‘THE SQUARE’, do sueco Ruben Östlund, vence a Palma de Ouro em Cannes 2017. NETFLIX sai de mãos abanando.

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No centro, o diretor Ruben Ostlund comemora sua vitória como se fosse um gol de final de campeonato. Ao fundo, o presidente do júri Pedro Almodóvar. Pic by NBC News

NO ANIVERSÁRIO DE 70 ANOS, CANNES PREMIA JOVEM DIRETOR QUE JÁ HAVIA SE DESTACADO POR FORÇA MAIOR

Após uma forte expectativa de que o festival iria conceder sua segunda Palma de Ouro para uma mulher, o prêmio máximo ficou com o diretor sueco Ruben Östlund, mantendo a neozelandesa Jane Campion como a única vencedora feminina da história do festival.

Apesar de não ter sido o filme da competição mais elogiado pela imprensa estrangeira, The Square ganhou pontos com os membros do júri ao apresentar uma sátira do mundo das Artes, em que o protagonista é um diretor de um museu, que está desesperado para fazer sucesso e pra isso, recebe uma nova instalação chamada “The Square” para promovê-lo.

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Cena de The Square, de Ruben Ostlund.

O presidente do júri Almodóvar explicou sua escolha após a entrega dos prêmios: “É contemporâneo, é sobre a ditadura de ser politicamente correto. Eles vivem num inferno paranormal por causa disso.” Essa justificativa me atiçou um pouco a curiosidade para conferir o filme, já que sou crítico desses tempos politicamente corretos em que vivemos. Mas independente de ter sido premiado ou não, a voz do diretor Robert Östlund é uma das mais originais dos últimos tempos. Quem viu seu último filme, Força Maior, sobre uma tragédia natural que afeta uma família, sabe do que estou falando. Ele tem um humor bastante peculiar.

As fortes concorrentes femininas, a americana Sofia Coppola e a escocesa Lynne Ramsay, ficaram com os prêmios de Direção e Roteiro, respectivamente. Coppola se torna a segunda diretora a vencer esse prêmio depois da russa Yuliya Solntseva com A Epopéia dos Anos de Fogo, de 1961. “Agradeço ao júri por esta honra… Agradeço ao meu pai, que me ensinou a escrever e dirigir e por compartilhar seu amor por cinema, e para minha mãe por me encorajar a ser uma artista,” agradeceu Coppola através de nota lida pela diretora Maren Ade, já que não estava presente na cerimônia de premiação. Ade, que é membro do júri, aproveitou para “agradecer a Jane Campion por ser uma modelo e por apoiar as cineastas mulheres.”

PRÊMIOS DE INTERPRETAÇÃO

Ao contrário de Sofia, os atores Diane Kruger e Joaquin Phoenix, que ganharam os prêmios de interpretação, estiveram na cerimônia de apresentação e foram bastante aplaudidos. Em In the Fade, a atriz alemã interpreta uma mulher que, depois de ter seu marido e filho mortos num ataque de bomba terrorista, planeja uma vingança. Muito comovida, a atriz alemã subiu ao palco e fez seu discurso: “Fatih [Akin], meu irmão, obrigada por me dar essa chance… você me deu a força que eu não sabia que tinha em mim. Eu não posso aceitar este prêmio sem pensar em ninguém que já foi impactado por um ato de terrorismo, pessoas que estão tentando colher os cacos e continuar suas vidas. Por favor, saibam que vocês não estão esquecidos. Obrigada.”

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Diane Kruger agradece pelo prêmio de interpretação feminina em ‘In the Fade’ (pic by Alberto Pizzoli/ Getty Images)

Já pelo prêmio de interpretação masculina, o sempre controverso Joaquin Phoenix veio até Cannes para receber a honraria. Nada contra o ator, que aliás sou fã de seu trabalho, mas ele deveria se decidir de vez se gosta ou não de premiações. Ou ele vai para sorrir e ser agradecido, ou fica em casa com a cara emburrada, e não o contrário! Desse jeito, fica a impressão de que ele atua como ‘bad boy’ para impulsionar sua imagem de durão e psicótico.

