‘THE SQUARE’, do sueco Ruben Östlund, vence a Palma de Ouro em Cannes 2017. NETFLIX sai de mãos abanando.

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No centro, o diretor Ruben Ostlund comemora sua vitória como se fosse um gol de final de campeonato. Ao fundo, o presidente do júri Pedro Almodóvar. Pic by NBC News

NO ANIVERSÁRIO DE 70 ANOS, CANNES PREMIA JOVEM DIRETOR QUE JÁ HAVIA SE DESTACADO POR FORÇA MAIOR

Após uma forte expectativa de que o festival iria conceder sua segunda Palma de Ouro para uma mulher, o prêmio máximo ficou com o diretor sueco Ruben Östlund, mantendo a neozelandesa Jane Campion como a única vencedora feminina da história do festival.

Apesar de não ter sido o filme da competição mais elogiado pela imprensa estrangeira, The Square ganhou pontos com os membros do júri ao apresentar uma sátira do mundo das Artes, em que o protagonista é um diretor de um museu, que está desesperado para fazer sucesso e pra isso, recebe uma nova instalação chamada “The Square” para promovê-lo.

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Cena de The Square, de Ruben Ostlund.

O presidente do júri Almodóvar explicou sua escolha após a entrega dos prêmios: “É contemporâneo, é sobre a ditadura de ser politicamente correto. Eles vivem num inferno paranormal por causa disso.” Essa justificativa me atiçou um pouco a curiosidade para conferir o filme, já que sou crítico desses tempos politicamente corretos em que vivemos. Mas independente de ter sido premiado ou não, a voz do diretor Robert Östlund é uma das mais originais dos últimos tempos. Quem viu seu último filme, Força Maior, sobre uma tragédia natural que afeta uma família, sabe do que estou falando. Ele tem um humor bastante peculiar.

As fortes concorrentes femininas, a americana Sofia Coppola e a escocesa Lynne Ramsay, ficaram com os prêmios de Direção e Roteiro, respectivamente. Coppola se torna a segunda diretora a vencer esse prêmio depois da russa Yuliya Solntseva com A Epopéia dos Anos de Fogo, de 1961. “Agradeço ao júri por esta honra… Agradeço ao meu pai, que me ensinou a escrever e dirigir e por compartilhar seu amor por cinema, e para minha mãe por me encorajar a ser uma artista,” agradeceu Coppola através de nota lida pela diretora Maren Ade, já que não estava presente na cerimônia de premiação. Ade, que é membro do júri, aproveitou para “agradecer a Jane Campion por ser uma modelo e por apoiar as cineastas mulheres.”

PRÊMIOS DE INTERPRETAÇÃO

Ao contrário de Sofia, os atores Diane Kruger e Joaquin Phoenix, que ganharam os prêmios de interpretação, estiveram na cerimônia de apresentação e foram bastante aplaudidos. Em In the Fade, a atriz alemã interpreta uma mulher que, depois de ter seu marido e filho mortos num ataque de bomba terrorista, planeja uma vingança. Muito comovida, a atriz alemã subiu ao palco e fez seu discurso: “Fatih [Akin], meu irmão, obrigada por me dar essa chance… você me deu a força que eu não sabia que tinha em mim. Eu não posso aceitar este prêmio sem pensar em ninguém que já foi impactado por um ato de terrorismo, pessoas que estão tentando colher os cacos e continuar suas vidas. Por favor, saibam que vocês não estão esquecidos. Obrigada.”

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Diane Kruger agradece pelo prêmio de interpretação feminina em ‘In the Fade’ (pic by Alberto Pizzoli/ Getty Images)

Já pelo prêmio de interpretação masculina, o sempre controverso Joaquin Phoenix veio até Cannes para receber a honraria. Nada contra o ator, que aliás sou fã de seu trabalho, mas ele deveria se decidir de vez se gosta ou não de premiações. Ou ele vai para sorrir e ser agradecido, ou fica em casa com a cara emburrada, e não o contrário! Desse jeito, fica a impressão de que ele atua como ‘bad boy’ para impulsionar sua imagem de durão e psicótico.

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Mas enfim, no filme You Were Never Really Here, ele faz uma espécie veterano de guerra à la Taxi Driver, que tenta a todo custo salvar uma menina do tráfico de sexo. À princípio, parece um papel de alguém bastante perturbado, o que se encaixa perfeitamente no rótulo que Hollywood adora botar nos atores. Tem seu lado positivo, já que o ator domina o tipo de personagem e pode elevá-lo ainda mais, porém tem seu lado negativo, pois existe uma iminente ameaça do ator ficar limitado demais.

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Joaquin Phoenix com a jovem Ekaterina Samsonov em cena de You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay (pic by cine.gr)

Em relação ao Oscar, vale lembrar que desde 2007, 22 performances que tiveram sua estréia em Cannes acabaram sendo indicadas ou premiadas pela Academia no ano seguinte. Dando maior precisão aos dados estatísticos, desses 22 atores, treze foram mulheres e nove foram homens, contudo, apenas Rooney Mara (por Carol) transformou seu prêmio de atriz em indicação ao Oscar, enquanto 4 vencedores de Ator em Cannes foram ao Oscar: Christoph Waltz (Bastardos Inglórios), Javier Bardem (Biutiful), Jean Dujardin (O Artista), e Bruce Dern (Nebraska).

PRÊMIO DE 70º ANIVERSÁRIO

A cada década, o festival tem a liberdade de criar um prêmio especial. Este ano, eles prestigiaram a atriz Nicole Kidman, já que ela participa de quatro projetos distintos em Cannes: os filmes O Estranho que Nós Amamos, The Killing of a Sacred Deer, How to Talk to Girls at Parties e a série Top of the Lake, que está na segunda temporada, reconhecendo assim sua versatilidade.

SURPRESAS E DECEPÇÕES

Dentre os nomes mais citados pela imprensa estrangeira e pela crítica que mereceria o prêmio de ator estava o de Robert Pattison. Sim, aquele rapaz que já foi um vampiro que brilhava no sol naquela saga politicamente correta de Stephenie Meyer. Parece que ele está buscando novos desafios depois de ter trabalhado com o diretor David Cronenberg em Cosmópolis em 2012. Sua atuação foi bastante elogiada no drama sobre roubo de bancos intitulado Good Time. Acabou perdendo o prêmio para Joaquin Phoenix, mas pode se tornar um nome forte para a próxima temporada de premiações.

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Robert Pattison em Good Time, dos irmãos Safdie (pic by moviepilot.de)

Outro que está tentando (com bem menos afinco) mudar sua imagem é Adam Sandler. Esse comediante americano que estrela trocentos filmes do Netflix está em The Meyerowitz Stories: New and Selected, do diretor Noah Baumbach, que inclusive já tentou fazer um filme mais sério com o comediante Ben Stiller em O Solteirão (2010). Este novo trabalho é uma comédia de família disfuncional, mas com nomes de peso como Dustin Hoffman e Emma Thompson. A atuação deles foi elogiada, mas a de Sandler acabou sendo mais comentada e por isso mesmo, estava entre os candidatos ao prêmio. Pode soar radical demais, mas a única performance interessante que vi de Sandler foi em Embriagados de Amor (2002), quando foi dirigido por Paul Thomas Anderson. Naquele papel, ele apresentava uns tiques nervosos de uma pessoa extremamente perturbada pelas irmãs mais velhas. Mas depois ele fez apenas comédias do tipo besteirol que deixavam de explorar esse seu lado. De qualquer forma, acredito na redenção de qualquer ator, contanto que ele ou ela busquem se desafiar. E se diretores do calibre de Cronenberg e P.T. Anderson viram algo de bom nesses atores, significa que devemos olhar com mais atenção.

No campo das surpresas, a própria Palma de Ouro não deixa de ser uma. The Square estava entre os mais elogiados, mas estava meio longe de ser uma unanimidade. Entre os mais bem cotados estavam Happy End, de Michael Haneke; Loveless, de Andrey Zvyagintsev; The Killing of a Sacred Deer, de Yorgos Lanthimos; 120 battements par minute, de Robin Campillo; e You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay. Excetuando o primeiro, todos os demais foram reconhecidos com prêmios, o que mostra certa sintonia do júri em relação à crítica.

NETFLIX E A DIFICULDADE DE ACEITAÇÃO

Após receber inúmeras vaias nas sessões de Okja e Wonderstruck, ambas produções da Netflix, era esperado que a plataforma de streaming mais conhecida no mundo fosse sair sem nenhum prêmio do evento. O próprio presidente do júri, Pedro Almodóvar, havia afirmado que “não premiaria um filme que não vai ser exibido na tela grande”. O Festival de Cannes completou 70 anos de existência, e com isso, há muita tradição envolvida que não se muda da noite para o dia. Inicialmente surpresa pelo convite, a Netflix sofreu um um cerco ferrenho por parte dos exibidores franceses, já que perderiam dinheiro com a não-exibição dos filmes em salas de cinema. Essa discussão está apenas no começo e deve ser assunto para as próximas edições, não só de Cannes, mas de outros grandes festivais, que terão que lidar com a produção de conteúdo da Netflix.

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À direita, o diretor Noah Baumbach com os atores Adam Sandler e Dustin Hoffman no set de The Meyerowitz Stories

VITÓRIA BRASILEIRA EM CANNES

Embora o Brasil não tivesse representantes na competição oficial, por outro lado, participou da mostra da Semana da Crítica e saiu com dois prêmios. Gabriel e a Montanha, do jovem Fellipe Gamarano Barbosa, levou o Prêmio Visionário e o Gan Foundation que fornecerá um apoio enorme para a distribuição na França. O prêmio foi concedido pelo presidente do júri da Semana da Crítica, o conterrâneo Kléber Mendonça Filho. Parabéns à equipe do filme!

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Os atores Caroline Abras e João Pedro Zappa em cena de Gabriel e a Montanha, de Fellipe Gamarano Barbosa. Pic by cineuropa.org

NOTAS PESSOAIS

Fiquei bastante feliz que Taylor Sheridan, que ficou conhecido por roteirizar o western moderno A Qualquer Custo (Hell or High Water), foi premiado como Melhor Diretor da mostra Un Certain Regard logo em sua primeira investida na cadeira de diretor em Wind River. O filme centra num assassinato que ocorreu numa reserva indígena, e é estrelado por Jeremy Renner e Elisabeth Olsen.

