores não conheciam. A interpretação da mãe solteira Sammy lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar, um feito único que lhe traria muitos frutos.

Laura Linney passou a atuar sob direção de renomados profissionais como Alan Parker em A Vida de David Gale, Clint Eastwood em Sobre Meninos e Lobos, mas foi graças a duas produções independentes que ela voltou ao tapete vermelho do Oscar. Com Kinsey – Vamos Falar de Sexo (2004) e A Família Savage (2007), Linney foi indicada para coadjuvante e atriz, respectivamente. A vitória pode não ter vindo ainda, mas acredito que é questão de tempo, pois a atriz sabe escolher bem projetos para se destacar. Só precisaria de um projeto mais grandioso ou uma personagem mais destacada na história.

Dependendo da recepção a Hyde Park on Hudson, Laura Linney pode conseguir sua quarta indicação, ainda mais que se trata de uma personagem verídica: Margaret Suckley, a prima do presidente Franklin D. Roosevelt, responsável pela narração do filme. No entanto, suas chances são menores do que nas oportunidades anteriores.

Helen Mirren (à esq) em Hitchcock

HELEN MIRREN (Hitchcock)

Embora Helen Mirren tenha iniciado sua carreira no cinema na década de 60, foi  apenas com o cult Excalibur (1981), de John Boorman, que ela passou a se destacar. Dali em diante, trabalhou com diretores mais renomados e alternativos como Paul Schrader, Terry George e Peter Greenaway, levando-a para Cannes, onde levou o prêmio de intérprete feminina duas vezes: em 1984 por Cal – Memórias de um Terrorista, e em 1995 por As Loucuras do Rei George. Este último também lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar como coadjuvante.

A partir do Oscar, sua carreira começou uma nova fase. Aquela Helen que só fazia filmes independentes passou a trabalhar em produções de estúdio, chegando a protagonizar uma comédia de humor negro com Katie Holmes: Tentação Fatal (1999), e dublando a animação da Dreamworks, O Príncipe do Egito (1998). Em 2002, voltou a ser indicada ao Oscar de coadjuvante pelo ótimo Assassinato em Gosford Park, de Robert Altman, mas perdeu novamente.

O reconhecimento da Academia finalmente veio em 2007, quando um projeto pensado para Helen Mirren foi lançado. Dirigido por Stephen Frears, A Rainha tinha mais cara de telefilme, mas foi abraçado pelo Oscar como uma oportunidade única de premiar uma atriz de enorme prestígio como Helen Mirren. Claro que ela colheu os frutos desse prêmio, ganhando bem em grandes produções como A Lenda do Tesouro Perdido: Livro dos Segredos (2007), no blockbuster da New Line Cinema, Coração de Tinta (2008) e na recente refilmagem Arthur – O Milionário Irresistível (2011), mas, como dito no início do post, o cinema de Hollywood muitas vezes é cruel com atrizes mais velhas. Aos 67 anos, Helen Mirren tem boas chances de uma nova indicação pelo filme Hitchcock, que conta os bastidores das filmagens do clássico Psicose, mas a atriz tem mais tratamento de coadjuvante de luxo. No filme, ela interpreta a esposa e colaboradora de Alfred Hitchcock, Alma Reville.

Helen Mirren já foi indicada quatro vezes: Em 1995 por As Loucuras do Rei George e em 2002 por Assassinato em Gosford Park, como coadjuvante. Em 2010, por A Última Estação, e em 2007 por A Rainha, vencendo por este último.

Emmanuelle Riva em Amour

EMMANUELLE RIVA (Amour)

Atriz francesa veteraníssima, Emmanuelle Riva pode se tornar a atriz mais velha a ser indicada ao Oscar aos 85 anos. Seu primeiro trabalho como atriz em Hiroshima mon Amour, de Alain Resnais, já a colocou no topo do cinema francês da década de 60, tornando-se uma das musas da Nouvelle Vague.

Apesar de se tratar de uma produção francesa, dirigida pelo austríaco Michael Haneke, muitos especialistas estão dando como certa sua indicação. Se for considerar o valor dessa oportunidade de incluir um ícone do cinema na história da Academia, já soaria tentador demais para ignorar sua performance. Mas para quem conferiu o filme, que arrancou aplausos calorosos e a Palma de Ouro em Cannes, Emmanuelle Riva merece ser uma das finalistas, e não somente por sua longeva carreira.

