‘Birdman’ conquista o Oscar 2015 com 4 prêmios

Michael Keaton (centro) agradece o Oscar de Melhor Filme à frente da equipe do filme (photo: John Shearer/Invision/AP)

Michael Keaton (centro) agradece o Oscar de Melhor Filme à frente da equipe do filme (photo: John Shearer/Invision/AP)

‘BIRDMAN’ É O GRANDE VENCEDOR DA NOITE COM 4 OSCARS: MELHOR FILME, DIRETOR, ROTEIRO E FOTOGRAFIA. ‘O GRANDE HOTEL BUDAPESTE’ TAMBÉM LEVA 4, MAS EM CATEGORIAS MENORES.

Depois de uma crescente nos prêmios de sindicatos como PGA e DGA, deu Birdman no Oscar!  E apesar de ter ganhado um Oscar por Atriz Coadjuvante, o grande perdedor acabou sendo Boyhood, que estava cotado para ganhar filme, montagem, atriz coadjuvante e até diretor, dependendo do curso da premiação.

Particularmente, acho que o Oscar de direção e de fotografia já reconheceria os méritos de Birdman, mas como li num site: “Dentre os 6 mil votantes da Academia, a maioria é formada por atores, então nada mais natural do que eles votarem num filme sobre atores”. Curiosamente, nenhum dos três atores indicados acabou ganhando de fato o Oscar. Michael Keaton, Edward Norton e Emma Stone só subiram ao palco de forma coletiva para agradecer ao Oscar de Melhor Filme.

Bom, e aquela minha visão que tive de Boyhood sendo coroado Melhor Filme não se concretizou. Eu já imaginava até aqueles longos clipes dos filmes vencedores de Melhor Filme com uma breve cena do filme de Richard Linklater! Aliás, Linklater, que estava indicado em três categorias, acabou não levando NADA! Perdeu Filme, Diretor e Roteiro Original… Ao longo das semanas que antecederam o Oscar, li muitos comentários de críticos e até de simples cinéfilos defendendo que o circo em torno de Boyhood era meramente por causa do projeto inovador de 12 anos de filmagem. Confesso que me peguei pensando nessa possibilidade, mas ainda acredito que é um dos melhores filmes de 2014. Agora resta aguardar se o filme passará pelo teste do tempo.

A seguir a artwork utilizada pelo Oscar para cada um dos filmes indicados a Melhor Filme. Foi um desperdício a Academia não utilizar suas duas vagas restantes da categoria para indicar mais filmes como Foxcatcher, por exemplo…

NÚMEROS

O Grande Hotel Budapeste (Direção de Arte, Figurino, Maquiagem e Trilha Musical Original) e Birdman (Filme, Diretor, Roteiro Original e Fotografia) empataram com 4 Oscars cada. Em seguida, vem Whiplash, com 3 Oscars: Ator Coadjuvante (J.K. Simmons), Montagem e Som.

Os demais filmes conquistaram apenas uma estatueta cada. A Teoria de Tudo (Ator – Eddie Redmayne), Para Sempre Alice (Atriz – Julianne Moore), Boyhood (Atriz Coadjuvante – Patricia Arquette), O Jogo da Imitação (Roteiro Adaptado), Operação Big Hero (Longa de Animação), Ida (Filme em Língua Estrangeira), Selma (Canção Original), Sniper Americano (Efeitos Sonoros), Interestelar (Efeitos Visuais) e Citizenfour (Documentário), denotando uma alto nivelamento entre a maioria.

SURPRESAS

Embora fosse esperado que O Grande Hotel Budapeste ganharia muitos dos prêmios “técnicos” como Direção de Arte, Figurino e Maquiagem, honestamente, esperava que Wes Anderson seria reconhecido com Melhor Roteiro Original, já que Alejandro González Iñárritu muito provavelmente venceria como diretor. Assim como no Globo de Ouro, Birdman levou o prêmio de roteiro. Foi triste ver Wes Anderson apenas aplaudindo seus colegas. Better luck next time, Wes!