Também dos filmes premiados em Cannes, estou ansioso pra conferir os novos trabalhos de Andrey Zvyagintsev (ele tem uma visão bastante dura, porém realista, vide O Retorno e Leviatã), Lynne Ramsay (é uma diretora extremamente detalhista, e que consegue enxergar poesia onde não há) e Yorgos Lanthimos (seu nome vem sendo atrelado a um cinema de conteúdo criativo que vem desde Dente Canino e que se consagrou com O Lagosta).

VENCEDORES DO 70º FESTIVAL DE CANNES

PALMA DE OURO
Ruben Östlund – The Square

GRANDE PRÊMIO DO JÚRI
Robin Campillo – 120 Beats Per Minute

PRÊMIO DO JÚRI
Andrey Zvyagintsev – Loveless

DIRETOR
Sofia Coppola – O Estranho que Nós Amamos

ATOR
Joaquin Phoenix – You Were Never Really Here

ATRIZ
Diane Kruger – In the Fade

ROTEIRO
Yorgos Lanthimos – The Killing of a Sacred Deer
Lynne Ramsay – You Were Never Really Here

CAMERA D’OR
Léonor Sérraille – Jeune Femme

PALMA DE OURO PARA CURTA-METRAGEM
Qiu Yang – A Gentle Night

PRÊMIO ESPECIAL DE 70º ANIVERSÁRIO
Nicole Kidman

MOSTRA UN CERTAIN REGARD

UN CERTAIN REGARD
Mohammad Rasoulof – A Man of Integrity

ATRIZ
Jasmine Trinca – Fortunata

NARRATIVA POÉTICA
Mathieu Amalric – Barbara

DIRETOR
Taylor Sheridan – Wind River

PRÊMIO DO JÚRI
Michel Franco – April’s Daughter

MOSTRA SEMANA DA CRÍTICA

GRANDE PRÊMIO: Emmanuel Gras – Makala
PRÊMIO VISIONÁRIO: Fellipe Gamarano Barbosa – Gabriel and the Mountain
Leica Cine Discovery Prize for Short Film: Laura Ferrés – Los Desheredados
Gan Foundation Support for Distribution Award: Fellipe Gamarano Barbosa – Gabriel and the Mountain

SACD Award: Léa Mysius – Ava
Canal+ Award: Aleksandra Terpińska – The Best Fireworks

DIRECTOR’S FORTNIGHT

Art Cinema Award: Chloé Zhao – The Rider
SACD Award: Claire Denis – Let the Sunshine In, Philippe Garrel – Lover for a Day
Europa Cinemas Label Award: Jonas Carpignano – A Ciambra
Illy Prize for Short Film: Benoit Grimalt – Back to Genoa City

Cannes & Almodóvar vs. Netflix & TILDA SWINTON!

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Equipe do filme Okja, da Netflix, no Festival de Cannes. No centro, o diretor Bong Joon-ho ao lado da atriz Tilda Swinton e Jake Gyllenhaal. Pic by AFP.com

EM SEGUNDO DIA DO FESTIVAL, NETFLIX CAUSA GRANDE ALVOROÇO

Sim, tá rolando uma treta em Cannes! E a musa Tilda Swinton calou a boca do povo! Por isso venho aqui pra compartilhar com vocês não apenas a treta, mas toda uma discussão sobre o futuro do cinema como o conhecemos hoje.

Vamos pela cronologia dos fatos:

1 – NETFLIX NA SELEÇÃO OFICIAL DE CANNES

Dentre os indicados à Palma de Ouro, havia duas produções de streaming da Netflix competindo pela primeira vez na história do evento: The Meyerowitz Stories, de Noah Baumbach; e Okja, do sul-coreano Bong Joon-ho.

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Cena do filme Okja, de Bong Joon-ho. Pic by cine.gr

2 – INCÔMODO ENTRE OS DISTRIBUIDORES DE CINEMA NA FRANÇA

Como se trata de um festival bastante tradicional, obviamente que os inúmeros distribuidores de cinema não gostaram nem um pouco do início da invasão da Netflix em Cannes, já que as produções não serão exibidas nas salas de cinema comercialmente, apenas pela plataforma da própria Netflix. Mais do que deixar de lucrar, os distribuidores estão enfurecidos com a possibilidade da profissão se tornar obsoleta num futuro não muito distante.

3 – OS ORGANIZADORES TOMAM PROVIDÊNCIAS

Com a insatisfação dos distribuidores no ouvido, os organizadores se viram obrigados a tomar providências para agradar gregos e troianos. Assim, passou a exigir que os filmes de streaming sejam exibidos em salas de cinema para que possam competir a partir de 2018.

4 – NETFLIX REAGE COM SENSATEZ

Depois de sofrer retaliações, a Netflix poderia reclamar ou se espernear, mas tem ciência do ótimo impacto de ter produções selecionadas e por isso, anunciou que está estudando a possibilidade de lançar seus filmes em algumas salas selecionadas.

5 – ALMODÓVAR USUFRUI DE SUA AUTORIDADE

Como presidente do júri deste ano, o cineasta Pedro Almodóvar, resolveu fazer declaração sobre o assunto, mas de forma intimidatória: “Não concederei não apenas a Palma de Ouro, mas qualquer outro prêmio para um filme que não poderei ver na tela grande”. Embora o júri seja formado por outros artistas como os atores Will Smith, Jessica Chastain, Fan Bingbing, e os cineastas Paolo Sorrentino, Park Chan-wook, Maren Ade e Agnès Jaoui, além do compositor Gabriel Yared, o presidente sempre tem a palavra final, portanto, existe forte possibilidade desses dois filmes da Netflix saírem de mãos abanando apenas por causa de seu formato.

Jury Press Conference - The 70th Annual Cannes Film Festival

À direita, o presidente do júri Pedro Almodóvar em coletiva de imprensa. Pic by The Upcoming

6 – TILDA SWINTON CALA A BOCA DE ALMODÓVAR

Durante a conferência do filme em Cannes, a atriz do filme Okja, a britânica Tilda Swinton, rebateu a declaração do presidente do júri Pedro Almodóvar: “NÃO VIEMOS AQUI PELOS PRÊMIOS”. Cadê aquela musiquinha do “Turn down for what” com os óculos escuros pra Tilda Swinton???

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Tilda Swinton responde às perguntas dos jornalistas em coletiva de Okja em Cannes. Ao fundo, Jake Gyllenhaal. (pic by thestar.com)

ADENDO: A EXIBIÇÃO DE ‘OKJA’ EM CANNES

Depois de toda essa discussão, até parece que sabotaram a exibição do longa Okja! Após alguns minutos de exibição, o filme foi interrompido por problemas técnicos. Alguns membros da imprensa estrangeira aproveitaram para vaiar, mas o diretor Bong Joon-ho soube ter jogo de cintura após o término da sessão, quando disse: “Fiquei feliz pelos problemas técnicos. Assim vocês tiveram a oportunidade de ver duas vezes a sequência de abertura!”.

ANÁLISE PERTINENTE EM RELAÇÃO AO FUTURO DO CINEMA

Bom, mas tirando a sarrafada da Tilda Swinton, o que é necessário entender aqui é que a Netflix é o FUTURO. Simples. Para quem acompanha cinema, sabe que houve uma queda significativa de conteúdo nas salas de exibição. Os estúdios não querem mais arriscar em novas idéias, e preferem ficar limitados a adaptações de quadrinhos, refilmagens e sequências, pois as chances de prejuízo são praticamente inexistentes. Claro que não estou criticando esses filmes de estúdio (eu mesmo sou fã dos filmes da Marvel), mas cinema não deve ficar restrito a essas produções. Cinema é uma arte que precisa sempre se reinventar para poder sobreviver.

E a Netflix está providenciando isso. Há pouco tempo, eles deixaram de ser uma mera plataforma de exibição para produzir conteúdo. Começaram com as séries de TV , que logo conquistaram o grande público como as pioneiras House of Cards e Orange is the New Black, e agora estão fazendo grandes contratos com diretores renomados e renegados do cinema como os já citados Bong Joon-ho e Noah Baumbach. Esses mesmos diretores sabem que estão perdendo espaço nas salas de cinema e por isso, estão buscando alternativas para produzirem seus filmes. Vale lembrar que recentemente o diretor David Lynch anunciou sua aposentadoria de filmes, concentrando seus esforços na série Twin Peaks. Quem sabe ele não consegue retornar com a ajuda da Netflix também?

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Tela da Netflix com destaque para a série House of Cards, sucesso absoluto de crítica e público. 

Quando o Festival de Cannes impõe restrições à Netflix, ele está adiando o futuro. Mesmo sendo cinéfilo que gosta de frequentar salas de cinema, não dá pra simplesmente ignorar uma plataforma tão promissora. Logo de cara, já desbancou as locadoras do mundo todo, e agora a tendência é aposentar as salas de cinema.

ÉPOCA DE TRANSIÇÃO

Embora a Netflix seja o futuro, ele não vem da noite para o dia. É necessário um período de adaptação do público e até mesmo da crítica. Acredito que o ideal nesse caso seja que a Netflix inicialmente disponibilize seus filmes em salas selecionadas de cinema, e que retire suas produções dos cinemas gradativamente. Hoje, podem lançar um filme para 200 salas nos EUA. Daqui a 6 meses, 150 salas, e assim sucessivamente. E o público que vai decidir isso. Se hoje pagam bem pra assistir mega-produções da Disney nos cinemas, eles podem elevar os números positivos das produções de streaming.

Voltando ao discurso do Almodóvar, ele lança sua opinião para que possamos refletir sobre essas mudanças. “Plataformas digitais são um novo meio de oferecer trabalho, o que é interessante e positivo. Mas elas não devem tomar o lugar de formatos existentes. Elas não deveriam mudar os hábitos dos espectadores. Essa é a grande questão do debate.”, declarou o diretor.

Realmente, assistir a um filme na tela grande do cinema é uma experiência de outro nível. A tela grande consegue aprimorar a experiência de ver um filme, e até mesmo melhorar a qualidade daquele filme meio capenga. É verdade. E tem uma questão primordial nesse modo de assistir a um filme: a concentração do espectador. Na sala de cinema, além da imagem e áudio de qualidades, existe o foco. Não há interrupções de telefone, barulho ou mesmo de distrações dentro da sala de cinema, que certamente existem em casa. Então, nesse sentido, o Almodóvar tem razão.