No drama Amour, Georges (Jean-Louis Trintignant, outro ator octogenário com chances no Oscar) e Anne (Riva) são professores de música aposentados. A filha deles, que também é música, vive no estrangeiro com a família dela. Um dia, Anne tem um ataque cardíaco e o relacionamento afetivo é severamente testado.

Em diferentes escalas, daria pra comparar o casal com Henry Fonda e Katharine Hepburn, que ganharam o Oscar em 1982 pelo drama Num Lago Dourado. Como Amour se trata de um filme de atores, existe essa possibilidade de haver outra atriz maior de 40 anos vencendo o Oscar de atriz. Esta seria sua primeira indicação ao Oscar.

Maggie Smith (à esq) em Quartet

MAGGIE SMITH (Quartet)

Maggie Smith tem uma trajetória semelhante a de Helen Mirren. Coincidentemente, ambas foram indicadas ao Oscar de coadjuvante pelo mesmo filme em 2002 por Assassinato em Gosford Park. Contudo, Maggie teve maior êxito comercial devido ao sucesso dos oito filmes da série Harry Potter, no qual deu vida à feiticeira Minerva. Ela começou no cinema nos anos 50, em papéis secundários até brilhar como Desdemona ao lado do mestre Laurence Olivier na adaptação de Othello (1965), de William Shakespeare.

A década de 70 foi bastante generosa com Maggie Smith. Em 1970, levou seu primeiro Oscar como Melhor Atriz por A Primavera de uma Solteirona, e em 1979, outro como coadjuvante pela comédia estrelada por Jane Fonda, California Suite. Em sua vasta filmografia prevaleceram personagens coadjuvantes, mas em sua maioria produções de grandes estúdios. Chegou a trabalhar com Steven Spielberg em Hook – A Volta do Capitão Gancho (1991), ensinou Whoopi Goldberg a ser uma freira em Mudança de Hábito (1992) e foi a Duquesa de York na adaptação de Ricardo III (1995), ao lado de Ian McKellen e Annette Bening.

Já no começo deste século, com o bolso cheio graças aos Harry Potter, ela pôde escolher projetos de seu gosto pessoal, e acabou se envolvendo em dois filmes elogiados: O Exótico Hotel Marigold, no qual faz a personagem mais humorada (como foi em Assassinato em Gosford Park), e neste Quartet, dirigido pelo amigo e colega Dustin Hoffman. Nele, Maggie Smith interpreta uma diva da ópera que volta à sua cidade para a comemoração do aniversário do compositor clássico Giuseppe Verdi.

Com aquele típico humor britânico que corre em sua veias, ela tem boas chances no Oscar. Ao lado de Judi Dench, Emmanuelle Riva e Helen Mirren, Maggie Smith comprova que as veteranas ainda têm muito a ensinar às mais novas atrizes e por que não para o público jovem de hoje que só vê porcaria e atores de plástico? Viva a terceira idade!

Quvenzhané Wallis em Indomável Sonhadora

QUVENZHANÉ WALLIS (Indomável Sonhadora)

Eu sei… parece um daqueles golpes de marketing, mas quem viu o filme Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild), que venceu o grande prêmio em Sundance, garante que a pequena merece um lugar de destaque nessa temporada de premiação. Se a indicação ao Oscar vier, ela marcará um novo recorde na história do prêmio, sendo a atriz mais jovem indicada com 8 anos.

O drama independente Indomável Sonhadora vem conquistando o público e a crítica por sua mistura perfeita de fantasia infantil com uma dura realidade de pobreza em Louisianna, nos EUA. Para contar essa história, o jovem diretor estreante Benh Zeitlin testou mais de quatro mil meninas para o papel para encontrar Wallis. Felizmente, essa árdua procura teve um final feliz. E Zeitlin deu muita sorte também no papel de coadjuvante. Ele contratou Dwight Henry, que era dono da padaria do outro lado da rua do set de filmagens! Curiosamente, ambos estão no novo filme de Steve McQueen, diretor dos premiados Hunger (2008) e Shame (2011).