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Mas enfim, no filme You Were Never Really Here, ele faz uma espécie veterano de guerra à la Taxi Driver, que tenta a todo custo salvar uma menina do tráfico de sexo. À princípio, parece um papel de alguém bastante perturbado, o que se encaixa perfeitamente no rótulo que Hollywood adora botar nos atores. Tem seu lado positivo, já que o ator domina o tipo de personagem e pode elevá-lo ainda mais, porém tem seu lado negativo, pois existe uma iminente ameaça do ator ficar limitado demais.

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Joaquin Phoenix com a jovem Ekaterina Samsonov em cena de You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay (pic by cine.gr)

Em relação ao Oscar, vale lembrar que desde 2007, 22 performances que tiveram sua estréia em Cannes acabaram sendo indicadas ou premiadas pela Academia no ano seguinte. Dando maior precisão aos dados estatísticos, desses 22 atores, treze foram mulheres e nove foram homens, contudo, apenas Rooney Mara (por Carol) transformou seu prêmio de atriz em indicação ao Oscar, enquanto 4 vencedores de Ator em Cannes foram ao Oscar: Christoph Waltz (Bastardos Inglórios), Javier Bardem (Biutiful), Jean Dujardin (O Artista), e Bruce Dern (Nebraska).

PRÊMIO DE 70º ANIVERSÁRIO

A cada década, o festival tem a liberdade de criar um prêmio especial. Este ano, eles prestigiaram a atriz Nicole Kidman, já que ela participa de quatro projetos distintos em Cannes: os filmes O Estranho que Nós Amamos, The Killing of a Sacred Deer, How to Talk to Girls at Parties e a série Top of the Lake, que está na segunda temporada, reconhecendo assim sua versatilidade.

SURPRESAS E DECEPÇÕES

Dentre os nomes mais citados pela imprensa estrangeira e pela crítica que mereceria o prêmio de ator estava o de Robert Pattison. Sim, aquele rapaz que já foi um vampiro que brilhava no sol naquela saga politicamente correta de Stephenie Meyer. Parece que ele está buscando novos desafios depois de ter trabalhado com o diretor David Cronenberg em Cosmópolis em 2012. Sua atuação foi bastante elogiada no drama sobre roubo de bancos intitulado Good Time. Acabou perdendo o prêmio para Joaquin Phoenix, mas pode se tornar um nome forte para a próxima temporada de premiações.

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Robert Pattison em Good Time, dos irmãos Safdie (pic by moviepilot.de)

Outro que está tentando (com bem menos afinco) mudar sua imagem é Adam Sandler. Esse comediante americano que estrela trocentos filmes do Netflix está em The Meyerowitz Stories: New and Selected, do diretor Noah Baumbach, que inclusive já tentou fazer um filme mais sério com o comediante Ben Stiller em O Solteirão (2010). Este novo trabalho é uma comédia de família disfuncional, mas com nomes de peso como Dustin Hoffman e Emma Thompson. A atuação deles foi elogiada, mas a de Sandler acabou sendo mais comentada e por isso mesmo, estava entre os candidatos ao prêmio. Pode soar radical demais, mas a única performance interessante que vi de Sandler foi em Embriagados de Amor (2002), quando foi dirigido por Paul Thomas Anderson. Naquele papel, ele apresentava uns tiques nervosos de uma pessoa extremamente perturbada pelas irmãs mais velhas. Mas depois ele fez apenas comédias do tipo besteirol que deixavam de explorar esse seu lado. De qualquer forma, acredito na redenção de qualquer ator, contanto que ele ou ela busquem se desafiar. E se diretores do calibre de Cronenberg e P.T. Anderson viram algo de bom nesses atores, significa que devemos olhar com mais atenção.

No campo das surpresas, a própria Palma de Ouro não deixa de ser uma. The Square estava entre os mais elogiados, mas estava meio longe de ser uma unanimidade. Entre os mais bem cotados estavam Happy End, de Michael Haneke; Loveless, de Andrey Zvyagintsev; The Killing of a Sacred Deer, de Yorgos Lanthimos; 120 battements par minute, de Robin Campillo; e You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay. Excetuando o primeiro, todos os demais foram reconhecidos com prêmios, o que mostra certa sintonia do júri em relação à crítica.

