Netflix anuncia estratégia que pode decretar o fim dos cinemas

Cena de O Tigre e o Dragão 2 (photo by colider.com)

Michelle Yeoh em cena de O Tigre e o Dragão 2 (photo by colider.com)

Neste início de outubro, o serviço de streaming da Netflix fez dois anúncios que devem ameaçar seriamente a indústria do cinema: lançará a sequência O Tigre e o Dragão 2 (Crouching Tiger, Hidden Dragon: The Green Legend) em sua plataforma e em algumas salas de cinema selecionadas em conjunto com a Weinstein Co. em Agosto de 2015; e em seguida, quatro filmes estrelados por Adam Sandler.

Depois de agitar o universo televisivo com séries de sua produção, House of Cards e Orange is the New Black, que conquistaram o público e algumas indicações ao Emmy, a Netflix pretende alçar vôos mais altos em Hollywood ao oferecer lançamentos diretamente pelo streaming, eliminando as etapas tradicionais: sala de projeção, Blu-ray e DVD, e serviços On Demand antes de pertencer aos catálogos de streaming.

“São anúncios muito importantes que mudam o jogo”, disse Chris McGurk, diretor-executivo da Cinedigm. “O público de hoje não liga para as regras antigas de estúdio e entretenimento. Eles querem ver filmes quando eles bem querem, como eles querem e em qualquer dispositivo que eles querem.” Há alguns anos, eu mesmo não imaginava pessoas assistindo a filmes em celulares e tablets, mas hoje é uma realidade.

Além dessa modernização do modo de assistir a um filme, hoje ir ao cinema é um programa caro. Confira comigo: ingressos a 30 reais, combo de pipoca e refrigerante a 20 reais, e estacionamento de shopping a 15 reais, totalizando 65 reais quando sozinho. Se for em casal, já salta pra casa dos 100 reais, sem contar a gasolina. Agora, substitua a locomoção toda por um Netflix (assinatura mensal a 16,90 reais), e a pipoca de ouro do Cinemark pela pipoca de microondas, e eis uma redução drástica de valor que estimula o programa caseiro.

Pra que encarar filas, pipocas caras e gente mal educada nas salas? Ligue a TV no Netflix (photo by adrenaline.uol.com.br)

Pra que encarar filas, pipocas caras e gente mal educada nas salas? Ligue a TV no Netflix (photo by adrenaline.uol.com.br)

Há algumas décadas, a indústria do cinema aplicava esse sistema direto ao espectador quando o filme era de baixo orçamento e pouco aguardado sendo lançado direto em vídeo, o chamado made-for-TV-movie. Há poucos anos, algumas produções modestas como Margin Call – O Dia Antes do Fim (2011) e A Negociação (2012) foram lançadas simultaneamente em cinemas e plataformas On Demand como uma espécie de experimento, pois os estúdios estavam receosos de perder dinheiro com produções maiores. Hoje, eles já pensam até em lançar grandes franquias como Star Wars, James Bond e os filmes da Marvel Studios.

Dependendo do sucesso da estratégia da Netflix, os grandes estúdios devem aderir gradativamente ao sistema do lançamento via streaming, podendo quebrar várias redes de cinema. Segundo a matéria da Variety, os donos das maiores redes de cinema americanas (AMC, Cinemark, Regal e Carmike) se recusarão a exibir O Tigre e o Dragão 2 em suas telas como uma forma de protesto. O fato é que o público que frequenta cinema vem caindo ao longo dos anos, e só não piorou porque recebeu uma sobrevida com o advento do filme 3D com o mega-sucesso Avatar (2009), pois ver filmes com óculos tridimensionais era um espetáculo à parte e até então exclusivo nas salas de projeção, mas daqui a pouco nem isso vai segurar o público nas salas.

Talvez a sequência do longa taiwanês O Tigre e o Dragão não seja parâmetro para indicar o sucesso da estratégia da Netflix, uma vez que não conta com o diretor Ang Lee, nem as estrelas Chow Yun-Fat e Zhang ZiYi, mas os filmes de Adam Sandler sempre estão entre os mais vistos nos EUA. E se esse sucesso comercial se repetir ou até superar os números das bilheterias, o cinema como conhecemos pode estar com seus dias contados.

Ao lado de Rosemarie DeWitt, Adam Sandler estrela novo filme de Jason Reitman: Homens, Mulheres e Filhos (photo by elfilm.com)

Ao lado de Rosemarie DeWitt, Adam Sandler estrela novo filme de Jason Reitman: Homens, Mulheres e Filhos (photo by elfilm.com)

Embora goste da experiência de ir ao cinema, será inevitável que esse avanço represente economia ao público e estúdios. Só essa enxugada na verba relativa à exibição já proporcionará salários mais recheados para as estrelas de Hollywood, atraindo a nata dos atores famosos ao Netflix, que atualmente gasta cerca de 3 bilhões de dólares em suas produções. Claro que também significará inúmeras demissões e a decadência de uma cultura centenária, contudo, não acredito em extinção definitiva do formato. Podemos tomar como exemplo a digitalização da literatura através dos e-books. Enquanto os leitores modernos economizam na compra de obras, outros ainda preferem o contato físico e até o cheiro do papel dos livros. Ambos os formatos convivem atualmente em equilíbrio, o que deve acontecer entre cinemas e streaming nas próximas décadas.

Quem sabe com os lançamentos indo direto pra streaming, aqueles espectadores que conversam e atendem o celular durante a sessão não chateiam menos as pessoas ficando em casa? Esse público mal educado não merece esta Arte.

Celular, conversa, batidas constantes na poltrona definitivamente não combinam com uma sessão de cinema (photo by pt.wikinoticia.com)

Celular, conversa, batidas constantes na poltrona definitivamente não combinam com uma sessão de cinema (photo by pt.wikinoticia.com)

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2 Comentários

  1. Marinha Luiza

     /  outubro 17, 2014

    É uma novidade que pode fazer bem para o cinema, já que a tendência é baixar o valor dos ingressos.
    Adoro a experiência da telona, mas pesa demais no bolso.

    Responder
    • Olá, Marinha! Concordo com vc. Eu sinto muito pela derrota do sistema de projeção que tanto gosto, mas daqui a pouco, ir ao cinema sozinho vai custar 100 reais. Não é à toa que se falsifica tanto a carteirinha de estudante pra pagar meia-entrada. Uma vez eu vi o presidente do Cinemark do Brasil alegando que o valor do ingresso tá alto por causa das carteirinhas falsas. É muita hipocrisia! Ao ver essas declarações, é impossível não torcer pra que a Netflix cause o insucesso dessas grandes redes. Bjs e bom fds!

      Responder

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