‘Game of Thrones’ quebra recorde com 12 Emmys

Elenco e equipe de Game of Thrones posa para fotos após vitória histórica no Emmy (photo by radiotimes.com)

Elenco e equipe de Game of Thrones posa para fotos após vitória histórica no Emmy (photo by radiotimes.com)

SÉRIE QUE CONQUISTOU TODA UMA LEGIÃO DE FÃS FINALMENTE CONQUISTA SEU EMMY

Bom, provavelmente não sou a pessoa mais indicada para falar e destrinchar as incontáveis séries de TV que competiram pelo Emmy, porque não acompanho de fato as séries e minisséries de forma aprofundada. Vários amigos já me recomendaram zilhões de séries como a própria Game of Thrones, mas não tenho muita paciência, especialmente para aquelas com episódios de quase uma hora de duração que parecem nunca ter fim. Não tenho a mínima dúvida de que esses trabalhos premiados pelo Emmy apresentam qualidade indiscutível, e que provavelmente vou gostar quando assistir, mas tenho que acumular uma boa dose de persistência antes.

Independente da minha expertise em séries, deu pra notar que houve algumas mudanças na premiação que refletem um mercado em constante transformação. Primeiramente, os principais vencedores Game of Thrones, Veep e Olive Kitteridge são produções da HBO, canal pago americano, que superou as séries mais tradicionais da TV aberta como Modern Family. Quanto aos filhos do streaming, as séries conquistaram prêmios coadjuvantes, mas já demonstram maior força a cada ano. Prova disso foi a vitória de Jeffrey Tambor por Transparent do streaming Amazon, e a de Uzo Aduba como Coadjuvante por Orange is the New Black, da Netflix.

Jeffrey Tambor com seu Emmy e ao lado direito, caracterizado como seu personagem pela série Transparent (photo by syracuse.com)

Jeffrey Tambor com seu Emmy e ao lado direito, caracterizado como seu personagem pela série Transparent (photo by syracuse.com)

Apesar da extrema popularidade de Game of Thrones, para muitos especialistas em premiações, a vitória expressiva da série foi considerada uma surpresa. Outras surpresas respondem pelo nome de Regina King, vencedora de Melhor Atriz Coadjuvante por American Crime, batendo as favoritas Kathy Bates e Sarah Paulson por American Horror Story: Freak Show; Tony Hale, que venceu por Veep como Coadjuvante; e a vitória de The Voice por sua nona temporada batendo a franco-favorita Amazing Race.

Assim como o Oscar, o Emmy também gosta de deixar o reconhecimento para o último momento. Se a Academia premiou o terceiro e último O Senhor dos Anéis. o Emmy deixou o ator Jon Hamm esperar até a última temporada de Mad Men para lhe reconhecer. Nos últimos anos, ele foi batido por nomes como Bryan Cranston (Breaking Bad), Jeffrey Daniels (The Newsroom), Damian Lewis (Homeland) e Kyle Chandler (Friday Night Lights), comprovando também que a concorrência foi bastante acirrada.

Jon Hamm posa para fotos no backstage com seu primeiro e último Emmy por Mad Men (photo by latimes.com)

Jon Hamm posa para fotos no backstage com seu primeiro e último Emmy por Mad Men (photo by latimes.com)

Em clima de despedida também foi a premiação do programa The Daily Show With Jon Stewart. Ele encerrou sua participação iniciada em 1999 pelo canal Comedy Central e cede lugar ao humorista sul-africano Trevor Noah. Sem planos de carreira após a aposentadoria do The Daily Show, espero que Jon Stewart abra a possibilidade de retornar como host do Oscar 2016! Na minha opinião, foi um dos melhores hosts dos últimos anos e merece retornar com sua língua afiada.

O apresentador e humorista Jon Stewart agradece por todos os anos no Daily Show (photo by variety.com)

O apresentador e humorista Jon Stewart agradece por todos os anos no Daily Show (photo by variety.com)

Embora a noite tenha sido da série Game of Thrones, houve um discurso que arrepiou muitos espectadores. Viola Davis se tornou a primeira atriz negra a ganhar o Emmy de Melhor Atriz de Série Dramática por seu trabalho em How to Get Away With Murder. Ciente do momento histórico de sua vitória, ela começa citando Harriet Tubman, o famoso ativista que lutou pela abolição da escravidão nos EUA: “Em minha cabeça, vejo uma linha, vejo campos verdes e flores adoráveis e mulheres brancas lindas, com seus braços estendidos para mim. Mas parece que não consigo chegar lá, não importa como. Não consigo superar esta linha”. E as frases que ficaram super marcadas de seu discurso: “A única coisa que separa os mulheres negras de qualquer outra raça é oportunidade. Você não consegue ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”.