Wes Anderson ficou muito feliz pelos 4 Oscars que O Grande Hotel Budapeste recebeu. Mas infelizmente, ficou sentado a noite toda. (photo by billhaderismycriterioncollection.tumblr.com)

Wes Anderson ficou muito feliz pelos 4 Oscars que O Grande Hotel Budapeste recebeu. Mas infelizmente, ficou sentado a noite toda. (photo by billhaderismycriterioncollection.tumblr.com)

Quando postei sobre a liberdade que a Academia tinha de eleger um longa de animação fora dos padrões tridimensionais, torcia contra o favoritismo de Como Treinar o Seu Dragão 2, então teoricamente fiquei feliz por ter perdido, MAS não queria que perdesse para outro 3D! Gostaria que o Oscar fosse para uma animação mais alternativa, mas como um amigo meu lembrou, o Oscar é um prêmio de indústria, então nada mais natural do que um filme da indústria ganhe. Curiosamente, em 14 anos de existência da categoria de Longa de Animação, apenas um filme de língua estrangeira foi premiado: A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki, em 2002. Uma pena…

Agora, duas surpresas que mais gostei. A primeira foi a premiação do compositor francês Alexandre Desplat por O Grande Hotel Budapeste. Apesar de ter sido duplamente indicado (também por O Jogo da Imitação), havia uma grande chance de ele perder duplamente como já aconteceu com John Williams. Desplat bateu o favoritismo de Jóhann Jóhannssonn (A Teoria de Tudo) e finalmente conquistou seu primeiro Oscar depois de oito indicações. Trata-se de um dos melhores compositores da atualidade, que sabe compor para filmes de todos os gêneros. Oscar merecido!

E a outra boa surpresa foi o Oscar de Montagem para Whiplash! Fenomenal! Tom Cross realizou um trabalho formidável ao sincronizar todo aquele jazz com os cortes, criando um ritmo único e fresco. O filme conquistou merecidos 3 Oscars: Ator Coadjuvante (J.K. Simmons), Som e Montagem. Se O Jogo da Imitação não fosse tão favorito, o filme poderia ganhar também Melhor Roteiro Adaptado. Pena que o filme não tinha chances reais de ganhar Melhor Filme, senão poderia ter conquistado mais prêmios…

SOBRE A CERIMÔNIA

Os fãs de A Noviça Rebelde que me perdoem, mas aquela homenagem feita pela cantora Lady Gaga foi desnecessário. Ok, bonito, mas desnecessário. Se queriam fazer uma homenagem aos musicais, que trouxessem mais atores que participaram dessa época de ouro do musical americano como a atriz Debbie Reynolds, por exemplo. Por mim, que curto assistir ao Oscar, não vejo problemas com homenagens, mas é no mínimo incoerente ver que eles apressam tanto as coisas pra tudo, mas tem tempo sobrando para essas homenagens que poderiam passar batido.

Lady Gaga abraça Dame Julie Andrews depois de homenagem de A Noviça Rebelde (photo by psychoticmusichead.tumblr.com)

Lady Gaga abraça Dame Julie Andrews depois de homenagem de A Noviça Rebelde (photo by psychoticmusichead.tumblr.com)

Quanto ao host, Neil Patrick Harris, tirando o momento de cueca no palco, fazendo uma alusão ao Birdman, achei sua participação meio comportada. Aliás, ele é uma versão meio Billy Crystal, meio Hugh Jackman, mas não canta tão bem como Crystal, nem dança tão bem quanto Jackman. E suas piadas politicamente incorretas não chegam aos pés de um Jon Stewart ou de Chris Rock. E aquela piada dos “Oscars predictions” na mala bem guardada foi muita firula pra pouca graça. Acho que os produtores do evento estão se guiando demais por audiência do que qualidade de fato. O host seguiu os protocolos e foi completamente apropriado e inofensivo, e esse tom pode ser muito ruim a longo prazo para a imagem do Oscar. Nem a participação “surpresa” de Jack Black ajudou na introdução musical de Neil Patrick Harris, ou seja, a coisa tava feia…

Teve alguns discursos que honestamente nem prestei atenção, então me perdoem caso tenha passado algo desapercebido aqui. Mas gostei de alguns como o do J.K. Simmons. Quando ele começou a falar e agradecer a mulher e os filhos “above average”, já estava desapontado por que ele estava repetindo o mesmo discurso de todos os prêmios anteriores que ele havia ganhado. Mas felizmente, ele deu uma guinada e soltou um “Ligue para sua mãe. Eu falei isso para um bilhão de pessoas. Ligue para sua mãe, seu pai. Se você tem sorte e tem pais vivos, ligue. Não mande mensagem, não mande e-mail. Ligue por telefone. Diga que você os ama e os agradeça, e os ouça o quanto eles quiserem falar com você.” – Por mais que ele tenha deixado o filme de lado, foi um momento bonito da noite.