Mas pra ele, que já é um cineasta de renome que frequenta os festivais e sempre tem público nos cinemas, é mais fácil condenar a Netflix. Mas e praquele diretor em começo de carreira? Ou mesmo praquele que foi esquecido pelos grandes estúdios como o já citado David Lynch? Hoje, eles têm duas alternativas: Ou imploram por financiamento por leis de incentivo ou eles cedem para o streaming que vai produzir os filmes e vão oferecer para milhões de espectadores via plataforma.

O próprio diretor Bong Joon-ho ressaltou sua experiência de ter trabalhado com a Netflix: “Eu amei ter trabalhado com a Netflix. Eles me deram muito apoio. O orçamento para este filme foi considerável. Dar esse tipo de orçamento para um diretor não é muito comum.” A Netflix concedeu 50 milhões de dólares para a produção de Okja. Uma boa grana para quem teve astros como Tilda Swinton, Jake Gyllenhaal, Lily Collins e Paul Dano, sem contar com os efeitos especiais.

Enfim, fechando a discussão, nada desse debate todo justifica Pedro Almodóvar fechar as portas para as duas produções por causa da plataforma! Por isso, adorei Tilda Swinton, que ressaltou o privilégio de estar em Cannes, e de lembrar que o real intuito do filme é ser visto e passar sua mensagem. Os prêmios são mera consequência.

***

A 70ª edição do Festival de Cannes termina dia 28 de maio, quando serão anunciados os vencedores.

CANNES: Indicados à Palma de Ouro 2017

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Pôster oficial do Festival de Cannes 2017 com a bela Claudia Cardinale

FESTIVAL MAIS IMPORTANTE DE CINEMA CHEGA À SUA 70ª EDIÇÃO

Bom, infelizmente, o festival de Cannes deste ano já começou com uma polêmica. Assim que o pôster oficial do evento (foto acima), estrelado pela atriz italiana e musa Claudia Cardinale, foi divulgado, a revista Elle do Reino Unido fez uma comparação com a foto original e revelou o uso do photoshop, acarretando numa onda de protestos pela internet. Eu não costumo dar bola para as críticas politicamente corretas, mas nesse caso, realmente não entendi o porquê da alteração. Considerada um dos maiores símbolos sexuais da década de 60 e 70, Cardinale já estava irretocável na foto original. E além disso, não se trata de uma capa de revista masculina (onde a prática é comum), mas estamos diante de um pôster de um evento de cinema no qual a atriz será homenageada! Mas enfim, parece que a própria Claudia Cardinale não se ofendeu, então bola pra frente.

Comparação do pôster com a foto original: cintura e pernas afinadas por edição.
pic by Bellica/Twitter

Este ano, o presidente do júri será o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que é conhecido por conceber personagens femininas (e transsexuais) singulares e tridimensionais em filmes como Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela e A Pele que Habito. “Estou muito feliz em comemorar o 70º aniversário do Festival de Cinema de Cannes nesta função tão privilegiada. Sou grato e honrado, e estou nervoso! Ser Presidente do Júri é uma grande responsabilidade e espero fazer jus às circunstâncias. Posso dizer que vou me dedicar de corpo e alma a esta tarefa, que é ao mesmo tempo um prazer e um privilégio”, declarou o diretor em entrevista. Curiosamente, Almodóvar nunca ganhou o prêmio máximo de Cannes, mas ganhou de Diretor e Roteiro.

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O presidente do júri de Cannes este ano: o diretor espanhol Pedro Almodóvar (pic by jornalcruzeiro.com.br)

Estariam preparando terreno para uma segunda Palma de Ouro para uma diretora? A primeira e única foi concedida à neozelandesa Jane Campion pelo poético O Piano, de 1993. Além das pistas do cartaz estrelado por Cardinale, e o júri presidido por um diretor que entende do universo feminino, temos uma boa seleção com obras dirigidas por mulheres. Das 49 produções selecionadas pelo festival, 12 têm diretoras femininas. Parece pouco, mas é um avanço bastante considerável. Claro que apoio maior participação feminina nas Artes, MAS não defendo cotas de qualquer tipo. Acho que os filmes e artistas devem ser reconhecidos de acordo com a qualidade de seus trabalhos, sejam feitos por homens, mulheres, transgêneros, negros, asiáticos, cristãos, judeus, muçulmanos etc. Enfim, acredito que o festival esteja encaminhando uma vitória importante feminina, mas torço para que a qualidade fílmica esteja acima de qualquer atitude politicamente correta.

Outra curiosidade que existe nesta edição é a ausência total de filmes produzidos por estúdios Hollywoodianos. Embora as celebridades estejam confirmadas no tapete vermelho como Nicole Kidman (que participa em 4 produções), Julianne Moore e Adam Sandler, não existem filmes de estúdio na seleção do festival como há muito não se via. Talvez seja alguma retaliação francesa, já que as produções hollywoodianas migraram para os festivais de Veneza e de Toronto no segundo semestre.

Contudo, a seleção americana apresenta fortes nomes para a competição: Sofia Coppola (The Beguiled), Noah Baumbach (The Meyerowitz Stories) e Todd Haynes (Wonderstruck). Já internacionalmente falando, temos o russo Andrey Zvyagintsev, o francês Michel Hazanavicius (sim, aquele mesmo de O Artista), os sul-coreanos Hong Sangsoo (que vem com dois filmes em mostras distintas) e o bastante versátil Bong Joon-ho (que volta a trabalhar com elenco internacional), o grego Yorgos Lanthimos (que concorreu ao Oscar de Roteiro Original com O Lagosta este ano) e o sempre polêmico alemão Michael Haneke (que pode vencer sua terceira Palma de Ouro com um filme bem pertinente sobre imigração).

Tilda Swinton em mais uma transformação no filme coreano Okja (pic by tomandlorenzo.com)

Destacando a presença feminina em Cannes, temos a japonesa Naomi Kawase (que muitos críticos acreditavam que merecia a Palma de Ouro em 2014 com O Segredo das Águas), a escocesa Lynne Ramsay (que marcou muito com sua direção em Ratcatcher) e a já citada americana Sofia Coppola, que faz uma releitura feminina do filme dirigido por Don Siegel e estrelado por Clint Eastwood: O Estranho que Nós Amamos (1971).

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Nicole Kidman em cena de O Enganado (The Beguiled), de Sofia Coppola (pic by cine.gr)

Particularmente, estou de olho em dois nomes da mostra Un Certain Regard: o mexicano Michel Franco e o japonês Kiyoshi Kurosawa. Após assistir a três filmes do jovem Franco, passei a apreciar sua visão muito contemporânea do comportamento humano, que tende sempre à violência e à isolação. E quanto a Kurosawa, ele sabe explorar os problemas do mundo atual com uma atmosfera meio filosófica que tinha o antigo cinema nipônico. São dois cineastas que prevejo um amadurecimento inevitável e iminente, e por isso, são fortes candidatos a levar o prêmio da mostra.
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DOIS ESTRANHOS NO NINHO
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Nesta edição do festival, o diretor Thierry Frémaux decidiu acolher duas séries de televisão. Muito questionado pela imprensa por incluir um novo formato, ele se justificou da seguinte maneira: “Não vamos começar a discutir aqui o fato de que até as séries televisivas, a menos que provem o contrário, estão usando a forma clássica de filmagem e narração cinematográfica… Por estas duas séries (Top of the Lake e Twin Peaks) serem assinadas por Jane Campion e David Lynch (respectivamente), que são cineastas e amigos do festival de Cannes, que vamos exibir seus trabalhos.” – Olha, até a parte em que ele defende que as séries estão se apoderando da linguagem cinematográfica, Frémaux estava mandando bem, mas depois que defendeu um coleguismo, ele derrapou.

A diretora Jane Campion dá instruções para a atriz Elizabeth Moss na série Top of the Lake (pic by Tribeca Film Festival)

Não vejo problema algum em exibirem séries de TV bem conceituadas num festival de cinema, até mesmo porque as séries estão mais em alta hoje e agregando cineastas de peso como Lynch e Campion, que não têm mais credibilidade em grandes estúdios. Inclusive, existe uma tendência entre os festivais como Toronto, Sundance e Berlim de apresentarem uma seção específica para séries.

Ainda sobre novidades em Cannes, este ano teremos uma sessão mega especial de Realidade Virtual. Trata-se de uma nova linguagem que pode ou não ser o formato do futuro. O negócio é tão sério que chamaram o vencedor de dois Oscars Alejandro González Iñárritu para apresentar um curta de seis minutos intitulado Carne y Arena nesse formato virtual. Será que vinga? Não foram divulgadas maiores informações, mas pelo pôster dá pra deduzir que se trata de uma crítica social às imposições migratórias de Donald Trump. E não poderíamos esperar outra coisa do melhor diretor mexicano da atualidade.

Pôster do curta de realidade virtual de Alejandro González Iñárritu (pic by indiewire.com)

SELEÇÃO DO FESTIVAL DE CANNES 2017

FILME DE ABERTURA

Ismael’s Ghosts
Dir: Arnaud Desplechin

COMPETIÇÃO OFICIAL

  • 120 Beats per Minute
    Dir: Robin Campillo
  • O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled)
    Dir: Sofia Coppola
  • The Day After
    Dir: Hong Sangsoo
  • A Gentle Creature
    Dir: Sergei Loznitsa
  • Good Time
    Dir: Benny Safdie & Josh Safdie
  • Happy End
    Dir: Michael Haneke
  • In the Fade
    Dir: Fatih Akin
  • Jupiter’s Moon
    Dir: Kornél Mundruczó
  • The Killing of a Sacred Deer
    Dir: Yorgos Lanthimos
  • L’amant double
    Dir: François Ozon
  • Le redoubtable
    Dir: Michel Hazanvicius
  • Loveless
    Dir: Andrey Zvyagintsev
  • The Meyerowitz Stories
    Dir: Noah Baumbach
  • Okja
    Dir: Bong Joon-Ho
  • Radiance
    Dir: Naomi Kawase
  • Rodin
    Dir: Jacques Doillon
  • Sem Fôlego (Wonderstruck)
    Dir: Todd Haynes
  • You Were Never Really Here
    Dir: Lynne Ramsay