Viola Davis derrotou outras fortes candidatas na categoria

O jornal Folha de S. Paulo citou em matéria alguns estudos estatísticos que revelam que realmente os negros são minoria, tanto na frente como atrás das câmeras em trabalhos para a televisão nos EUA. Não costumo abrir discussões sobre porcentagens de negros, amarelos e índios em ocupações, pois sou contra cotas raciais e não consigo enxergar talento e profissionalismo baseado em cor, sexo ou religião, até mesmo porque a Arte está acima disso, mas como boa parte da História humana, os homens brancos sempre foram dominantes, ainda vai levar muito tempo pra quebrar tabus tão seculares. Viola Davis declarou no Los Angeles Times que “[…] em breve, a frase ‘a primeira negra a…’ deixará de existir”. É uma previsão otimista, mas espero que ela esteja certa.

VENCEDORES DO 67º EMMYS

MELHOR SÉRIE DRAMÁTICA
Game of Thrones

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA
Veep

ATOR EM SÉRIE DRAMÁTICA
Jon Hamm (Mad Men)

ATRIZ EM SÉRIE DRAMÁTICA
Viola Davis (How to Get Away With Murder)

ROTEIRO – SÉRIE DRAMÁTICA
David Benioff, D.B. Weiss (Game of Thrones) pelo episódio “Mother’s Mercy”

ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DRAMÁTICA
Uzo Aduba (Orange is the New Black)

DIREÇÃO – SÉRIE DRAMÁTICA
David Nutter (Game of Thrones) pelo episódio “Mother’s Mercy”

ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DRAMÁTICA
Peter Dinklage (Game of Thrones)

MELHOR PROGRAMA DE VARIEDADES
The Daily Show With Jon Stewart

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA DE ESQUETES
Inside Amy Schumer

MELHOR TELEFILME
Bessie

MELHOR MINISSÉRIE
Olive Kitteridge

ATRIZ – MINISSÉRIE OU TELEFILME
Frances McDormand (Olive Kiiteridge)

ATOR – MINISSÉRIE OU TELEFILME
Richard Jenkins (Olive Kitteridge)

DIREÇÃO – MINISSÉRIE OU TELEFILME
Lisa Cholodenko (Olive Kitteridge)

ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Bill Murray (Olive Kitteridge)

ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Regina King (American Crime)

ROTEIRO – MINISSÉRIE, TELEFILME OU ESPECIAL DE DRAMA
Jane Anderson (Olive Kitteridge)

MELHOR PROGRAMA DE REALITY
The Voice

MELHOR HOST EM PROGRAMA DE REALITY
Jane Lynch (Hollywood Game Night)

ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Julia Louis-Dreyfus (Veep)

ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Jeffrey Tambor (Transparent)

DIREÇÃO – SÉRIE DE COMÉDIA
Jill Soloway (Transparent) pelo episódio “Best New Girl”

ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Allison Janney (Mom)

ROTEIRO – SÉRIE DE COMÉDIA
Simon Blackwell, Armando Iannucci, Tony Roche (Veep) pelo episódio “Election Night”

ATOR CODJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Tony Hale (Veep)

ROTEIRO – SÉRIE DE VARIEDADES
The Daily Show With Jon Stewart

DIREÇÃO – SÉRIE DE VARIEDADES
Chuck O’Neil (The Daily Show With Jon Stewart)

ATRIZ CONVIDADA EM SÉRIE DE COMÉDIA
Joan Cusack (Shameless)

ATOR CONVIDADO EM SÉRIE DE COMÉDIA
Bradley Whitford (Transparent)

ATRIZ CONVIDADA EM SÉRIE DRAMÁTICA
Margo Martindale (The Americans)

ATOR CONVIDADO EM SÉRIE DRAMÁTICA
Reg E. Cathey (House of Cards)

Julia Louis-Dreyfus com seu sexto Emmy na mão (photo by usatoday.com)

Julia Louis-Dreyfus com seu sexto Emmy na mão (photo by usatoday.com)