Da esquerda para a direita: J.K. Simmons, Patricia Arquette, Julianne Moore e Eddie Redmayne com seus respectivos Oscars (photo by kinginthenorths.tumblr.com)

Da esquerda para a direita: J.K. Simmons, Patricia Arquette, Julianne Moore e Eddie Redmayne com seus respectivos Oscars (photo by kinginthenorths.tumblr.com)

Já o discurso de Patricia Arquette foi mais inflamado. Depois de agradecer a equipe e sua família, ela puxa um “Está na hora de ter igualdade de salário e igualdade de direitos para as mulheres nos EUA!” – que logo foi endossado por um entusiasmado “Yes! Yes! Yes!” de Meryl Streep, que estava sentada na fileira da frente. Claro que ainda vivemos num mundo machista que paga menos para mulheres que ocupam o mesmo cargo de homens, e apoio essa mudança. Agora, se ela se refere ao salário das atrizes em Hollywood, acho que muito depende das bilheterias. O público em geral prefere filmes estrelados por homens. Não se trata de uma opinião, mas de um dado estatístico. Então, de acordo com a lei de mercado, os grandes estúdios acabam pagando menos para as atrizes. E isso reflete também numa reclamação recorrente das atrizes que é a escassez de papéis bons femininos. Com certeza, existem ótimos roteiros com excelentes protagonistas femininas por aí, mas se os estúdios não fornecerem a verba, o projeto não sai do papel. Sei que é uma realidade cruel, mas enquanto o público não der resposta nos números, pouca coisa vai mudar nesse sentido. Os homens vão continuar na lista dos atores mais bem pagos de Hollywood.

Bem mais tranquila, Julianne Moore preferiu evitar polêmicas e soltou uma pérola: “Eu li um artigo que dizia que ganhar um Oscar poderia render 5 anos de vida a mais. Se isso for verdade, gostaria de agradecer a Academia porque meu marido é mais novo do que eu”. Acho que quem escreveu esse artigo não lembrou de alguns casos como o de Haing S. Ngor que morreu assassinado, Robin Williams ou de seu colega de set em Jogos Vorazes, Philip Seymour Hoffman, que morreu em fevereiro do ano passado, oito anos depois de ganhar o Oscar por Capote. Mas deixando de lado o tom fúnebre, Oscar merecido para Julianne Moore, que pode não ter vencido por sua melhor performance, mas certamente era uma das melhores que estavam concorrendo sem sombra de dúvida. Espero sinceramente que este Oscar não prejudique sua escolha de projetos e lhe cause algum tipo de maldição e consequente decadência.

Julianne Moore com seu primeiro Oscar por Para Sempre Alice (photo by  morejulianne.tumblr.com)

Julianne Moore com seu primeiro Oscar por Para Sempre Alice (photo by morejulianne.tumblr.com)

O discurso mais politicamente correto da noite foi para a dupla John Legend e Common pela canção “Glory”. Depois de uma apresentação comovente, eles subiram ao palco ligando a liberdade de Selma com a nossa atualidade: as marchas pela democracia da China, e em nome da liberdade de expressão em Paris – lembrando da tragédia de Charlie Hebdo.

Common e John Legend durante apresentação da canção "Glory" de Selma (photo by robertdeniro.tumblr.com)

Common e John Legend durante apresentação da canção “Glory” de Selma (photo by robertdeniro.tumblr.com)

No discurso de Melhor Diretor de Alejandro González Iñárritu, ele mencionou que no DGA Awards ele estava usando o cachecol de Raymond Chandler e a gravata de Billy Wilder para dar sorte e tinha funcionado. No Oscar, ele confessou que estava usando a cueca branca de Michael Keaton (usada em Birdman). “É apertada, cheira a bolas, mas funciona. E estou aqui!” – a platéia adorou. Embora minha torcida para Melhor Ator tenha sido para Benedict Cumberbatch, fiquei chateado que Keaton não levou seu Oscar. Teria sido uma ótima história, já que ele interpretou um ator que buscava reabilitação depois de vários anos no ostracismo, assim como ele ficou depois dos dois filmes do Batman, de Tim Burton.

