Mulheres no Cinema

Zooey Deschannel como a inesquecível e inexplicável Summer de (500) Dias com Ela (photo by olszowy.com.pl)

Zooey Deschanel como a inesquecível e inexplicável Summer de (500) Dias com Ela (photo by olszowy.com.pl)

Primeiramente, Feliz Dia Internacional da Mulher!

Não sei exatamente qual a porcentagem de mulheres internautas e cinéfilas que perambulam pelo blog, mas desejo um dia excepcional a todas! Ao ler a coluna da Lúcia Guimarães, no jornal Estado de S. Paulo do dia 05 de março, descobri que a data comemorativa fora criada em 1909 nos EUA originalmente como o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, inspirada por socialistas numa época em que as mulheres sequer tinham direito ao voto.

Apesar da mulher de hoje ser tratada de forma mais digna, ainda falta muito para que ela alcance a igualdade plena. E vejo a data comemorariva como forma de nos lembrar de que essa luta ainda está longe do fim. Além de problemas como a desigualdade salarial, o que mais preocupa é a violência contra as mulheres, e não me refiro aos casos na terra do machismo extremo como no Oriente Médio, mas aqui no Brasil.

Só o aumento do número de delegacias da mulher já reflete essa escalada da violência doméstica. E embora a lei Maria da Penha tenha sido uma importante conquista, as denúncias contra os parceiros ainda são bastante tímidas devido às penas brandas. Infelizmente, ameaças não garantem um boletim de ocorrência, muito menos atitudes policiais. O Brasil ainda engatinha nessa importante questão para uma sociedade civilizada.

Mesmo que ainda estejamos distantes do ideal, espero que um dia não haja mais a necessidade do Dia Internacional da Mulher. Afinal, todo dia é dia da mulher. O que seríamos de nós, homens, sem as mulheres? Esposas, namoradas, mães, tias, primas, amigas, ficantes… a lista é extensa. Na tentativa de homenageá-las, recordei algumas personagens fortes que encantaram (ou assustaram) platéias do cinema. A seleção enxuta, que possui ordem aleatória, busca ressaltar essências femininas que fascinam: delicadeza, ternura, força e inteligência.

Linda Hamilton nos dois filmes de O Exterminador do Futuro (montagem por bodygeeks.com)

Linda Hamilton nos dois filmes de O Exterminador do Futuro (montagem por bodygeeks.com)

SARAH CONNOR (Linda Hamilton) em O Exterminador do Futuro (1984) e O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (1992)

Se a pergunta “Até onde uma mãe vai para salvar seu filho?” já mexe com os limites de uma mãe, imagine então para manter o filho vivo para salvar o planeta? No primeiro filme de James Cameron, a ficha ainda não caiu para Sarah Connor. Ela tem uma vida pacata, trabalhando como garçonete no subúrbio americano. Essa história maluca de que seu filho será uma importante peça para o futuro da humanidade mexe com toda a lógica da personagem.

Já convencida da veracidade do fim do mundo depois de ser quase assassinada por um ciborgue, no segundo filme, ela se prepara para a guerra, deixando o comportamento mais ingênuo de lado. Internada num hospital pisquiátrico por causa das previsões, ela utiliza artimanhas para fugir e finalmente procurar seu filho.

O que impressiona aqui é a transformação física e psicológica de Sarah Connor. A atriz Linda Hamilton se envolveu de tal forma com a história que acabou ganhando massa muscular e até feições masculinas, motivo pelo qual teria recebido críticas na época do lançamento. Curiosamente, Hamilton ficou casada com o diretor tirano James Cameron até pouco depois do sucesso de Titanic, quando ele resolveu trocá-la pela atriz Suzy Amis.

Michelle Pfeiffer como Mulher-Gato em Batman - O Retorno (photo by herocomplex.latimes.com)

Michelle Pfeiffer como Mulher-Gato em Batman – O Retorno (photo by herocomplex.latimes.com)

MULHER-GATO (Michelle Pfeiffer) em Batman – O Retorno (1992)

“Oi, querido! Cheguei!… Esqueci que não sou casada”. A solitária secretária Selina Kyle chega em casa e profere essa frase todos os dias. Morando sozinha, tendo como única companhia sua gatinha, ela anda estressada com sua vida profissional, familiar e amorosa. Ao contrário dos quadrinhos em que a personagem é uma ladra profissional, Selina muda de vida quando seu patrão Max (Christopher Walken), empurra-a da janela. Numa atmosfera sobrenatural, o filme de Tim Burton cria o alter-ego dela através das mordidas de vários gatos no cadáver gélido.

