Em noite de lambança histórica, ‘MOONLIGHT’ tira o Oscar de ‘LA LA LAND’

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O produtor de La La Land, Jordan Horowitz, revela o real conteúdo do envelope: “Moonlight”. Warren Beatty e Jimmy Kimmel com sorrisos amarelos e já com dor de cabeça…

GAFE HISTÓRICA TERIA SE ORIGINADO EM TROCA DE ENVELOPES

Em 89 anos de história e há 20 anos que acompanho o Oscar, nunca vi uma lambança que nem essa que aconteceu na entrega de Melhor Filme. No final da cerimônia, o casal Faye Dunaway e Warren Beatty, que estava celebrando 50 anos do clássico Bonnie & Clyde (1967), revelou La La Land como o grande vencedor da noite, mas alguém do evento avisou que o resultado era outro, e o próprio produtor de La La Land corrigiu o erro ao vivo, repassando o Oscar para Moonlight. Logo em seguida, Warren Beatty contou que seu envelope estava escrito “Emma Stone (La La Land)”, que Dunaway leu sem restrição alguma. Jamais esperei esse erro por parte da Academia… Foi Momento Miss Universo no Oscar! Tanto que Jimmy Kimmel até brinca: “Eu particularmente culpo Steve Harvey por isso!”

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Os produtores Jeremy Kleiner, Adele Romanski e Barry Jenkins posam com as estatuetas por Moonlight (pic by theguardian.com.uk)

Enfim, parabéns pela humildade do produtor Jordan Horowitz e para a equipe de Moonlight. Ainda estou chocado com a gafe e acredito que ela ainda vai render por vários anos até teorias conspiratórias… Não concordo com esse prêmio, mas entendo as pessoas que gostaram e se emocionaram com o filme de Barry Jenkins, assim como entendo o recado que a Academia quis dar em relação às críticas racistas e ao próprio presidente Donald Trump e sua política extremista. Moonlight também levou os Oscars de Roteiro Adaptado e Ator Coadjuvante para Mahershala Ali.

Pra quem quiser ver ou rever a cena:

Faye Dunaway e Warren Beatty lêem errado e Moonlight leva Melhor Filme

De uma forma geral, felizmente, os vencedores foram mais imprevisíveis. Além da já citada categoria de Melhor Filme, dá pra citar Montagem e Som para Até o Último Homem, Maquiagem para Esquadrão Suicida, Figurino para Animais Fantásticos e Filme em Língua Estrangeira para o iraniano O Apartamento. O campeão de indicações desta edição, La La Land, ficou com seis estatuetas. Por mais que eu tenha gostado de um filme, acho mais bacana quando a Academia pulveriza seus prêmios com mais filmes do que acumular um monte para apenas um filme, pois além de reconhecer mais trabalhos, dá a chance de eles serem mais vistos pelo simples fato de terem ganhado um Oscar.

Desse modo, a premiação de Efeitos Sonoros para A Chegada foi excepcional. Por se tratar de uma ficção científica moderna, precisava ser reconhecida pela Academia de alguma forma. Embora tenha sido premiado apenas numa categoria menor, o filme de Denis Villeneuve pode render mais projeção.

A CERIMÔNIA

Host pela primeira vez, Jimmy Kimmel procurou ser autêntico, mas acredito que ele buscou referências bem-sucedidas como Ellen DeGeneres. Os organizadores trouxeram um grupo de excursão para dentro do Dolby Theater durante a cerimônia do Oscar para gerar uma surpresa. Foi uma idéia diferente, mas ficou bem borocoxô. Quem sabe se fossem crianças ou estudantes de cinema… cinéfilos, sei lá. Kimmel não parecia ter roteiro algum pra situação e por isso, a atração não teve o impacto desejado. E ficou mais com cara de que pareciam atores encenando surpresa, então perdeu a autenticidade do negócio. Tentaram reproduzir aquele momento do entregador de pizzas de 2014 com a Ellen DeGeneres, mas sem o mesmo brilho da apresentadora.

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Excursão para o Oscar: não funcionou na prática

Engraçado que eles gastaram um baita tempão para esse quadro, cerca de uns 4 minutos?, mas não podiam gastar 30 segundos para trazer os homenageados do Oscar Honorário para o palco e receber uma salva de palmas. Eles tiveram que se contentar com o camarote na lateral.

Jimmy Kimmel também pecou no excesso de piadas com o ator Matt Damon, com quem tem uma relação de humor há onze anos, iniciada em seu próprio programa televisivo. Nesse dia, após um programa com uma série de erros, o host teria pedido desculpas ao final para Matt Damon. “Ele foi o primeiro nome que me veio à cabeça. Procurei pensar numa estrela de primeira grandeza, daquelas que nunca recusaríamos num programa…”, revelou Kimmel. Contudo, acertou ao postar ao vivo tweets para o presidente Donald Trump como: “Hey, Trump. U up? (Ei, Trump. Está acordado?) e, claro, suas tiradas no monólogo como “Não sei se é algo popular a se dizer, mas eu quero agradecer o presidente Trump. Quero dizer, vocês se lembram do ano passado em que o Oscar parecia ser racista?” e “Foi um ano excepcional para os filmes. Os negros salvaram a NASA e os brancos salvaram o jazz”.

Já a melhor coisa da noite foram as homenagens antes das apresentações. Começou com um videoclipe da atriz Charlize Theron reassistindo Se Meu Apartamento Falasse num cinema e falando bem do filme de Billy Wilder e principalmente de Shirley MacLaine, para logo em seguida, as duas surgirem no palco para apresentar uma categoria. Como Hollywood é feito por gerações de artistas, nada mais apropriado do que unir essas gerações no próprio Oscar.

As outras duas homenagens foram: de Seth Rogen para Michael J. Fox em De Volta Para o Futuro, e de Javier Bardem para Meryl Streep em As Pontes de Madison. Sou super a favor de fazerem isso mais vezes nos próximos anos, porque assim é possível saber o que um ator ou atriz tem a dizer sobre um filme ou performance cultuada e vê-lo(la) interagir com o artista em si.

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Seth Rogen chega de DeLorean com Michael J. Fox no palco do Oscar

Também vale ressaltar outro videoclipe intitulado “Movies Around the World” (Filmes ao redor do mundo), no qual vemos vários estrangeiros falando sobre o papel dos filmes e o que eles significam para cada um, para depois citar favoritos. Acho bastante válido a Academia buscar essa interação com o resto do mundo, porque cinema sempre foi e sempre será uma linguagem universal. Só acho que deveriam também espalhar esse amor pelo resto do mundo ao expandir para 10 indicados o Oscar de Filme em Língua Estrangeira!! Nesse clipe, houve as participações do ator Lázaro Ramos (ue falou bem de O Poderoso Chefão e Faça a Coisa Certa) e de Seu Jorge, mas houve uma falha técnica e o TNT ficou fora do ar por quase 2 minutos.

IMPRESSÕES PESSOAIS

Já que Mahershala Ali praticamente ganhou o Oscar por causa de seu discurso de orgulho por ter raízes muçulmanas no SAG Awards, eu estava esperando um baita discurso nessa linha e que ele lançasse o primeiro ataque a Trump por bloquear a entrada de civis de países muçulmanos. Mas não foi isso que vimos…

Felizmente, Viola Davis salvou a noite com um belíssimo discurso. Não apenas pelas palavras, mas a mulher sabe dizê-las com poder! Ela dedica o prêmio ao dramaturgo August Wilson, autor de “Fences”, e agradece por trabalhar numa profissão que exalta a vida de pessoas comuns, com seus sonhos não-concretizados e paixões perdidas.

Pela categoria de Filme em Língua Estrangeira, com o anúncio de que o diretor Asghar Farhadi não compareceria ao Oscar por causa de Trump, muitos especialistas no assunto passaram a acreditar que ele ganharia, batendo o favorito alemão Toni Erdmann. Não sei quanto ao resultado, porque honestamente não vi o filme iraniano, mas independente da qualidade, o discurso do ausente Asghar Farhadi lido no palco foi fenomenal! Nele, Farhadi acredita que quando se divide o mundo entre nós e o inimigo, cria-se o medo. E, realmente, não é assim que se resolve o problema do terrorismo, Trump.

Em relação aos prêmios de música, John Legend cantou as duas canções de La La Land numa espécie de mix no lugar dos astros Ryan Gosling e Emma Stone, que tiveram receio de falhar ao vivo, já que não são cantores profissionais. Pra sorte deles, as canções já estavam praticamente com as mãos no prêmio, então a apresentação em si não iria interferir no resultado. Dentre as canções apresentadas, muito ponto positivo para Justin Timberlake que já entrou com tudo no teatro e colocou todo mundo pra dançar com sua performance de “Can’t Stop the Feeling”. Foi um jeito bem despojado de começar o Oscar! Já pela qualidade de canto, destaque para Auli’i Cravalho por sua linda voz ao cantar “How Far I’ll Go” de Moana.

Dos demais prêmios, embora preferia o roteiro de A Qualquer Custo, gostei da vitória de Kenneth Lonergan por Manchester à Beira-Mar, assim como a vitória de Casey Affleck como Melhor Ator. Pra mim, só faltou Isabelle Huppert ter levado Melhor Atriz, mas enfim era o ano de Emma Stone…

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Vencedores nas categorias de atuação: Mahershala Ali, Emma Stone, Viola Davis e Casey Affleck.

DETALHES DE ÚLTIMA HORA

Bom, como virei a noite pra poder finalizar o post sobre o Oscar, algumas coisas ficaram de fora, mas acho importante relatar aqui.

Primeiramente, sobre o incidente do envelope de Melhor Filme, foi uma pena. É nessas horas que a gente vê como um erro bobo pode arruinar toda uma cerimônia meticulosamente bem planejada. Ao pessoal de La La Land ficou uma sensação de ridículo, de humilhação pública, mas que foi muito bem contornada pelo produtor Jordan Horowitz que assumiu as rédeas num momento delicado para fazer justiça. Sim, o negócio poderia ficar bem mais feio. E mesmo com a vitória, o pessoal de Moonlight ficou com um peso estranho nas costas que acaba roubando o brilho do momento. O mesmo pode se dizer sobre a vitória de Emma Stone, porque na sala de imprensa, ela mais respondia perguntas sobre o paradeiro do envelope de Melhor Atriz (que foi indevidamente lido por Warren Beatty e Faye Dunaway) do que sobre sua gloriosa vitória.

