‘O IRLANDÊS’ TAMBÉM CONQUISTA os CRÍTICOS de NOVA YORK

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UM DIA APÓS SE SAGRAR MELHOR FILME PELO NATIONAL BOARD OF REVIEW, FILME DA NETFLIX DE MARTIN SCORSESE FATURA O NYFCC

Pelo visto, a Netflix não ficou apenas se queixando do Oscar concedido a Green Book no lugar de sua produção Roma. Eles resolveram agir logo e contra-atacar ao abrir as portas para profissionais que estão perdendo espaço e liberdade artística no circuito comercial. O resultado dessa estratégia está dando frutos com os recentes prêmios da crítica. O Irlandês levou os prêmios de Filme, Roteiro Adaptado e um especial para Scorsese, De Niro e Pacino no National Board of Review.

Já em sua 85ª edição anual, o círculo de críticos filmes de Nova York (New York Film Critics Circle) não tem conseguido eleger o vencedor do Oscar de Melhor Filme desde 2011, quando ambos elegeram O Artista. Contudo, esta premiação, assim como a dos críticos de Los Angeles (cujos premiados serão divulgados no próximo dia 08, domingo) não tem apenas o intuito de servir de parâmetro para o Oscar (como o faz o Critics’ Choice Awards de forma descarada), mas de lembrar e celebrar os filmes e nomes alternativos entre os melhores do ano.

Assim, enquanto a Academia elegeu nos últimos cinco anos os filmes: Green Book, A Forma da Água, Moonlight, Spotlight e Birdman, o NYFCC elegeu: Roma, Lady Bird, La La Land, Carol e Boyhood. Como não são um prêmio da indústria, não ficam suscetíveis ao mercado e campanhas publicitárias caríssimas, e desta forma, podem ousar mais em suas escolhas. Neste ano, a ousadia deles foi direcionada às categorias de Direção, Atriz, Fotografia e Longa de Animação.

Abaixo, faremos uma breve análise de cada categoria, com contexto e momento (o chamada hype).

VENCEDORES DO 85º NYFCC:

MELHOR FILME
O Irlandês (The Irishman), de Martin Scorsese

Embora não tenha vencido Melhor Direção, a mensagem dos críticos de Nova York me parece muito clara. “Vamos reconhecer a coragem de Scorsese, um veterano dos anos 70, ao filmar um épico de 3 horas e meia, com atores da velha guarda, e ainda com a plataforma de streaming da Netflix”. Como todos devem saber, Scorsese comprou uma briga com a Marvel Studios e Disney ao criticar as mega produções de temática de super-heróis. O fato de ele ser premiado pela crítica não necessariamente confirma o apoio para o cineasta, mas definitivamente defende que se faz necessário filmes mais ousados e diferentes de fórmulas batidas.

MELHOR DIREÇÃO
Benny Safdie e Josh Safdie (Uncut Gems)

Os irmão Safdie estão se tornando os novos irmãos Coen. Além de formarem uma nova dupla de irmãos no comando da direção, eles trazem um sopro de criatividade aos filmes policiais e noir assim como os Coen fizeram entre os anos 80 e 90. Após os merecidos elogios para o trabalho anterior deles, Bom Comportamento, a crítica passou a acompanhar mais atentamente seus novos projetos. Em Uncut Gems, além da ótima técnica de filmagem, eles dão crédito a um ator desacreditado (de Robert Pattinson a Adam Sandler agora) e descobrem novos talentos (Julia Fox tem chamado atenção como atriz revelação).

MELHOR ATRIZ
Lupita Nyong’o (Nós)

A franco-favorita da categoria, Renée Zellwegger, pode estar com o reinado ameaçado. Embora sua performance como Judy Garland seja louvável, é sempre bom termos concorrência de alto nível. Lupita Nyong’o era um nome que merecia esse destaque para que as premiações televisivas lembrem de sua atuação formidável e assustadora em Nós, novo filme de Jordan Peele. Claro que o histórico de vitória do gênero terror no Oscar é quase inexistente, mas Lupita merece pelo menos uma indicação por interpretar duas personagens de forma estupenda.