MOSTRA UN CERTAIN REGARD

  • After the War
    Dir: Annarita Zambrano
  • April’s Daughter
    Dir: Michel Franco
  • Barbara
    Dir: Mathieu Amalric OPENER
  • Beauty and the Dogs
    Dir: Kaouther Ben Hania
  • Before We Vanish
    Dir: Kiyoshi Kurosawa
  • Closeness
    Dir: Kantemir Balagov
  • The Desert Bride
    Dir: Cecilia Atan & Valeria Pivato
  • Directions
    Dir: Stephan Komandarev
  • Dregs
    Dir: Mohammad Rasoulof
  • Jeune femme
    Dir: Léonor Serraille
  • L’Atelier
    Dir: Laurent Cantet
  • Lucky
    Dir: Sergio Castellitto
  • The Nature of Time
    Dir: Karim Moussaoui
  • Out
    Dir: Gyorgy Kristof
  • Western
    Dir: Valeska Grisebach
  • Wind River
    Dir: Taylor Sheridan

FORA DE COMPETIÇÃO

  • Blade of the Immortal
    Dir: Takashi Miike
  • How to Talk to Girls at Parties
    Dir: John Cameron Mitchell
  • Visages, Villages
    Dir: Agnès Varda & JR

EXIBIÇÕES DA MEIA-NOITE

  • Prayer Before Dawn
    Dir: Jean-Stéphane Sauvaire
  • The Merciless
    Dir: Byun Sung-Hyun
  • The Villainess
    Dir: Jung Byung-Gil

EXIBIÇÕES ESPECIAIS

  • 12 Jours
    Dir: Raymond Depardon
  • An Inconvenient Sequel
    Dir: Bonni Cohen & Jon Shenk
  • Claire’s Camera
    Dir: Hong Sangsoo
  • Demons in Paradise
    Dir: Jude Ratman
  • Napalm
    Dir: Claude Lanzmann
  • Promised Land
    Dir: Eugene Jarecki
  • Sea Sorrow
    Dir: Vanessa Redgrave
  • They
    Dir: Anahita Ghazvinizadeh

EVENTOS DO 70º ANIVERSÁRIO

  • 24 Frames
    Dir: Abbas Kiarostami
  • Come Swim
    Dir: Kristen Stewart
  • Top of the Lake
    Dir: Jane Campion
  • Twin Peaks
    Dir: David Lynch

REALIDADE VIRTUAL

  • Carne y arena
    Dir: Alejandro G. Iñárritu

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A 70ª edição do Festival de Cannes acontece do dia 17 a 28 de maio de 2017.

Ken Loach conquista sua segunda Palma de Ouro com ‘I, Daniel Blake’ em Cannes 2016

Ken Loach se mostra triunfante com sua segunda Palma de Ouro por I, Daniel Blake (photo by publico.pt)

Ken Loach se mostra triunfante com sua segunda Palma de Ouro por I, Daniel Blake (photo by publico.pt)

DIRETOR BRITÂNICO VENCEU EM 2006 COM ‘VENTOS DA LIBERDADE’

Num ano repleto de diretores renomados na competição oficial, deu Ken Loach mais uma vez! Agora ele se junta a um seleto grupo de cineastas que tem duas Palmas de Ouro no currículo: Michael Haneke, Francis Ford Coppola, Emir Kusturica, Bille August, Shohei Imamura, Alf Sjoberg e os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne.

Seu mais novo filme retrata um entrave sócio-trabalhista de um carpinteiro de meia-idade que não pode mais trabalhar depois de um acidente, mas luta para conseguir seus benefícios do governo. Pela sinopse, parece aqueles filmes de forte crítica social que permearam a década de 70 como os do italiano Elio Petri, mas vale lembrar que a própria filmografia de Loach possui pinceladas de cunho social. Segundo a crítica, I, Daniel Blake seria seu melhor trabalho, justamente por amadurecer essa vertente. Contudo, parece que o lado emocional falou mais alto na decisão do júri.

Mesmo sem justificar suas escolhas, o presidente do júri, George Miller, definiu a seleção com três qualidades: “inteligência, ferocidade e beleza”. No geral, a mídia estrangeira ficou desapontada com uma escolha conservadora vinda de um autor tão inovador como Miller. Entre os indicados, os críticos apontaram alguns favoritos como a ‘dramédia’ sobre pai e filha Toni Erdmann, da alemã Maren Ade; o suspense Elle, de Paul Verhoeven; e o romance coreano The Handmaiden, de Park Chan-wook. Curiosamente, nenhum deles recebeu um prêmio de consolação sequer!

O Grande Prêmio do Júri (o segundo lugar da edição) acabou nas mãos do prodígio canadense Xavier Dolan por seu It’s Only the End of the World, um drama que destrincha uma família disfuncional. Por conquistar prêmios em Cannes desde 2009, mas sempre batendo na trave, havia altas expectativas de que este seria o ano de Dolan, mas seu novo trabalho não foi uma unanimidade no festival, chegando a ser vaiado numa das sessões.

O jovem canadense Xavier Dolan (27) ganha seu prêmio mais importante em Cannes, o Grande Prêmio do Júri, por Juste la fin du monde (photo by thestar.com)

O jovem canadense Xavier Dolan (27) ganha seu prêmio mais importante em Cannes, o Grande Prêmio do Júri, por Juste la fin du monde (photo by thestar.com)

Vencedor do mesmo prêmio no ano anterior por Filho de Saul, o diretor László Nemes saiu em defesa de Dolan: “Fiquei admirado ao ver o filme. Todos nós sentimos que era uma jornada tocante. Quando começou, você podia sentir as escolhas muito específicas do diretor.” Vale destacar que esta é a primeira vez que Xavier Dolan trabalha com atores de nome, no caso, Marion Cotillard, Léa Seydoux e Vincent Cassel.

Antes que um ser politicamente correto reclame, houve uma mulher premiada em Cannes (excetuando, obviamente, a categoria de Atriz)! E foi novamente a diretora britânica Andrea Arnold com seu American Honey, um road movie estrelado por um sempre polêmico Shia LaBeouf. Trata-se de sua terceira vitória com o Prêmio do Júri, vencido anteriormente por Marcas da Vida (Red Road) e Aquário (Fish Tank). Considero seu estilo bastante intenso, que me lembra a direção de atores de Mike Leigh.

E pra quem aguardava por premiações para atores conhecidos como Adam Driver (o Kylo Ren do novo Star Wars), Shia LaBeouf, Joel Edgerton, Marion Cotillard ou Kristen Stewart, ficou a expectativa, pois o júri reconheceu atores menos conhecidos: a filipina Jaclyn Jose de Ma’Rosa, de Brillante Mendoza; e o iraniano Shahab Hosseini de The Salesman, de Asghar Farhadi. Esta é a segunda performance sob direção de Farhadi a ganhar prêmio em Cannes; em 2014, a argentina Bérénice Bejo ganhou por O Passado. The Salesman foi o único a ganhar dois prêmios principais, já que venceu como Melhor Roteiro também.

Jaclyn Jose posa com seu prêmio de Performance Feminina por Ma'Rosa (photo by preen.inquirer.net)

Jaclyn Jose posa com seu prêmio de Performance Feminina por Ma’Rosa (photo by preen.inquirer.net)

O iraniano Shahab Hosseini ganha Performance Masculina por The Salesman (photo by themalaimailonline.com)

O iraniano Shahab Hosseini ganha Performance Masculina por The Salesman (photo by themalaimailonline.com)

Aliás, pelo burburinho, Joel Edgerton e Ruth Negga já deram o start inicial para a campanha para o Oscar 2017 por suas interpretações no drama Loving, de Jeff Nichols. Trata-de de uma história de amor interracial na Virginia de 1958, onde o casal foi preso por simplesmente se casar. Além do prestígio do diretor Nichols, a performance de Edgerton foi bastante elogiada em Cannes e, depois de todo aquele estardalhaço no Oscar por “falta de diversidade”, a Academia vai fazer um baita esforço para incluir negros, amarelos, índios, anões, albinos e imigrantes ilegais. O vilão Kylo Ren (Adam Driver) também conquistou pontos para o ano que vem por sua atuação em Paterson.

E na categoria de Diretor, houve o único empate da cerimônia, que ocorreu entre o romeno Cristian Mungiu, por The Graduation, e o francês Olivier Assayas, por Personal Shopper. Enquanto Mungiu recebeu seu terceiro prêmio (venceu a Palma de Ouro por 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, e Roteiro por Além das Montanhas), Assayas recebeu seu primeiro prêmio após 5 indicações à Palma de Ouro! Seu filme também foi vaiado, mas ele é muito querido na crítica.

Romanian director Cristian Mungiu (R) and French director Olivier Assayas talk on stage wafter being awarded with the Best Director prize, respectively for the film "Graduation (Bacalaureat)" and "Personal Shopper" during the closing ceremony of the 69th Cannes Film Festival in Cannes, southern France, on May 22, 2016. / AFP PHOTO / ALBERTO PIZZOLI

Vencedores de Melhor Diretor em Cannes: à esquerda, Olivier Assayas (Personal Shopper) discursa ao lado de Cristian Mungiu  (Graduation). Photo by ALBERTO PIZZOLI

E o Brasil continuará mais um ano com apenas a Palma de Ouro de Anselmo Duarte por O Pagador de Promessas (1962). Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, saiu de mãos abanando do festival. A passagem do filme brasileiro ficou marcada pelos protestos dos atores e da equipe no tapete vermelho contra o Impeachment da “presidenta” Dilma Roussef. Dentre os vários cartazes com dizeres em inglês e francês, havia um que dizia que “54 milhões de votos (que reelegeram a Dilma) foram queimados” e que “a democracia havia dado lugar a um golpe”. Não gosto muito de ficar falando de política com tantos intolerantes à solta na internet, mas só queria dizer que somente numa democracia, esses mesmos 54 milhões de eleitores também têm o direito de mudar de posição após um péssimo governo petista. Eu mesmo conheço alguns que se arrependeram de seus votos, e pra isso também serve o Impeachment, afinal, de que outra forma a sociedade poderia destituir um presidente antes do fim de seu mandato? E vale lembrar que o vice-presidente Michel Temer veio no mesmo pacote do PT, então não adianta reclamar. Temos que torcer para que ele faça um bom governo e consiga aprovar medidas para salvar a nossa economia.

Equipe do filme Aquarius com cartazes contra o Impeachment (photo by cinema.uol.com.br)

Equipe do filme Aquarius com cartazes contra o Impeachment (photo by cinema.uol.com.br)

Vale destacar que o cinema brasileiro foi agraciado com uma menção honrosa na categoria de curta-metragem para A Moça que Dançou com o Diabo, de João Paulo Miranda Maria, e com o Olho de Ouro para o documentário Cinema Novo, de Eryk Rocha.