Anúncios

O venezuelano ‘From Afar’ (Desde Allá) se torna o primeiro filme latino a ganhar o Leão de Ouro

O diretor venezuelano Lorenzo Vigas ostenta o primeiro Leão de Ouro para a América Latina por Desde Allá (photo by sicnoticias.sapo.pt)

O diretor venezuelano Lorenzo Vigas ostenta o primeiro Leão de Ouro para a América Latina por Desde Allá (photo by sicnoticias.sapo.pt)

FESTIVAL MAIS ANTIGO DE CINEMA CONCEDE SEU PRÊMIO MÁXIMO PELA PRIMEIRA VEZ A UMA PRODUÇÃO LATINA

Por incrível que pareça, o festival italiano de 72 anos finalmente premia um filme latino. Não sei em que grau serviu como influência, mas foi preciso um presidente do júri latino, o mexicano vencedor do Oscar de Diretor por Gravidade, Alfonso Cuarón, para quebrar esse tabu de mais de sete décadas. Já me posicionei sobre essa questão de não gostar de ver favorecimentos de presidentes de júris de festivais a um ou outro concorrente. É desleal e uma injustiça com os demais participantes de uma competição. Mas é bacana noticiar a vitória de um latino num evento tão importante quanto Veneza.

O filme venezuelano From Afar, estréia na direção de Lorenzo Vigas (48 anos), acompanha a trajetória de um homem de meia idade pelas ruas de Caracas à procura de jovens companhias masculinas. Ele conhece Elder, um rapaz de 17 anos, que é líder de uma gangue criminosa. A crítica internacional fez elogios ao trabalho, ressaltando seu frescor no retrato dessa relação entre os personagens principais, assim como as atuações do veterano ator chileno Alfredo Castro e o iniciante Luis Silva.

Cena de Desde Allá com Luis Silva (à esquerda) e Alberto Castro (photo by cinepop.com.br)

Cena de Desde Allá com Luis Silva (à esquerda) e Alberto Castro (photo by cinepop.com.br)

Em seu discurso de agradecimento, o diretor Vigas foi patriota: “Quero dedicar este prêmio para meu espetacular país, a Venezuela. Estamos com alguns problemas, mas somos muito positivos. Somos uma nação maravilhosa e vamos começar a dialogar mais uns com os outros.” – Por mais que possa soar como pró-governo mediante benefícios, o discurso de Vigas se mostra bastante honesto e comprova o poder da Arte e da Cultura mesmo em realidades duras como a da Venezuela. Aqui no Brasil, não é muito diferente. Quem consegue fazer um filme e exibir numa tela de cinema por duas semanas já é um vitorioso diante de tantas adversidades.

Além do filme venezuelano, outras produções latinas foram contempladas nesta edição, o que levantou essa questão da influência do presidente do júri ser mexicano. Alfonso Cuarón respondeu: “Minha presença como presidente contou tanto quanto como se fosse o Rei da Suécia. Mesmo se eu quisesse ajudar os latinos, teria que ser uma conspiração bem maior.” – Além dessa questão latina, deve existir uma identificação do teor da sexualidade de From Afar com E Sua Mãe Também, de Cuarón.

O Clã Puccio, retratado no filme El Clan, de Pablo Trapero, vencedor do Leão de Prata (photo by adorocinema.com)

O Clã Puccio, retratado no filme El Clan, de Pablo Trapero, vencedor do Leão de Prata (photo by adorocinema.com)

A América Latina também ficou com o 2º lugar com o argentino Pablo Trapero levando o Leão de Prata por The Clan (El Clan), que reconta as histórias verídicas de seqüestros e assassinatos de vizinhos ricos para pedir resgate pela família que formava o Clã Puccio nos anos 80. Vale lembrar que o filme contou com a produção dos irmãos espanhóis Augustín e Pedro Almodóvar. O cinema argentino, que há anos se consagrou como um dos melhores do continente, possui diretores com reais perspectivas como Juan José Campanella, Carlos Sorín, Alejandro Agresti e o próprio Pablo Trapero. Claro que ainda é preciso conferir El Clan, mas ponto para Alfonso Cuarón por enxergar essa qualidade no cinema argentino também.