NETFLIX E A DIFICULDADE DE ACEITAÇÃO

Após receber inúmeras vaias nas sessões de Okja e Wonderstruck, ambas produções da Netflix, era esperado que a plataforma de streaming mais conhecida no mundo fosse sair sem nenhum prêmio do evento. O próprio presidente do júri, Pedro Almodóvar, havia afirmado que “não premiaria um filme que não vai ser exibido na tela grande”. O Festival de Cannes completou 70 anos de existência, e com isso, há muita tradição envolvida que não se muda da noite para o dia. Inicialmente surpresa pelo convite, a Netflix sofreu um um cerco ferrenho por parte dos exibidores franceses, já que perderiam dinheiro com a não-exibição dos filmes em salas de cinema. Essa discussão está apenas no começo e deve ser assunto para as próximas edições, não só de Cannes, mas de outros grandes festivais, que terão que lidar com a produção de conteúdo da Netflix.

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À direita, o diretor Noah Baumbach com os atores Adam Sandler e Dustin Hoffman no set de The Meyerowitz Stories

VITÓRIA BRASILEIRA EM CANNES

Embora o Brasil não tivesse representantes na competição oficial, por outro lado, participou da mostra da Semana da Crítica e saiu com dois prêmios. Gabriel e a Montanha, do jovem Fellipe Gamarano Barbosa, levou o Prêmio Visionário e o Gan Foundation que fornecerá um apoio enorme para a distribuição na França. O prêmio foi concedido pelo presidente do júri da Semana da Crítica, o conterrâneo Kléber Mendonça Filho. Parabéns à equipe do filme!

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Os atores Caroline Abras e João Pedro Zappa em cena de Gabriel e a Montanha, de Fellipe Gamarano Barbosa. Pic by cineuropa.org

NOTAS PESSOAIS

Fiquei bastante feliz que Taylor Sheridan, que ficou conhecido por roteirizar o western moderno A Qualquer Custo (Hell or High Water), foi premiado como Melhor Diretor da mostra Un Certain Regard logo em sua primeira investida na cadeira de diretor em Wind River. O filme centra num assassinato que ocorreu numa reserva indígena, e é estrelado por Jeremy Renner e Elisabeth Olsen.

Também dos filmes premiados em Cannes, estou ansioso pra conferir os novos trabalhos de Andrey Zvyagintsev (ele tem uma visão bastante dura, porém realista, vide O Retorno e Leviatã), Lynne Ramsay (é uma diretora extremamente detalhista, e que consegue enxergar poesia onde não há) e Yorgos Lanthimos (seu nome vem sendo atrelado a um cinema de conteúdo criativo que vem desde Dente Canino e que se consagrou com O Lagosta).

VENCEDORES DO 70º FESTIVAL DE CANNES

PALMA DE OURO
Ruben Östlund – The Square

GRANDE PRÊMIO DO JÚRI
Robin Campillo – 120 Beats Per Minute

PRÊMIO DO JÚRI
Andrey Zvyagintsev – Loveless

DIRETOR
Sofia Coppola – O Estranho que Nós Amamos

ATOR
Joaquin Phoenix – You Were Never Really Here

ATRIZ
Diane Kruger – In the Fade

ROTEIRO
Yorgos Lanthimos – The Killing of a Sacred Deer
Lynne Ramsay – You Were Never Really Here

CAMERA D’OR
Léonor Sérraille – Jeune Femme

PALMA DE OURO PARA CURTA-METRAGEM
Qiu Yang – A Gentle Night

PRÊMIO ESPECIAL DE 70º ANIVERSÁRIO
Nicole Kidman

MOSTRA UN CERTAIN REGARD

UN CERTAIN REGARD
Mohammad Rasoulof – A Man of Integrity

ATRIZ
Jasmine Trinca – Fortunata

NARRATIVA POÉTICA
Mathieu Amalric – Barbara

DIRETOR
Taylor Sheridan – Wind River

PRÊMIO DO JÚRI
Michel Franco – April’s Daughter

MOSTRA SEMANA DA CRÍTICA

GRANDE PRÊMIO: Emmanuel Gras – Makala
PRÊMIO VISIONÁRIO: Fellipe Gamarano Barbosa – Gabriel and the Mountain
Leica Cine Discovery Prize for Short Film: Laura Ferrés – Los Desheredados
Gan Foundation Support for Distribution Award: Fellipe Gamarano Barbosa – Gabriel and the Mountain