Seguem os vencedores desta 69ª edição do Festival de Cannes:

PALMA DE OURO
I, Daniel Blake
Dir: Ken Loach

GRANDE PRÊMIO DO JÚRI
It’s Only the End of the World
Dir: Xavier Dolan

PRÊMIO DO JÚRI
Andrea Arnold (American Honey)

DIRETOR
Olivier Assayas (Personal Shopper) & Cristian Mungiu (Graduation)

ATOR
Shahab Hosseini (The Salesman)

ATRIZ
Jaclyn Jose (Ma ‘Rosa)

ROTEIRO
Asghar Farhadi (The Salesman)

OUTROS PRÊMIOS

PALMA HONORÁRIA
Jean-Pierre Léaud

CAMERA D’Or
Divines
Dir: Houda Benyamina

PALMA DE OURO DE CURTA
Timecode
Dir: Juanjo Jimenez

MENÇÃO ESPECIAL CURTA
The Girl Who Danced With the Devil
Dir: João Paulo Miranda Maria

Ecumenical Jury Prize
It’s Only the End of the World
Dir: Xavier Dolan

PRÊMIO OLHO DE OURO
Cinema Novo
Dir: Eryk Rocha

UN CERTAIN REGARD

PRÊMIO UN CERTAIN REGARD
The Happiest Day in the Life of Olli Mäki
Dir: Juho Kuosmanen

PRÊMIO DO JÚRI
Harmonium
Dir: Koji Fukada

DIRETOR
Matt Ross (Captain Fantastic)

ROTEIRO
Delphine e Muriel Coulin (The Stopover)

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI
Michael Dudok de Wit (The Red Turtle)

DIRECTORS’ FORTNIGHT

PRÊMIO ART CINEMA
Wolf and Sheep
Dir: Shahrbanoo Sadat

PRÊMIO Society of Dramatic Authors and Composers
The Together Project
Dir: Solveig Anspach

Europa Cinemas Label
Mercernary
Dir: Sacha Wolff

CRITICS’ WEEK

GRANDE PRÊMIO
Mimosas
Dir: Oliver Saxe

PRÊMIO VISIONÁRIO
Album
Dir: Mehmet Can Mertoğlu

PRÊMIO Society of Dramatic Authors and Composers
Diamond Island
Dir: Day Chou

FIPRESCI

COMPETIÇÃO
Toni Erdmann
Dir: Maren Ade

Un Certain Regard
Dogs
Dir: Bogdan Mirică

Critics’ Week
Raw
Dir: Julia Ducournau

Cannes: Indicados à Palma de Ouro 2016

Pôster da 69ª edição do Festival de Cannes: homenagem ao filme O Desprezo, de Jean-Luc Godard (photo by thehollywoodreporter.com)

Pôster da 69ª edição do Festival de Cannes: homenagem ao filme O Desprezo, de Jean-Luc Godard (photo by thehollywoodreporter.com)

GRANDES NOMES DO CINEMA INTERNACIONAL ESTÃO REUNIDOS NESTA EDIÇÃO DO FESTIVAL DE CANNES

Não me recordo de um ano tão repleto de nomes consagrados como este em Cannes. Olha o naipe dos profissionais: Pedro Almodóvar, Olivier Assayas, Jean-Pierre e Luc Dardenne, Cristian Mungiu, Andrea Arnold, Park Chan-wook, Ken Loach, Xavier Dolan, Jeff Nichols, Nicolas Winding Refn, Jim Jarmusch, Sean Penn e um dos meus favoritos: Paul Verhoeven. Isso sem contar aqueles que não estão competindo como Woody Allen, Steven Spielberg e Jodie Foster. Resumindo: O presidente do júri, George Miller, indicado ao Oscar pelo fenomenal Mad Max: Estrada da Fúria, terá muito trabalho para garimpar os melhores. Esperamos que suas escolhas sejam tão ousadas como seus filmes!

Presidente do Júri de Cannes 2016: George Miller (photo by Carl Court/AFP)

Presidente do Júri de Cannes 2016: George Miller (photo by Carl Court/AFP)

Para nós, brasileiros, a grande notícia vem com a participação de um filme brasileiro após 4 anos na competição oficial. O último havia sido Na Estrada (2012), de Walter Salles, que na verdade é uma co-produção entre Brasil, Argentina, EUA, Reino Unido, França e Canadá. Se for contar uma produção 100% brasileira, ainda assim, a marca fica com Walter Salles; ele competiu com o drama urbano Linha de Passe em 2008, e saiu com o prêmio de interpretação feminina para Sandra Corveloni. A bola da vez atende pelo nome de Kleber Mendonça Filho, que ficou conhecido por O Som ao Redor, drama que aborda a questão da violência numa rua de Recife.
Da esquerda para a direita: os atores Julia Bernat, Sonia Braga e Pedro Queiroz em cena do longa Aquarius, de Kleber Mendonça Filho (photo by folha.com.br)

Da esquerda para a direita: os atores Julia Bernat, Sonia Braga e Pedro Queiroz em cena do longa Aquarius, de Kleber Mendonça Filho (photo by folha.com.br)

Ele trilha o caminho dos críticos da revista francesa Cahiers du Cinema, como François Truffaut, que deixaram as críticas e se tornaram cineastas. Seu segundo longa, intitulado Aquarius, aparentemente possui uma sinopse com tons fantasiosos: No Recife, uma viúva de 60 anos briga com uma construtora que está querendo comprar seu apartamento para demolir todo o edifício. Ela teria habilidades de viajar no tempo (!). Um dos grandes trunfos do filme seria a presença magnética da madame do cinema nacional Sonia Braga. Indicada a três Globos de Ouro nas décadas de 80 e 90, ainda possui prestígio em produções internacionais, e pode (por que não?) iniciar uma nova fase em sua carreira. A respeito de sua escolha como protagonista, o diretor explicou em entrevista à Folha de S. Paulo: “A personagem é muito específica, surpreendentemente, uma pessoa 3D num filme não 3D. Tinha que ser alguém interessante e profissional. Numa reunião com amigos, alguém disse ‘Sonia Braga’. Respondi ‘puta que o pariu, seria incrível’.”
Elle Faning em cena de The Neon Demon, novo trabalho de Nicolas Winding Refn (photo by cine.gr)

Elle Faning em cena de The Neon Demon, novo trabalho de Nicolas Winding Refn (photo by cine.gr)

Além de penca de diretores renomados, o tapete vermelho de Cannes contará com celebridades hollywoodianas como Charlize Theron, George Clooney, Julia Roberts, Russell Crowe, Ryan Gosling, Kristen Stewart, Jesse Eisenberg, Shia LaBeouf, Mark Rylance, Rebecca Hall, além de astros internacionais como Marion Cotillard, Léa Seydoux, Vincent Cassel, Isabelle Huppert e Javier Bardem. Atores que se tornaram diretores como Jodie Foster e Sean Penn também devem ter presença garantida no evento.
Dentre as 20 produções indicadas à Palma de Ouro, apenas uma é latino-americana: justamente o Aquarius. 13 são europeus, 3 americanos, um canadense e dois asiáticos. Curiosamente, não há filmes italianos em busca do prêmio máximo; apenas na mostra Un Certain Regard. Alguns jornalistas também reclamaram da ausência de produções mexicanas, mas enfim, é muito difícil agradar a todos, já que quando se trata de Arte, não existem cotas. No quesito competição, temos três diretores vencedores da Palma de Ouro: o britânico Ken Loach, o romeno Cristian Mungiu e os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, que já venceram duas vezes.
Isabelle Huppert em cena de Elle, de Paul Verhoeven (photo by cine.gr)

Isabelle Huppert em cena de Elle, de Paul Verhoeven (photo by cine.gr)

Ao contrário das premiações hollywoodianas, é difícil prever algum tipo de vencedor em Cannes, uma vez que os membros do júri mudam todos os anos. Se formos levar em consideração os filmes de ação (os 4 Mad Max) do presidente do júri, George Miller, os filmes mais estranhos e de estética dinâmica têm seu favoritismo. São os casos do sul-coreano The Handmaiden, do diretor de Oldboy, Park Chan-wook; o dinamarquês The Neon Demon, de Nicolas Winding Refn; e Elle, do holandês Paul Verhoeven. Todos sabem filmar muito bem, com um estilo bem peculiar e têm suas obsessões bizarras. MAS… Vale lembrar que o mesmo George Miller já dirigiu dramas chorosos como O Óleo de Lorenzo e a animação familiar Happy Feet: O Pinguim.
Cena do filme sul-coreano The Handmaiden, de Park Chan-wook (photo by cine.gr)

Cena do filme sul-coreano The Handmaiden, de Park Chan-wook (photo by cine.gr)

Particularmente, considero o cinema sul-coreano muito bonito esteticamente, mas suas bizarrices e alto teor de violência acabam minando suas chances em premiações (o país nunca recebeu uma única indicação ao Oscar de Filme em Língua Estrangeira), já que muitos votantes são senhores que evitam tramas violentas demais. Talvez com um presidente do júri mais adepto a esse “gênero”, existem altas expectativas para que o cinema sul-coreano ganhe sua primeira Palma de Ouro. Em 2003, ele levou o Grande Prêmio do Júri por Oldboy (uma espécie de segundo lugar), quando Quentin Tarantino era presidente do júri.