Os demais prêmios principais parecem ter sido distribuídos de forma mais igualitária. Enquanto a animação norte-americana Anomalisa, do sempre inovador Charlie Kaufman, levou o Grande Prêmio do Júri, o cinema francês ficou com os prêmios de Melhor Ator para Fabrice Luchini e Roteiro por Courted (L’Hermine),  e a Turquia levou o Prêmio Especial do Júri por Frenzy (Abluka). Já o cinema da casa do evento teve que se conformar com o prêmio de Melhor Atriz para a italiana Valeria Golino por Per Amor Vostro. Ela ficou conhecida por seu papel em Rain Man (1988) e pela comédia Top Gang! – Ases Muito Loucos (1991).

Vencedor de Melhor Ator, Fabrice Luchini, em cena de Courted (L’hermine) – photo by publico.pt

Valeria Golino com seu Volpi Cup de Melhor Atriz por Per Amor Vostro (photo by news.xinhuanet.com)

Valeria Golino com seu Volpi Cup de Melhor Atriz por Per Amor Vostro (photo by news.xinhuanet.com)

Pela Mostra Horizontes, o grande vencedor foi o norte-americano Childhood of a Leader, do estreante Brady Corbet. Baseado em conto de Jean-Paul Sartre, o filme conta a história de um menino americano que vive na França em 1918 enquanto seu pai trabalha para o governo americano na criação do Tratado de Versalhes. No elenco, o queridinho da cinessérie Crepúsculo, Robert Pattinson, a indicada ao Oscar Bérénice Bejo (O Artista) e a jovem Stacy Martin, que protagonizou Ninfomaníaca: Volume 1, de Lars von Trier.

Cena de The Childhood of a Leader, de Brady Corbet (photo by cine.gr)

Cena de The Childhood of a Leader, de Brady Corbet (photo by cine.gr)

Para o Brasil, a festa vai toda para o pernambucano Gabriel Mascaro, que levou o Prêmio Especial do Júri na Mostra Horizontes por Boi Neon. Especialista em documentários, este é apenas seu segundo trabalho em ficção. A trama tem como cenário as vaquejadas (espécie de rodeio em que dois vaqueiros à cavalo precisam emparelhar o boi entre si e derrubá-lo) e tem como protagonista o ator Juliano Cazarré.

O pernambucano Gabriel Mascaro com o Prêmio Especial do Júri da Mostra Horizontes por Boi Neon (photo by elnuevoherald.com)

O pernambucano Gabriel Mascaro com o Prêmio Especial do Júri da Mostra Horizontes por Boi Neon (photo by elnuevoherald.com)

O Festival de Veneza deste ano buscou se reabilitar da queda de popularidade e de crítica dos últimos anos, além de tentar superar a competição do Festival de Toronto, que acontece na mesma época e que tem “roubado” os possíveis candidatos ao Oscar do ano seguinte. Aliás, falando em Oscar, no início do festival, muito se falou que o filme de ação Evereste teria ótimas chances no Oscar 2016 porque, assim como nos últimos dois anos Gravidade e Birdman, foi o filme que abriu o festival. Ok, nem sempre as coincidências garantem alguma coisa. E sem querer menosprezar Evereste, vou chutar aqui indicações para Som, Efeitos Sonoros, e no máximo Efeitos Visuais e Trilha Musical por causa de Dario Marianelli.

VENCEDORES DO 72º FESTIVAL DE VENEZA:

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

LEÃO DE OURO: From Afar  (Dir: Lorenzo Vigas, Venezuela/ México)

LEÃO DE PRATA: The Clan (Dir: Pablo Trapero, Argentina/ Espanha)

GRANDE PRÊMIO DO JÚRI: Anomalisa (Dir: Charlie Kaufman e Duke Johnson, EUA)

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Frenzy (Dir: Emin Alper, Turquia/ França/ Qatar)

VOLPI CUP DE MELHOR ATOR: Fabrice Luchini  (Courted) – França

VOLPI CUP DE MELHOR ATRIZ: Valeria Golino (Per amor vostro) – Itália/ França

PRÊMIO MARCELLO MASTROIANNI PARA JOVENS ARTISTAS: Abraham Attah (Beasts of No Nation) – EUA

MELHOR ROTEIRO: Christian Vincent (Courted) – França

PRÊMIO LUIGI DE LAURENTIIS LEÃO DO FUTURO
The Childhood of a Leader (Dir: Brady Corbett, EUA)

