Jim Carrey condena a violência de ‘Kick-Ass 2’

Jim Carrey como o Coronel Stars and Stripes em Kick-Ass 2 (photo by www.beyondhollywood.com)

Jim Carrey como o Coronel Stars and Stripes em Kick-Ass 2 (photo by http://www.beyondhollywood.com)

Kick-Ass 2, sequência do sucesso da adaptação de quadrinhos homônima criados por Mark Millar e John Romita Jr., só tem previsão de estréia para agosto (e setembro no Brasil), mas já enfrenta uma controvérsia nos bastidores. No último domingo, Jim Carrey, que atuou como o personagem Coronel Stars and Stripes nessa sequência, cuspiu no prato que comeu e tuitou algumas ressalvas quanto ao filme:

“I did Kickass a month b4 Sandy Hook and now in all good conscience I cannot support that level of violence… I meant to say my apologies to others involve with the film. I am not ashamed of it but recent events have caused a change in my heart. (Atuei em Kick-Ass 2 um mês antes do (massacre da escola) Sandy Hook e agora, em sã consciência, não posso apoiar aquele nível de violência… Minhas desculpas para os demais envolvidos no filme. Não tenho vergonha desse trabalho, mas acontecimentos recentes mudaram meu coração)”

Para quem não se lembra, em dezembro de 2012, a escola primária Sandy Hook, localizado no estado de Connecticut, sofreu um atentado. Adam Lanza, de 20 anos, invadiu a escola portando três armas de fogo, matando seis funcionários e vinte alunos com idades entre 6 e 7 anos.

Essa mudança repentina de opinião de Jim Carrey pegou de surpresa os profissionais envolvidos na produção, inclusive o criador e produtor-executivo Mark Millar que, além de suspeitar que o trailer recentemente lançado tenha ligação direta, postou uma resposta em seu blog, do qual retiro alguns trechos mais importantes:

Roteirista e criador de Kick-Ass, Mark Millar (photo by www.popground.com)

Roteirista e criador de Kick-Ass, Mark Millar (photo by http://www.popground.com)

“Primeiramente, eu amo Jim Carrey. Quando o produtor Matthew Vaughn e o diretor Jeff Wadlow me chamaram e sugeriram que fizéssemos uma chamada de conferência com ele para conversarmos sobre a sequência, fique genuinamente excitado. Como vocês, eu amo ‘Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças’, ‘O Mundo de Andy’ e ‘O Show de Truman – O Show da Vida’. Carrey é um ator como nenhum outro, uma imprevisível força da natureza que traz calor e humanidade ao trabalho assim como aquele energia indestrutível que ele sempre renova. Ele almoçou com Matthew na época do primeiro filme e gostou tanto que apareceu vestido como Kick-Ass naquela noite no programa de Conan O’Brien, fazendo um dueto com Conan vestido como Super-Homem. Vaughn e eu combinamos que deveríamos trabalhar com esse cara assim que surgir uma oportunidade porque somos grandes admiradores. Agora, após três anos, estou sentado numa sala de projeção em Londres assistindo a que considero uma das melhores performances de Carrey.

Como vocês sabem, Jim é totalmente a favor do controle de armas e eu respeito sua política e sua opinião, mas estou perplexo por suas declarações porque não há nada neste filme que não estivesse no roteiro há 18 meses. Sim, o número de mortes é alto, mas um filme chamado ‘Kick-Ass 2’ tem que entregar o que promete. A continuação do filme que nos apresentou a personagem Hit-Girl precisa ter muito sangue no chão e isso não deveria surpreender alguém que gostou tanto do primeiro filme (lançado em 2010).

À esquerda, o personagem Coronel Stars and Stripes no quadrinho de Mark Millar e John Romita Jr. Já à direita, temos Jim Carrey e seu pastor alemão caracterizados perfeitamente (photo by www.empireonline.com)

À esquerda, o personagem Coronel Stars and Stripes no quadrinho de Mark Millar e John Romita Jr. Já à direita, temos Jim Carrey e seu pastor alemão caracterizados perfeitamente (photo by http://www.empireonline.com)

Como Jim, estou horrorizado com violência do dia-a-dia (mesmo eu sendo escocês), mas ‘Kick-Ass 2’ não é um documentário. Nenhum ator se feriu nas filmagens! Trata-se de uma ficção e como (Quentin) Tarantino e (Sam) Peckinpah, (Martin) Scorsese e (Clint) Eastwood, John Boorman, Oliver Stone e Chan-Wook Park, ‘Kick-Ass’ evita ser aquele filme de verão americano repleto de mortes e foca nas CONSEQUÊNCIAS da violência, sejam as ramificações para amigos e família ou, como vimos no primeiro filme, o personagem Kick-Ass passando seis meses no hospital depois de sua primeira interferência como herói nas ruas. Ironicamente, o personagem de Jim em ‘Kick-Ass 2’ (Coronel Stars and Stripes), é um cristão renascido, e o fato de ele se recusar a usar arma de fogo fez com que ele se interessasse pelo papel em primeiro lugar.