Ressuscitada e com nove vidas, ela passa por um processo de transformação. A Mulher-Gato é exatamente o oposto de Selina Kyle: livre, anárquica e apaixonante. Obviamente, essa nova vida dupla altera seu comportamento, dando-lhe auto-confiança em meio a tantos personagens masculinos da trama.

O filme pode ter recebido algumas duras críticas em relação ao lado caricato que Tim Burton queria imprimir, além da trama sombria demais, porém Michelle Pfeiffer saiu ilesa por sua interpretação como Mulher-Gato. Até hoje sua figura sensual serve como referência ao universo de Batman, algo que Anne Hathaway nem passou perto com Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

Diane Keaton inaugura um estilo em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (photo by moviepilot.de)

Diane Keaton inaugura um estilo em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (photo by moviepilot.de)

ANNIE HALL (Diane Keaton) em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)

Criativa, inteligente, carinhosa e com um estilo próprio, Annie Hall conquistou toda uma geração de homens e mulheres nos anos 70. Cantora amadora de clubes noturnos, ela conhece o comediante Alvy Singer (Woody Allen) através de amigos em comum numa partida de tênis em Nova York.

A atriz Diane Keaton cedeu um pouco de si mesma para poder criar essa personagem que modernizou a mulher no cinema. Annie Hall tinha atitude, voz ativa, independência, mas continuava feminina, graciosa com pitadas de loucura. No filme, acompanhamos a complexidade do protagonista Alvy, que faz terapia há 15 anos, conferindo o fracasso de seus casos amorosos anteriores. Quando Annie surge, ela consegue conquistar o coração dele de mansinho. Numa conversa mais séria, ela consegue impressioná-lo ao rebater seu papo filosófico, criando uma química que torna o sexo mais interessante. Vale ressaltar que o figurino de Annie, composta por peças masculinas como a gravata, gerou uma série de seguidores.

O diretor e roteirista Woody Allen tem fama de longa data pela criação de incontáveis personagens femininas marcantes. Além de Annie, podemos citar a atriz com problemas de grandiosidade Helen Sinclair em Tiros na Broadway, a atriz pornô Linda Ash de Poderosa Afrodite, a calorosa Nola Rice de Ponto Final – Match Point. Diane Keaton levou seu único Oscar pelo papel.

Sigourney Weaver como mãe em Aliens, o Resgate (photo by OutNow.CH)

Sigourney Weaver como mãe em Aliens, o Resgate (photo by OutNow.CH)

ELLEN RIPLEY (Sigourney Weaver) em Aliens, o Resgate (1986)

Guerreira, mãe e sobrevivente, esta personagem já passou muitos perrengues com a raça alienígena que invade sua nave Nostromo em Alien, o Oitavo Passageiro (1979). No primeiro filme, Ripley sequer era a personagem principal, mas ao longo dos quatro filmes, a atriz Sigourney Weaver, que trabalhou com 4 diretores diferentes, entrega uma nova faceta dessa mulher. Na sequência Aliens, o Resgate (1986), ela demonstra que é capaz de tudo para salvar a menina Newt, que a tomou como filha.

Ela cria uma espécie de pacto de nunca abandoná-la. E cumpre o que promete. Na sequência final, Ripley volta para o criadouro de aliens, repleto de ovos e encara a rainha deles para resgatar Newt. O instinto feminino de Ripley fala tão alto que chega a intimidar a líder dos alienígenas, não poupando esforços para salvar a menina, inclusive utilizando um traje mecânico para lutar corpo a corpo.

Tanto esforço acaba indo pelo ralo no início do terceiro filme da série. O jovem promissor David Fincher assume a cadeira de diretor e logo mata a menina e todos os demais tripulantes da nave, exceto Ripley, numa queda logo no início do filme, o que irritou bastante o diretor James Cameron (de Aliens, o Resgate).