MOSTRA HORIZONTE

MELHOR FILME
Free in Deed (Dir: Jake Mahaffi, EUA/ Nova Zelândia)

MELHOR DIRETOR
Brady Corbet  (The Childhood of a Leader) – EUA

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI
Boi Neon (Neon Bull) (Dir: Gabriel Mascaro, Brasil/ Uruguai/ Holanda)

PRÊMIO ESPECIAL PARA MELHOR ATOR OU ATRIZ
Dominique Leborne (Tempete) – França

MELHOR CURTA-METRAGEM
Belladonna (Dir: Dubravna Turic, Croácia)

VENICE CLASSICS AWARDS

MELHOR DOCUMENTÁRIO
The 1,000 Eyes of Dr. Maddin, de Yves Montmayeur – França

MELHOR FILME RESTAURADO
Salò, ou os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini – Itália

Salò, ou os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini. Se for pra comparar, o vídeo do Youtube é fichinha.

Salò, ou os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini: uma adaptação de Marquês de Sade com muito a dizer sobre a Itália fascista.

‘Que Horas Ela Volta?’ representará o Brasil no Oscar 2016

Pôster de Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert (photo by quadroporquadro.com.br)

Pôster de Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert (photo by quadroporquadro.com.br)

BRASIL SELECIONA FILME EM ALTA INTERNACIONALMENTE

Na última quinta-feira, dia 10, o MinC anunciou o filme que representará o país na corrida pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. A nova produção, escrita e dirigida por Anna Muylaert, Que Horas Ela Volta?, ou The Second Mother, como é conhecido internacionalmente, já era apontada por muitos como a grande favorita entre os oito que competiam.

Os demais sete filmes competidores foram:

  • A História da Eternidade, de Camila Cavalcante
  • Alguém Qualquer, de Tristan Aronovich
  • Campo de Jogo, de Eryc Rocha
  • Casa Grande, de Felipe Barbosa
  • Entrando numa Roubada, de André Miraes
  • A Estrada 47, de Vicente Ferraz
  • Estranhos, de Paulo Alcântara

Quando vi o cartaz de A Estrada 47 e descobri que se trata de um filme sobre a Segunda Guerra Mundial com soldados brasileiros, na hora pensei: “Taí o representante brasileiro no Oscar do ano que vem!”, afinal a Academia adora duas coisas nessa categoria: Guerra e Judeus. Portanto, pra mim foi uma surpresa a seleção deste drama com humor. Até o momento em que pude conferir no cinema.

Em Que Horas Ela Volta?, acompanhamos a vida da emprega doméstica Val, que cuida do filho dos patrões como se fosse seu, mas precisa lidar com a filha que não vê há mais de 10 anos, quando ela sai de Pernambuco pra morar com ela em São Paulo.

À esquerda, Camila Márdila contracena com Regina Casé. Elas interpretam filha e mãe, respectivamente. (photo by outnow.ch)

À esquerda, Camila Márdila contracena com Regina Casé. Elas interpretam filha e mãe, respectivamente. (photo by outnow.ch)

Talvez alguns cinéfilos me crucifiquem aqui, mas a trama me lembrou um pouco a do néo-clássico Teorema (1968), de Pier Paolo Pasolini, no qual vemos um estranho (Terence Stamp) entrar na casa e na vida de todos os membros de uma família da burguesia italiana, bagunçando toda a estrutura familiar pra sempre. Claro que, em menor escala, o filme de Muylaert tem sua crítica social, abordando os limites da classe mais baixa e o papel do nordestino na maior cidade do país, quase como os de imigrantes de países subdesenvolvidos em países de primeiro mundo.

No filme nacional, um dos grandes diferenciais atende pelo nome de Regina Casé. Sim, aquela apresentadora da Rede Globo do programa dominical “Esquenta!”. Ela surpreende com tamanho carisma e bom humor, que fica impossível de não se identificar e torcer por sua personagem diante das adversidades. A partir da segunda metade do filme, ela divide as atenções com Camila Márdila, que interpreta sua filha, e sua atuação fica ainda mais consistente por justamente elevar a questão de sua ausência na criação da filha.