Ainda sobre erros, a 89ª cerimônia do Oscar cometeu outra gafe, menos gritante que a da troca de envelope, mas não menos grave. Na costumeira homenagem In Memoriam aos artistas falecidos, quando o nome da figurinista Janet Patterson surge, a foto não é dela, mas de uma amiga e colaboradora chamada Jan Chapman, com quem trabalhou nos figurinos de O Piano (1993). Imaginem a reação da confundida! “Fiquei devastada com o uso de minha imagem no lugar de minha grande amiga e colaboradora de longa data Janet Patterson. Cobrei à agência uma foto dela que pudesse ser usada, mas fui informada de que a Academia já havia conseguido. Janet era muito bonita e foi indicada quatro vezes ao Oscar, então é muito frustrante que o erro não foi consertado a tempo. Estou viva, bem, e sou uma produtora em atividade.”

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Trecho de videoclipe In Memoriam, em que a foto da produtora Jan Chapman aparece como sendo a figurinista Janet Patterson. GAFE!

Sobre as coisas que esqueci, faltou mencionar a primeira vitória do sound mixer Kevin O’Connell, que era considerado até ontem o maior perdedor do Oscar com 20 indicações sem nenhuma vitória. Ele venceu por sua 21ª indicação pelo filme Até o Último Homem, de Mel Gibson. Assim, ele finalmente passa a tocha de “loser” para outro artista, provavelmente, seu colega de área Greg P. Russell, que havia conquistado sua 17ª indicação, mas que foi revogada pela presidente da Academia por ter feito lobby. Entre outros recordistas de indicações sem vitória estão o compositor Thomas Newman (14 indicações) e o diretor de fotografia Roger Deakins (13 indicações).

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À esquerda, Kevin O’Connell ficou tão feliz com sua primeira vitória após 21 indicações que dominou o microfone, mesmo com três colaboradores ao lado

A vitória de Colleen Atwood por Animais Fantásticos e Onde Habitam na categoria de Figurino foi considerada uma surpresa, já que as apostas indicavam La La Land ou Jackie, portanto, os votos podem ter se dividido e dado espaço para Atwood. Com essa vitória, ela conquistou sua 4ª estatueta do Oscar, igualando-se à Milena Canonero como vice-campeã de vitórias no Oscar. A maior recordista de todos os tempos permanece a eterna Edith Head, que venceu oito vezes.

VENCEDORES DO 89th ACADEMY AWARDS:

MELHOR FILME
Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight)

MELHOR DIRETOR
Damien Chazelle (La La Land)

MELHOR ATOR
Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)

MELHOR ATRIZ
Emma Stone (La La Land)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Mahershala Ali (Moonlight)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Viola Davis (Um Limite Entre Nós)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Barry Jenkins (Moonlight)

MELHOR FOTOGRAFIA
Linus Sandgren (La La Land)

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
David Wasco, Sandy Reynolds-Wasco (La La Land)

MELHOR MONTAGEM
John Gilbert (Até o Último Homem)

MELHOR FIGURINO
Colleen Atwood (Animais Fantásticos e Onde Habitam)

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
Alessandro Bertolazzi, Giorgio Gregorini, Christopher Allen Nelson (Esquadrão Suicida)

MELHOR TRILHA MUSICAL ORIGINAL
Justin Hurwitz (La La Land)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“City of Stars”, de Justin Hurwitz, Benj Pasek, Justin Paul (La La Land)

MELHOR SOM
Kevin O’Connell, Andy Wright, Robert Mackenzie, Peter Grace (Até o Último Homem)

MELHORES EFEITOS SONOROS
Sylvain Bellemare (A Chegada)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Robert Legato, Adam Valdez, Andrew R. Jones, Dan Lemmon (Mogli: O Menino Lobo)

MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
O Apartamento, de Asghar Farhadi (IRÃ)

MELHOR ANIMAÇÃO
Zootopia, de Byron Howard e Ron Clements

MELHOR DOCUMENTÁRIO
O.J.: Made in America, de Ezra Edelman

MELHOR DOCUMENTÁRIO-CURTA
The White Helmets

MELHOR CURTA-METRAGEM
Mindenki

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO
Piper

 

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APOSTAS PARA O OSCAR 2017: O Ano de ‘LA LA LAND’

Pôster oficial do Oscar 2017, com o host Jimmy Kimmel

Pôster oficial do Oscar 2017, com o host Jimmy Kimmel

EM SUA 89ª EDIÇÃO, O OSCAR PODE VOLTAR A PREMIAR UM MUSICAL APÓS 14 ANOS

Yes, it’s Oscar time! Infelizmente, este ano coincidiu com o Carnaval, este evento anual que é responsável por ruas públicas urinadas, e com isso, a Globo, que é detentora dos direitos de transmissão, não deve passar ao vivo porque o Carnaval é mais importante, né gente? Primeiro vem o Carnaval, em segundo o Big Brother e se sobrar tempo, vem o Oscar. Aí eu pergunto: Por que não deixar outra emissora aberta transmitir? Porque a Globo não gosta de concorrência.

Enfim, felizmente, o Oscar pode contar com a TNT, que aliás, iniciará sua transmissão a partir das 21h, horário de Brasília, quando teremos o famoso tapete vermelho e as entrevistas. Para quem ouve a faixa de áudio com tradução simultânea, poderá contar com os comentários de Rubens Ewald Filho e Domingas Person. Como a tradução mais atrapalha do que ajuda, prefiro sempre ouvir em áudio original em inglês.

HOST: JIMMY KIMMEL

É difícil prevermos se um host mandará bem ou não no Oscar, por isso, os produtores do evento costumam fazer apostas mais seguras, convidando profissionais que lidam com humor de stand up como Chris Rock ou que tenham os próprios talk shows como David Letterman. Das poucas vezes que arriscaram, os resultados foram desastrosos: em 2010, a dupla Steve Martin e Alec Baldwin; e em 2011, a dupla mais sem química de todas Anne Hathaway e James Franco. Honestamente, até hoje não entendo quem teve a brilhante idéia de fazer essa combinação.

Os produtores desta 89ª cerimônia, Michael de Luca e Jennifer Todd, foram no safe bet (aposta segura) com Jimmy Kimmel. Seu talk show, o Jimmy Kimmel Live!, trabalha bem com sátiras de filmes e assim como o Oscar, é transmitido ao vivo, o que lhe garante experiência nos possíveis imprevistos. Além disso, Kimmel já foi host do Emmy Awards duas vezes. Espero que ele faça uma ótima apresentação, porque 3 horas de show tem que saber não deixar a peteca cair! Mas se dependesse de mim, pediria o retorno de Jon Stewart (ele seria perfeito nesse momento de turbulências políticas de Trump!), ou se fosse pra “estrear” alguém, chamaria Jim Carrey, que sempre foi muito bem nas apresentações de prêmios do Oscar e Globo de Ouro.

A 89ª EDIÇÃO DO OSCAR

Após conferir todos os nove filmes indicados a Melhor Filme, consegui chegar a um veredito pessoal. Claro que alguns vão concordar e outros podem discordar, afinal, estamos falando de Arte, que pode ser interpretada de acordo com cada espectador. De todos os nove, se eu fosse membro da Academia, votaria no western moderno A Qualquer Custo. Trata-se de um filme bem realizado, com uma direção segura e minimalista de David Mackenzie (que infelizmente não foi indicado), todo o elenco apresenta performances acima da média, inclusive os quase figurantes em cena, os personagens são ricos e complexos, e gera reflexão enquanto expõe o país do pós-crise econômica e nos diverte com suas piadas politicamente incorretas proferidas pelo personagem Marcus Hamilton (Jeff Bridges). Não entendi como Ben Foster não estava entre os indicados a Ator Coadjuvante.

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A Qualquer Custo (Hell or High Water)

Mas ao mesmo tempo, entendo o hype em torno de La La Land, que concorre a 14 Oscars. Primeiramente, é um dos bons exemplares do gênero musical, que predominava na Hollywood dos anos 50 e 60. Fazer um musical bem feito hoje em dia é para poucos. Não contamos mais com Fred Astaire, Ginger Rogers e Gene Kelly pra ajudar o musical a brilhar. Mas acima da qualidade fílmica em si, o filme de Damien Chazelle merece os láureos da temporada por saber dialogar sobre o sonho artístico. E não precisa ter feito faculdade ou trabalhado com Artes pra ser pego por La La Land, afinal, quem nunca teve o sonho de viver de Arte? Fazer um filme, pintar quadros, fazer exposições com suas fotos, ser cantor! Depois de conferirmos La La Land, é possível entender um pouco melhor os percalços de cada aspirante a artista, seja em Hollywood, seja na Índia.

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La La Land: Cantando Estações (La La Land)

Se A Chegada vencesse o Oscar de Melhor Filme, não seria nada injusto. Primeiramente, porque o gênero da ficção científica sempre foi considerado como Filme B pela Academia, tanto que nunca foi premiado como Melhor Filme em 88 anos de história. E em segundo lugar, o filme de Denis Villeneuve é mais do que um mero sci-fi. Aproveitando-se de uma história de invasão alienígena, ele cria uma análise do poder da comunicação entre povos como antítese da guerra. Em tempos de extrema direita de Donald Trump, em que imigrantes estão sendo deportados por pertencerem à religião muçulmana e de sete países do Oriente Médio, percebe-se claramente que está havendo uma falta de comunicação entre as nações. Embora tenha seu diretor indicado, a campanha do filme perdeu um pouco de sua força quando sua protagonista vivida por Amy Adams foi excluída da categoria de Melhor Atriz.

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A Chegada (Arrival)

Entre os filmes indies, o novo filme de Kenneth Lonergan, Manchester à Beira-Mar, foi um dos grandes destaques da temporada. Favorito nas categorias de Roteiro Original e Ator, o longa realmente tem seus maiores méritos justamente nesses dois campos. Com ampla experiência em peças, Lonergan consegue tecer uma história poderosa sobre perdas e traumas familiares, sem cair nos chavões dramáticos do subgênero. Mesmo numa história sobre luto, ele consegue criar momentos de ótimo humor negro, elemento esse que casou muito bem com a performance introspectiva de Casey Affleck. Na verdade, o elenco todo está bem equilibrado, já que Lucas Hedges se contrapõe a Affleck com sua energia, e Michelle Williams consegue extrair um pouco do passado tenebroso com sua sensibilidade.