Alejandro González Iñárritu ocupa as duas mãos com as 3 estatuetas do Oscar por Birdman

Alejandro González Iñárritu ocupa as duas mãos com as 3 estatuetas do Oscar por Birdman

No ano passado, John Travolta tinha tomado um chá de cogumelo antes de introduzir a apresentação da cantora Idina Menzel da música “Let it Go”, de Frozen, chamando-a pelo nome bizarro de “Adele Nazim”. De onde raios eles tirou esse nome se estava escrito direitinho no teleprompter?? Fumou crack, só pode! Então, como uma espécie de vingança engraçada, Idina o introduziu como “Glom Gazingo”! Travolta e Menzel deram a volta por cima de uma gafe com classe.

Idina Menzel com John Travolta no Oscar

Idina Menzel com John Travolta no Oscar

Seguem os vencedores do Oscar 2015:

MELHOR FILME
* Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (Birdman)

MELHOR DIRETOR
* Alejandro González Iñárritu (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))

MELHOR ATOR
* Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)

Eddie Redmayne ainda bastante extasiado com seu Oscar por A Teoria de Tudo (photo by mcavoys.tumblr.com)

Eddie Redmayne ainda bastante extasiado com seu Oscar por A Teoria de Tudo (photo by mcavoys.tumblr.com)

MELHOR ATRIZ
* Julianne Moore (Para Sempre Alice)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
* J.K. Simmons (Whiplash: Em Busca da Perfeição)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
* Patricia Arquette (Boyhood: Da Infância à Juventude)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
* Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Armando Bo (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
* Graham Moore (O Jogo da Imitação)

MELHOR FOTOGRAFIA
* Emmanuel Lubezki (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
* Adam Stockhausen e Anna Pinnock (O Grande Hotel Budapeste)

MELHOR MONTAGEM
* Tom Cross (Whiplash: Em Busca da Perfeição)

MELHOR FIGURINO
* Milena Canonero (O Grande Hotel Budapeste)

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
* Frances Hannon e Mark Coulier (O Grande Hotel Budapeste)

MELHOR TRILHA MUSICAL ORIGINAL
* Alexandre Desplat (O Grande Hotel Budapeste)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
* “Glory”, de John Stephens e Lonnie Lynn (Selma)

MELHOR SOM
* Craig Mann, Ben Wilkins e Thomas Curley (Whiplash: Em Busca da Perfeição)

MELHORES EFEITOS SONOROS
* Alan Robert Murray e Bub Asman (Sniper Americano)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
* Paul J. Franklin, Andrew Lockley, Ian Hunter, Scott R. Fisher (Interestelar)

MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
* Ida, de Pawel Pawlikowski (POLÔNIA)

MELHOR ANIMAÇÃO
* Operação Big Hero

MELHOR DOCUMENTÁRIO
* CitizenFour

MELHOR DOCUMENTÁRIO-CURTA
* Crisis Hotline: Veterans Press 1

MELHOR CURTA-METRAGEM
* The Phone Call

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO
* O Banquete (Feast)

Jessica Chastain nem estava indicada ao Oscar, mas o que seria do Oscar sem Jessica Chastain?

Jessica Chastain nem estava indicada ao Oscar, mas o que seria do Oscar sem Jessica Chastain???

 

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2 Comentários

  1. Hugo

     /  fevereiro 25, 2015

    Oi, tudo bom?

    Assim como você, preferia que Michael Keaton tivesse levado o prêmio de melhor ator. Eu até gosto do Eddie Redmayne, mas ganhar Oscar interpretando um deficiente é tão clichê, parece um prêmio dado com preguiça. Na minha opinião, Keaton está muito bem, era o meu favorito. Em segundo lugar vinha o Jake Gyllenhaal (que nem foi indicado), depois o Steve Carrell, Benedict Cumberbatch e Eddie. Aliás, você já viu o filme da BBC onde o Cumberbatch interpreta o Stephen Hawking? Muita gente diz que ele tá melhor que Redmayne. No fim das contas, o prêmio de melhor ator foi meio ultrajante tanto pra Michael quanto pra Benedict, o primeiro estava no papel da sua vida e o segundo perdeu para alguém interpretando um personagem que ele próprio já havia encarnado.

    Acabou que Damien Chazelle e Wes Anderson ficaram na mesma situação: viram seus comandados vencendo, mas saíram de mãos abanando. O roteiro de “O Grande Hotel Budapeste” é muito bom, mas acho que o mérito maior do filme está no ritmo impresso pela direção. O roteiro de “Birdman”, com seus diálogos frenéticos e suas milhões de referências, era melhor mesmo.