Kathleen Turner em Mamãe é de Morte (photo by futuracast.wordpress.com)

Kathleen Turner em Mamãe é de Morte (photo by futuracast.wordpress.com)

BEVERLY SUTPHIN (Kathleen Turner) em Mamãe é de Morte (1994)

Proteção da família elevado ao nível extremo, Beverly se mostra a dona-de-casa exemplar do subúrbio americano, até que surgem investigações de crimes na região, sendo a primeira delas uma denúncia de ligações telefônicas em tom grosseiro. Kathleen Turner se transforma ao passar os trotes para sua vizinha, só porque ela roubou a sua vaga de estacionamento no mercado.

O diretor John Waters queria Susan Sarandon, mas o salário pedido foi muito alto, ainda mais depois do sucesso de Thelma & Louise (1991). Já em baixa após os bem-sucedidos anos 80, Kathleen Turner aceitou o papel se nitidamente ela se diverte interpretando Beverly.

Além dos crimes hediondos cometidos para agradar seus entes queridos, ela ainda consegue ser sua própria advogada no tribunal e reverter as evidências contra ela. Embora seja meio despirocada, a personagem leva à sério a segurança do núcleo familiar. Em tempos atuais de famílias sem a figura paterna, ela teria que se desdobrar ainda mais para cumprir suas obrigações e alimentar suas obsessões assassinas.

Holly Hunter dubla Elastigirl em Os Incríveis (photo by OutNow.CH)

Holly Hunter dubla Elastigirl em Os Incríveis (photo by OutNow.CH)

HELEN PARR (voz de Holly Hunter) em Os Incríveis (2004)

Enquanto 90% da população masculina votaria em Jessica Rabbit como personagem feminina em animação, gostaria de lembrar da figura arrebatadora de Helen Parr, a fantástica Elastigirl. Logo no começo quando ela fala para Mr. Incredible “You need to be more… flexible!” (Você precisa ser mais… flexível!)” e demonstra o quão flexível ela é, ela já comprova que sabe laçar um homem.

Já casada e mãe de três filhos, Helen NUNCA deixa a peteca cair. Ela cuida da família, coloca os filhos pra fazer tarefa de casa, pra dormir e ainda apóia o marido em tudo. Embora não queira mais vestir o uniforme de sua identidade secreta de Elastigirl, ela dá conta do recado quando requisitada para salvar o marido na selva de Syndrome. Na sequência da explosão do avião, ela toma uma importante decisão de incentivar a filha Violet a usar seus poderes, mas quando falha, ela logo corre para proteger seus filhos com o próprio corpo.

Com tantas coisas para cuidar, Helen não deixa de cuidar do visual. O diretor Brad Bird caprichou no quadril da personagem e ainda criou a breve cena da foto acima que dá um toque feminino. Há tempos eu não via uma personagem tão completa e contemporânea nas animações. Além disso, a voz sexy de Holly Hunter torna tudo mais gostoso de ouvir.

Joan Allen em A Outra Face da Raiva (photo by OutNow.CH)

Joan Allen em A Outra Face da Raiva (photo by OutNow.CH)

TERRY ANN WOLFMEYER (Joan Allen) em A Outra Face da Raiva (2005)

Abandonada por seu marido, que fugiu com a secretária para a Suécia, Terry se vê desorientada para tocar a vida e cuidar de suas quatro filhas jovens. Para agravar ainda mais sua situação desoladora, cada uma delas enfrenta dificuldades comuns nas áreas dos estudos, trabalho e amor, o que gera calorosas discussões em casa.

Mas engana-se aquele que prevê um dramalhão chato. Joan Allen não deixa a peteca cair, tocando a vida de sua personagem de forma amargamente apaixonante e sem nunca perder o bom humor. Esse comportamento acaba atraindo a atenção do vizinho Denny (Kevin Costner), um ex-jogador de beisebol, que anda exagerando no álcool. Apesar de problemático, vemos nele uma figura importante para o equilíbrio dela.