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Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea)

 

Quanto ao filme de guerra Até o Último Homem, acredito que a indicação em si teve dois propósitos. Primeiramente, a Academia sempre gosta de preencher uma cota de filme de mocinho. A história verídica do soldado que nunca pegou numa arma, mas salvou várias vidas tinha de ser contada. E em segundo, a Academia gosta de perdoar artistas numa tentativa de causar uma redenção. Foi assim com problemáticos como Robert Downey Jr. e Sean Penn. Aqui é Mel Gibson, que nos últimos anos, soltou declarações polêmicas anti-semitas em situações constrangedoras, como quando foi pego bêbado pela polícia. Acho um bom filme, consistente, bem filmado por Gibson, mas peca pelo excesso nítido de Cristianismo. Daria pra dizer que é um filme patrocinado pela Igreja Cristã de tantas menções bíblicas e a forte inclinação do protagonista vivido por Andrew Garfield.

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Até o Último Homem (Hacksaw Ridge)

Em relação a Lion: Uma Jornada Para Casa e Um Limite Entre Nós, vejo um problema grave de adaptação. Vamos partir do princípio fundamental de que Cinema, Literatura e Teatro são formas de Arte distintas entre si. Cada meio de comunicação tem suas características muito próprias que precisam ser respeitadas para que funcionem. Nem tudo o que funcionou no livro vai funcionar no filme, assim como tudo o que funcionou numa peça vai funcionar no filme. Embora sejam duas histórias que precisavam ser contadas (Lion é sobre um rapaz indiano que encontra sua mãe biológica depois de vários anos, e Um Limite Entre Nós faz um belo estudo sobre a vida suburbana num bairro negro nos anos 60), faltou alguém que lapidasse as coisas que não funcionam em cinema.

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Lion: Uma Jornada Para Casa (Lion)

Em Lion, o segundo ato é totalmente ineficiente. Temos um ótimo começo e um ótimo final, mas o desenvolvimento da trama simplesmente nos faz engolir alguns acontecimentos por serem verídicos. Além disso, a personagem de Rooney Mara, apesar de ser real também, poderia ter sido cortada por completo, pois além de um papel mal escrito, não ajuda em nada a avançar a trama. Já em Um Limite Entre Nós, não tem como assistir ao filme sem pensar na peça de teatro. Eu mesmo ficava imaginando a história toda encenada num palco. Claro que não se trata apenas de um cenário confinando os personagens, mas a história toda se baseia em texto (diálogos bem defendidos pelos atores, especialmente Viola Davis, que tem dois monólogos), e Cinema é texto transformado em ação. Até movimentos de câmera foram economizados e a adaptação ficou essa coisa pobre. O texto original de August Wilson merecia um tratamento melhor pras telas. Honestamente, não entendi alguns críticos defendendo reconhecimento de Denzel Washington como diretor…

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Um Limite Para Nós (Fences)

Falando em coisas que não entendi foi o alto reconhecimento para Moonlight: Sob a Luz do Luar, começando pelo roteiro de Barry Jenkins. Ele reúne temas fortes e polêmicos como homossexualidade e drogas, mas os trata de forma superficial, quase estereotipada. Temos uma mãe viciada que maltrata seu filho, que passa a ser cuidado por um ex-traficante, e ao amadurecer, descobre-se homossexual e sofre bullying por sua opção sexual. Essa reunião de elementos me pareceu muito didática com soluções muito simples, algo comum para diretores em processo de formação. Obviamente, há méritos isolados como a atuação de Mahershala Ali, que merecia mais tempo de filme, e a trilha musical de Nicholas Britell, mas no geral considero uma produção superestimada, e muito provavelmente só está em alta por pegar carona com a polêmica do #OscarSoWhite. A Academia precisava eleger um filme que pudesse responder às críticas que sofreu ano passado e optou por este. Contudo, quero deixar bem claro que não estou criticando Moonlight por seus temas (antes que venham comentários politicamente corretos), mas a forma como os temas foram trabalhados. Já vi e gostei de inúmeros filmes que abordam o mesmo universo, porém de um jeito mais maduro e consistente como o Querelle, do Fassbinder, por exemplo, ou os mais recentes como Mistérios da Carne, Direito de AmarWeekend. Pode ser que lá pra frente Barry Jenkins se torne um bom diretor, pois tem potencial, mas por enquanto é cedo demais para tanto.

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Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight)

E por último, apesar de ser mega convencional, Estrelas Além do Tempo funciona. De todos os filmes de temática negra é o que mais sabe valorizar a raça com personagens fortes e uma história sensacional e verídica de moças negras que ajudaram a NASA a levar John Glenn ao espaço com seus conhecimentos técnicos.É uma fórmula batida? Sim, mas está bem aplicada. Não sei se merecia o posto de indicado a Oscar de Melhor Filme, mas pelo menos é honesto. Não entendi bem a indicação isolada para Octavia Spencer, já que todas as atrizes estão bem, embora Taraji P. Henson tenha o papel mais tridimensional por ser a protagonista de fato. Enfim, é uma história edificante que a Academia adora reconhecer, mesmo sendo quadrado.

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Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures)

MELHOR FILME

  • A Chegada (Arrival)
  • Um Limite Entre Nós (Fences)
  • Até o Último Homem (Hacksaw Ridge)
  • A Qualquer Custo (Hell or High Water)
  • Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures)
  • La La Land: Cantando Estações (La La Land)
  • Lion: Uma Jornada Para Casa (Lion)
  • Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea)
  • Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight)
La La Land: A Última Estação (La La Land)

La La Land: Cantando Estações (La La Land), de Damien Chazelle

DEVE GANHAR: La La Land
DEVERIA GANHAR: La La Land
ZEBRA: A Qualquer Custo

ESNOBADO: Animais Noturnos

Este ano, a Academia decidiu praticamente reproduzir a lista de indicados do PGA (sindicato de produtores), com a única exceção de Deadpool, injustamente excluído. Embora o filme do personagem da Marvel tenha se saído bem na temporada, com participações no Critics’ Choice, Globo de Ouro e no próprio PGA, não conseguiu furar o bloqueio do conservadorismo dos votantes da Academia. Eles ainda têm aversão a adaptações de quadrinhos, mesmo depois de ser severamente criticada com a não-indicação de Batman: O Cavaleiro das Trevas em 2009.

Se Histórias em Quadrinhos ainda é um subgênero que não merece o respeito da Academia, por que não indicar Animais Noturnos? Apesar de se tratar apenas do segundo longa de Tom Ford (que merecia uma indicação de Roteiro Adaptado), o filme é marcante pela tensão das cenas. Teria sido tenso demais para os corações dos votantes mais idosos?

Quanto aos resultados, de acordo com o histórico da temporada, o musical La La Land deve ganhar sem maiores sustos, já que levou o Globo de Ouro, o PGA e o BAFTA. Como a Academia adora premiar filmes que tem como tema Hollywood (O Artista, por exemplo) e o universo dos atores (Birdman), o musical é nada mais, nada menos do que a junção das duas coisas. A única ameaça atende pelo nome de Moonlight, que pode surpreender no caso dos quase 7 mil membros decidirem responder às críticas racistas do ano passado.

MELHOR DIRETOR

  • Damien Chazelle (La La Land)
  • Mel Gibson (Até o Último Homem)
  • Barry Jenkins (Moonlight)
  • Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar)
  • Denis Villeneuve (A Chegada)

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DEVE GANHAR: Damien Chazelle (La La Land)
DEVERIA GANHAR: Denis Villeneuve (A Chegada)
ZEBRA: Mel Gibson (Até o Último Homem)

ESNOBADO: David Mackenzie (A Qualquer Custo)

Após as vitórias no Critics’ Choice, Globo de Ouro e no próprio sindicato de diretores (DGA), fica praticamente impossível Damien Chazelle não levar seu primeiro Oscar aos 32 anos, e se tornar o mais jovem profissional a ganhar nesta categoria. “Ah, mas ele não é muito jovem para ganhar?” – alguns podem se questionar. Sim, ele pode ter a idade de um artista em formação, mas para quem viu La La Land, sabe que estava diante de um trabalho altamente profissional e excepcional. Como um bom discípulo de Quentin Tarantino, ele se apoiou em inúmeras referências que vão desde Amor Sublime Amor até Os Guarda-Chuvas do Amor, já que apostar no gênero consagrado por ícones do cinema, tinha altas probabilidades de ser um projeto fracassado.

A zebra ficou com Mel Gibson, porque ele foi o elemento surpresa da categoria e também porque foi o único da lista que fora indicado previamente (e ganhou por Coração Valente em 1996). Sua indicação já foi vista por muitos como um perdão aceito pela Academia em relação às declarações anti-semitas dele. A respeito da direção dele, acho que ele pecou em dois aspectos: o excesso de Cristianismo (o filme parece patrocinado pela Igreja), e a questão da unidade, já que a primeira e a segunda metade são filmes bem diferentes.

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David Mackenzie

Apesar dos diretores ausentes mais comentados serem Tom Ford (Animais Noturnos) e Garth Davis (Lion), meu voto de maior ausência aqui vai para a direção mais minimalista e eficiente de David Mackenzie. Bastante conciso, ele consegue contar uma boa história, dirigir muito bem todos os seus atores (desde os protagonistas até os quase-figurantes) e ainda construir um poderoso reflexo da crise econômica que desolou os EUA sem soar piegas. Responsável por bons dramas independentes desde os anos 90, uma indicação aqui não apenas reconheceria sua filmografia, mas poderia proporcionar projetos ainda mais ambiciosos e até lhe dar carta branca com o estúdio.

MELHOR ATOR

  • Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)
  • Andrew Garfield (Até o Último Homem)
  • Ryan Gosling (La La Land)
  • Viggo Mortensen (Capitão Fantástico)
  • Denzel Washington (Um Limite Entre Nós)
Segundo críticos, Casey Affleck entrega a performance de sua vida em Manchester à Beira-Mar (photo by moviepilot.de)

Segundo críticos, Casey Affleck entrega a performance de sua vida em Manchester à Beira-Mar (photo by moviepilot.de)

DEVE GANHAR: Denzel Washington (Um Limite Entre Nós)
DEVERIA GANHAR: Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)
ZEBRA: Viggo Mortensen (Capitão Fantástico)

ESNOBADO: Adam Driver (Paterson)

Quando a temporada começou, Casey Affleck ganhou importantes prêmios de Ator como o National Board of Review, o NYFCC e o Globo de Ouro, mas nas últimas semanas, teve seu reinado ameaçado com a vitória de Denzel Washington no SAG Awards. Como todos sabem, uma vitória no sindicato de atores é meio Oscar ganho, pois boa parte dos votantes do sindicato também votam na Academia. O único porém nessa história é que Denzel nunca havia vencido o SAG em 22 anos de existência, fato que teria colaborado com sua primeira vitória.