    Sobre “Boyhood”, eu até que gosto do filme, mas queria ter gostado mais. Não acho que é uma obra-prima. Alguns até argumentam que é como a vida real, sem grandes acontecimentos. Mas acho que isso não é o suficiente para afastar a ideia de que o roteiro poderia ter sido melhor desenvolvido, aproveitando mais todo o trabalho realizado ao longo dos 12 anos. Acho até mesmo questionável o Oscar de Patricia Arquette, que é ótima atriz e muito natural, mas que não tem tantos momentos de destaque. Na minha opinião, o que se destacou no filme foi a edição, que o montou de forma muito fluida, mas realmente não teve chance diante de “Whiplash”.

    Fiquei muito feliz com os prêmios pra “Whiplash”, mas queria que também levasse o de melhor roteiro adaptado. Talvez tivesse mais chance se o diretor fosse indicado no lugar de Morten Tyldum por “O Jogo da Imitação”, um filme que me deixou com muita preguiça, de tão quadrado, na minha opinião até mais do que “A Teoria de Tudo”. O prêmio de melhor roteiro adaptado foi legal só por causa do discurso do vencedor.

    Também concordo sobre o que você diz sobre o sexismo em Hollywood: é derivado de um preconceito do próprio público ao longo dos anos. Mas parece que nos últimos tempos isso vem mudando, daí o discurso feminista de Patricia Arquette. Se está crescendo o interesse do público por filmes protagonizados por mulheres é necessário que ocorra o aumento do número de bons papéis e consequentemente dos salários. O mesmo ocorre com o racismo, eu assisti a “Selma” e não acho que a interpretação de David Oyelowo seja tão incrível para que sua exclusão aos indicados pela Academia seja considerada um absurdo. Deveria ter sido indicado então só por ser negro? E os méritos artísticos? É muito fácil colocar a culpa na indústria, no Oscar, mas talvez o problema maior esteja no próprio público.

    Sobre a cerimônia, eu até gostei da homenagem aos 50 anos de “A Noviça Rebelde” com a Lady Gaga, ainda mais depois quando a Julie Andrews entrou no palco. Só acho que foi um erro deixar para fazê-la no final do show, depois da apresentação de todas as músicas que concorriam a melhor canção e daquele número musical desnecessário no “in memoriam”. Na hora da homenagem ninguém estava mais com paciência pra ouvir cantoria, já tava todo mundo doido pra coisa acabar logo.

    Como sempre seus comentários foram todos muito bons. Parabéns pelo trabalho!

    Responder
    • Olá, Hugo! Que prazer em tê-lo de volta por aqui!

      Bom, vamos às questões! Dos 5 indicados a Melhor Ator, apenas Michael Keaton criou um personagem. Os demais foram baseados em figuras reais. Já por ter inspiração na vida pessoal, a atuação de Keaton me lembrou a de Mickey Rourke por “O Lutador”. Na época, houve um questionamento se seu concorrente, Sean Penn, seria melhor por viver um personagem completamente diferente dele (o militante gay Harvey Milk), ou se Rourke o superaria ao interpretar uma versão semelhante dele mesmo. Numa análise bruta e distante, o fato de um ator interpretar alguém bem diferente dele já chama atenção, então acredito que foi nesse quesito que tanto Keaton como Rourke perderam pontos com os votantes. Acho a performance de Keaton bem corajosa por justamente se expôr tanto e poder cair no ridículo, mas foi por esse motrivo que Iñárritu o chamou: para contar com sua colaboração pessoal para o personagem. Não vi o filme da BBC, mas eu gosto bastante do Cumberbatch. Claro que ele tem muito a amadurecer, mas acho que ele tira de letra o personagem de Alan Turing. Pena que o filme não focou mais nessa questão dos seus últimos anos de vida sentenciado, pois tenho certeza de que ele contribuiria ainda mais nessa fase decadente até o suicídio. Quanto ao Redmayne, apesar de considerar que sua performance foi mais uma mimetização do que construção e desenvolvimento do personagem, não dá pra ignorar tamanho esforço ortopédico e muscular. Tem muitos atores veteranos que não conheceram tão bem o próprio corpo como ele o fez nesse filme, além disso, o papel de Hawking é daqueles que facilmente poderia se tornar piegas, mas ele o torna uma pessoa verossímil.

      Acho que o roteiro tem menos poder em “Birdman” do que em “O Grande Hotel Budapeste”. No primeiro, a força motriz é a direção de Alejandro González Iñárritu com todos esses planos-sequência, a direção de atores e o ritmo ditado pela trilha da bateria. Claro que Wes Anderson tem papel fundamental como diretor para orquestrar todo o estilo visual do filme, mas seu roteiro é o grande responsável pela ótima montagem que destaca o humor das situações. Acredito que Anderson perdeu nessa categoria porque seu humor não é para todos os gostos. Enfim, “Comedy’s hard”, como dizem.