Normalmente, quando uma atriz-mirim está na lista de indicadas ao Oscar, as chances são praticamente nulas. Ganhar como coadjuvante pode acontecer como aconteceu com Tatum O’Neal (aos 10 em 1974 por Lua de Papel) e Anna Paquin (aos 11 em 1994 por O Piano), mas ganhar como Melhor Atriz?? O recorde de mais jovem nessa categoria ainda pertence a Marlee Matlin, que tinha 21 aninhos quando venceu em 1987 por Filhos do Silêncio. Estaria a Academia diposta a quebrar essa marca por um jovem prodígio como Quvenzhané Wallis?

Naomi Watts em O Impossível

NAOMI WATTS (O Impossível)

Se depender do sofrimento que o personagem passa para ganhar um Oscar, pode-se dizer que Naomi Watts já teria a estatueta na mão. No drama-catástrofe, O Impossível, de Juan Antonio Bayona, ela está no lugar errado e na hora errada, mais precisamente na Tailândia em 2004, palco das tsunamis que levaram muitas vidas.

A atriz britânica fazia filmes B de terror como O Elevador da Morte (2001) até que David Lynch mudou sua vida ao chamá-la para estrelar Cidade dos Sonhos (2001). Seu nome passou a ser conhecido por vários diretores que queriam trabalhar com ela como Gore Verbinski em O Chamado (2002), David O. Russell em Huckabees – A Vida é uma Comédia (2004) e Peter Jackson em King Kong (2005), onde abraçou o papel que consagrou Fay Wray e Jessica Lange.

Sua primeira e única indicação saiu pelo dramático 21 Gramas, de Alejandro González Iñárritu, no qual sua personagem vive maus bocados quando encontra o homem que recebeu o coração de seu ex-marido. Como Watts parece uma boneca de porcelana, o fato de viver personagens em situações que deterioram a imagem das mesmas parece colaborar para a qualidade da interpretação. Como deu certo com 21 Gramas, por que não daria com O Impossível?

Neste novo trabalho, ela busca sua sobrevivência e sua família em meio à catástrofe do tsunami. Naomi Watts fica toda coberta de lama e sua chapinha é arruinada pela água salgada. Claro que isso merece uma indicação! Brincadeiras à parte, o drama O Impossível conta uma história de superação e solidariedade, elementos que, combinados, costumam ganhar muitos votos.

Mary Elizabeth Winstead em Smashed

MARY ELIZABETH WINSTEAD (Smashed)

Pelo nome, a atriz Mary Elizabeth Winstead talvez passe desapercebida pelo grande público. Mais conhecida por papéis de coadjuvante em grandes produções como Duro de Matar 4.0, no qual viveu a filha de Bruce Willis, e o filme-video-game Scott Pilgrim Contra o Mundo, onde é a desejada Ramona Flowers. Conseguiu papéis de protagonista em filmes de terror como Premonição 3 (2006) e a recente refilmagem da refilmagem de O Enigma do Outro Mundo (2011).

Ao se sair bem no papel de uma alcóolatra em Smashed, de James Ponsoldt, Winstead parece querer provar ao mundo que seu talento não pára na beleza. No filme, ela vive Kate Hannah, que conhece seu marido por causa do forte vício ao álcool. Quando se cansa da bebida e tenta se livrar dela, acaba afetando o relacionamento.

Personagens que sofrem com alcoolismo costumam se sair bem na corrida ao Oscar. O grande Ray Milland venceu com méritos seu Oscar de Melhor Ator em 1946 em Farrapo Humano, de Billy Wilder. Nicolas Cage afundou no vício em Despedida em Las Vegas, de Mike Figgis, e saiu reconhecido pela Academia em 1996. E mais recentemente, em 2010, Jeff Bridges ganhou o seu Oscar em Coração Louco, ao interpretar o músico Bad Blake,que tem uma queda fácil pelo álcool.

Smashed saiu com o prêmio especial do júri no último Festival de Sundance e agora, a distribuidora Sony Pictures Classics está investindo na campanha para uma indicação a Mary Elizabeth Winstead. Pelo histórico dela, seria uma zebra.

Oscar 2013: Recorde de 71 filmes estrangeiros inscritos

Federico Fellini recebendo Oscar Honorário em 1993. O diretor levou quatro vezes Melhor Filme Estrangeiro para a Itália, além de doze indicações.