Já no Oscar, vale lembrar que o ator já conquistou duas estatuetas: Coadjuvante por Tempo de Glória em 1990 e Ator por Dia de Treinamento em 2002, e se ganhar a terceira, juntar-se-á um seleto grupo de atores que inclui Jack Nicholson e Meryl Streep. Particularmente, não acho que ele mereça tudo isso, pois vejo que ele tem algumas limitações como ator, começando com suas escolhas restritas de papéis, normalmente de personagens arrogantes e rebeldes. E para quem conferiu Manchester à Beira-Mar, sabe que estava diante de uma performance contida e repleta de nuances, que apenas o cinema poderia proporcionar. Infelizmente, levantaram um suposto incidente envolvendo atitudes machistas de Casey Affleck em set de filmagens, que podem prejudicar seu favoritismo. E, honestamente, ele poderia se ajudar nas premiações, sendo mais alegre e grato. Já que ele é ator, poderia pelo menos fingir que realmente gostou de ser reconhecido!

MELHOR ATRIZ

  • Isabelle Huppert (Elle)
  • Ruth Negga (Loving)
  • Natalie Portman (Jackie)
  • Emma Stone (La La Land)
  • Meryl Streep (Florence: Quem é Essa Mulher?)
Emma Stone em cena do musical La La Land: Cantando Estações (photo by tumblr.com)

Emma Stone em cena do musical La La Land: Cantando Estações (photo by tumblr.com)

DEVE GANHAR: Emma Stone (La La Land: Cantando Estações)
DEVERIA GANHAR: Isabelle Huppert (Elle)
ZEBRA: Meryl Streep (Florence: Quem é Essa Mulher?)

ESNOBADA: Amy Adams (A Chegada)

Após ganhar o Globo de Ouro, o SAG e o BAFTA, Emma Stone só perde seu primeiro Oscar em caso de tragédia surpreendente, que particularmente, gostaria que ocorresse. Obviamente, ela merece uma série de elogios em relação à sua performance, sua voz cantada e principalmente seu carisma, tanto que se tornou a nova America’s sweetheart. Definitivamente, sua melhor cena é aquela em que canta “Audition (The Fools Who Dream)”, pois ao mesmo tempo em que canta, ela expõe a última chama do sonho dela de atuar.

Além do carisma, Emma tem vantagem em dois campos: o papel e a nacionalidade. Sim, ela interpreta uma atriz que tenta alcançar seu objetivo, e sim, ela é americana. Com essas armas, ela deverá bater a melhor atriz em competição: Isabelle Huppert, que além de ser francesa, interpreta uma personagem bastante complexa que não espera a identificação do público em Elle. Embora seja a melhor atuação feminina, ganhando vários prêmios da crítica, inclusive americana, quando se trata de Oscar, parece que o patriotismo fala mais alto. Em 89 anos de história, a Academia premiou apenas três atores que atuaram em língua estrangeira: os italianos Sophia Loren e Roberto Benigni, e a francesa Marion Cotillard. Em caso de vitória de Huppert, o Oscar ganharia muito em credibilidade.

E a ausência mais comentada do Oscar 2017 foi a de Amy Adams. Esta seria sua sexta indicação ao Oscar, mas talvez por questão de timing, resolveram substitui-la com Meryl Streep após aquele grandioso discurso de agradecimento no Globo de Ouro contra Trump. Considero Adams uma boa atriz, mas torço para que ela busque se desafiar mais em papéis que nada se assemelham à figura dela, e ela possa mostrar ao público um tom de voz, um jeito de caminhar, uns trejeitos mais diferentes ou até apelar pra uma maquiagem mais forte para alguém dizer “aquela é a Amy Adams”? Pode soar como uma estratégia barata e superficial, mas funciona e esse pode ser o caminho para o primeiro Oscar dela.

MELHOR ATOR COADJUVANTE

  • Mahershala Ali (Moonlight)
  • Jeff Bridges (A Qualquer Custo)
  • Lucas Hedges (Manchester à Beira-Mar)
  • Dev Patel (Lion)
  • Michael Shannon (Animais Noturnos)
Mahershala Ali em cena de Moonlight (photo by moviepilot.de)

Mahershala Ali em cena de Moonlight (photo by moviepilot.de)

DEVE GANHAR: Mahershala Ali (Moonlight)
DEVERIA GANHAR: Jeff Bridges (A Qualquer Custo)
ZEBRA: Lucas Hedges (Manchester à Beira-Mar)

ESNOBADO: John Goodman (Rua Cloverfield, 10) e Ben Foster (A Qualquer Custo)

Nessa categoria, nunca houve um favorito de fato, tanto que o que mais teve relevância  na temporada, Aaron Taylor-Johnson, sequer foi indicado ao Oscar por Animais Noturnos. Na indecisão, Mahershala Ali se tornou um favorito depois que ganhou o SAG e fez um belo e propício discurso sobre ter origens muçulmanas perante a decisão xenófoba do presidente Donald Trump.

Embora muitos falem que Jeff Bridges foi Jeff Bridges em A Qualquer Custo, gosto da atuação dele. Claro que ele não se transforma, e seu tom de voz é aquele mesmo de Coração Louco, mas ele assume tão bem a personalidade politicamente incorreta do Texas Ranger Marcus que suas falas são memoráveis. E a atuação dele cresce com minúcias como a pausa silenciosa dele após ser atendido por uma garçonete arrogante, ou ele soltar uma comemoração tímida após acertar um tiro.

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John Goodman

Além dos indicados, dois nomes não poderiam ter ficado de fora dessa lista: John Goodman e Ben Foster. O primeiro, mais conhecido por personagens bonzinhos como Fred Flinstone e até na dublagem de Sully na animação Monstros S.A., jogou tudo para o alto ao assumir o papel do sinistro Howard, que mantém a ordem em seu abrigo subterrâneo. E não se trata apenas de uma mudança radical de tipos de papéis, mas ele consegue segurar o filme todo nas costas mesmo sob a pele de um ser desprezível em Rua Cloverfield, 10. Acreditava que a Academia não perderia essa oportunidade de reconhecê-lo pela primeira vez, mas creio que seu papel bem pesado acabou o tirando da disputa. Uma pena.

E quanto a Ben Foster, alguns anos atrás, fiz uma matéria sobre atores promissores e o incluí nessa lista: https://cinemaoscareafins.wordpress.com/2012/07/19/nova-geracao-de-atores/. Apesar de pegar uns papéis de seres meio estranhos e

Ben Foster

Ben Foster

violentos, ele consegue se transformar sem deixar rastros como faz grandes atores como Daniel Day-Lewis. Aqui no western moderno de A Qualquer Custo, ele atua como o irmão que foi preso e largou a família na mão em tempos difíceis. Um personagem complexo e anti-herói, mas que Foster oferece uma empatia tão grande que fica difícil não torcer por ele até o final. Também seria sua primeira indicação, mas… é mera questão de tempo para Ben Foster pisar o tapete vermelho.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

  • Viola Davis (Um Limite Entre Nós)
  • Naomie Harris (Moonlight)
  • Nicole Kidman (Lion)
  • Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo)
  • Michelle Williams (Manchester à Beira-Mar)
Viola Davis em cena de Um Limite Entre Nós (pic by moviepilot.de)

Viola Davis em cena de Um Limite Entre Nós (pic by moviepilot.de)

DEVE GANHAR: Viola Davis (Um Limite Entre Nós)
DEVERIA GANHAR: Viola Davis (Um Limite Entre Nós)
ZEBRA: Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo)

ESNOBADAS: Laura Linney (Animais Noturnos)

Viola Davis está simplesmente imbatível em Um Limite Entre Nós. Além de expôr suas entranhas em dois monólogos, ela consegue dobrar Denzel Washington no meio e a única que consegue fazer aquele personagem chato calar a boca. Na internet, muitos pediam a indicação de Viola como Melhor Atriz, mas infelizmente, como ela mesma defendeu, sua personagem é secundária no filme. Talvez na peça, pelo qual ela ganhou o Tony Award, tenha sido mais protagonista, mas no filme ela fica em segundo plano. Mas para quem conhece o talento da atriz sabe que um Oscar como Melhor Atriz não tardará em sua carreira. Ela sim, ao contrário de Denzel, merece estar no mesmo panteão de atores que ganharam 3 Oscars…

As demais concorrentes da categoria também têm pouco tempo de tela, principalmente Michelle Williams que está em três cenas curtas em Manchester à Beira-Mar. Claro que uma atuação boa pode durar dois minutos como aconteceu com Laura Linney em Animais Noturnos, mas para vencer esta estatueta, a personagem tem de apresentar uma profundidade e relevância um pouco maior, algo que faltou para Octavia Spencer em Estrelas Além do Tempo.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

  • Taylor Sheridan (A Qualquer Custo)
  • Damien Chazelle (La La Land)
  • Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou (O Lagosta)
  • Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar)
  • Mike Mills (Mulheres do Século 20)
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Michelle Williams discute com Casey Affleck em uma das cenas mais fortes do drama escrito por Kenneth Lonergan (pic by moviepilot.de)

DEVE GANHAR: Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar)
DEVERIA GANHAR: Taylor Sheridan (A Qualquer Custo)
ZEBRA: Mike Mills (Mulheres do Século 20)

ESNOBADO: Shane Black e Anthony Bagarozzi (Dois Caras Legais)

O dramaturgo Kenneth Lonergan criou um roteiro que poderia servir como base para uma ótima peça de teatro, com personagens tridimensionais e cenas poderosas. Soube adaptar para o cinema com atuações minuciosas e flashbacks que guardam o segredo da trama. Com isso, levou boa parte dos prêmios de roteiro e pode ser o único Oscar do filme Manchester à Beira-Mar.

Contudo, a categoria de Roteiro Original é uma das mais fortes do ano e temos competidores de respeito que poderiam facilmente sair vitoriosos. Se formos levar em conta a originalidade, O Lagosta seria o melhor sem sombra de dúvidas. Tendo como cenário um clima futurista, a dupla Yorgos Lanthimos e Efthymis Filippou cria todo um sistema que pune o ser humano solteiro transformando-no em um animal de sua escolha. Além da criatividade, o roteiro permite um questionamento mais profundo do amor como sentimento mais humano ou se seria apenas uma convenção da sociedade.