Pelas atuações, as duas receberam um prêmio especial no último Festival de Berlim, de onde também saiu com o prêmio do público. A diretora comemorou bastante a seleção de seu trabalho, uma vez que deve aumentar a renda nas bilheterias, que até o momento foi de apenas 66 mil espectadores no Brasil. “Existe um público que está sabendo, mais elitizado. Mas acredito que a natureza dele é popular. Não temos verba para publicidade em ônibus, outdoor. [A escolha] pode fazer com que o filme chegue mais longe. Isso, para mim, é a grande notícia de hoje.”, declarou Muylaert em entrevista à Folha de S. Paulo.

Na coletiva de imprensa do filme Que Horas Ela Volta? no Festival de Berlim, da esquerda para a direita: o produtor Fabiano Gullane, a atriz Camila Márdila e a diretora Anna Muylaert (photo by berlinale.de)

Na coletiva de imprensa do filme Que Horas Ela Volta? no Festival de Berlim, da esquerda para a direita: o produtor Fabiano Gullane, a atriz Camila Márdila e a diretora Anna Muylaert (photo by berlinale.de)

Quanto às chances reais do filme no Oscar, ela comentou: “Ele está quente na imprensa internacional. Na americana, incluisve. As críticas são incrivelmente positivas.”. Além de Berlim, Que Horas Ela Volta? conquistou o prêmio especial do júri no Festival de Sundance, e as críticas vêm do site Rotten Tomatoes, com o número altíssimo de 96% de aprovação, e do site Indiewire. Quando vi o filme no cinema, tive a boa sensação que costumo ter quando assisto a um bom filme argentino e isso é ótimo, pois o cinema dos hermanos privilegia um bom roteiro, boas atuações e reflete a situação político-social do país. E a Argentina já levou duas estatuetas do Oscar.

Claro que se tivesse um filme de guerra com judeus seria o ideal (não, eu não concordo com esse sistema, mas é assim que funciona pra ganhar), mas considero uma decisão coerente da comissão do MinC ao selecionar um filme que proporcione uma identificação com o povo ali representado.  Poderiam ter ido na cola das maiores bilheterias e selecionado outra produção mais popular, mas optaram por algo que passasse alguma mensagem sobre a atual situação do país. Pode não resultar em prêmio, nem mesmo em indicação, mas mostra um amadurecimento da cinema como Arte.

Por enquanto, a concorrência pelo Oscar está apenas esquentando. Nosso vizinho Chile escolheu O Clube, de Pablo Larraín, que foi indicado por No. Taiwan escolheu The Assassin, de Hou Hsiao-Hsien, que levou o prêmio de direção em Cannes. A Suécia vai com o vencedor do Leão de Ouro de 2014, o drama Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência, de Roy Andersson. E até o momento, o concorrente mais forte vem da Hungria, com Son of Saul (Saul Fia), de László Nemes. Além de ter conquistado o Grande Prêmio do Júri em Cannes, tem como cenário um campo de concentração, e aí já viu, né? Os velhinhos votantes da Academia vão chorar horrores lembrando de seus antepassados e dar seus votos. Claro que o filme pode ser maravilhoso, mas é um artifício que todo cineasta do planeta já conhece pra ganhar esse Oscar.

Cena do representante húngaro Son of Saul (Saul fia), de László Nemes (photo by cine.gr)

Cena do representante húngaro Son of Saul (Saul fia), de László Nemes (photo by cine.gr)

Nos últimos anos, o Brasil selecionou filmes razoáveis e bons como Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, O Som ao Redor, O Palhaço e Tropa de Elite 2: Agora o Inimigo é Outro. Na minha humilde opinião, Tropa de Elite 2, de José Padilha, merecia facilmente estar entre os finalistas, mas sequer passou pra segunda fase do processo de seleção. Sabem qual foi o último a conseguir essa proeza? O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger, de 2006. Apesar de ser um filme bom, ele tinha uma carta na manga: um dos personagens centrais era judeu.

Enfim, além dessa cartilha para ganhar o Oscar de Filme em Língua Estrangeira que posto todo ano aqui, o filme de Anna Muylaert está seguindo uma estratégia que já funcionou: lançar o filme primeiro em festivais internacionais, conseguir voltar ao país com alguma consagração e obter apoio nacional mais facilmente. Foi assim com Central do Brasil, de Walter Salles, que, aliás, foi a última produção brasileira indicada ao Oscar nessa categoria no longínquo ano de 1999.

Haverá uma pré-seleção, que reduz todos os representantes numa lista de nove filmes, e em seguida, a lista dos cinco indicados será divulgada no dia 14 de janeiro.