SACD Award: Léa Mysius – Ava
Canal+ Award: Aleksandra Terpińska – The Best Fireworks

DIRECTOR’S FORTNIGHT

Art Cinema Award: Chloé Zhao – The Rider
SACD Award: Claire Denis – Let the Sunshine In, Philippe Garrel – Lover for a Day
Europa Cinemas Label Award: Jonas Carpignano – A Ciambra
Illy Prize for Short Film: Benoit Grimalt – Back to Genoa City

Cannes & Almodóvar vs. Netflix & TILDA SWINTON!

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Equipe do filme Okja, da Netflix, no Festival de Cannes. No centro, o diretor Bong Joon-ho ao lado da atriz Tilda Swinton e Jake Gyllenhaal. Pic by AFP.com

EM SEGUNDO DIA DO FESTIVAL, NETFLIX CAUSA GRANDE ALVOROÇO

Sim, tá rolando uma treta em Cannes! E a musa Tilda Swinton calou a boca do povo! Por isso venho aqui pra compartilhar com vocês não apenas a treta, mas toda uma discussão sobre o futuro do cinema como o conhecemos hoje.

Vamos pela cronologia dos fatos:

1 – NETFLIX NA SELEÇÃO OFICIAL DE CANNES

Dentre os indicados à Palma de Ouro, havia duas produções de streaming da Netflix competindo pela primeira vez na história do evento: The Meyerowitz Stories, de Noah Baumbach; e Okja, do sul-coreano Bong Joon-ho.

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Cena do filme Okja, de Bong Joon-ho. Pic by cine.gr

2 – INCÔMODO ENTRE OS DISTRIBUIDORES DE CINEMA NA FRANÇA

Como se trata de um festival bastante tradicional, obviamente que os inúmeros distribuidores de cinema não gostaram nem um pouco do início da invasão da Netflix em Cannes, já que as produções não serão exibidas nas salas de cinema comercialmente, apenas pela plataforma da própria Netflix. Mais do que deixar de lucrar, os distribuidores estão enfurecidos com a possibilidade da profissão se tornar obsoleta num futuro não muito distante.

3 – OS ORGANIZADORES TOMAM PROVIDÊNCIAS

Com a insatisfação dos distribuidores no ouvido, os organizadores se viram obrigados a tomar providências para agradar gregos e troianos. Assim, passou a exigir que os filmes de streaming sejam exibidos em salas de cinema para que possam competir a partir de 2018.

4 – NETFLIX REAGE COM SENSATEZ

Depois de sofrer retaliações, a Netflix poderia reclamar ou se espernear, mas tem ciência do ótimo impacto de ter produções selecionadas e por isso, anunciou que está estudando a possibilidade de lançar seus filmes em algumas salas selecionadas.

5 – ALMODÓVAR USUFRUI DE SUA AUTORIDADE

Como presidente do júri deste ano, o cineasta Pedro Almodóvar, resolveu fazer declaração sobre o assunto, mas de forma intimidatória: “Não concederei não apenas a Palma de Ouro, mas qualquer outro prêmio para um filme que não poderei ver na tela grande”. Embora o júri seja formado por outros artistas como os atores Will Smith, Jessica Chastain, Fan Bingbing, e os cineastas Paolo Sorrentino, Park Chan-wook, Maren Ade e Agnès Jaoui, além do compositor Gabriel Yared, o presidente sempre tem a palavra final, portanto, existe forte possibilidade desses dois filmes da Netflix saírem de mãos abanando apenas por causa de seu formato.

Jury Press Conference - The 70th Annual Cannes Film Festival

À direita, o presidente do júri Pedro Almodóvar em coletiva de imprensa. Pic by The Upcoming

6 – TILDA SWINTON CALA A BOCA DE ALMODÓVAR

Durante a conferência do filme em Cannes, a atriz do filme Okja, a britânica Tilda Swinton, rebateu a declaração do presidente do júri Pedro Almodóvar: “NÃO VIEMOS AQUI PELOS PRÊMIOS”. Cadê aquela musiquinha do “Turn down for what” com os óculos escuros pra Tilda Swinton???

