BAFTA consagra ’12 Anos de Escravidão’, mas não esquece de ‘Gravidade’

BAFTA de Melhor Filme para 12 Anos de Escravidão (photo by arts.nationalpostc

MELHOR FILME: 12 ANOS DE ESCRAVIDÃO. Da esquerda para a direita: Christoph Waltz (que entregou o prêmio) e os produtores Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Steve McQueen e Brad Pitt (photo by Carl Court in arts.nationalpost.com)

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO LEVA DOIS PRÊMIOS, ENQUANTO GRAVIDADE LEVA SEIS

Ehr… vamos lá. Como estávamos na matemática de Melhor Filme mesmo? 12 Anos de Escravidão 3 X 2 Gravidade. Enquanto o primeiro levou o Globo de Ouro, Critics’ Choice Awards e o PGA, o segundo conquistou o LAFCA e o PGA. Para quem considerava que o ano tinha um favorito, a ascensão de Gravidade tem ameaçado o reinado de 12 Anos de Escravidão.

Apesar do filme de escravidão de Steve McQueen ter conquistado o BAFTA de Melhor Filme, foi a mega-produção espacial de Alfonso Cuarón que foi considerado o grande vencedor pela mídia, afinal, levou 6 dos 11 prêmios a que estava indicado, inclusive o BAFTA de Melhor Filme Britânico. Aliás, essa história do filme americano ter competido como filme britânico soou estranho desde o começo. Cheirava mais como um complô para garantir um prêmio importante para Gravidade. Segundo alguns especialistas, o filme contou com muitos profissionais britânicos e isso o qualificaria para competir. Em seu discurso de agradecimento, como se tivesse sido obrigado a dizer, o diretor soltou um “I consider myself a part of the British industry (Eu me considero parte da indústria britânica)”. Aham.

MELHOR FILME BRITÂNICO: GRAVIDADE. À esquerda, o diretor Alfonso Cuarón ao lado do produtor David Heyman (photo by metro.co.uk)

MELHOR FILME BRITÂNICO: GRAVIDADE. À esquerda, o diretor Alfonso Cuarón ao lado do produtor David Heyman (photo by metro.co.uk)

OK. Não quero ser estraga-prazeres porque Gravidade realmente merece prêmios importantes (exceto o de roteiro), mas a questão é que o filme está ocupando vaga de uma produção genuinamente britânica. E qualquer sinal de armação colocaria em risco toda a história da premiação cinematográfica. Acho muito bacana e válido o BAFTA ter alterado seu calendário para antes do Oscar a fim de ganhar mais visibilidade, mas deviam rever seus conceitos e regras classificatórias e também não ficar dependente demais da Academia americana.

Ainda sobre a categoria Filme Britânico, se a produção hollywoodiana estive fora do páreo, seria 99% de certeza de que Philomena ganharia nesta categoria. A história verídica sobre a busca pelo filho perdido de Philomena Lee vem conquistando o público pelo humanismo que o roteiro explora bem, tanto que ganhou o BAFTA de Roteiro Adaptando, desbancando o até então favorito John Ridley de 12 Anos de Escravidão. Gostaria muito de ter visto Judi Dench premiada, mas infelizmente suas chances são baixas.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: PHILOMENA. Jeff Pope e Steve Coogan ostentam o prêmio (photo by pipocamoderna.com)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: PHILOMENA. Jeff Pope e Steve Coogan ostentam o prêmio (photo by pipocamoderna.com)

Dada a bronca, o “empate técnico” entre 12 Anos de Escravidão e Gravidade no Producers Guild (PGA) ganhou mais um capítulo com essas vitórias no BAFTA, retomando a possibilidade que alguns jornalistas e críticos estão considerando sobre um empate inédito também no Oscar. Particularmente, não acredito nessa teoria devido ao alto número de membros votantes dessa categoria. Se fosse uma categoria menor como Efeitos Sonoros, haveria maior chance disso ocorrer como em 2013.

À parte da premiação em si, o embate entre as duas produções já é no mínimo interessante do ponto de vista artístico, afinal, um representa a linha mais autoral e visceral do cinema, enquanto o outro se tornou símbolo do cinema mais técnico e comercial devido ao sucesso nas bilheterias. Em 2010, no último confronto desse naipe, o autoral bateu o comercial: Guerra ao Terror derrotou o gigante Avatar.

Nos prêmios de atuação, houve surpresa justamente nas categorias em que os favoritos não concorreram: Ator e Ator Codjuvante. Matthew McConaughey e Jared Leto não foram sequer indicados provavelmente porque Clube de Compras Dallas não estreou a tempo em solo britânico, o que os qualificaria apenas para 2015! Na ausência deles, os beneficiados foram Chiwetel Ejiofor e Barkhad Abdi, cujas vitórias espantam o clima de “já-ganhou” e dá uma agitada na casa de apostas.

A campanha de Ejiofor começou bem com alguns prêmios da crítica em dezembro e janeiro, mas foi perdendo espaço para McConaughey desde o Globo de Ouro. Ele pode não apresentar uma transformação espantosa como a de McConaughey, mas é a performance mais consistente. Seu personagem Solomon Northup passa longe de ser um herói, mas sua vontade de sobreviver para voltar para sua família é digna de nota. Assim como Solomon, Chiwetel Ejiofor não busca atenção para si, mas para a história. É a alma do filme.