Uma nova marca é adicionada à história do Oscar. Setenta e um países inscreveram filmes para representá-los na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. É claro que o fato de concorrer oficialmente ao prêmio já seria um prestígio enorme, mas talvez esse aumento de participantes se deva à vitória de A Separação, de Asghar Farhadi, um filme iraniano pequeno que não pertence ao círculo de países de primeiro mundo que costuma ganhar nessa categoria.

Desde que a Academia criou a categoria internacional em 1957 (de 1948 a 1956, os filmes estrangeiros eram reconhecidos com Oscars Honorários), Itália e França são os maiores vencedores com dez e nove vitórias respectivamente. Contudo, ambos não ganham há um bom tempo. A última produção francesa a ganhar foi Indochina, de Régis Wargnier, em 1993, enquanto a Itália tem um jejum de treze anos desde que A Vida é Bela, de Roberto Benigni levou três prêmios naquele ano de 1999.

César Deve Morrer, dos irmãos Taviani: vencedor do Urso de Ouro em Berlim, representando a Itália no Oscar

E se depender do burburinho, a Itália pode voltar ao páreo com o César Deve Morrer, dos irmãos Vittorio e Paolo Taviani (sem previsão de estréia aqui). O docu-drama que mostra presidiários reais encenando a peça Júlio César, de Shakespeare, levantou polêmica e levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim desse ano. Não tem tanta cara de Oscar pelo lado polêmico, mas seria uma excelente oportunidade da Academia resgatar grandes nomes do cinema italiano.

Intocáveis, de Olivier Nakache e Eric Toledano: sucesso comercial e boas atuações garantem uma indicação ao Oscar

Maiores chances tem a França, pois conta com o sucesso comercial Intocáveis, de Olivier Nakache e Eric Toledano, que já consolidou a segunda melhor posição da bilheteria francesa de todos os tempos, faturando mais de US$ 300 milhões ao redor do mundo. A comédia dramática, ainda em cartaz nos cinemas de São Paulo, conta a história verídica de um aristocrata que ficou quadriplégico e contratou um jovem incomum para seus cuidados. Seu sucesso de público se deve à química dos atores principais, François Cluzet e Omar Sy, e pelo roteiro que explora muito bem as diferenças culturais dos dois personagens.

Amour, de Michael Haneke: diretor austríaco (à esq) dirige os veteranos Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant. A Palma de Ouro lhe deu a merecida notoriedade.

Entretanto, os franceses têm dura competição com o representante da Áustria: o drama Amour, de Michael Haneke, uma vez que arrebatou a última Palma de Ouro em Cannes e conta ainda com uma ótima dupla de atores, o casal Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, ambos cotados para indicações nas categorias de atuação. Conta a favor também o fato de Michael Haneke ter a segunda chance na categoria depois que perdeu em 2010 pelo forte drama A Fita Branca, quando concorria pela Alemanha.

Em termos de favoritismo, parece claro que os três filmes citados acima estão com maiores chances. Porém, como se trata de uma categoria bastante imprevisível às vezes, vale a pena ressaltar alguns trabalhos bem comentados até o momento pela mídia e que não são necessariamente do mainstream, como é o caso do romeno Beyond the Hills, de Cristian Mungiu. Foi graças ao diretor que o cinema da Romênia voltou ao cenário internacional em 2007, quando seu filme anterior, o drama 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias foi reconhecido pela Palma de Ouro. O fato de Beyond the Hills ter saído com dois prêmios de Cannes esse ano: Melhor Atriz (recebido pela dupla de protagonistas Cosmina Stratan e Cristina Flutur) e Melhor Roteiro (Cristian Mungiu) certamente colabora na campanha, mas por se tratar de temática religiosa e sobrenatural envolvendo exorcismo verídico, os votantes velhinhos podem molhar suas fraldas geriátricas e nem terminar de ver o filme até o fim.

Beyond the Hills, de Cristian Mungiu: exorcismo na Academia? Só se for pra compensar O Exorcista (1973).

O mesmo asco deve acontecer entre os votantes ao ver o filme sul-coreano Pietá, de Kim Ki-duk, pois contém violência (apenas alguns membros decepados) e cenas de incesto (coisa mais light hoje em dia). Apesar de ter levado o Leão de Ouro em Veneza, as chances do filme ficar entre os cinco finalistas são as mesmas do mundo acabar em 2012.