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Tilda Swinton responde às perguntas dos jornalistas em coletiva de Okja em Cannes. Ao fundo, Jake Gyllenhaal. (pic by thestar.com)

ADENDO: A EXIBIÇÃO DE ‘OKJA’ EM CANNES

Depois de toda essa discussão, até parece que sabotaram a exibição do longa Okja! Após alguns minutos de exibição, o filme foi interrompido por problemas técnicos. Alguns membros da imprensa estrangeira aproveitaram para vaiar, mas o diretor Bong Joon-ho soube ter jogo de cintura após o término da sessão, quando disse: “Fiquei feliz pelos problemas técnicos. Assim vocês tiveram a oportunidade de ver duas vezes a sequência de abertura!”.

ANÁLISE PERTINENTE EM RELAÇÃO AO FUTURO DO CINEMA

Bom, mas tirando a sarrafada da Tilda Swinton, o que é necessário entender aqui é que a Netflix é o FUTURO. Simples. Para quem acompanha cinema, sabe que houve uma queda significativa de conteúdo nas salas de exibição. Os estúdios não querem mais arriscar em novas idéias, e preferem ficar limitados a adaptações de quadrinhos, refilmagens e sequências, pois as chances de prejuízo são praticamente inexistentes. Claro que não estou criticando esses filmes de estúdio (eu mesmo sou fã dos filmes da Marvel), mas cinema não deve ficar restrito a essas produções. Cinema é uma arte que precisa sempre se reinventar para poder sobreviver.

E a Netflix está providenciando isso. Há pouco tempo, eles deixaram de ser uma mera plataforma de exibição para produzir conteúdo. Começaram com as séries de TV , que logo conquistaram o grande público como as pioneiras House of Cards e Orange is the New Black, e agora estão fazendo grandes contratos com diretores renomados e renegados do cinema como os já citados Bong Joon-ho e Noah Baumbach. Esses mesmos diretores sabem que estão perdendo espaço nas salas de cinema e por isso, estão buscando alternativas para produzirem seus filmes. Vale lembrar que recentemente o diretor David Lynch anunciou sua aposentadoria de filmes, concentrando seus esforços na série Twin Peaks. Quem sabe ele não consegue retornar com a ajuda da Netflix também?

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Tela da Netflix com destaque para a série House of Cards, sucesso absoluto de crítica e público. 

Quando o Festival de Cannes impõe restrições à Netflix, ele está adiando o futuro. Mesmo sendo cinéfilo que gosta de frequentar salas de cinema, não dá pra simplesmente ignorar uma plataforma tão promissora. Logo de cara, já desbancou as locadoras do mundo todo, e agora a tendência é aposentar as salas de cinema.

ÉPOCA DE TRANSIÇÃO

Embora a Netflix seja o futuro, ele não vem da noite para o dia. É necessário um período de adaptação do público e até mesmo da crítica. Acredito que o ideal nesse caso seja que a Netflix inicialmente disponibilize seus filmes em salas selecionadas de cinema, e que retire suas produções dos cinemas gradativamente. Hoje, podem lançar um filme para 200 salas nos EUA. Daqui a 6 meses, 150 salas, e assim sucessivamente. E o público que vai decidir isso. Se hoje pagam bem pra assistir mega-produções da Disney nos cinemas, eles podem elevar os números positivos das produções de streaming.

Voltando ao discurso do Almodóvar, ele lança sua opinião para que possamos refletir sobre essas mudanças. “Plataformas digitais são um novo meio de oferecer trabalho, o que é interessante e positivo. Mas elas não devem tomar o lugar de formatos existentes. Elas não deveriam mudar os hábitos dos espectadores. Essa é a grande questão do debate.”, declarou o diretor.

Realmente, assistir a um filme na tela grande do cinema é uma experiência de outro nível. A tela grande consegue aprimorar a experiência de ver um filme, e até mesmo melhorar a qualidade daquele filme meio capenga. É verdade. E tem uma questão primordial nesse modo de assistir a um filme: a concentração do espectador. Na sala de cinema, além da imagem e áudio de qualidades, existe o foco. Não há interrupções de telefone, barulho ou mesmo de distrações dentro da sala de cinema, que certamente existem em casa. Então, nesse sentido, o Almodóvar tem razão.