INDICADOS À PALMA DE OURO:

FILME DE ABERTURA

  • Cafe Society
    Dir: Woody Allen
Jesse Eisenberg e Kristen Stewart recebem direções de Woody Allen em set de Café Society (photo by cine.gr)

Jesse Eisenberg e Kristen Stewart recebem direções de Woody Allen em set de Café Society (photo by cine.gr)

COMPETIÇÃO

  • Acquarius
    Dir: Kleber Mendonca Filho
  • American Honey
    Dir: Andrea Arnold
  • Baccalaureat
    Dir: Cristian Mungiu
  • Elle
    Dir: Paul Verhoeven
  • From the Land of the Moon
    Dir: Nicole Garcia
  • The Handmaiden
    Dir: Park Chan-wook
  • I, Daniel Blake
    Dir: Ken Loach
  • It’s Only the End of the World
    Dir: Xavier Dolan
  • Julieta
    Dir: Pedro Almodóvar
  • The Last Face
    Dir: Sean Penn
  • Loving
    Dir: Jeff Nichols
  • Ma’ Rosa
    Dir: Brillante Mendoza
  • The Neon Demon
    Dir: Nicolas Winding Refn
  • Paterson
    Dir: Jim Jarmusch
  • Personal Shopper
    Dir: Olivier Assayas
  • Sierra-Nevada
    Dir: Cristi Puiu
  • Slack Bay
    Dir: Bruno Dumont
  • Staying Vertical
    Dir: Alain Guiraudie
  • Toni Erdmann
    Dir: Maren Ade
  • The Unknown Girl
    Dir: Jean-Pierre e Luc Dardenne
Cena do novo filme de Pedro Almodóvar, Julieta, com Emma Suárez e Adriana Ugarte (photo by outnow.ch)

Cena do novo filme de Pedro Almodóvar, Julieta, com Emma Suárez e Adriana Ugarte (photo by outnow.ch)

FORA DE COMPETIÇÃO

– The BFG
Dir: Steven Spielberg

– Goksung
Dir: Na Hong-jin

Money Monster
Dir: Jodie Foster

– Nice Guys
Dir: Shane Black

Ruby Barnhill em cena de O Bom Gigante Amigo, de Steven Spielberg (photo by cine.gr)

Ruby Barnhill em cena de O Bom Gigante Amigo, de Steven Spielberg (photo by cine.gr)

UN CERTAIN REGARD

* After the Storm
Dir: Hirokazu Kore-eda

* Apprentice
Dir: Boo Junfeng

* Beyond the Mountains and Hills
Dir: Eran Kolirin

Captain Fantastic
Dir: Matt Ross
* Clash
Dir: Mohmaed Diab
* The Dancer
Dir: Stephanie Di Giusto
* The Disciple
Dir: Kirill Serebrennikov
* Dogs
Dir: Bogdan Mirica
* The Happiest Day in the Life of Olli Maki
Dir: Juho Kuosmanen
* Harmonium
Dir: Fukada Koji
* Inversion
Dir: Behnam Behzadi
* The Long Night of Francisco Sanctis
Dir: Andrea Testa
* Pericles the Black Man
Dir: Stefano Mordini
* Personal Affairs
Dir: Maha Haj
* The Red Turtle
Dir: Michael Dudok de Wit
The Transfiguration
Dir: Michael O’Shea
* Voir du Pays
Dir: Delphine Coulin, Muriel Coulin

MIDNIGHT SCREENINGS

* Gimme Danger
Dir: Jim Jarmusch

* Train to Busan
Dir: Yeon Sang-ho

SPECIAL SCREENINGS

* Le Cancre
Dir: Paul Vecchiali

* Exil
Dir: Rithy Panh
* A Chad Tragedy
Dir: Mahamat-Saleh Haroun
* The Last Beach
Dir: Thanos Anastopoulos, Davide Del Degan
* Last Days of Louis XIV
Dir: Albert Serra
A 69ª edição do Festival de Cannes começa no dia 11 de maio e vai até o dia 22.

Thriller francês ‘Dheepan’, de Jacques Audiard, leva a Palma de Ouro 2015

Jacques Audiard (centro) recebe a Palma de Ouro ao lado dos atores do filme Dheepan: Jesuthasan Antonythsan e Kalieaswari Srinivasan. Ao fundo, o presidente do júri, Ethan Coen (photo by theguardian.com)

Jacques Audiard (centro) recebe a Palma de Ouro ao lado dos atores do filme Dheepan: Jesuthasan Antonythsan e Kalieaswari Srinivasan. Ao fundo, o presidente do júri, Ethan Coen (photo by theguardian.com)

IMPRENSA ESTRANGEIRA QUESTIONA FORTE PRESENÇA FRANCESA E SAI INSATISFEITA COM PREMIAÇÃO

Após concorrer por três vezes à Palma de Ouro em Cannes (em 1996 com Um Herói Muito Discreto, em 2009 com O Profeta, e em 2012 com Ferrugem e Osso), o autor francês Jacques Audiard finalmente levou o prêmio máximo do festival de cinema. Bastante humorado, o cineasta disparou em seu discurso de agradecimento: “Obrigado, Michael Haneke, por não ter feito nenhum filme este ano” – ele perdeu a Palma para Haneke na últimas duas oportunidades. Considerado por muitos críticos e cinéfilos como um dos grandes cineastas franceses da atualidade, sua consagração não soa mal, porém a premiação não agradou à maioria dos jornalistas e críticos presente.

Para muitos, além do prestígio do diretor, o tema da imigração na Europa, uma questão muito atual e polêmica, colaborou bastante na escolha do longa como o melhor do evento. Dheepan apresenta elementos do seu trabalho anterior O Profeta, como as gangues violentas e a busca pela desestruturação do poder, mas desta vez seu protagonista é um membro do grupo separatista Tamil Tigers do Sri Lanka. Planejando pedir asilo político na França, ele leva consigo duas estranhas (uma mulher e uma garota de 9 anos) com documentos falsos na tentativa de facilitar sua entrada no país. Lá, ele consegue um emprego e um lar, mas acaba se envolvendo com traficantes do condomínio onde mora, reabrindo suas feridas de guerra.

Claudine Vinasithamby e Jesuthasan Antonythasan em cena de Dheepan, de Jacques Audiard (Photo by outnow.ch)

Claudine Vinasithamby e Jesuthasan Antonythasan em cena de Dheepan, de Jacques Audiard (Photo by outnow.ch)

Honestamente, a sinopse não é novidade nenhuma. Aliás, ela lembra a sinopse de Rambo – Programado Para Matar (1982) e outros filmes dos anos 80 por sua vertente das feridas de guerra. Mas Audiard filma de um modo mais europeu, valorizando mais essa questão da imigração e dissecando os dilemas morais que envolvem o personagem e a situação.

Questionados sobre a escolha de Deephan, os presidentes do júri, os irmãos Coen, não gostaram e replicaram cada um a seu modo. Enquanto Ethan Coen foi mais complacente soltando a sentença: “Todos nós ficamos entusiasmados com detalhes de vários filmes, mas esse foi uma escolha unânime.”, Joel Coen preferiu ser mais enfático sobre a liberdade de escolha: “É um prêmio, de certa forma, estético. O júri não é formado por críticos de cinema, mas por um grupo de artistas.” – o que não deixa de ser verdade.

Joel Coen e Ethan Coen na cerimônia de premiação em Cannes: escolha unânime. Será? (photo by abcnews.go.com)

Joel Coen e Ethan Coen na cerimônia de premiação em Cannes: escolha unânime. Será? (photo by abcnews.go.com)

O mais importante em premiações é saber separar o profissional do pessoal. Por exemplo, em 2010, selecionaram Quentin Tarantino para ser presidente do júri do Festival de Veneza, e ele foi lá e premiou sua ex-namorada Sofia Coppola por Um Lugar Qualquer. Mérito ou presente? Em 2009, nomearam a atriz Isabelle Huppert pra ser presidente do júri, e ela concede a Palma de Ouro para Michael Haneke por A Fita Branca. Pode até ser por méritos próprios, mas fica aquela sensação de que ela teria presenteado seu colaborador de tantos filmes como A Professora de Piano (2001), que curiosamente lhe rendeu o prêmio de interpretação feminina em Cannes. Essas situações podem e devem ser evitadas pelos

Mas enfim, muitos queriam o filme húngaro Son of Saul (Saul Fia), de László Nemes, levasse o prêmio máximo do festival, mas acabou levando o Grande Prêmio do Júri, uma espécie de segundo lugar. Considerado um filme forte sobre o Holocausto, a produção foca na vida do prisioneiro húngaro Saul, que tem a tarefa de queimar os corpos dos demais prisioneiros no campo de concentração, inclusive o de seu filho. Se selecionado pela Hungria para representar o país no Oscar, Son of Saul tem grandes chances de vencer o prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira de 2016. Além de apresentar essa temática de campos de concentração que os membros mais idosos da Academia adoram, o filme será distribuído pela forte Sony Pictures Classics.

Géza Rohrig é Saul, o prisioneiro húngaro do campo de concentração de Son of Saul, de László Nemes (photo by outnow.ch)

Géza Röhrig é Saul, o prisioneiro húngaro do campo de concentração de Son of Saul, de László Nemes (photo by outnow.ch)

Contudo, a imprensa estrangeira no geral não estava criticando apenas a escolha de Dheepan, mas a forte presença de conterrâneos. Das 19 produções indicadas à Palma de Ouro, 5 são francesas e mais 4 são co-produções da França. Além disso, dos sete prêmios da competição oficial, três foram para a França: a Palma para Dheepan, Melhor Ator para Vincent Lindon por The Measure of a Man, e Melhor Atriz para Emmanuelle Bercot por Mon Roi.

Vencedor do prêmio de interpretação masculina, o ator francês Vincent Lindon posa com o prêmio por The Measure of a Man (photo by news.yahoo.com)

Vencedor do prêmio de interpretação masculina, o ator francês Vincent Lindon posa com o prêmio por The Measure of a Man (photo by news.yahoo.com)

Aliás, o prêmio de interpretação feminina por si já foi uma polêmica à parte, pois além de terem selecionado a francesa Bercot por um filme bastante criticado, o prêmio foi dividido com a americana Rooney Mara pelo drama lésbico Carol, de Todd Haynes, que aceitou o prêmio em sua ausência. A crítica dava como certa a consagração de Cate Blanchett (que contracena com Rooney Mara em Carol) e consequentemente sua indicação ao Oscar 2016, mas não foi bem isso que aconteceu.

Emmanuelle Bercot posa ao lado dos dois prêmios de interpretação feminina. Rooney Mara não esteve presente. Bercot ganha por Mon Roi (photo by news.yahoo.com)

Emmanuelle Bercot posa ao lado dos dois prêmios de interpretação feminina. Rooney Mara não esteve presente. Bercot ganha por Mon Roi (photo by news.yahoo.com)

Recompensado por seu visual deslumbrante em The Assassin, um filme com artes marciais, o cineasta chinês Hou Hsiao-Hsien levou o prêmio de Direção. Esta foi sua sétima indicação à Palma de Ouro, e seu segundo prêmio em Cannes. Em 1993, ele havia ganhado o Prêmio do Júri por Mestre das Marionetes. Membro do júri, o diretor mexicano Guillermo Del Toro, também muito elogiado por seus recursos visuais, elogiou o trabalho de Hsiao-Hsien: “Por falar numa linguagem, uma claridade e uma poesia que era excessivamente forte.”

