Reality, de Matteo Garrone (2012)

Reality, de Matteo Garrone

Depois de ganhar notoriedade internacional com seu filme sobre a máfia italiana, Gomorra (2008), o diretor Matteo Garrone retornou esse ano em Cannes com Reality, uma comédia sobre a influência dos reality shows na sociedade. Sagrou-se novamente com o Grande Prêmio do Júri, considerado o segundo lugar na competição do Festival, que laureou Amour, de Michael Haneke.

Matteo Garrone pode ser considerado um cineasta do século XXI. Não dizem que o cinema do futuro será feito por todos? Pra realizar Gomorra, o diretor liberou uma bagatelazinha de 26 mil euros para mafiosos locais por proteção durante as filmagens em Nápoles. Em troca, a máfia declarou que tinha direito a opinião no corte final do filme. Essa relação da Arte com dinheiro é muito antiga, que vem desde a época do mecenato, em que artistas eram patrocinados pelos mecenas, ficando à mercê de suas opiniões pessoais.

Curiosamente, dois filmes lançados em 1994 abordam essa questão. Em Tiros na Broadway, de Woody Allen, John Cusack é um diretor de teatro na década de 20, que se vê obrigado a escalar a namorada sem talento de um gângster em sua peça para que seja produzida. Já no filme de Tim Burton, Ed Wood, o diretor precisa empurrar toda a sua equipe para o batismo para conseguir o dinheiro da igreja local e produzir seu longa de ficção científica.

Neste novo trabalho, Matteo Garrone tem uma nova polêmica. O protagonista de Reality, Aniello Arena, não pôde ir a Cannes para promover o filme. Atrasou-se? Ficou doente? Morreu? Não… ele estava preso! Sim, Aniello Arena está cumprindo uma pena de vinte anos por duplo homicídio!

Protagonista de Reality, Aniello Arena: 2 horas de fama e 20 anos de prisão.

Garrone o conheceu através de uma peça de teatro encenada por presidiários e já queria chamá-lo para atuar em Gomorra, mas o juiz não havia permitido. Apelando à justiça para liberá-lo, o diretor conseguiu o aval. Durante o dia, Aniello trabalhava no filme e de noite, voltava sob custódia da polícia.

Agora, imaginem como era o clima no set de filmagem? Quem atuaria tranquilamente ao lado de um assassino? Não sei como Matteo Garrone conseguiu essa proeza, mas as atuações no estilo italiano ficaram muito cômicas. Felizmente, a escolha de Aniello foi muito bem acertada, pois ele esbanja o carisma necessário para sua personagem e fotografa bem (lembra Roy Scheider e Sylvester Stallone) Em entrevista, Matteo Garrone negava as acusações de que teria contratado Aniello como forma de retribuição a Gomorra.

Elenco de Reality: o jeitão italiano de ser ao lado de um assassino

Em Reality, acompanhamos a história de Luciano (Aniello Arena), pai de família que tem uma peixaria e consegue uma renda extra revendendo eletrodomésticos. Certo dia, sua família insiste para que ele participe da seleção do reality show italiano do Big Brother (ou como eles chamam por lá: Il Grande Fratello). A proposta começa despretensiosa, apenas para agradar as filhas pequenas, mas ao longo dos próximos dias, Luciano se anima com a chance de ficar famoso e ganhar muito dinheiro, criando uma expectativa colossal para ser chamado.

Da segunda metade para o final, o espectador acompanha a degradação do protagonista, marcada pela ilusão e pela paranóia crescente de que pessoas ligadas ao Big Brother estariam observando-o e avaliando seu comportamento. Essa mania de perseguição lembra o cult A Conversação (1974), de Francis Ford Coppola, obviamente num nível light. Contudo, essa paranóia também causa estragos permanentes em Luciano e na desestruturação de sua família.

A produção foi indicada à Palma de Ouro ao lado de fortes concorrentes como Além das Montanhas, de Cristian Mungiu; Cosmópolis, de David Cronenberg; Moonrise Kingdom, de Wes Anderson; Um Alguém Apaixonado, de Abbas Kiarostami; Na Estrada, de Walter Salles; Ferrugem e Osso, de Jacques Audiard. Reality ficou com o Grande Prêmio do Júri, o segundo na curta carreira de Matteo Garrone.

Ele merece os créditos pela crítica à banalidade dos reality shows e pela coragem de escalar um presidiário para o papel principal. Poderia ter dado tudo errado com o ator transformando o set de filmagem num cenário sangrento, mas a história teve seu final feliz. Se formos justos, Aniello Arena merecia o prêmio de ator, mas acho que os organizadores do festival não estão preparados para esse tipo de reconhecimento.

Matteo Garrone recebendo o Grande Prêmio do Júri por Reality.

Assisti ao filme numa das sessões da 36ª Mostra de Cinema de São Paulo, que ocorre entre os dias 19 de outubro a 1º de novembro (com uns dias a mais de repescagem no final). Infelizmente, Reality ainda não tem previsão de estréia no Brasil. E não, Reality não é o representante da Itália no Oscar, mas Caesar Must Die, de Paolo Taviani e Vittorio Taviani. Curiosamente, o filme dos Taviani retrata um grupo de presidiários reais encenando Júlio César, de William Shakespeare.

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