Com uma boa dose de humor negro por parte da direção de Mike Binder, que também atua como o namorado de uma de suas filhas, A Outra Face da Raiva ganha pontos por retratar a vida de uma família após a saída do pai sem apelar para emoções fáceis. Pena que Joan Allen não teve lobby suficiente para chegar à lista do Oscar de Melhor Atriz, pois merecia maior reconhecimento.

Jodie Foster como a agente Clarice Starling em O Silêncio dos Inocentes (photo by collider.com)

Jodie Foster como a agente Clarice Starling em O Silêncio dos Inocentes (photo by collider.com)

CLARICE STARLING (Jodie Foster) em O Silêncio dos Inocentes (1991)

Agente novata do FBI, Clarice Starling é uma bela jovem num universo masculino, o que a torna um centro de atenções. Para sobreviver nessa rotina, ela busca mascarar sua feminilidade com uma fachada séria e fria. Essa dualidade encontrada em incontáveis mulheres de sucesso que adentram o universo masculino como o dos negócios, acaba instigando todos os homens ao seu redor por sua dedicação.

Clarice se aproveita disso e cria um elo forte com o assassino Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) para desvender o sumiço da filha de uma importante senadora americana. A investigação acaba mexendo também em seus próprios traumas passados como a morte de seu pai policial e a tentativa de libertar os pobres cordeirinhos da fazendo do tio.

Para criar a vida de Clarice, Jodie Foster participou de um intenso treinamento ao lado de agentes do FBI. Ela estudou fichas criminais e aprendeu a manusear armas de fogo. Esse esforço foi extremamente importante para dar veracidade à sua performance, uma vez que a beleza da personagem poderia facilmente atrapalhar na imagem de agente do FBI. Sua atuação rendeu seu segundo Oscar de Melhor Atriz em 1992.

Uma Thurman em Kill Bill (photo by gunslot.com)

Uma Thurman em Kill Bill: Vol. 2 (photo by gunslot.com)

A NOIVA (Uma Thurman) em Kill Bill: Vol. 1 (2003) e Kill Bill: Vol. 2 (2004)

A Noiva tem seu casamento interrompido por ex-colegas de profissão (leiam-se assassinos mercenários), que matam todos os presentes na pequena igreja e ainda dão um tiro na cabeça dela. Infelizmente, a bala não a matou e agora ela tem que sair do coma para buscar uma das mais sangrentas vinganças da história do Cinema.

No primeiro filme, vemos uma mulher forte e praticamente indestrutível ao derrotar os Crazy 88 num restaurante japonês em Okinawa. A facilidade com que ela elimina seus oponentes provém da sede de vingança, mas nitidamente se trata de um filme mais físico que abusa da ação.

Já no segundo, temos uma análise psicológica, quando vemos a Noiva em estado mais vulnerável. A personagem deixa de ser bidimensional quando o diretor Quentin Tarantino aprofunda suas raízes nas artes marciais ao lado do mestre Pai Mei, e no seu ponto mais fraco: sua filha, que sobreviveu ao massacre, agora cuidada por Bill. Essa sensibilidade maternal transforma a vida da Noiva, afinal, ela desistiu de ser assassina para poder criar uma família.

Anne Bacroft em A Primeira Noite de um Homem (photo by top10films.co.uk)

Anne Bacroft em A Primeira Noite de um Homem (photo by top10films.co.uk)

MRS. ROBINSON (Anne Bancroft) em A Primeira Noite de um Homem (1967)

Pra quem acha que sogra é tudo igual, assista a A Primeira Noite de um Homem. Lá, vemos o rapaz Benjamin (Dustin Hoffman) que passa a conviver com uma amiga dos seus pais, a Mrs. Robinson. O envolvimento se aquece até que ela dá o primeiro movimento numa noite em sua casa. Embaraçado, Benjamin solta uma das mais famosas frases do Cinema: “Senhora Robinson, você está tentando me seduzir. Não é?”. Mrs. Robinson dá risada.

Anne Bancroft se tornou um ícone da mulher mais velha e deu origem à canção “Mrs. Robinson”, da dupla Simon & Garfunkel. Presa a um casamento estagnado, ela busca um pouco de aventura como a clássica personagem de Gustave Flaubert, Madame Bovary, uma senhora da burguesia provinciana insatisfeita com o casamento e que busca a felicidade que falta na infidelidade.