Embora a seleção esteja em alto nível aqui, ainda defendo o roteiro de Taylor Sheridan de A Qualquer Custo, no qual temos uma trama simples, com personagens ricos, diálogos memoráveis e algo que aprecio bastante: a crítica social e econômica. Os personagens centrais são irmãos que assaltam o mesmo banco que lhes rouba dinheiro em hipotecas. Vemos uma Texas devastada pela crise econômica preenchida por casas à venda e outdoors anunciando empréstimos. E é o único dos concorrentes que eu assistiria várias vezes.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

  • Eric Heisserer (A Chegada)
  • August Wilson (Um Limite Entre Nós)
  • Allison Schroeder e Theodore Melfi (Estrelas Além do Tempo)
  • Luke Davis (Lion)
  • Barry Jenkins (Moonlight)

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DEVE GANHAR: Barry Jenkins (Moonlight)
DEVERIA GANHAR: Eric Heisserer (A Chegada)
ZEBRA: August Wilson (Um Limite Entre Nós)

ESNOBADO: Tom Ford (Animais Noturnos)

Ao contrário da categoria vizinha Original, aqui os concorrentes deixam a desejar e assim, abre caminho para Barry Jenkins provavelmente levar seu Oscar de consolação por não conseguir levar Melhor Filme e Diretor por Moonlight. Ok, acho bacana o Jenkins ser reconhecido pela dupla função roteirista/diretor, provando que Hollywood tem lugar para todas as raças, religiões e nacionalidades, MAS se for pra premiar o melhor mesmo aqui, o ideal seria entregar o Oscar para Eric Heisserer por A Chegada.

Por seu vasto e extenso histórico, o gênero da ficção científica sempre buscou fazer críticas sociais num cenário de invasão alienígena, desde os filmes de Roger Corman, portanto, o roteiro de A Chegada mantém essa tradição ao apontar a falha de comunicação entre os povos que gera conflitos intermináveis. Como ressalta a personagem central de Amy Adams, “a linguagem é a fundação da civilização”. Eric Heisserer nos introduz a esse cenário de interação com seres de outro espaço para nos contar um pouco mais sobre nós mesmos.

Só lembrando que caso August Wilson vença por seu roteiro de Um Limite Sobre Nós, será um Oscar póstumo, já que ele faleceu em 2005. E mais um adendo: Cadê Tom Ford nessa categoria?? O homem sabe escrever roteiro e costurar um terno impecável. Quer mais o quê, Academia?

MELHOR FOTOGRAFIA

  • Bradford Young (A Chegada)
  • Linus Sandgren (La La Land)
  • Greig Fraser (Lion)
  • James Laxton (Moonlight)
  • Rodrigo Prieto (Silêncio)
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A fotografia de Greig Fraser em Lion (pic by moviepilot.de)

DEVE GANHAR: Linus Sandgren (La La Land)
DEVERIA GANHAR: Greig Fraser (Lion: Uma Jornada Para Casa)
ZEBRA: Rodrigo Prieto (Silêncio)

ESNOBADO: Seamus McGarvey (Animais Noturnos)

Embora a fotografia de Linus Sandgren seja a mais chamativa pela sua paleta de cores, acredito que a composição de luzes foi melhor trabalhada por Greig Fraser no drama Lion. Na verdade, tudo é tão belamente fotografado que até nos esquecemos que se trata de um filme triste de perdas. Existem cenas naturais como as montanhas com borboletas e cenas com luz artificial como as das estações de trem, que torna a fotografia de Fraser mais eclética.

Não ficaria nem um pouco chateado se Rodrigo Prieto levasse o Oscar, porque vale já pelos enquadramentos. E também porque seria um ótimo consolo para o filme de Martin Scorsese, Silêncio, que recebeu apenas essa indicação.

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

  • Patrice Vermette, Paul Hotte (A Chegada)
  • Stuart Craig, Anna Pinnock (Animais Fantásticos e Onde Habitam)
  • Jess Gonchor, Nancy Haigh (Ave, César!)
  • David Wasco, Sandy Reynolds-Wasco (La La Land)
  • Guy Hendrix Dyaz, Gene Sardena (Passageiros)
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Direção de Arte de Passageiros (pic by cine.gr)

DEVE GANHAR: La La Land
DEVERIA GANHAR: Passageiros
ZEBRA: Ave, César!

ESNOBADO: Seong-hie Ryu (A Criada)

Em se tratando de design de criação, as duas ficções científicas, Passageiros e A Chegada, estão à frente das demais. Particularmente, a direção de arte de Passageiros se mostra mais relevante pelo fato do filme todo se passar dentro de uma espaçonave. Embora seja composta por referências espaciais de outros filmes, como as câmaras criogênicas da franquia Alien, a arte conceitual futurista da nave merece elogios.

Agora, em termos de reprodução, a arte de La La Land nos remete aos anos dourados de Hollywood ao exibir os ambientes de sets de filmagem, e cria cenários bem feitos como o jazz club.

Contudo, nenhum trabalho foi mais majestoso do que o filme sul-coreano A Criada, que reproduz as várias construções da Coréia dos anos 30. Por apresentar uma trama repleta de sexo e violência, não imaginava que passaria pelo crivo conservador da Academia, mas acreditava que poderia ser indicado nas categorias técnicas como Arte e Figurino. Ponto negativo para a Academia, já que preferiu reconhecer trabalhos menos competentes por serem americanos e britânicos.

MELHOR MONTAGEM

  • Joe Walker (A Chegada)
  • John Gilbert (Até o Último Homem)
  • Jake Roberts (A Qualquer Custo)
  • Tom Cross (La La Land)
  • Joi McMillon, Nat Sanders (Moonlight)
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Amy Adams e Jeremy Renner em cena de A Chegada (pic by moviepilot.de)

DEVE GANHAR: Tom Cross (La La Land)
DEVERIA GANHAR: Joe Walker (A Chegada)
ZEBRA: Jake Roberts (A Qualquer Custo)

ESNOBADO: Jae-Bum Kim e Sang-Beong Kim (A Criada)

Qual foi a montagem mais trabalhosa de todos os indicados? Respondo na lata: La La Land. Os cortes tinham que ser precisos para que a música não parasse, e ditasse o ritmo do filme. Embora haja ótimos planos-sequência (quando não há cortes), o trabalho de Tom Cross merece respeito pela complexidade de sua edição. Talvez por ter vencido um Oscar há dois anos por Whiplash: Em Busca da Perfeição, ele pode ser preterido, e aí poderia entrar Joe Walker em cena por A Chegada.

Por utilizar flash-forwards (adiantamento de trechos que se passam depois na linha do tempo), a montagem de Joe Walker se mostra mais fresca que as demais. Ele soube casar muito bem os trechos que precisava adiantar no momento certo da trama para que o público pudesse entender o que estava havendo sem subestimá-lo. De uma forma geral também, a edição acompanha a tensão na sequência final, em que uma guerra está iminente. Walker foi indicado por 12 Anos de Escravidão, mas não levou o Oscar, e deveria ter sido indicado por Sicario no ano passado.

Lembrei também da montagem de A Criada, pois cria três linhas narrativas (devido aos três personagens) que fazem a trama avançar com surpreendentes revelações. A edição me fez lembrar de Rashomon, de Akira Kurosawa, que cria três sequências diferentes para um mesmo ato.

MELHOR FIGURINO

  • Joanna Johnston (Aliados)
  • Colleen Atwood (Animais Fantásticos e Onde Habitam)
  • Consolata Boyle (Florence: Quem é Essa Mulher?)
  • Madeline Fontaine (Jackie)
  • Mary Zophres (La La Land)
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Figurino ensanguentado de Jackie (pic by moviepilot.de)

DEVE GANHAR: Mary Zophres (La La Land)
DEVERIA GANHAR: Madeline Fontaine (Jackie)
ZEBRA: Joanna Johnston (Aliados)

ESNOBADO: Sang-gyeong Jo (A Criada)

Toda vez que eu via o trailer de Jackie, eu já imaginava: “Esse filme vai ganhar o Oscar de Figurino!”, porque aquelas roupas da ex-primeira dama Jacqueline Kennedy eram muito chamativas. Normalmente, prefiro mais criações do que recriações, mas aqui houve uma pesquisa tão ampla que os figurinos passaram a ser parte fundamental da trama. Quando as roupas apresentam uma importância na história e não apenas algo ilustrativo, elas costumam render um Oscar como Memórias de uma Gueixa ou Maria Antonieta.

Mas acredito que este ano, a quantidade de figurinos pode ser mais crucial para a vitória de Mary Zophres. Ela foi responsável pelas roupas coloridas de La La Land. Embora o foco sejam os vestidos da personagem de Emma Stone, é evidente o trabalho de cores nos figurinos de personagens secundários e figurantes. Aliado à direção de arte e fotografia, o figurino ajuda Damien Chazelle a contar sua história de sonhos Hollywoodianos.

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO

  • Um Homem Chamado Ove
  • Star Trek: Sem Fronteiras
  • Esquadrão Suicida
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Sofia Boutella sob forte maquiagem em Star Trek: Sem Fronteiras (pic by moviepilot.de)

DEVE GANHAR: Star Trek: Sem Fronteiras
DEVERIA GANHAR: Star Trek: Sem Fronteiras
ZEBRA: Um Homem Chamado Ove

ESNOBADO: Invocação do Mal 2, A Bruxa e qualquer filme de gênero com maquiagem

Honestamente? Depois que o mestre Rick Baker se aposentou, a categoria de Maquiagem ficou meio chocha. É como assistir à Fórmula 1 depois de perder Ayrton Senna. Pra mim, maquiagem de cinema não é um pózinho na cara, um bigode mal colado ou uma peruca. Maquiagem é prótese e transformação criativa! É atores dormindo na cadeira depois de oito horas de maquiagem! E nesse quesito, o único que se encaixa é a maquiagem de Star Trek: Sem Fronteiras. Temos personagens com cara de gremlins for christ sake!

E mais uma coisa: a categoria de Maquiagem tem um papel fundamental no Oscar, porque se tornou o único refúgio dos filmes de terror e ficção científica, que nunca encontram lugar nas categorias principais. Se for pra premiar uma monocelha da Frida Kahlo ou uns bigodes de Os Miseráveis, melhor extinguir a categoria…

MELHOR TRILHA MUSICAL ORIGINAL

  • Mica Levi (Jackie)
  • Justin Hurwitz (La La Land)
  • Dustin O’Halloran, Hauschka (Lion)
  • Nicholas Britell (Moonlight)
  • Thomas Newman (Passageiros)
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O compositor Justin Hurwitz dá uns toques para Ryan Gosling no piano em La La Land

DEVE GANHAR: Justin Hurwitz (La La Land)
DEVERIA GANHAR: Justin Hurwitz (La La Land)
ZEBRA: Thomas Newman (Passageiros)

ESNOBADO: Abel Korzeniowski (Animais Noturnos)

Primeiramente, fiquei feliz com a indicação de Mica Levi. Embora esteja em início de carreira no cinema (esta é sua segunda trilha), ela já demonstra bastante personalidade em suas composições. Como vivemos há décadas com trilhas que buscam apenas evocar emoção no espectador, Mica traz novos ares ao trazer experimentalismo nas notas musicais. Não deve levar o prêmio por causa da excelência de Justin Hurwitz que traz a alma de La La Land, mas sua indicação certamente representa uma porta aberta para seu trabalho.