      Acredito que “Boyhood” nasceu como um projeto descontraído, tanto que ele manteve esse espírito do primeiro ao último minuto. Não se trata exatamente de um filme de Oscar, tanto que o filme faturou o prêmio de direção no Festival de Berlim, mas sua campanha chegou ao Oscar por causa da história por trás do filme, pelos impressionantes 12 anos de dedicação dos atores e da equipe. Foi realmente um trabalho resultado da paixão dos artistas envolvidos e isso comove muito. Espero que “Boyhood” sobreviva por muitos anos ao teste do tempo.

      Por mim, não acharia mal se “Whiplash” levasse o Oscar de Roteiro Adaptado e Filme. Sairia bonito da cerimônia com 5 estatuetas. Como acompanho o Oscar há tempos, sempre aguardo uma grande surpresa e esta seria uma ótima! Mas por ter uma veia “indie”, acabou correndo por fora do prêmio principal. Uma pena. O Oscar de montagem foi merecidíssimo, assim como o de Som e Ator Coadjuvante. Além do filme de Damien Chazelle ser bom, ainda faz com que muitos passem a curtir mais jazz.

      Por sua grandiosidade e importância na Arte e na indústria, o Oscar sempre será um chamariz para protestos e alvo de críticas de rebeldes sem causas. Como cinéfilo, apoio a causa das atrizes e dos negros, mas já que se trata de uma indústria, todos estão sujeitos aos resultados. Se o filme for bem de bilheteria, naturalmente a equipe e os atores passarão a ganhar mais, e vice-versa. Na lista dos atores mais bem pagos de Hollywood, passaram nomes de atrizes que ganharam 20 milhões por filme como Julia Roberts e Reese Witherspoon, porque colaboraram com seus talentos em projetos que deram certo como “O Casamento do Meu Melhor Amigo” e “Legalmente Loira”, respectivamente. Não são filmes de qualidade, mas renderam bastante e todos saíram ganhando, e é assim que funciona, infelizmente. Se antes da crise econômica, já estava difícil dos estúdios apostarem em mulheres, agora então está cada vez mais complicado. Eu realmente espero que haja mais papéis femininos bem escritos e que as atrizes possam usufrui-los da melhor forma, pois o Cinema precisa disso, assim como nós, cinéfilos, precisamos de mais personagens femininas que não sejam simplesmente mães, esposas, filhas. E que isso se reflita nos próximos anos nas disputas de Melhor Atriz e Atriz Coadjuvante no Oscar, que andam meio chochas. Julianne Moore e Patricia Arquette ganhando sem competição é sinal de alerta. E quanto ao racismo nas indicações, perdoem-me quem discorda, mas racismo é quando se acha que houve racismo porque não teve negros indicados ao Oscar. Já disse outras vezes e digo novamente aqui: Arte não é cota racial e nunca será. A Arte sempre estará acima de tudo, seja raça, religião ou opção sexual. E nem adianta botar o pau na Academia porque eles premiaram Hattie McDaniel em 1940, quando os negros ainda se sentavam nos fundos das salas de cinema. Enfim, felizmente ainda há produtores e artistas mais interessados em contar uma boa história do que apenas visar o lucro, por isso o cinema ainda tem alguma diversidade.

      E pra fechar, eu ia escrever a mesma coisa que você sobre a canção do “In Memoriam” da Jennifer Hudson. Que coisinha chata! Até os cadáveres devem se revirar nos túmulos… Já fizeram isso outras vezes, mas pelo visto não aprenderam que colocar uma música depois do clipe em homenagem aos mortos não funciona. Lembro que acertaram duas vezes: quando botaram Celine Dion e outra vez James Taylor pra cantar DURANTE o clipe dos artistas falecidos. Aí a coisa anda!

      Bom, agora que percebi que escrevi demais… Desculpa! Mas como seu comentário foi bastante pertinente, acabo me empolgando! Obrigado mais uma vez pelo contato, Hugo! Você conseguiu assistir a muitos dos indicados antes do Oscar? E qual Oscar vc mais gostou e odiou? Faltaram muitos nomes entre os indicados pra você?

      Forte abraço e se cuida!

      Responder

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