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MELHOR ATOR
Antonio Banderas (Dor e Glória)

Trabalhando em Hollywood há muito tempo, o ator espanhol ficou mais conhecido como a voz do Gato de Botas nos filmes de Shrek, mas foi sua ampla experiência com o diretor Pedro Almodóvar que possibilitou sua interpretação tão distinta em Dor e Glória, onde ele faz um diretor de cinema em crise de existência e criatividade. Num ano bastante competitivo para atores principais, este prêmio pode ajudar Banderas a conquistar aquela quinta vaga na categoria de Melhor Ator no Oscar. Seria sua primeira indicação ao prêmio da Academia.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Laura Dern (História de um Casamento)

Laura Dern está vivendo um novo auge em sua carreira depois da indicação a Atriz Coadjuvante por Livre em 2015. Atuou nas séries Big Little Lies e Twin Peaks, participou da nova trilogia de Star Wars e agora volta com dois novos tabalhos em Adoráveis Mulheres e História de um Casamento. Até o momento, com mais este reconhecimento, Dern é a franco-favorita na corrida de Atriz Coadjuvante, mas tem concorrentes de peso como Jennifer Lopez e Kathy Bates. Muito querida pela HFPA, acreditamos que sua vitória é certa no Globo de Ouro, e caso não haja imprevistos, deve conquistar sua primeira estatueta do Oscar em sua terceira indicação.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Joe Pesci (O Irlandês)

Depois de muito falarem de Brad Pitt e Al Pacino, o NYFCC voltou a lembrar que Joe Pesci é sim um nome forte para a categoria de Coadjuvante. Com uma habilidade tremenda para atuações realistas, não foi à toa que Scorsese o tirou da aposentadoria para participar de O Irlandês. Até semana passada, Pesci estava praticamente fora da competição, mas este prêmio o recoloca na disputa e pode garanti-lo no Globo de Ouro e no Oscar, pelo menos como indicado. O ator já ganhou um Oscar por outro filme de Scorsese, Os Bons Companheiros, em 1991.

MELHOR ROTEIRO
Quentin Tarantino (Era uma vez em… Hollywood)

Acho que se existe alguém igualmente apaixonado por cinema como Scorsese, este é Quentin Tarantino. Em várias entrevistas, ele defende os filmes longos e de qualidade. Ele é fascinado por detalhes que para muitos passam desapercebidos. Em Era Uma Vez em… Hollywood, ele faz o cinema vencer a realidade cruel e violenta. Pode não ser seu melhor trabalho (acreditamos que ele precisa de outro montador para substituir à altura a saudosa Sally Menke), mas seu roteiro sempre reserva ótimos personagens e diálogos. Além disso, Tarantino é um dos poucos que consegue ganhar o Oscar mesmo não sendo membro do sindicato de roteiristas.

MELHOR FOTOGRAFIA
Claire Mathon (Retrato de uma Jovem em Chamas)

Num ano dividido entre as fotografias de O Irlandês, Coringa, Era Uma Vez em… Hollywood e Parasita, o NYFCC resolveu conceder o prêmio ao filme francês Retrato de uma Jovem em Chamas, que vem coletando elogios desde sua passagem em Cannes em Maio. Como o filme não foi selecionado pela comissão da França para representar o país no Oscar, os críticos deram um bom jeito de lembrar do filme para concorrer a outras categorias.

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Retrato de uma Jovem em Chamas

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Parasita (Parasite), de Bong Joon-Ho

Supremacia. Até agora, 100% de aproveitamento do filme sul-coreano em todos os prêmios mais importantes na categoria de Filme Estrangeiro. E anotem aí: vai ser premiado como Melhor Filme no LAFCA, os críticos de Los Angeles, que ainda podem eleger Kang-Ho Song como Melhor Ator. Será que finalmente teremos o Oscar de Melhor Filme concedido a uma produção em língua estrangeira?

MELHOR LONGA DE ANIMAÇÃO
Perdi Meu Corpo (I Lost My Body), de Jérémy Clapin

Como dissemos no post do Annie Awards, a falta de criatividade dos grandes estúdios que só lançaram sequências este ano (Frozen 2, Toy Story 4 e Como Treinar o Seu Dragão 3) tem chamado a atenção dos críticos para animações mais modestas como este delicado Perdi Meu Corpo, que já está disponível no catálogo da Netflix. Com este prêmio, o filme praticamente garante vaga na categoria de Animação do Oscar. Só falta uma vitória de uma produção estrangeira, o que não acontece desde 2002, quando A Viagem de Chihiro levou o Oscar.

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Perdi Meu Corpo

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Honeyland, de Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov

Honeyland é um caso peculiar. Ele concorre em duas frentes: Documentário e Filme Internacional no Oscar, representando a modesta Macedônia do Norte. Embora tenha chances na última categoria, tem maior possibilidade de indicação como documentário, onde terá que competir com os fortes candidatos Apollo 11 e American Factory.

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Honeyland

MELHOR FILME DE ESTREANTE
Atlantics, de Mati Diop

Representante do Senegal para o Oscar, e vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes, Atlantics fala diretamente sobre a nossa realidade que lida com os problemas da imigração ilegal. Este prêmio coloca o filme da estreante Mati Diop no mapa, juntamente com a colaboração da Netflix, que já disponibilizou o filme no acervo. Sempre bom termos produções vindas do continente africano, cujo cinema acaba mais fragilizado diante da situação econômica dos países.

PRÊMIO ESPECIAL
Randy Newman

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