Gente, estou com pena do Thomas Newman. Esta é a sua 14ª indicação ao Oscar sem nenhuma vitória! Claro que a indicação já é uma honra e tal, mas daqui a pouco o homem nem vai mais pra cerimônia! Olha, Thomas, vai na fé que logo seu dia chega! Assim como chegou para Randy Newman, que levou 16 indicações pra ganhar a primeira.

E sinceramente, não entendi por que preteriram a rica trilha de Abel Korzeniowski em Animais Noturnos. As composições conseguem acentuar a estranheza do filme de Tom Ford do início ao fim. Algumas faixas como a “Wayward Sisters” me lembraram o glamour aliado à tensão das trilhas de Pino Donaggio, costumeiro colaborador dos filmes do Brian De Palma. Uma lástima sequer concorrer ao Oscar…

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

  • “Audition (The Fools Who Dream)”, de Justin Hurwitz, Benj Pasek, Justin Paul (La La Land)
  • “Can’t Stop the Feeling”, de Justin Timberlake, Max Martin, Shellback (Trolls)
  • “City of Stars”, de Justin Hurwitz, Benj Pasek, Justin Paul (La La Land)
  • “The Empty Chair”, de J. Ralph, Sting (Jim: The James Foley Story)
  • “How Far I’ll Go”, de Lin-Manuel Miranda (Moana: Um Mar de Aventuras)
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Emma Stone em cena de Audition (The Fools Who Dream)

DEVE GANHAR: “City of Stars”
DEVERIA GANHAR: “Audition (The Fools Who Dream)”
ZEBRA: “The Empty Chair”

ESNOBADO: “Drive it Like You Stole it” (Sing Street)

Como se avalia se uma canção merece um Oscar? Muita gente apenas avalia a canção em si, e muitas vezes votam apenas pelo artista/intérprete, mas o que faz uma canção vencedora é capturar a alma do filme, ajustar o tom certo. Servem como uma extensão do filme que perdura mesmo dias depois que você assistiu ao filme. Foi assim como “Glory” de Selma: Uma Luta Pela Igualdade, por exemplo, ou “Falling Slowly” de Apenas Uma Vez.

As canções de La La Land preenchem esses requisitos. Embora “City of Stars” tenha sido eleita a mais queridinha, fico com a “Audition (The Fools Who Dream)” porque só toca uma vez no filme e ela, aliada à interpretação de Emma Stone, permanece na sua cabeça, martelando a alma do musical que homenageia todos os sonhadores.

Não entendi o porquê da canção pop de Sing Street ter ficado de fora. É uma espécie de “That Thing You Do” de adolescentes. Teria Justin Timberlake preenchido a cota de canções pop do ano?

MELHOR SOM

  • A Chegada
  • Até o Último Homem
  • La La Land
  • Rogue One: Uma História Star Wars
  • 13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi
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Ryan Gosling ao piano em La La Land (pic by moviepilot.de)

DEVE GANHAR: La La Land
DEVERIA GANHAR: La La Land
ZEBRA: 13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi

Musicais sempre levam vantagem nessa categoria. Basta olhar as premiações de Chicago, DreamGirls e até Whiplash, que envolve música. Os demais parecem estar fazendo mais figuração.

Uma notícia de última hora: a indicação para Greg P. Russell por 13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi foi revogada. A Academia identificou que ele fazia lobby entre companheiros e colegas no departamento de Som. O filme em si continua concorrendo, mas o profissional não.

MELHORES EFEITOS SONOROS

  • A Chegada
  • Horizonte Profundo: Desastre no Golfo
  • Até o Último Homem
  • La La Land
  • Sully: O Herói do Rio Hudson
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Comunicação visual e sonora em A Chegada (pic by moviepilot.de)

DEVE GANHAR: A Chegada
DEVERIA GANHAR: A Chegada 
ZEBRA: Sully: O Herói do Rio Hudson

Para quem não conhece essa categoria, os efeitos sonoros são aqueles criados em estúdio, e que não foram captados nas filmagens. Então filmes que tenham elementos de explosão e tiros costumam levar esse prêmio. Casos clássicos são de Pearl Harbor, Os Incríveis, King Kong e Cartas de Iwo Jima. Contudo, A Chegada pode ser um diferencial devido aos sons alienígenas, que são essenciais no filme.

MELHORES EFEITOS VISUAIS

  • Horizonte Profundo: Desastre no Golfo
  • Doutor Estranho
  • Mogli: O Menino Lobo
  • Kubo e as Cordas Mágicas
  • Rogue One: Uma História Star Wars
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O menino Neel Sethi em cena de Mogli: O Menino Lobo (pic by moviepilot.de)

DEVE GANHAR: Mogli: O Menino Lobo
DEVERIA GANHAR: Mogli: O Menino Lobo
ZEBRA: Horizonte Profundo: Desastre no Golfo

Os efeitos de Doutor Estranho e Kubo e as Cordas Mágicas são merecedores desse prêmio, mas os efeitos de Mogli: O Menino Lobo são mais vistosos e cruciais para o bom funcionamento do filme de Jon Favreau. Sem eles, o filme realmente não existiria e eles revolucionam a técnica de animais falantes que vão desde Dr. Dolittle (1967) até Babe – O Porquinho Atrapalhado (1995).

MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA

  • Terra de Minas, de Martin Zandvliet (DINAMARCA)
  • Um Homem Chamado Ove, de Hannes Holm (SUÉCIA)
  • O Apartamento, de Asghar Farhadi (IRÃ)
  • Tanna, de Martin Butler, Bentley Dean (AUSTRÁLIA)
  • Toni Erdmann, de Mare Ade (ALEMANHA)
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Cena estranha de Toni Erdmann, representante alemão no Oscar. (photo by critic.de)

DEVE GANHAR: Toni Erdmann
ZEBRA: Tanna

ESNOBADO: Elle, de Paul Verhoeven (FRANÇA)

Depois que o favorito Elle foi desqualificado ainda em dezembro, o caminho para o Oscar ficou bem mais fácil para o alemão Toni Erdmann. Sua história de relacionamento complicado entre pai e filha certamente tocou o coração dos votantes e tem tudo para levar a estatueta. O sucesso do filme de Maren Ade vai se expandir com o recente anúncio de que Toni Erdmann será refilmado e estrelado por Jack Nicholson, que não faz um filme desde Os Infiltrados (2006).

O único concorrente que poderia dar trabalho a Toni Erdmann seria o filme iraniano O Apartamento. Embora tenha participado ativamente da temporada de premiações, o filme não ganhou nenhum prêmio de destaque e, além disso seu diretor levou o Oscar há cinco anos com o ótimo A Separação, porém, com a recente nota de que o diretor Asghar Farhadi não comparecerá ao evento por causa do bloqueio do presidente americano Donald Trump aos países do Oriente Médio, alguns especialistas passaram a defender uma possível segunda vitória para o Irã na categoria.

Sei lá, acho que cansei de falar sobre essa categoria que parece congelada num conservadorismo eterno. Quando Elle foi desqualificado, não tive ânimo para ver os indicados. Americanos têm aversão a ver filmes legendados em pleno século XXI, então fica difícil a maioria provar que viu os cinco filmes indicados, aí acaba prevalecendo o gosto dos idosos pra filmes de Segunda Guerra Mundial e água com açúcar.

MELHOR ANIMAÇÃO

  • Kubo e as Cordas Mágicas (Kubo and the Two Strings)
  • Moana: Um Mar de Aventuras (Moana)
  • Minha Vida de Abobrinha (Ma vie de Courgette)
  • A Tartaruga Vermelha (Le Tortue Rouge)
  • Zootopia (Zootopia)
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Cena da animação Kubo e as Cordas Mágicas, de Travis Knight (photo by moviepilot.de)

DEVE GANHAR: Zootopia
DEVERIA GANHAR: Kubo e as Cordas Mágicas
ZEBRA: A Tartaruga Vermelha

ESNOBADO: Your Name (Kimi no na wa.)

Desde que foi criada em 2002, a categoria de Animação é a mais internacional e globalizada de todas, pois não fica limitada às produções americanas. Como o gênero é trabalhoso demais (algumas levam mais de cinco anos para ficar prontas), não há inúmeros lançamentos por ano, e por isso, a Academia recorre às animações estrangeiras para preencher as vagas. Embora essa estratégia soe muito cômoda, é graças a ela que os trabalhos dos animadores mundo afora pode ganhar muito mais atenção e ter seus devidos reconhecimentos.

Apesar da democracia globalizada nas indicações, em termos de vitórias, a coisa muda de figura. Nesses 14 anos de existência, a Academia premiou apenas UMA animação estrangeira: a japonesa A Viagem de Chihiro (2001), de Hayao Miyazaki.

Da competição, torço para os dois estrangeiros Minha Vida de Abobrinha que tem ótima técnica de stop motion, e A Tartaruga Vermelha, que dispensa diálogos para contar uma bela história de sobrevivência. Acho bacana a trama de conspirações de Zootopia, mas prefiro o visual de Kubo, cujo estúdio, Laika Entertainment, vem merecendo o primeiro Oscar há tempos, vide: Coraline e o Mundo Secreto, ParaNorman e Os Boxtrolls.

MELHOR DOCUMENTÁRIO

  • Fogo no Mar (Fire at Sea)
  • Eu Não Sou seu Negro (I Am Not Your Negro)
  • Life, Animated
  • O.J.: Made in America
  • A 13ª Emenda (The 13th)

DEVE GANHAR: O.J.: Made in America
ZEBRA: Life, Animated

ESNOBADOS: The Eagle Huntress, Weiner

Eu juro que queria ver O.J.: Made in America, mas depois que vi a duração de mais de sete horas, deixei pra depois. Bom, a Academia tem três ótimos indicados sobre a temática negra: O.J.: Made in America, Eu Não Sou Seu Negro e A 13ª Emenda. Acredito que em caso de vitória de qualquer um desses, promete ser um dos melhores discursos da noite.

O documentário A 13ª Emenda, dirigido por Ava DuVernay de Selma, busca as respostas de hoje em séculos atrás no escravismo. Por que os negros formam a maior parte da população carcerária? E por que o sistema carcerário não funciona? Assim como fez Michael Moore no vencedor do Oscar Tiros em Columbine, ela destrincha o passado para explicar o presente. Seria um belo prêmio para compensá-la da ausência por Selma em 2015.