A personagem acaba perdendo terreno quando seu alvo se apaixona por sua filha. Bancroft entrega uma performance que parte da sedução e satisfação até a dor de ser esquecida a ponto de se tornar rabugenta. O diretor Mike Nichols queria uma atriz francesa para o papel devido à cultura do país em que as mulheres mais velhas iniciam os rapazes na vida sexual, mas Anne Bancroft conseguiu imortalizar a figura de Mrs. Robinson, mesmo sendo apenas 6 anos mais velha que Dustin Hoffman.

Frances McDormand em Fargo (photo by cinemasquid.com)

Frances McDormand em Fargo (photo by cinemasquid.com)

MARGE GUNDERSON (Frances McDormand) em Fargo (1996)

Numa trama macabra que envolve um sequestro falso que resulta na morte de várias pessoas, a chefe de polícia Marge Gunderson, que está gravidíssima com todos os devidos enjôos matinais, assume a investigação. Em todas as cenas em que Marge aparece, vemos ela comendo ou deitada com o marido, fornecendo um elemento aquecedor para uma trama tão fria num local ainda mais gélido como Minnesota.

Com um sotaque da região bastante afiado, Frances McDormand cria uma personagem que tem uma visão otimista e simples da vida, refletindo seus pensamentos em gestos, senso de humor e graça. Como está grávida, ela fica mais lenta para as atividades diárias e mais vulnerável fisicamente, mas isso não a impede de realizar suas tarefas, mesmo que tenha que parar num buffet antes.

Fargo é um filme que procura contrastar a extrema violência do mundo contemporâneo com os valores humanos, aqui representados pela figura da policial. Em seu discurso final, Marge finalmente muda de feição: “I just don’t understand it… (Não consigo entender)”. Só uma mulher para proferir tais palavras. Frances McDormand levou o Oscar de Melhor Atriz, e os irmãos Coen, Melhor Roteiro Original.

Meg Ryan como Sally em Harry & Sally - Feitos um Para o Outro (photo by nicksflickpicks.com)

Meg Ryan como Sally em Harry & Sally – Feitos um Para o Outro (photo by nicksflickpicks.com)

SALLY ALBRIGHT (Meg Ryan) em Harry & Sally – Feitos um Para o Outro (1989)

Meg Ryan interpreta aquela colega da faculdade por quem nós, homens, nos apaixonamos inconscientemente. Ela é inteligente, trabalhadora, tem excelente humor e aquele probleminha chamado “beleza”. Harry (Billy Crystal) tem uma forte teoria de que o homem jamais pode ser amigo de uma mulher, porque a beleza atrapalha.

Bem, se atrapalha a amizade, que tal aquela amizade colorida? Numa das melhores cenas, Sally finge um belo orgasmo numa lanchonete só para contrariar a opinião do amigo Harry. Que mulher! O roteiro de Nora Ephron brilha por sua relação com a realidade. Até então, comédias românticas ainda vinham da escola de Doris Day, nas quais os personagens tinham características definidas e comuns. Seguindo a mesma essência, o diretor Rob Reiner coletou depoimentos de casais reais para incrementar a veracidade da história complicada de Harry e Sally.

Meg Ryan ficou tão marcada por esse papel que acabou se tornando a namoradinha da América no começo dos anos 90, quando estrelou as comédias românticas ao lado de Tom Hanks: Joe Contra o Vulcão (1990), Sintonia de Amor (1993) e Mens@gem Para Você (1998). Para os fãs de comédia romântica, o filme serviu como base para outro sucesso recente: (500) Dias com Ela, com Zooey Deschannel e Joseph Gordon-Levitt.

Glenn Close em Atração Fatal (photo by ftmovie.com)

Glenn Close em Atração Fatal (photo by ftmovie.com)

ALEX FORREST (Glenn Close) em Atração Fatal (1987)

Toda vez que uma moça ficar no encalço de um homem, logo vem a memória a imagem de Glenn Close como a maníaca Alex. No filme, ela se envolve com um homem casado (Michael Douglas), mas que simplesmente surta quando ele resolve dar um chute na bunda dela. Aí vêm os truquezinhos dela para segurá-lo, como falar que está grávida, tentar se matar ou matar animaizinhos de estimação da filha dele.