Jim, eu te amo e espero que você reconsidere todos os pontos citados. Você está espetacular neste insanamente divertido filme e estou muito orgulhoso com o que Jeff, Matthew e toda a equipe fizeram aqui.”

Claro que essa discussão da violência entre Jim Carrey e o produtor e criador Mark Millar reabre a velha questão das armas nos EUA. No ano passado, alegando ser o personagem anárquico Coringa, James Holmes matou 12 pessoas durante sessão de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, além de várias tragédias envolvendo armas de fogo em solo americano. Infelizmente, as pessoas não nascem com o rótulo de “LOUCO” ou “SÃO” na testa, por isso o controle de armas se faz urgente. Em abril desse ano, o presidente Barack Obama promoveu uma reforma, mas o número de senadores a favor não foi o suficiente para a aprovação. Os EUA têm uma cultura muito forte com armas de fogo, principalmente em estados tipicamente republicanos em que a NRA (National Rifle Association) dá as cartas, sem contar a indústria composta por empresários poderosos.

O presidente barack Obama (centro) assina medidas para o controle de armas nos EUA em janeiro de 2013 (photo by www.whitehouse.gov)

O presidente Barack Obama (centro) assina medidas para o controle de armas nos EUA em janeiro de 2013 (photo by http://www.whitehouse.gov)

Quanto a Jim Carrey, seria desumano criticá-lo por ter mudado de idéia. Pessoas que trabalham com violência (mesmo a de mentirinha) estão sujeitos a repensar suas vidas após uma tragédia. Vivemos tempos extremamente violentos e, infelizmente, muitas vezes a culpa recai sobre o Cinema, o qual nunca buscou promover a violência de forma gratuita. Grandes cineastas como aqueles que Millar citou em seu post, como Martin Scorsese e Sam Peckinpah, apenas retratavam a violência para justamente gerar uma discussão sobre suas consequências para a sociedade.

Embora Kick-Ass 2 se encaixe mais na linha do entretenimento, nem por isso sua leitura da violência deve ser vista como banal. Por mais que contenha elementos fantasiosos, todo filme reflete o ser humano e a sociedade em que vive. Jamais o contrário. E Jim Carrey sabe disso e, assim, poderia manter seus pensamentos para si ou justificar-se apenas para a equipe para quem trabalhou.

Kick-Ass 2 tem previsão de estréia para o dia 13 de setembro.

Segredos de Sangue (Stoker), de Chan-wook Park (2013)

Pôster original de Segredos de Sangue, de Chan-wook Park

Pôster original de Segredos de Sangue, de Chan-wook Park

DIRETOR SUL-COREANO CONSEGUE IMPRIMIR ESTILO VISUAL SINGULAR, MAS PÁRA NAS PISTAS FALSAS

A primeira vez que ouvi falar de Segredos de Sangue, ainda não havia título em português. Era simplesmente Stoker. Obviamente, acreditava haver algo de Bram Stoker, o consagrado autor de Drácula. Mas era apenas uma pista falsa. Aliás, este é o maior defeito do filme: um excesso de pistas e referências que não recria e não leva a lugar algum.

Segredos de Sangue é o primeiro trabalho do diretor sul-coreano Chan-wook Park em língua inglesa. Para quem desconhece seu nome, trata-se do controverso autor da trilogia da vingança, composta pelos filmes: Mr. Vingança (Sympathy for Mr. Vengeance/ 2002), Oldboy (2003) e Lady Vingança (Sympathy for Lady Vengeance/2005), além do mais recente Sede de Sangue (2009), no qual temos um padre que se torna vampiro. Assim como outros realizadores estrangeiros, ele busca seu lugar ao sol em Hollywood, mas como na maioria dos casos, também tem que aprender a se submeter às ordens de estúdios e produtores.

O diretor sul-coreano Chan-wook Park (à dir.) parece precisar de um tradutor para dar instruções à jovem Mia Wasikowska (à esq) em set de filmagem (photo by www.beyondhollywood.com)

O diretor sul-coreano Chan-wook Park (à dir.) parece precisar de um tradutor para dar instruções à jovem Mia Wasikowska (à esq) em set de filmagem (photo by http://www.beyondhollywood.com)

Ao assistir ao seu novo filme, tem-se a impressão de que tanto o roteirista como o diretor conferiram recentemente a filmografia do mestre do suspense Alfred Hitchcock. Enquanto há referências diretas do roteiro como a presença do personagem do tio Charlie, que remete a Sombra de uma Dúvida (1943) e os estrangulamentos de Frenesi (1972), temos também referências visuais de Psicose (1960) como a policial com óculos escuros na estrada.