O consagrado diretor Hou Hsiao Hsien recebe o prêmio de direção por The Assassin (photo by china.org.cn)

O consagrado diretor Hou Hsiao Hsien recebe o prêmio de direção por The Assassin (photo by china.org.cn)

Já o Prêmio do Júri, que seria o terceiro lugar, ficou com o primeiro filme em língua inglesa do diretor grego Yorgos Lanthimos, conhecido pelo bizarro Dente Canino (2009). The Lobster certamente apresenta a trama mais estranha de todos os concorrentes: Num futuro fictício, as pessoas solteiras são obrigadas a encontrar seus pares em até 45 dias, caso contrário se transformam em animais e são soltos nas florestas. Essa sinopse já seria um prato cheio para o gosto bizarro dos irmãos Coen, mas segundo as críticas, o filme perde sua força depois da metade.

O diretor grego Yorgos Lanthimos recebe o Prêmio do Júri por The Lobster (photo by lemonde.fr)

O diretor grego Yorgos Lanthimos recebe o Prêmio do Júri por The Lobster (photo by lemonde.fr)

Outro cineasta estrangeiro que fez sua estréia na língua inglesa foi o mexicano Michel Franco. Com duas produções boas e polêmicas na bagagem (Daniel & Ana, e Depois de Lúcia), o diretor aborda o tema dos doentes terminais ao focar no trabalho de um enfermeiro, interpretado por Tim Roth, que lhe entregou o prêmio de Roteiro. Em seu discurso, Franco revelou que o filme nasceu em Cannes, depois que seu filme Depois de Lúcia venceu o prêmio Un Certain Regard em 2012, concedido pelo então presidente Tim Roth. A conversa fluiu e se tornou um projeto.

O cineasta mexicano Michel Franco recebe o prêmio de roteiro por Chronic das mãos do ator Tim Roth (photo by cinema.uol.com.br)

O cineasta mexicano Michel Franco recebe o prêmio de roteiro por Chronic das mãos do ator Tim Roth (photo by cinema.uol.com.br)

Já os grandes perdedores do festival foram os italianos Paolo Sorrentino, Nanni Moretti e Matteo Garrone. Youth, My Mother e Tale of Tales, respectivamente, não levaram nenhum dos prêmios principais. Havia uma expectativa de que Michael Caine pudesse levar o prêmio de interpretação masculina por Youth, o que acabou não acontecendo, mas com tantas críticas positivas sobre sua performance, por que não pensar no Oscar 2016? A última indicação de Caine foi em 2003 por O Americano Tranquilo. Faz tempo…

VENCEDORES DE CANNES 2015:

COMPETIÇÃO

PALMA DE OURO: Dheepan, de Jacques Audiard

Grande Prêmio do Júri: Son of Saul, de Laszlo Nemes

Diretor: Hou Hsiao-hsien (The Assassin)

Ator: Vincent Lindon (The Measure of a Man)

Atriz (EMPATE): Emmanuelle Bercot (Mon roi), e Rooney Mara (Carol)

Prêmio do Júri: The Lobster, de Yorgos Lanthimos

Roteiro: Chronic, de Michel Franco

OUTROS PRÊMIOS

Palma Honorária: Agnes Varda

Camera d’Or: Land and Shade, de Cesar Augusto Acevedo

Palma de Ouro de Curta-Metragem: Waves ’98, de Ely Dagher

Ecumenical Jury Prize: My Mother, de Nanni Moretti

UN CERTAIN REGARD

Un Certain Regard: Rams, de Grimur Hakonarson

Jury prize: The High Sun, de Dalibor Matanic

Diretor: Kiyoshi Kurosawa (Journey to the Shore)

Un Certain Talent Prize: Corneliu Porumboiu (The Treasure)

Special Prize para Talentos Promissores (empate): Nahid, de Ida Panahandeh E Masaan, de Neeraj Ghaywan

DIRECTORS’ FORTNIGHT

Art Cinema Award: The Embrace of the Serpent, de Ciro Guerra

Society of Dramatic Authors and Composers Prize: My Golden Days, de Arnaud Desplechin

Europa Cinemas Label: Mustang, de Deniz Gamze Erguven

CRITICS’ WEEK

Grand Prize: Paulina, de Santiago Mitre

Visionary Prize: Land and Shade

Society of Dramatic Authors and Composers Prize: Land and Shade

FIPRESCI

Competition: Son of Saul, de László Nemes

Un Certain Regard: Masaan

Critics’ Week: Paulina

Indicados à Palma de Ouro de Cannes 2015

Pôster oficial do 68º Festival de Cannes, estrelado por Ingrid Bergman

Pôster oficial do 68º Festival de Cannes, estrelado por Ingrid Bergman

COM IRMÃOS COEN PRESIDENTES DO JÚRI, CANNES APRESENTA NOMES CONSAGRADOS COM POUCAS APOSTAS

Na última quinta-feira, dia 16, o diretor Thierry Frémaux anunciou a seleção oficial de filmes, dando início ao 68º Festival de Cannes, que tem início no dia 13 de maio e vai até o dia 24. Como tem sido tradição nos últimos anos, o pôster do evento foi preenchido por uma estrela de cinema internacional, e este ano, devido ao seu centenário, a escolhida foi a bela e talentosa Ingrid Bergman. Como sua filha Isabella Rossellini (que será presidente da seleção Un Certain Regard) destacou, ela atuou em produções européias modestas como Stromboli (1950) até produções oscarizadas de estúdios hollywoodianos como Casablanca (1943) e Anastácia, a Princesa Esquecida (1956), pelo qual ganhou seu segundo Oscar de Melhor Atriz.

Com esse start clássico, o festival se mostra promissor também pela escolha de seu presidente do júri, ou melhor, dos presidentes: Joel Coen e Ethan Coen. Os irmãos já levaram a Palma de Ouro em 1991 com Barton Fink – Delírios de Hollywood, mais três prêmios de Direção pelo mesmo Barton FinkFargo (1996) e O Homem que Não Estava Lá (2001), além do Grande Prêmio do Júri conquistado ano passado com Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum. Vale lembrar que os irmãos também já levaram o Oscar de Roteiro Original por Fargo, e a trinca de Oscars (Filme, Direção e Roteiro Adaptado) por Onde os Fracos Não Têm Vez em 2008, sendo responsáveis pelos Oscars de atuação de Frances McDormand e Javier Bardem.

Joel Coen e Ethan Coen formam a primeira dupla de presidentes da História de Cannes (photo by Alison Cohen Rosa/ Universal Pictures)

Joel Coen e Ethan Coen formam a primeira dupla de presidentes da História de Cannes (photo by Alison Cohen Rosa/ Universal Pictures)

AUTORES EM ALTA PREENCHEM AS VAGAS, MAS NÃO HÁ LATINO-AMERICANOS

A dupla americana terá prato cheio este ano para eleger os melhores. Dentre os selecionados renomados estão Gus Van Sant (vencedor da Palma de Ouro com Elefante em 2003), o canadense Denis Villeneuve (Os Suspeitos), Todd Haynes (indicado à Palma com Velvet Goldmine em 1998), o italiano Nanni Moretti (vencedor da Palma de Ouro com O Quarto do Filho em 2001), Paolo Sorrentino (vencedor do Oscar de Filme em Língua Estrangeira por A Grande Beleza, esta é sua sexta indicação sem vitória) e o também italiano Matteo Garrone, que já levou o Grande Prêmio do Júri em duas oportunidades com Gomorra (2008) e Reality – A Grande Ilusão (2012).

Matthew McConaughey e Ken Watanabe formam uma dupla nessa história de suicídio em The Sea of Trees, de Gus Van Sant (photo by filmserver.cz)

Matthew McConaughey e Ken Watanabe formam uma dupla nessa história de suicídio em The Sea of Trees, de Gus Van Sant (photo by filmserver.cz)

Neste mundo globalizado, vale destacar também a estréia de dois diretores em produções de língua inglesa. O grego Yorgos Lanthimos, que ficou conhecido pelo estranho Dente Canino (que chegou a concorrer ao Oscar de Filme em Língua Estrangeira em 2010), conta uma história futurista em que todos os solteiros são obrigados a encontrar um par em 45 dias, caso contrário, serão soltos nas florestas como animais. Para ajudar a contar essa ficção científica, The Lobster, ele terá a colaboração de um elenco hollywoodiano formado por Colin Farrell, Rachel Weisz, John C. Reilly, Ben Wishaw e Léa Seydoux. Em termos de elenco, o norueguês Joachim Trier não fica muito atrás. No drama Louder than Bombs, ele contará com Isabelle Huppert, Gabriel Byrne, David Strathairn, Amy Ryan e Jesse Eisenberg.

Da esquerda para a direita: John C. Reilly, Ben Wishaw e Colin Farrell em The Lobster (photo by indiewire.com)

Da esquerda para a direita: John C. Reilly, Ben Wishaw e Colin Farrell em The Lobster (photo by indiewire.com)

Os asiáticos também estão bem representados com o chinês Jia Zhangke, que levou o prêmio de roteiro por Um Toque de Pecado em 2013; o japonês Hirokazu Koreeda retorna com o prêmio do Júri por Pais e Filhos (2013) no currículo; e indicado seis vezes à Palma de Ouro, o taiwanês Hou Hsiao-Hsien, que conquistou o prêmio do Júri em 1993 por Mestre das Marionetes, volta depois de um hiato de 8 anos para tentar sua primeira grande vitória.

Infelizmente, não há representantes latino-americanos na seleção. Normalmente, existe uma produção argentina ou chilena concorrendo, mas essa ausência total acende um alerta para a produção cinematográfica latina e a fragilidade dos incentivos culturais de seus governos, porque alguém aí está devendo. A própria produção brasileira está sumida de Cannes, pois as últimas participações brasileiras foram com o diretor Walter Salles e seu Na Estrada, uma co-produção com a França, em 2012; e com Fernando Meirelles e seu Ensaio Sobre a Cegueira, uma co-produção com Canadá e Japão, em 2008. O último filme brasileiro de fato indicado à Palma de Ouro foi Linha de Passe (2008), de Walter Salles, que levou o prêmio de interpretação feminina para Sandra Corveloni. Se o Cinema brasileiro não estivesse tão “padrão Globo” com comédias bobas que nada têm a dizer, poderia haver mais projeção internacional.