O papel foi oferecido a incontáveis atrizes, inclusive Isabelle Adjani e Barbara Hershey, mas indo contra todas as expectativas, Glenn abraçou o projeto. Sua primeira atitude foi levar o roteiro para dois psicólogos para questionar o quão real era o comportamento de sua personagem. O diagnóstico de ambos revelou que ela sofreu abusos quando criança, tornando-a uma pessoa violenta com quem a considere atraente.

Atração Fatal ficou marcado pelos anos do auge da AIDS nos anos 80, mas para quem acha que o filme está desatualizado, basta dar uma olhada em algumas mulheres mais ciumentas que ficam 100% do tempo de vigia no facebook do namorado! Curiosamente, segundo a atriz, as pessoas ainda vêm até ela para lhe dizer “obrigada, você salvou o meu casamento!”. Glenn Close foi indicada ao Oscar pelo papel.

Audrey Hepburn e seu gato em Bonequinha de Luxo (photo by theladyandthecat.tumblr.com)

Audrey Hepburn e seu gato em Bonequinha de Luxo (photo by theladyandthecat.tumblr.com)

HOLLY GOLIGHTLY (Audrey Hepburn) em Bonequinha de Luxo (1961)

Apesar do autor do romance, Truman Capote, ter escolhido a musa Marylin Monroe para dar vida à protagonista, o estúdio optou em escalar uma figura oposta e bem menos óbvia: Audrey Hepburn, que ganhou fama por sua graciosidade em filmes anteriores como A Princesa e o Plebeu (1953), Sabrina (1954) e Cinderela em Paris (1957).

Em colaboração com o diretor de comédias, Blake Edwards, a atuação de Hepburn como Holly Golightly ganhou muito em leveza, graça e estilo, marcando para sempre a atriz no cinema, mas para quem conhece o livro, o tom da história é bem mais pesado. No original, Holly flerta com a bissexualidade, mas tal fato é omitido para se adequar ao conservadorismo de Audrey, que já era uma estrela. No filme, mal se percebe que sua personagem é uma prostituta!

Com tamanhas alterações, Bonequinha de Luxo acabou se tornando um clássico da comédia romântica, e hoje o corpo de Truman Capote deve estar se revirando no caixão. Contudo, Hepburn criara uma figura facilmente identificável com o público feminino pelo jeito carinhoso, tresloucado, sua paixão por gatos e sua busca por amor verdadeiro. Audrey Hepburn foi indicada para o Oscar de Melhor Atriz.

Thora Birch em Ghost World - Aprendendo a Viver (photo by frontroomcinema.com)

Thora Birch em Ghost World – Aprendendo a Viver (photo by frontroomcinema.com)

ENID (Thora Birch) em Ghost World – Aprendendo a Viver (2001)

Para quem conhece os quadrinhos do americano Daniel Clowes, Thora Birch incorpora a personagem Enid, uma adolescente que não sabe o que fazer depois de se formar do 2º grau. Seu único plano é de se mudar para um apartamento com a melhor amiga Rebecca (Scarlett Johansson), mas as coisas não dão certo.

Mesmo assim, ela permanece fiel à si mesma, não deixando o mundo ensiná-la a viver sua vida do jeito “normal”. Ela se desvia do caminho comum das moças interessadas em moda, rapazes e faculdade para andar com tipos mais estranhos, abusar da sinceridade em seus empregos e conhecer gente interessante, como o solitário Seymour (Steve Buscemi), que coleciona discos de blues.

Embora seja uma pessoa deslocada, Enid sustenta autenticidade e defende suas crenças e perspectivas com afinco, mesmo com uma fachada fria no rosto. Interessante ver como a personagem busca manter sua essência numa sociedade cada vez mais massificada. Thora Birch faz seu melhor trabalho da carreira. Pena que nunca mais deslanchou um bom filme.