MELHOR ATOR: CHIWETEL EJIOFOR (12 ANOS DE ESCRAVIDÃO). O ator foi bastante aplaudido no Royal Opera House em Londres (photo by Reuters)

MELHOR ATOR: CHIWETEL EJIOFOR (12 ANOS DE ESCRAVIDÃO). O ator foi bastante aplaudido no Royal Opera House em Londres (photo by Reuters)

Já no caso de Barkhad Abdi, sem querer desmerecer sua vitória, acredito que o BAFTA foi um caso isolado. Se existe uma performance garantida no Oscar, esta é a de Jared Leto. Além de emagrecer horrores pro papel, ele ainda é transexual e aidético, uma mistura que chama a atenção. Como o somaliano Abdi é um estreante, só a indicação ao Oscar já pode lhe proporcionar novos projetos. Caberá a ele decidir qual rumo seguir no cinema.

Também havia forte possibilidade de Leonardo DiCaprio ganhar, mas O Lobo de Wall Street saiu de mãos vazias. Não sei se sou apenas eu, mas em tudo quanto é site e fórum, estou vendo torcida para o Leo. E todas do tipo: “Se Leo não ganhar desta vez, nunca mais ganha!”. Tá parecendo que ele tem 80 anos e nunca mais vai ser indicado! Espero que em caso de derrota no Oscar, ele saia fortalecido e que abrace mais projetos diferenciados que amadureçam ainda mais seu estilo de atuação.

Ao subir no palco para receber sua estatueta, Cate Blanchett não apenas evitou polêmicas (lembrando aqui o recente caso de denúncia de abuso sexual de Woody Allen com a filha de Mia Farrow, Dylan), mas soube conquistar a compaixão de toda a platéia ao dedicar o prêmio ao recém-falecido Philip Seymour Hoffman. A atriz australiana é esperta. Ela sabe que a única coisa que pode prejudicar sua campanha no Oscar é essa briga judicial envolvendo seu diretor, então nada melhor do que evitar menções diretas.

MELHOR ATRIZ: CATE BLANCHETT (BLUE JASMINE). Blanchett praticou a boa e velha política no discurso (photo by Suzanne Plunkett/ Reuters)

MELHOR ATRIZ: CATE BLANCHETT (BLUE JASMINE). Blanchett praticou a boa e velha política no discurso (photo by Suzanne Plunkett/ Reuters)

Já na categoria de atriz coadjuvante, a vitória de Jennifer Lawrence não chega a ser uma surpresa. Embora Lupita Nyong’o seja a franco-favorita desde o SAG, Lawrence perdeu ano passado na categoria de atriz para a veterana Emmanuelle Riva (Amor), fato que pode ter colaborado muito com este BAFTA. Ocupada com filmagem, Jennifer não estava presente na cerimônia, e o diretor David O. Russell aceitou o prêmio em seu nome. Atrás apenas de Melhor Filme, esta é a categoria que mais levanta dúvidas sobre o vencedor no Oscar. Alguns dizem que estão interligadas: Se 12 Anos de Escravidão ganhar, Lupita perde. Se Gravidade ou Trapaça ganhar, Jenny perde. Enfim, é uma teoria da conspiração sem fim!

Vencedor do Globo de Ouro de Filme em Língua Estrangeira, o italiano A Grande Beleza repetiu o feito no BAFTA. O belo filme de Paolo Sorrentino caminha para o primeiro Oscar para a Itália desde A Vida é Bela em 1999. Também se garantindo para o Oscar, Frozen: Uma Aventura Congelante e O Ato de Matar  venceram o BAFTA de Melhor Animação e Documentário, respectivamente.

Os únicos vencedores do BAFTA que não asseguram nada são das categorias Montagem e Maquiagem, uma vez que eles sequer competem pelo prêmio da Academia. Os editores de Rush: No Limite da Emoção bateram o franco-favorito Christopher Rouse (Capitão Phillips), enquanto os maquiadores que abusaram das perucas em Trapaça derrotaram a trabalhosa maquiagem fantasiosa de O Hobbit: A Desolação de Smaug.

VENCEDORES DO BAFTA 2014:

FILME: 12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave)

DIRETOR: Alfonso Cuarón (Gravidade)

ATOR: Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão)

ATRIZ: Cate Blanchett (Blue Jasmine)

ATOR COADJUVANTE: Barkhad Abdi (Capitão Phillips)

ATRIZ COADJUVANTE: Jennifer Lawrence (Trapaça)

ROTEIRO ORIGINAL: Eric Warren Singer, David O. Russell (Trapaça)

ROTEIRO ADAPTADO: Steve Coogan, Jeff Pope (Philomena)

FOTOGRAFIA: Emmanuel Lubezki (Gravidade)

DIREÇÃO DE ARTE: Catherine Martin (O Grande Gatsby)

FIGURINO: Catherine Martin (O Grande Gatsby)

MAQUIAGEM: Trapaça

MONTAGEM: Daniel P. Hanley, Mike Hill (Rush: No Limite da Emoção)

SOM: Gravidade

EFEITOS VISUAIS: Gravidade

FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: A Grande Beleza (La Grande Bellezza), de Paolo Sorrentino – Itália

ANIMAÇÃO: Frozen: Uma Aventura Congelante (Frozen)

DOCUMENTÁRIO: O Ato de Matar (The Act of Killing)

CURTA DE ANIMAÇÃO: Sleeping with the Fishes

CURTA-METRAGEM: Room 8

FILME DE ESTRÉIA DE DIRETOR, ROTEIRISTA OU PRODUTOR BRITÂNICO: Kelly + Victor, de Kieran Evans

RISING STAR: Will Poulter

CONTRIBUIÇÃO BRITÂNICA PARA O CINEMA EM 2014: Peter Greenaway

FELLOWSHIP: Helen Mirren

RISING STAR: WILL POULTER (photo by holymoly.com)

RISING STAR: WILL POULTER (photo by holymoly.com)

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