Outros concorrentes apresentam alguns elementos que podem facilitar a indicação. No caso do israelense Fill the Void, o prêmio Volpi Cup de Melhor Atriz para Hadas Yaron seria um bom adendo, mas convenhamos que a maioria vontante judia também dá uma forcinha. Já o dinamarquês A Royal Affair, de Nikolaj Arcel, que ganhou Melhor Ator e Melhor Roteiro em Berlim, ganha pontos pela produção caprichada de filme de época, com figurinos e direção de arte vistosos, contando com Mads Mikkelsen, ator em ascensão internacional.

A Suécia pode conseguir grande ajuda pelo peso do nome Lasse Hallström. O diretor chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado pelo drama sueco Minha Vida de Cachorro em 1988 e novamente como Melhor Diretor pelo meloso Regras da Vida em 2000. Lasse Hallström conseguiu comandar bons projetos em Hollywood, resultando em Gilbert Grape – Aprendiz de um Sonhador (1993), Chocolate (2000), Chegadas e Partidas (2001), Sempre ao seu Lado (2009) e mais recentemente o drama baseado no best-seller de Nicholas Sparks, Querido John (2010). Ele pode voltar a competir com The Hypnotist, adaptação literária homônima da obra de Lars Kepler.

The Hypnotist, de Lasse Hallström. O diretor retorna à gélida Suécia e volta a ter boas chances no Oscar.

Se forçar um pouco a barra, dá pra incluir na briga o musical no melhor estilo Bollywood, Barfi!. A última indicação da Índia aconteceu em 2002 com outro musical Lagaan – Era Uma Vez na Índia, de Ashutosh Gowariker. Quem sabe não sai uma dobradinha musical com uma possível vitória de Les Miserábles, de Tom Hooper? OK, já seria muita ilusão de minha parte…

E o que dizer da primeira participação da Quênia no Oscar? Eles selecionaram o drama Nairobi Half Life, de David ‘Tosh’ Gitonga. Obviamente, trata-se de uma produção de baixo orçamento que acompanha a trajetória de um jovem aspirante a ator que se muda para a cidade grande (Nairobi) a fim de tentar a sorte na carreira. Talvez o filme tenha baixa qualidade técnica pelas dificuldades do país, mas se mandaram bem no lado emotivo da história, por que não teria chances reais? Se uma coisa eu aprendi nesses anos acompanhando o Oscar foi que a categoria de Filme Estrangeiro privilegia a boa e velha catarse. Histórias que mexem com elementos de superação são os favoritos.

Nairobi Half Life, de David ‘Tosh’ Gitonga: Primeiríssima participação do Quênia no Oscar. Motivo de orgulho e torcida.

E o Brasil? Quando vem o bendito primeiro Oscar para o nosso país? Teria O Palhaço, de Selton Mello, boas chances de ficar entre os finalistas? Particularmente, gostei da escolha entre os filmes nacionais, pois mostra um Brasil diferente dos últimos retratos de Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007). Como já afirmei antes, a categoria diverge das demais em termos de votação. Já tentamos ganhar com Walter Salles (Central do Brasil) e Fernando Meirelles (Cidade de Deus) pelo prestígio internacional. Já apelamos pelos gostos dos votantes com Olga (2004), de Jayme Monjardim, e O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006), de Cao Hamburger. Nada. Então, mesmo que O Palhaço sequer figure entre os finalistas, pelo menos estamos tentando com novas perspectivas. O filme possui temática universal do circo, boas atuações e qualidades técnicas como fotografia e trilha. Quem sabe?

Vale lembrar que lista dos 71 filmes que participam da maratona do Oscar poderia ser de 72 filmes. O governo (patético) do Irã resolveu chamar a atenção da mídia ao cancelar a participação do país no Oscar como forma de protesto pelo vídeo (ainda mais patético) Inocência dos Muçulmanos, que o Youtube foi obrigado a retirar do ar por ordem do governo brasileiro (muito mais patético) que mesmo tendo mais de vinte anos de ditadura na História, ainda não aprendeu que censura é uma atitude desprezível que vai contra a liberdade que foi conquistada com muito suor e sangue. Azar também do pobre filme iraniano A Cube of Sugar, de Seyyed Reza Mir-Karimi, que teve que pagar o pato com essa história ridícula de boicote…
Segue lista completa em ordem alfabética:

Afeganistão: The Patience Stone, de Atiq Rahimi

África do Sul: Little One, de Darrell James Roodt
Albânia: Pharmakon, de Joni Shanaj

Alemanha: Barbara, de Christian Petzold
Argélia: Zabana!, de Said Ould Khelifa
Argentina: Clandestine Childhood, de Benjamín Ávila
Armênia: If Only Everyone, de Natalia Belyauskene
Austrália: Lore, de Cate Shortland
Áustria: Amour, de Michael Haneke
Azerbaijão: Buta, de Ilgar Najaf
Bangladesh: Pleasure Boy Komola, de Humayun Ahmed
Bélgica: Our Children, de Joachim Lafosse
Bósnia e Herzegovina: Children of Sarajevo, de Aida Begic
Brasil: O Palhaço, de Selton Mello
Bulgária: Sneakers, de Valeri Yordanov e Ivan Vladimirov
Camboja: Lost Loves, de Chhay Bora
Canadá: War Witch, de Kim Nguyen

Cazaquistão: Myn Bala: Warriors of the Steppe, de Akan Satayev
Chile: No, de Pablo Larraín;
China: Caught in the Web, de Chen Kaige
Colômbia: The Snitch Cartel, de Carlos Moreno

Coréia do Sul: Pieta, de Kim Ki-duk
Croácia: Vegetarian Cannibal, de Branko Schmidt
Dinamarca: A Royal Affair, de Nikolaj Arcel

Eslováquia: Made in Ash, de Iveta Grófová
Eslovênia: A Trip, de Nejc Gazvoda
Espanha: Blancanieves, de Pablo Berger
Estônia: Mushrooming, de Toomas Hussar

Filipinas: Bwakaw, de Jun Robles Lana
Finlândia: Purge, de Antti J. Jokinen
França: Intocáveis, de Olivier Nakache e Eric Toledano
Georgia: Keep Smiling, de Rusudan Chkonia
Grécia: Unfair World, de Filippos Tsitos
Greenland: Inuk, de Mike Magidson

Holanda: Kauwboy, de Boudewijn Koole
Hong Kong: Life without Principle, de Johnnie To
Hungria: Just the Wind, de Bence Fliegauf
Índia: Barfi!, de Anurag Basu
Indonésia: The Dancer, de Ifa Isfansyah

Islândia: The Deep, de Baltasar Kormákur
Israel: Fill the Void, de Rama Burshtein
Itália: Caesar Must Die, de Paolo Taviani e Vittorio Taviani
Japão: Our Homeland, de Yang Yonghi
Letônia: Gulf Stream under the Iceberg, de Yevgeny Pashkevich
Lituânia: Ramin, de Audrius Stonys
Macedônia: The Third Half, de Darko Mitrevski
Malásia: Bunohan, de Dain Iskandar Said

Marrocos: Death for Sale, de Faouzi Bensaïdi
México: After Lucia, de Michel Franco
Noruega: Kon-Tiki, de Joachim Rønning e Espen Sandberg
Palestina: When I Saw You, de Annemarie Jacir
Peru: The Bad Intentions, de Rosario García-Montero
Polônia: 80 Million, de Waldemar Krzystek
Portugal: Blood of My Blood, de João Canijo

Quênia: Nairobi Half Life, de David ‘Tosh’ Gitonga

Quirguistão: The Empty Home, de Nurbek Egen

República Dominicana: Jaque Mate, de José María Cabral

República Tcheca: In the Shadow, de David Ondrícek
Romênia: Beyond the Hills, de Cristian Mungiu
Rússia: White Tiger, de Karen Shakhnazarov
Sérvia: When Day Breaks, de Goran Paskaljevic

Singapura: Already Famous, de Michelle Chong
Suécia: The Hypnotist, de Lasse Hallström
Suíça: Sister, de Ursula Meier
Tailândia: Headshot, de Pen-ek Ratanaruang

Taiwan: Touch of the Light, de Chang Jung-Chi
Turquia: Where the Fire Burns, de Ismail Gunes
Ucrânia: The Firecrosser, de Mykhailo Illienko
Uruguai: The Delay, de Rodrigo Plá
Venezuela: Rock, Paper, Scissors, de Hernán Jabes
Vietnã: The Scent of Burning Grass, de Nguyen Huu Muoi