Mas pra ele, que já é um cineasta de renome que frequenta os festivais e sempre tem público nos cinemas, é mais fácil condenar a Netflix. Mas e praquele diretor em começo de carreira? Ou mesmo praquele que foi esquecido pelos grandes estúdios como o já citado David Lynch? Hoje, eles têm duas alternativas: Ou imploram por financiamento por leis de incentivo ou eles cedem para o streaming que vai produzir os filmes e vão oferecer para milhões de espectadores via plataforma.

O próprio diretor Bong Joon-ho ressaltou sua experiência de ter trabalhado com a Netflix: “Eu amei ter trabalhado com a Netflix. Eles me deram muito apoio. O orçamento para este filme foi considerável. Dar esse tipo de orçamento para um diretor não é muito comum.” A Netflix concedeu 50 milhões de dólares para a produção de Okja. Uma boa grana para quem teve astros como Tilda Swinton, Jake Gyllenhaal, Lily Collins e Paul Dano, sem contar com os efeitos especiais.

Enfim, fechando a discussão, nada desse debate todo justifica Pedro Almodóvar fechar as portas para as duas produções por causa da plataforma! Por isso, adorei Tilda Swinton, que ressaltou o privilégio de estar em Cannes, e de lembrar que o real intuito do filme é ser visto e passar sua mensagem. Os prêmios são mera consequência.

***

A 70ª edição do Festival de Cannes termina dia 28 de maio, quando serão anunciados os vencedores.

‘A BELA E A FERA’ leva Melhor Filme e ‘STRANGER THINGS’ Melhor Show de TV no MTV Movie & TV Awards 2017

Emma Watson, Josh Gad e o diretor Bill Condon aceitam o prêmio de Melhor Filme do Ano (pic by yahoo!)

MTV MOVIE AWARDS PASSA POR ALTERAÇÕES EM BUSCA DE SOBREVIVÊNCIA

Sim, você não leu errado. A MTV passou a premiar programas de TV e streaming como Netflix a partir deste ano. Mas inovou ao misturar tudo, ao invés de criar inúmeras categorias como faz a “Bolha Assassina” do Critics’ Choice Awards com seus 487 prêmios. Dessa forma, indicados de cinema concorriam com indicados de TV nas mesmas categorias. Como todos sabem, a premiação da MTV vinha sofrendo uma decadência sem fim desde meados dos anos 2000, então interpreto essa mudança como estratégia de sobrevivência. Portanto, nada melhor do que contar também com celebridades de TV e séries para atrair mais a atenção do público.

A série mais premiada foi Stranger Things, que foi um sucesso de crítica e público da Netflix. Levou Melhor Série e Melhor Atuação em Série para a garota prodígio Millie Bobby Brown.

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Os atores mirins Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Finn Wolfhard e Caleb McLaughlin em cena de Stranger Things (pic by moviepilot.de)

Outra mudança bastante positiva e exclusiva foi nas categorias de atuação. Agora existe apenas UMA, que abrange atores, atrizes e futuramente, transgêneros. Talvez essa inspiração tenha vindo do Oscar do ano passado, quando o host Chris Rock havia feito o seguinte comentário: “Prêmio de atuação é o único que não precisa ser dividido entre homens e mulheres”. Realmente, qual a diferença entre sexos em atuações? A primeira vencedora deste prêmio foi Emma Watson por A Bela e a Fera, que enalteceu a importância do reconhecimento neutro da MTV.

Emma Watson recebe o primeiro prêmio de atuação sem gênero do MTV Movie and TV Awards pelas mãos de Asia Kate Dillon, uma atriz sem gênero (pic by Digital Spy)

Sempre fui fã do prêmio da MTV desde minha adolescência por causa dessa essência despojada. Como todos os outros prêmios são levados muito à sério, esse cativa pelo humor e por que não reconhecer qualidades em filmes bem comerciais? Se tem alguma coisa que não pode ser falado do prêmio é que ele não é flexível. A cada ano, eles criam novas categorias, assim como retiram de acordo com a safra anual de conteúdo.