MELHOR DOCUMENTÁRIO-CURTA

  • Extremis
  • 4.1 Miles
  • Joe’s Violin
  • Watani: My Homeland
  • The White Helmets

MELHOR CURTA-METRAGEM

  • Ennemis Intérieurs
  • La Femme et le TGV
  • Mindenki
  • Timecode
  • Silent Nights

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO

  • Blind Vaysha
  • Borrowed Time
  • Pear Cider and Cigarettes
  • Pearl
  • Piper

***

COMEMORAÇÃO

Pra mim, se Isabelle Huppert ganhar como Melhor Atriz, esse Oscar já valeu. Até esqueço das injustiças! E em segundo lugar, se A Qualquer Custo ou O Lagosta vencerem como Roteiro Original, já posso entrar em feliz hibernação até o Oscar 2018.

Bom, independente dos resultados, que todos tenham uma ótima noite de Oscar!

***

A 89ª cerimônia do Oscar terá transmissão ao vivo pela TNT a partir das 21h, horário de Brasília.

‘MOONLIGHT’ e ‘A CHEGADA’conquistam o WGA Awards

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O diretor e roteirista Barry Jenkins recebe o WGA de Roteiro Original por Moonlight (pic by Mirror)

BARRY JENKINS BATE FAVORITOS DA CATEGORIA VIZINHA

Estamos chegando na reta final para o Oscar! Sim, após várias noites viradas no blog desde novembro, vou conseguir um break! Depois de acompanharmos os vencedores dos prêmios dos sindicatos de Diretores e Atores, chegou a vez dos Roteiristas. Moonlight e A Chegada, que concorrem a oito Oscars cada, foram os vencedores de Roteiro Original e Adaptado, respectivamente.

Para quem não conhece, de todos os sindicatos, o mais chatinho é dos roteiristas, porque impõe uma série de regras para seu roteiro ser elegível, começando com a sua carteirinha de membro. Se não tiver esse documento, você é automaticamente desqualificado. Quentin Tarantino, que é um dos mais relevantes excluídos desse clube (talvez porque o povo de lá seja quadrado demais ou talvez porque queira economizar seu dinheirinho não pagando taxas de membros), consegue ganhar Oscars mesmo assim, então isso acaba enfraquecendo o próprio sindicato.

Entre outras disparidades do WGA (Writers Guild of America), está as classificações do material: se é original ou adaptação. Por exemplo, em 2015, o roteiro de Whiplash: Em Busca da Perfeição foi classificado como original pelo WGA, enquanto no Oscar concorria como adaptado, uma vez que entendiam que se tratava de uma adaptação do próprio curta-metragem homônimo de Damien Chazelle.

Este ano, o roteiro de Moonlight passou pela mesma indecisão. No WGA, concorria como original, enquanto no Oscar concorre como adaptado. A polêmica aqui reside no fato do roteiro ter como base uma peça não-produzida de Tarell Alvin McCraney intitulada “In Moonlight Black Boys Look Blue”. Mesmo assim, a Academia considera como um material prévio existente, que serviu de inspiração para o roteiro de Barry Jenkins.

O QUE OS RESULTADOS DIZEM

O fato de Barry Jenkins ter conquistado o WGA significa muito para o filme, já que bateu os favoritos ao Oscar La La Land e Manchester à Beira-Mar. E o que muda na corrida para o Oscar? Bom, a concorrência muda. Com Moonlight migrando para a categoria de Roteiro Adaptado, o caminho ficou mais fácil. Deixará de concorrer o Oscar com pesos-pesados como La La Land, Manchester à Beira-Mar e A Qualquer Custo, que ganharam diversos prêmios na temporada, para pegar filmes menos expressivos como Estrelas Além do Tempo e Lion. Em resumo: se Moonlight já bateu os favoritos da categoria mais forte que é Original, o que dirá da categoria de Roteiro Adaptado? Com isso, acredito que Moonlight deva sair da 89ª cerimônia do Oscar com duas estatuetas: Roteiro Adaptado e Ator Coadjuvante (Mahershala Ali).

Já a vitória de Eric Heisserer por A Chegada como Roteiro Adaptado pode significar um dos últimos respiros da ótima ficção científica na temporada. Apesar de ter sido indicado em oito categorias no Oscar, o fato de sua atriz principal (Amy Adams) ter ficado de fora, já havia enfraquecido a campanha do filme, portanto, se sobrar estatuetas para A Chegada, acredito que será nas categorias de Som e Efeitos Sonoros. Torcerei até o final para que conquiste o Oscar de Montagem para Joe Walker, que consegue se utilizar muito bem de flash-forwards para contar a história de Heisserer.

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Eric Heisserer aceita o prêmio de Roteiro Adaptado por A Chegada (pic by YouTube)

Felizmente, mesmo com a rigidez das regras do sindicato, as estatísticas do WGA não são ruins em relação ao Oscar. São 16 acertos em 22 anos na categoria de Roteiro Adaptado, e 14 na categoria de Roteiro Original. No ano passado, os vencedores do WGA, Spotlight e A Grande Aposta, saíram com as estatuetas de Roteiro Original e Adaptado, respectivamente, no Oscar.

SOBRE A CERIMÔNIA

Os vencedores foram anunciados em cerimônias simultâneas realizadas em Nova York e em Beverly Hills, já que são sindicatos da costa leste e da costa oeste. O ator e comediante Patton Oswalt foi o host do evento de Beverly Hills e obviamente, não poupou o presidente eleito Donald Trump com tiradas do tipo: “I feel bad for Trump…his life before this was golf and hookers and jets.” (Sinto-me mal por Trump… a vida dele antes disso era golfe, prostitutas e jatinhos).

Além do anúncio dos vencedores, houve prêmios especiais para Aaron Sorkin, que foi homenageado com o prêmio Paddy Chayefsky Laurel Award for Television Writing Achievement, já que escreveu séries imponentes como The West Wing e The Newsroom, e também para Oliver Stone, que recebeu o WGA’s Screen Laurel Award.

No tapete vermelho, Barry Jenkins fez um breve relato importante: “Todos esses filmes foram feitos sob uma administração muito diferente da atual. Havia um espaço seguro, então espero que agora que esse espaço não mais seguro, façamos histórias ainda mais passionais e verdadeiras.”

VENCEDORES DO 69º WGA AWARDS:

ROTEIRO ORIGINAL
Barry Jenkins, história de Tarell McCraney (Moonlight)

ROTEIRO ADAPTADO
Eric Heisserer; Baseado na história de “Story of Your Life” de Ted Chiang (A Chegada)

ROTEIRO DE DOCUMENTÁRIO
Robert Kenner e Eric Schlosser, história de Brian Pearle e Kim Roberts; Baseado no livro ‘Command and Control’ de Eric Schlosser (Command and Control)

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A 89ª cerimônia do Oscar está marcada para o próximo domingo, dia 26 de fevereiro. Não, não dependa da Globo e seu Carnaval. Veja na TNT (e não, não estou ganhando nada da TNT).

 

‘LA LA LAND’ leva 5 prêmios do BAFTA, mas perde 6

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Equipe do musical La La Land, da esquerda para a direita: Tom Cross, Linus Sandgren, Fred Berger, Emma Stone, Justin Hurwitz, Jordan Horowitz, Damien Chazelle e Marc Platt.

ACADEMIA BRITÂNICA BUSCOU SER MAIS GENEROSA COM OUTROS FILMES

Sim, o título está correto. As derrotas do musical La La Land no BAFTA parecem ter causado mais impacto do que suas vitórias em si. Depois de uma temporada repleta de prêmios e com quebra de recordes como os auges no Globo de Ouro, no qual se tornou o primeiro vencedor de sete prêmios, e no próprio Oscar, onde igualou o número recordista de 14 indicações, as expectativas foram às nuvens, e as derrotas aqui podem significar um: “Ei! Temos outras produções muito boas que também merecem reconhecimento”.

Além de La La Land, apenas Lion: Uma Jornada Para Casa e Manchester à Beira-Mar conseguiram vencer em mais de uma categoria. Enquanto o primeiro levou Ator Coadjuvante e Roteiro Adaptado, o segundo conquistou Ator e Roteiro Original. Contando todas as categorias, a Academia Britânica premiou 14 produções diferentes. Com um BAFTA cada vez servindo mais de parâmetro para o Oscar, fica a pergunta: Eles vão distribuir as estatuetas como os britânicos ou vão concentrar praticamente tudo em La La Land para possivelmente quebrar o recorde de 11 Oscars vencidos por Ben-Hur, Titanic e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei?

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Dev Patel posa com seu BAFTA de Ator Coadjuvante por Lion: Uma Jornada Para Casa (pic by digitalspy.com)

Particularmente, não defendo uma vitória tão elástica para o musical de Damien Chazelle, até mesmo porque o número de Oscars conquistados não significa que o filme é necessariamente melhor do que os outros. Claro que La La Land tem seus méritos e merece levar o Oscar de Melhor Filme, mas realmente temos uma boa safra de produções de 2016 que igualmente merecem reconhecimento da Academia americana, mas que são pouco citados em inúmeras matérias da imprensa.

Embora tenha gostado muito do franco-favorito, não ficaria nem um pouco chateado se o Oscar premiasse o western moderno A Qualquer Custo, por exemplo. No mínimo, concederia o Oscar de Roteiro Original (embora considere o roteiro de Kenneth Lonergan – de Manchester à Beira-Mar – mais denso, acredito que o de Taylor Sheridan tenha mais cara de filme). Também destaco a ficção científica A Chegada (que aqui acabou levando apenas o prêmio de Som), Animais Noturnos e Elle. São filmes que se destacaram de 2016, mas que foram pouco reconhecidos.

Acredito que o Oscar pode trilhar um caminho diferente do BAFTA, mas no lugar da generosidade distribuída, estaria a necessidade de calar os críticos da polêmica racial do #OscarSoWhite. Por exemplo, o drama Moonlight, que apesar de ter sido indicado a vários prêmios, pouco se destacou na temporada. Quando teve a chance de decolar, perdeu o SAG de Elenco para Estrelas Além do Tempo. Pode ser que Academia resolva proporcionar essa consagração tardia.

Mas voltando ao BAFTA, como era esperado, La La Land venceu as categorias principais de Filme, Diretor e Atriz (Emma Stone), mas nas categorias mais “técnicas”, levou apenas Fotografia e Trilha Musical, o que significa que existe, sim, competição em muitas das categorias. Até o Último Homem levou Montagem, Jackie levou Figurino, Animais Fantásticos e Onde Habitam levou Direção de Arte e o já citado A Chegada levou Som.