Seth MacFarlane apresentará o Oscar 2013

Seth MacFarlane: acreditem ou não, o host do Oscar 2013

Nem Billy Crystal, nem Whoopi Goldberg, nem Ellen DeGeneres. Os produtores da 85ª cerimônia do Oscar, Craig Zadan e Neil Meron, resolveram fazer uma aposta bem ousada com a escolha de Seth MacFarlane, mais conhecido por ser o criador da série animada Family Guy (Uma Família da Pesada) e American Dad! (desenhos que a Globo costuma passar de madrugada por ser impróprio para crianças). Por seu trabalho em Family Guy, MacFarlane levou dois prêmios Emmy, mas nunca foi host em nenhum tipo de premiação e aí é que mora o perigo. Não se sabe o que esperar dele e isso preocupa os pais americanos que já estão protestando publicamente nas redes sociais e grupos.

Este ano, para apimentar ainda mais a polêmica, MacFarlane lançou seu primeiro filme: Ted. Para quem ainda não viu, a comédia estrelada por Mark Wahlberg e Mila Kunis é sobre o ursinho de pelúcia Ted que, pelo desejo realizado de seu dono John Bennet, ganha vida e o acompanha desde sua infância até a idade adulta. O problema começa quando sua presença passa a incomodar no relacionamento com a namorada com seu mau comportamento.

E esse comportamento inadequado, que se resume a beber, fumar maconha e xingar meio mundo, acabou despertando a ira de um político brasileiro, que prefere aparecer na mídia com uma tentativa de censura do filme do que cuidar dos interesses do país. No caso, o deputado Protógenes Queiroz, do PC do B – SP, levou seu querido filho de 11 anos pra assistir ao filme. Mesmo ciente de que o filme tem censura de 16 anos, achou que por ter um ursinho fofo no pôster, mal não iria fazer para seu menino. Ledo engano. Saiu de lá revoltado e falando que Ted faz apologia às drogas. Sério, deputado?

Em rede social, declarou guerra: “O filme ‘Ted’ não esta apropriado para nenhuma faixa etária. Incentivar o consumo de drogas é crime, usando ainda ícones infantis. Não aceitamos mais esses enlatados culturais americanos no Brasil”.

Esses comunistas brasileiros… o que seríamos de nós sem eles? O Jornal da Tarde foi um dos meios de comunicação que atendeu ao pedido do político para aparecer na mídia e fez a charge abaixo:

Charge do Jornal da Tarde: Protógenes Queiroz em Um Dia de Fúria

Felizmente, a tentativa de Protógenes falhou. Como se suspeitava, era apenas fogo de palha.

Apesar das credenciais de homem de entretenimento, Seth MacFarlane é uma aposta arriscada não apenas pelo seu humor do tipo ácido corrosivo com o lado escatológico. Para quem conhece os seus desenhos animados, sabe que MacFarlane pode fazer um estrago e tanto no Oscar, especialmente se não colocarem os tais cinco segundos de atraso na transmissão (para os imprevistos de palavrões e gestos suspeitos como o seio de Janet Jackson no Super Bowl).

MAS… pior do que a dupla Anne Hathaway e James Franco não deve ser! Certo? Sou a favor de apostas mais arriscadas para a escolha do host do Oscar, pois por ser um programa televisivo, a cerimônia depende de audiência, e pra alcançar maiores números, precisa estar em sintonia com o público. Anne Hathaway e James Franco são apenas atores. Não têm experiência com comédias e nem musicais. Já Hugh Jackman, que foi host em 2009, além de contar com seus seguidores de seu personagem Wolverine, sabe cantar e dançar como ninguém: umverdadeiro “one man show”. Considero-o o novo Billy Crystal pela versatilidade nos números musicais e humor refinado.

Hugh Jackman em sua única apresentação no Oscar 2009: Boa audiência. (foto by Just Jared)

Particularmente, gostaria muito de rever Jon Stewart como anfitrião. Ele foi host duas vezes: em 2006 e 2008. Sabe cutucar as celebridades, mas com classe. Sabe satirizar o mundo político sem ser pedante nos discursos de abertura. E conta com uma equipe de produção que faz ótimos vídeos com sátiras de filmes. Que tal em 2014, hein Academia?

Jon Stewart, do The Daily Show: Já apresentou duas vezes com boa resposta do público.