Por mim, deveriam trazer de volta os prêmios de Most Desirable Female e Male, porque sensualidade na tela deveria ser reconhecido sempre! Mas acredito que ele tenha sido extinto pelos tempos politicamente corretos demais… E falando em politicamente correto, achei que os prêmios de Melhor História Americana e Melhor Luta Contra o Sistema foi um pouco “forçação de barra”, e o prêmio de Documentário ficou meio deslocado pra ser MTV…

A respeito dos vencedores: em relação aos indicados de TV e streaming, sou Glória Pires (“não posso opinar”), mas em relação a cinema, honestamente, achei que Logan e Quase 18 seriam mais bem votados. O primeiro dialoga bem com os meninos (mais crescidos) e os nerds de quadrinhos como moi. E o segundo é uma espécie de bela homenagem ao universo de John Hughes e seus personagens adolescentes perdidos em seus questionamentos da própria existência.

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Hailee Steinfeld como a protagonista problemática em Quase 18 (pic by moviepilot.de)

Mas enfim, o grande vencedor da noite foi a refilmagem de A Bela e a Fera. Boa parte da crítica e pessoal entendido costuma dizer “versão live-action” de A Bela e a Fera. Eu digo “refilmagem” mesmo, porque trata-se do mesmo material, mas filmado com atores de carne e osso. A meu entender, esgotou-se a criatividade da Disney e agora eles só querem fazer refilmagens de animações (preparem-se que estão por vir os “live-actions de O Rei LeãoMulan e A Pequena Sereia) e continuações, seja do universo Marvel, seja do universo Star Wars ou seja do universo Piratas do Caribe.

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A cena da dança entre Bela e Fera, um momento que foi brilhantemente capturado na animação de 1991, agora versão “live-action”. Pic by moviepilot.de

Eu absolutamente entendo os motivos: 1º Querem mergulhar em dinheiro. 2º Não querem se arriscar com material novo. 3º Querem refilmar para contar a mesma história para o público jovem que não conhece o original. MAS PORRA! Se for pra revisitar o universo pré-existente, por que não fazem como o Malévola? Eles trouxeram a história de A Bela Adormecida, que já tinha a animação de 1959, mas recontaram sob a perspectiva da vilã da história. Aliás, essa onda de live-action começou com o sucesso desse filme estrelado pela Angelina Jolie.

Sei lá, não sei se sou crítico demais com essa preguiça de material novo, mas já que estamos nessa era de ruminar, por que não trazer novas perspectivas para a história conhecida? Nesse A Bela e a Fera, contrataram até um ator idêntico ao personagem animado Gaston! Por isso que o MTV Movie Awards está cedendo espaço para a TV: é onde está a criatividade.

VENCEDORES DO MTV MOVIE & TV AWARDS 2017:

FILME DO ANO:
* A Bela e a Fera (Beauty and the Beast)
Corra (Get Out)
Logan (Logan)
Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story)
Quase 18 (The Edge of Seventeen)

MELHOR ATUAÇÃO EM FILME:
* Emma Watson (A Bela e a Fera)
Daniel Kaluuya (Corra)
Hailee Steinfeld (Quase 18)
Hugh Jackman (Logan)
James McAvoy (Frgamentado)
Taraji P. Henson (Estrelas Além do Tempo)

SÉRIE DO ANO:
* Stranger Things
Atlanta
Game of Thrones
Insecure
Pretty Little Liars
This Is Us

MELHOR ATUAÇÃO EM SÉRIE:
Millie Bobby Brown (Stranger Things)
Donald Glover (Atlanta)
Emilia Clarke (Game of Thrones)
Gina Rodriguez (Jane the Virgin)
Jeffrey Dean Morgan (The Walking Dead)
Mandy Moore (This Is Us)

MELHOR BEIJO:
Ashton Sanders e Jharrel Jerome (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
Emma Stone and Ryan Gosling (La La Land: Cantando Estações)
Emma Watson and Dan Stevens (A Bela e a Fera)
Taraji P. Henson and Terrence Howard (Empire)
Zac Efron and Anna Kendrick (Mike & Dave Need Wedding Dates)

MELHOR VILÃO:
Jeffrey Dean Morgan (The Walking Dead)