Ainda sobre categorias “abertas”, a disputa por Melhor Ator não está completamente fechada. Embora Casey Affleck esteja bem à frente, vale lembrar duas coisas: Denzel Washington ganhou o SAG, e ele não estava sequer indicado aqui no BAFTA, ou seja, Affleck não bateu Denzel.

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Casey Affleck vence como Ator por Manchester à Beira-Mar (pic by livemint.com)

E na categoria de Ator Coadjuvante, muito se fala de Mahershala Ali pra cá e pra lá, mas a bem da verdade é que ele ganhou apenas o Critics’ Choice e o SAG. E curiosamente, um dos maiores vencedores Aaron Taylor-Johnson ficou de fora do Oscar e também perdeu para Dev Patel no BAFTA. Resumindo, a categoria está uma baguncinha.

Na categoria de Filme Estrangeiro, mesmo com Elle fora da disputa e com o vencedor do Oscar do ano passado, O Filho de Saul, vencendo o BAFTA (tornou-se elegível apenas nesta edição devido à data de lançamento no Reino Unido), o alemão Toni Erdmann continua com as melhores chances no Oscar. Mas enfim, quando não tem filme de Holocausto, a Academia pode surpreender e premiar algum inesperado como Um Homem Chamado Ove, que também concorre em Melhor Maquiagem.

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O filme húngaro O Filho de Saul bate o favorito deste ano Toni Erdmann (pic by Hungary Today)

VENCEDORES DO 70º BAFTA AWARDS:

FILME
La La Land: Cantando Estações
Produtores: Fred Berger, Jordan Horowitz, Marc Platt

DIRETOR
Damien Chazelle (La La Land)

ATOR
Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)

ATRIZ
Emma Stone (La La Land)

ATOR COADJUVANTE
Dev Patel(Lion)

ATRIZ COADJUVANTE
Viola Davis (Um Limite Entre Nós)

ROTEIRO ORIGINAL
Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar)

ROTEIRO ADAPTADO
Luke Davies (Lion)

FOTOGRAFIA
Linus Sandgren (La La Land)

MONTAGEM
John Gilbert (Até o Último Homem)

DIREÇÃO DE ARTE
Stuart Craig, Anna Pinnock (Animais Fantásticos e Onde Habitam)

FIGURINO
Madeline Fontaine (Jackie)

MAQUIAGEM E CABELO
J. Roy Helland, Daniel Phillips (Florence: Quem é Essa Mulher?)

TRILHA MUSICAL ORIGINAL
Justin Hurwitz (La La Land)

SOM
Sylvain Bellemare, Claude La Haye, Bernard Gariépy Strobl (A Chegada)

EFEITOS VISUAIS
Mogli: O Menino Lobo

FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
O Filho de Saul, de Lászlò Nemes

DOCUMENTÁRIO
A 13ª Emenda, de Ava DuVernay

LONGA DE ANIMAÇÃO
Kubo e as Cordas Mágicas

FILME BRITÂNICO
Eu, Daniel Blake, de Ken Loach

DIRETOR, ROTEIRISTA OU PRODUTOR BRITÂNICO ESTREANTE
Babak Anvari (Roteirista/Diretor), Emily Leo, Oliver Roskill, Lucan Toh (Produtores) de Sob a Sombra

CURTA DE ANIMAÇÃO BRITÂNICO
A Love Story

CURTA-METRAGEM BRITÂNICO
Home

CONTRIBUIÇÃO BRITÂNICA PARA CINEMA (PREVIAMENTE ANUNCIADO)
Curzon

EE RISING STAR AWARD (VOTADO PELO PÚBLICO)
Tom Holland

BAFTA FELLOWSHIP (PREVIAMENTE ANUNCIADO)
Mel Brooks

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O ator Tom Holland vence o EE Rising Star para talentos em ascensão (pic by Yahoo Movies UK)

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A cerimônia da 89ª edição do Oscar acontece no dia 26 de fevereiro.

Damien Chazelle vence o DGA e reforça favoritismo de ‘La La Land’

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À esquerda, o presidente do DGA, Paris Barclay, entrega o prêmio a Damien Chazelle (centro) com o vencedor anterior Alejando Gonzáles Iñárritu. Pic by dga.org

AOS 32 ANOS, CHAZELLE SE TORNA VENCEDOR MAIS JOVEM DO DGA

Se antes do DGA, a vitória de Damien Chazelle já era considerada certa no Oscar, agora com sua vitória no sindicato de diretores, fica quase impossível dizer que ele pode perder. As estatísticas do histórico do DGA em relação ao prêmio da Academia são as melhores de hoje: são 62 acertos em 69 anos de história.

Além disso, o jovem diretor de La La Land (ele completou recentemente 32 anos) bateu três diretores indicados ao Oscar com ele: Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar), Denis Villeneuve (A Chegada) e Barry Jenkins (Moonlight). Dos indicados ao DGA, apenas Garth Davis (Lion) não está no Oscar, já que Mel Gibson (Até o Último Homem) assumiu a última vaga, mas ele tem quase 0% de chances de levar, uma vez que já ganhou sua estatueta há 21 anos com Coração Valente.

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Os indicados ao DGA 2017 (da esquerda para direita): Garth Davis, Denis Villeneuve, Barry Jenkins, Kenneth Lonergan e Damien Chazelle (pic by Hollywood Reporter – Getty Images)

Não dá pra cravar 100% de garantia para Chazelle ainda por dois motivos: 1) SURPRESA. Ultimamente, a Academia tem se tornado previsível demais, porque são tantos prêmios que anunciam seus vencedores antes dela, que fica difícil surpreender com os resultados. Ciente disso, ela pode promover novidades. As duas últimas diferenças entre DGA e Oscar foram com Rob Marshall (Chicago) perdendo para Roman Polanski (O Pianista) em 2003; e Ben Affleck (Argo) perdendo para Ang Lee (As Aventuras de Pi) em 2013, quando houve equívocos externos na votação.

2) #OSCARSOWHITE. Se a Academia decidir surpreender na categoria, Barry Jenkins (Moonlight) pode ser o cara. Além de ser negro, fato que agradaria a todos os críticos do Oscar já que se tornaria o primeiro diretor negro a ganhar e apagar de vez a tal “falta de diversidade”, Jenkins é o único que pode fazer frente a Damien Chazelle, pois ganhou importantes honrarias na temporada como o prêmio dos críticos de Los Angeles e Nova York, além do National Board of Review.

Contudo, deixando um pouco as especulações de lado, a vitória aqui de Damien Chazelle reforça o favoritismo do musical a três semanas do Oscar. Com esse prêmio, o filme conquistou o sindicato de produtores e de atores (Emma Stone levou como Atriz), restando apenas o sindicato de roteiristas, no qual Chazelle concorre como Roteiro Original.

Já na categoria de Diretor Estreante, a vitória de Garth Davis não pode ser exatamente uma surpresa, porque ele era o único que concorria em ambas as categorias. Pelo trabalho no drama Lion: Uma Jornada Para Casa, ele bateu os concorrentes Dan Trachtenberg (Rua Cloverfield, 10), Tim Miller (Deadpool), Kelly Fremon Craig (Quase 18) e Nate Parker (O Nascimento de uma Nação), que perdeu sua única chance de ganhar um prêmio relevante na temporada após as notícias de acusações de estupro.

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Garth Davis recebe o prêmio de Diretor Estreante das mãos de John Singleton (pic by zimbio.com)

Pela categoria de Documentário, a vitória de Ezra Edelman por O.J.: Made in America também não foi surpresa, ainda mais que resolveram colocar Sarah Paulson e Cuba Gooding Jr. como apresentadores da categoria (eles atuaram na minissérie The People v. O.J. Simpson: American Crime Story). Embora esteja disputando o Oscar com outros fortes documentários sobre o racismo, mais precisamente Eu Não Sou seu Negro e A 13ª Emenda), O.J.: Made in America passa a ser o franco-favorito com esse reconhecimento no DGA, mesmo tendo mais de sete horas de duração.

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No centro, Ezra Edelman posa com seu prêmio de Diretor de Documentário por O.J.: Made in America ao lado dos atores Sarah Paulson e Cuba Gooding Jr. (pic by zimbio.com)

Este ano, o homenageado com o Life Achievement Award foi Ridley Scott. Para quem o conhece, ele foi responsável por grandes cults do cinema como Alien, o Oitavo Passageiro (1979), Blade Runner: O Caçador de Andróides (1982) e Thelma & Louise (1991). Embora considere Prometheus um projeto interessante e tenha até potencial para se tornar um futuro cult, acho que Ridley Scott poderia considerar sua aposentadoria. Pela terceira vez, ele vai dirigir um filme da franquia Alien (Alien: Covenant), o que pode ser um indício de que não tem mais nada de novo a mostrar.

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Homenageado Ridley Scott posa com seu prêmio ao lado de Michael Fassbender e Billy Crudup (pic by zimbio.com)

Nas categorias de televisão, os vencedores saíram das séries Veep, Game of Thrones e a minissérie The Night Of, além dos sketches de Saturday Night Live.

VENCEDORES DO 69º DGA:

CINEMA

DIRETOR
Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações)

DOCUMENTÁRIO
Ezra Edelman (O.J.: Made in America)

DIRETOR ESTREANTE
Garth Davis (Lion: Uma Jornada Para Casa)

TELEVISÃO

SÉRIE DRAMÁTICA
Miguel Sapochnik (Game of Thrones – ep: “The Battle of the Bastards”) 

SÉRIE DE COMÉDIA
Becky Martin (Veep – ep: “Inauguration”)

TELEFILME E MINISSÉRIES
Steven Zaillian (The Night Of – ep: “The Beach”)

VARIEDADE/TALK-SHOW/NOTÍCIAS/ESPORTES – REGULARES
Glenn Weiss (The 70th Annual Tony Awards)

VARIEDADE/TALK-SHOW/NOTÍCIAS/ESPORTES – ESPECIAIS
Don Roy King (Saturday Night Live)

REALITY SHOWS
J. Rupert Thompson (American Grit – ep: “The Finale Over the Falls”)

PROGRAMAS INFANTIS
Tina Mabry (An American Girl Story – Melody 1963: Love Has to Win)

COMERCIAIS
Derek Cianfrance (Chase, Nike Golf – Wieden + Kennedy Portland
Doubts, Powerade – Wieden + Kennedy Portland
Manifesto, Squarespace – Anomaly)

PRÊMIOS ESPECIAIS

Frank Capra Achievement Award: Marie Cantin
Robert B. Aldrich Service Award: Thomas Schlamme
Presidents Award: Jay D. Roth
Lifetime Achievement Award: Ridley Scott

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O 89º Oscar acontece no dia 26 de fevereiro.