Sissy Spacek em cena inicial de Carrie, a Estranha (photo by quermedar.com.br)

Sissy Spacek em cena inicial de Carrie, a Estranha (photo by quermedar.com.br)

CARRIE WHITE (Sissy Spacek) em Carrie, a Estranha (1976)

Criada debaixo da asa da mãe, a adolescente Carrie nunca foi popular na escola. De comportamento tímido e bastante quieta, sua reputação sofre um baque quando ela surta no vestiário feminino quando vê sangue escorrendo nas suas pernas. Sem a mínima informação sobre menstruação, ela vira alvo predileto das outras colegas.

Além desse incidente na escola, Carrie ainda sofre com o fanatismo religioso da mãe (Piper Laurie), que a proíbe de sair de casa e a isola de novas amizades. Mas, como todas as adolescentes americanas sonham com a noite do baile, a adolescente gostaria de participar do evento. Ela acaba conseguindo através de uma armação feita pela colega Chris (Nancy Allen) com o objetivo de humilhá-la na frente de todos com um banho de sangue de porco.

Como se trata de uma história baseada em romance de terror do cultuado Stephen King, a jovem descobre que tem o poder da telecinésia. E a noite romântica se torna um inferno na terra. Sem controle nenhum, Carrie quer dar o troco a todo custo. Esse filme mexe muito com o imaginário de várias mulheres ainda hoje, tanto que uma refilmagem está prevista para estrear no final de 2013, com a talentosa Chlöe Grace Moretz.

Claro que existem inúmeras personagens femininas não citadas nessa lista como Scarlett O’Hara de … E o Vento Levou, ou Mary Poppins. Não tinha intenção de fazer uma cobertura completa, mas mais pessoal. Caso queira acrescentar mais nomes à lista, fique à vontade para incluir um comentário!

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2 Comentários

  1. Bia

     /  março 15, 2013

    Oi, Pe!!!
    Tudo bem?

    Estou comentando só agora esse post, mas na verdade já havia lido bem no dia em que você postou. Digo bem no dia, pois como sabia do seu projeto de escrever para o Dia da Mulher, fiquei muito ansiosa para saber o que viria daí! E gostei muito do que vi!!!! E fico mais feliz por conhecer alguns dos filmes citados!!!! =)
    Ah!!! E sabe o filme “(500) Dias com Ela”? Assisti por esses dias e adorei!!!! E outro também que já assisti umas 4 vezes e amei, foi Sabrina!!!! Peguei um amor – quase incondicional – por Audrey Hepburn!!!! Quero conhecer todos os filmes em que ela esteve presente! E você pode me ajudar com isso, quem sabe?! =)

    Bom, é isso!!!
    Muito obrigada pela lembrança do Dia da Mulher e muito obrigada pelo post divertido e delicado, inspirado em nós mulheres!

    Beijinhos…

    Responder
    • Oi, pe! Demoro uns dias pra responder os comentários, mas antes tarde do que nunca! Que bom que vc curtiu o post das mulheres. Na verdade, eu precisava de mais uma semana pra terminar o post, mas não tive tempo hábil. Vc assistiu a quantos dos filmes? Eu recomendaria o “Harry & Sally – Feitos um Para o Outro”, porque é uma espécie de fundador do gênero comédia romântica moderna.

      Quanto a Audrey, confesso que não sou muito fã dela como atriz. Ela tinha algumas exigências em relação aos papéis para manter sua imagem de boa moça. Por isso importar mais do que o desafio de atuar em si, não acompanhei tanto a carreira dela. Mas por outro lado, sobra carisma e graça, e isso que acabou conquistando milhares de seguidores. Se vc gostou de “Sabrina”, pode conferir “A Princesa e o Plebeu”, “Cinderela em Paris” e “Minha Bela Dama” que são da mesma linha. Já “Charada” é mais um mistério light e criativo, enquanto em “Um Clarão nas Trevas”, ela faz uma cega que tem o apartamento invadido por ladrões em busca de uma boneca com drogas. E talvez o mais polêmico seja “Infâmia”, em que ela faz uma professora lésbica ao lado da Shirley MacLaine. Não vi, mas sempre li coisas boas a respeito. Enfim, provavelmente seja melhor vc ver os mais parecidos com “Sabrina” primeiro… Já viu finalmente o “Bonequinha de Luxo”?

      Responder

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