Allison Williams (Corra)
Demogorgon (Stranger Things)
Jared Leto (Esquadrão Suicida)
Wes Bentley (American Horror Story)

MELHOR HOST:
Trevor Noah (The Daily Show)
Ellen DeGeneres (The Ellen DeGeneres Show)
John Oliver (Last Week Tonight with John Oliver)
RuPaul (RuPaul’s Drag Race)
Samantha Bee (Full Frontal with Samantha Bee)

MELHOR DOCUMENTÁRIO:  
A 13ª Emenda (13th)
Eu Não Sou Seu Negro (I Am Not Your Negro)
O.J.: Made in America
This is Everything: Gigi Gorgeous
TIME: The Kalief Browder Story

MELHOR REALITY SHOW:
RuPaul’s Drag Race
America’s Got Talent
MasterChef Junior
The Bachelor
The Voice

MELHOR COMEDIANTE:
Lil Rel Howery (Corra)
Adam Devine (Workaholics)
Ilana Glazer e Abbi Jacobson (Broad City)
Seth MacFarlane (Uma Família da Pesada)
Seth Rogen (Festa da Salsicha)
Will Arnett (LEGO Batman: O Filme)

MELHOR HERÓI:
Taraji P. Henson (Estrelas Além do Tempo)
Felicity Jones (Rogue One: Uma História Star Wars)
Grant Gustin (The Flash)
Mike Colter (Luke Cage)
Millie Bobby Brown (Stranger Things)
Stephen Amell (Arrow)

MELHOR CHORORÔ:
This Is Us – Jack (Milo Ventimiglia) e Randall (Lonnie Chavis) no caratê
Game of Thrones – A morte de Hodor (Kristian Nairn)
Grey’s Anatomy – Meredith conta aos filhos sobre a morte de Derek (Ellen Pompeo)
Como Eu Era Antes de Você – Will (Sam Claflin) conta a Louisa (Emilia Clarke) que ele não pode ficar com ela
Moonlight: Sob a Luz do Luar – Paula (Naomie Harris) conta a Chiron (Trevante Rhodes) que o ama

PRÓXIMA GERAÇÃO:
Daniel Kaluuya
Chrissy Metz
Issa Rae
Riz Ahmed
Yara Shahidi

MELHOR DUPLA:     
Hugh Jackman e Dafne Keen (Logan)
Adam Levine and Blake Shelton (The Voice)
Daniel Kaluuya and Lil Rel Howery (Corra)
Brian Tyree Henry and Lakeith Stanfield (Atlanta)
Josh Gad and Luke Evans (A Bela e a Fera)
Martha Stewart and Snoop Dogg (Martha & Snoop’s Potluck Dinner Party)

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Hugh Jackman e Dafne Keen reinterpretando seus personagens de Logan no palco (pic by People.com)

MELHOR HISTÓRIA AMERICANA:
Blackish
Fresh Off the Boat
Jane the Virgin
Moonlight
Transparent

MELHOR LUTA CONTRA O SISTEMA:
Estrelas Além do Tempo
Corra
Loving
Luke Cage
Mr. Robot

TRENDING:
“Run The World (Girls)” Channing Tatum and Beyonce – “Lip Sync Battle”
“Sean Spicer Press Conference” feat. Melissa McCarthy – “Saturday Night Live”
“Lady Gaga Carpool Karaoke” – “The Late Late Show with James Corden”
“Cash Me Outside How Bout Dat” – “Dr. Phil”
“Wheel of Musical Impressions with Demi Lovato” – “The Tonight Show Starring Jimmy Fallon”
Winona Ryder’s Winning SAG Awards Reaction – 23rd Annual SAG Awards

MELHOR MOMENTO MUSICAL:
“You’re the One That I Want” – Ensemble (Grease: Live)
“Beauty and the Beast” – Ariana Grande and John Legend (A Bela e a Fera)
“Can’t Stop the Feeling” – Justin Timberlake (Trolls)
“How Far I’ll Go” – Auli’i Cravalho (Moana: Um Mar de Aventuras)
“City of Stars” – Ryan Gosling and Emma Stone (La La Land: Cantando Estações)
“You Can’t Stop” The Beat – Ensemble – (Hairspray Live!)
“Be That As It May” – Herizen Guardiola (The Get Down)