Claro que usar Hitchcock como base e referência demonstra excelente gosto por parte dos realizadores. Há umas décadas atrás, o americano Brian De Palma era considerado o grande pupilo do diretor britânico, levando em conta principalmente seu filme Vestida Para Matar (1980). Nele, temos uma história de assassinatos, dupla personalidade e até uma cena de chuveiro, enquanto o compositor italiano Pino Donaggio buscava imprimir tons agudos de Bernard Herrmann.

Tio Charlie com a sobrinha em Sombra de uma Dúvida (1943), de Alfred Hitchcock

Tio Charlie (Joseph Cotten) com a sobrinha (Teresa Wright) em Sombra de uma Dúvida (1943), de Alfred Hitchcock

Matthew Goode, como Tio Charlie, com sua sobrinha (Mia Wasikowska)

Matthew Goode, como Tio Charlie, com sua sobrinha (Mia Wasikowska)

Entretanto, enquanto Chan-wook Park se limita a copiar e colar referências hitchcockianas buscando apelo visual, De Palma se apoiou nas referências para criar algo inteiramente com seu estilo. Para quem viu Vestida Para Matar, certamente se lembrará de algumas cenas marcantes como a morte no elevador e a perfeitamente bem orquestrada seqüência sem cortes no museu.

Claro que eram outros tempos. Na época em que produtores e diretores ainda caminhavam juntos e tratavam filmes como arte, e não produtos. Hoje, como mencionado anteriormente, muitos diretores estrangeiros são importados, mas não têm carta branca para criar, mesmo se tratando de um roteiro original. É o que muitos chamam de cinema globalizado. Dois dos nossos melhores diretores participaram desse esquema: Walter Salles e Fernando Meirelles.

Contudo, enquanto o primeiro decidiu refilmar um terror japonês (Água Negra/ 2005) e naufragou nas bilheterias, o segundo, apoiado pela indicação ao Oscar de diretor por Cidade de Deus, foi mais esperto e adaptou um romance de John Le Carré (O Jardineiro Fiel/ 2005) e acabou sendo premiado com o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante para Rachel Weisz.

Como Chan-wook “só” ganhou o Grande Prêmio do Júri em Cannes por Oldboy, não contou com muitas regalias. Porém, exigiu que mantivessem seu colaborador e diretor de fotografia Chung-hoon Chung a fim de, pelo menos, sustentar sua identidade visual, resultando um belíssimo filme. Além de composição impecável nos enquadramentos, Chung trabalha a paleta de cores para que acompanhe o clima da casa dos Stoker em tempos de luto.

Tensão sexual entre cunhados: Nicole Kidman e Matthew Goode exercitam olhares e gestos (photo by www.cinemagia.ro)

Tensão sexual entre cunhados: Nicole Kidman e Matthew Goode exercitam olhares e gestos (photo by http://www.cinemagia.ro)

Infelizmente, o roteiro do iniciante Wentworth Miller, protagonista da série de TV, Prison Break, não oferece uma história consistente o bastante para que o filme avance. Na trama, acompanhamos India Stoker (Mia Wasikoswka, que lembra a Wednesday de A Família Addams), uma garota de 18 anos, que tem de lidar com a recente morte do pai (Dermot Mulroney), seu relacionamento vazio com a mãe (Nicole Kidman) e a descoberta de sua sexualidade, enquanto busca compreender o que representa a chegada de seu tio Charlie (Matthew Goode, com presença magnética e enigmática) até então desconhecido.

A atmosfera criada na primeira metade do filme aponta para uma tensão latente que promete um terceiro ato com clímax explosivo, mas que nunca se cumpre. Os esforços do diretor podem ser notados através de algumas insinuações de incesto, que parecessem ter sido mutilados pelos produtores que detêm o corte final do filme. Nesse sistema globalizado, é muito comum vermos diretores sendo “castrados” também pela censura pudica e extremamente comercial dos EUA.

Como esperado, Segredos de Sangue não foi muito bem nas bilheterias, mas espero que haja uma segunda chance com mais liberdade artística para o diretor. Apesar da minha avaliação ter sido abaixo da média pelos problemas reportados, a tentativa de Chan-wook Park faz o cinema de hoje respirar um pouco de ar fresco. Lembrando ainda que seu filme de maior sucesso, Oldboy, foi refilmado por Spike Lee e será lançado até o final do ano, reforçando a tendência de pasteurização do cinema por Hollywood.

AVALIAÇÃO: REGULAR

Crime na cabine telefônica: homenagem a Hitchcock (photo by www.beyondhollywood.com)

Crime na cabine telefônica: homenagem a Hitchcock (photo by http://www.beyondhollywood.com)