ATORES CANDIDATOS AOS PRÊMIOS DE INTERPRETAÇÃO

Se entre os diretores, a competição já está acirrada, o mesmo pode se dizer dos atores que estão concorrendo aos prêmios de interpretação. Uma das atrizes mais prolixas da atualidade que nunca venceu em Cannes é a australiana Cate Blanchett. Ela larga na frente por sua performance no drama Carol, um romance lésbico ao lado da atriz Rooney Mara que se passa na década de 50 em Nova York. Dependendo do júri, se for do seu agrado, o prêmio pode ser dividido entre as duas, já que não existem regras rígidas como no Oscar.

Cate Blanchett em Carol, de Todd Haynes. (photo by Weinstein Co. through variety.com)

Cate Blanchett em Carol, de Todd Haynes. (photo by Weinstein Co. through variety.com)

Pela adaptação de Shakespeare, Macbeth, pode vir outra forte candidata feminina: a francesa Marion Cotillard. Ela já havia batido na trave duas vezes com Ferrugem e Osso em 2012, e com Dois Dias, Uma Noite em 2014, mas nunca levou o prêmio também. Pelo mesmo MacBeth, o alemão Michael Fassbender deve figurar entre os favoritos entre as performances masculinas, assim como a dupla Matthew McConaughey e Ken Watanabe por The Sea of Trees, de Gus Van Sant. Por Youth, de Paolo Sorrentino,  nomes de peso também chamam atenção: Michael Caine, Harvey Keitel e Jane Fonda. Já pelo filme de Garrone, The Tale of Tales, Salma Hayek e Vincent Cassel são as grandes estrelas. Enfim, será um prato cheio também para os papparazzis do tapete vermelho da Croisette.

Marion Cottilard e Michael Fassbender formam o casal MacBeth no filme homônimo. (photo by vaiety.com)

Marion Cotillard e Michael Fassbender formam o casal Macbeth no filme homônimo. (photo by vaiety.com)

VITRINE FORA DA COMPETIÇÃO

Houve o tempo em que os filmes que não concorriam à Palma de Ouro eram considerados fracos. Hoje, além da forte criatividade da seleção Un Certain Regard (Um Certo Olhar), que visa justamente trazer novo fôlego à linguagem do cinema, existem produções que simplesmente reforçam a importância do Festival de Cannes só por sua participação.

Assim, o novo filme de Woody Allen, a “dramédia” romântica Irrational Man, estrelado por Joaquin Phoenix e Emma Stone, está programado para ser exibido fora da competição. Como Cannes é também uma excelente vitrine de vendas, estão previstas as estréias da refilmagem de George Miller, Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road), estrelado por Tom Hardy e Charlize Theron; a mais nova animação da Pixar, Divertida Mente (Inside Out), com as vozes de Diane Lane, Amy Poehler e Bill Hader; e a mais nova adaptação do clássico infantil de Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe, uma animação que conta com as vozes de Rachel McAdams, Jeff Bridges, Benicio Del Toro, James Franco e Marion Cotillard.

Tom Hardy, no papel que revelou Mel Gibson, em Mad Max: Estrada da Fúria (photo by outnow.ch)

Tom Hardy, no papel que revelou Mel Gibson, em Mad Max: Estrada da Fúria (photo by outnow.ch)

Tem se tornado tradição também Cannes abrir espaço para filmes de estréia de atores conhecidos. Ano passado, Ryan Gosling teve seu filme como diretor-estreante, Rio Perdido, exibido na Mostra Camera D’Or. Este ano, a estrela da vez é a israelense Natalie Portman, vencedora do Oscar por Cisne Negro. Ela dirigiu A Tale of Love and Darkness, adaptação de um livro autobiográfico de seu conterrâneo Amos Oz. sobre as décadas de 40 e 50 que ele viveu em Jerusalém. A atriz interpreta a mãe do protagonista.

Natalie Portman em seu primeiro filme como diretora em A Tale of Love and Darkness (photo by celebmafia.com)

Natalie Portman em seu primeiro filme como diretora em A Tale of Love and Darkness (photo by celebmafia.com)

INDICADOS À PALMA DE OURO 2015:

• Standing Tall – FILME DE ABERTURA
Dir: Emmanuelle Bercot

Palma de Ouro

Palma de Ouro

• The Assassin (Nie yin niang)
Dir: Hou Hsiao-Hsien

• Carol (Carol)
Dir: Todd Haynes

• Erran (Deephan)
Dir: Jacques Audiard

• The Lobster
Dir: Yorgos Lanthimos

• Louder Than Bombs
Dir: Joachim Trier

• Macbeth
Dir: Justin Kurzel

• Marguerite and Julien (Marguerite et Julien)
Dir: Valérie Donzelli

• Mon roi
Dir: Maïwenn

• Mountains May Depart (Shan He Gu Ren)
Dir: Jia Zhangke

• My Mother (Mia Madre)
Dir: Nanni Moretti

• Our Little Sister (Umimachi Diary)
Dir: Hirokazu Koreeda

• The Sea of Trees
Dir: Gus Van Sant

• Sicario
Dir: Denis Villeneuve

• A Simple Man (La loi du marché)
Dir: Stéphane Brizé

• Son of Saul (Saul Fia)
Dir: Laszlo Nemes

• The Tale of Tales (Il racconto dei racconti)
Dir: Matteo Garrone

• Youth (La Giovinezza)
Dir: Paolo Sorrentino

Cena de The Assassin, de Hsiao-Hsien Hou (photo by cine.gr)

Cena de The Assassin, de Hou Hsiao-Hsien (photo by cine.gr)

SELEÇÃO UN CERTAIN REGARD 2015:

Seleção Un Certain Regard

Seleção Un Certain Regard

♦ The Chosen Ones
Dir: David Pablos

♦ Fly Away Solo
Dir: Neeraj Ghaywan

♦ The Fourth Direction
Dir: Gurvinder Singh

♦ The High Sun
Dir: Dalibor Matanic

♦ I Am a Soldier
Dir: Laurent Lariviere

♦ Journey to the Shore (Kishibe no Tabi)
Dir: Kiyoshi Kurosawa

♦ Madonna
Dir: Shin Su-won

♦ Maryland
Dir: Alice Winocour

♦ Nahid
Dir: Ida Panahandeh

♦ One Floor Below
Dir: Radu Muntean

♦ The Other Side
Dir: Roberto Minervini

♦ Rams
Dir: Grimur Hakonarson

♦ The Shameless
Dir: Oh Seung-euk

♦ The Treasure
Dir: Corneliu Porumboiu

Cena de Journey to the Shore, de Kyoshi Kurosawa (phot by cine.gr)

Cena de Journey to the Shore, de Kyoshi Kurosawa (phot by cine.gr)

MIDNIGHT SCREENINGS

♠ Amy
Dir: Asif Kapadia

♠ Office
Dir: Hong Won-chan

Cena do documentário sobre a cantora Amy Winehouse, morta em 2011. (photo by cine.gr)

Cena do documentário sobre a cantora Amy Winehouse, morta em 2011. (photo by cine.gr)

SPECIAL SCREENINGS

♣ Amnesia
Dir: Barbet Schroeder

♣ Asphalte
Dir: Samuel Benchetrit

♣ Hayored lema’ala
Dir: Elad Keidan

♣ Oka
Dir: Souleymane Cisse

♣ Panama
Dir: Pavle Vuckovic

♣ A Tale of Love and Darkness
Dir: Natalie Portman

FORA DE COMPETIÇÃO

– Irrational Man
Dir: Woody Allen

– O Pequeno Príncipe (The Little Prince)
Dir: Mark Osborne

– Divertida Mente (Inside Out)
Dir: Pete Docter

– Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road)
Dir: George Miller

Cena da nova animação da Pixar, Divertida Mente, de Pete Docter (photo by cine.gr)

Cena da nova animação da Pixar, Divertida Mente, de Pete Docter (photo by cine.gr)

Filme de cineasta turco Nuri Bilge Ceylan, ‘Winter Sleep’, ganha a Palma de Ouro 2014

O diretor Nuri Bilge Ceylan posa com sua Palma de Ouro (photo by www.thewire.com)

O diretor Nuri Bilge Ceylan posa com sua Palma de Ouro (photo by http://www.thewire.com)

SEM GRANDES FAVORITOS, WINTER SLEEP ACABA FATURANDO A PALMA DE OURO

A 67ª edição do Festival de Cannes apresentou uma seleção de cineastas de renome como Jean-Luc Godard, Mike Leigh, os irmãos Dardenne e David Cronenberg, mas ao longo do evento, a crítica internacional foi ficando cada vez mais desapontada no final das sessões, gerando uma certa impaciência pela busca por candidatos com chances reais de ganhar a Palma de Ouro.

Havia também uma certa expectativa da presidente do júri, Jane Campion, premiar uma mulher com a Palma de Ouro (fato que só aconteceu uma vez na história do festival), o que aumentou o foco nas únicas duas representantes do sexo feminino: a japonesa Naomi Kawase e a italiana Alice Rohrwacher. Mas a competição tomou rumos inesperados na reta final, quando nenhum trabalho realmente conquistou a crítica especializada.

Ao que parece ser uma espécie de culminação de prêmios, o diretor turco Nuri Bilge Ceylan levou a Palma depois de bater na trave duas vezes ao vencer o Grande Prêmio do Júri por Distante em 2002 e Era uma vez na Anatolia em 2011, além de ter faturado o prêmio de direção em 2008 por 3 Macacos. Sua filmografia é marcada por um clima pesado e de humor negro e de relacionamentos, que também está presente neste novo trabalho vencedor, Winter Sleep, no qual os personagens interagem dentro de um hotel durante frio congelante. Vale lembrar que a duração do filme ultrapassa as 3 horas: 196 minutos.

Cena de Winter Sleep (photo by outnow.ch)

Cena de Winter Sleep (photo by outnow.ch)

“Foi uma grande surpresa pra mim”, disse Ceylan no palco da premiação, que lembrou do aniversário de 100 anos do Cinema Turco e dedicou a honraria aos 11 jovens mortos turcos durante protestos em 2013. Embora não tenha sido logo tachado de favorito no 3º dia de exibição, Winter Sleep conquistou parte da audiência, enquanto a outra parte ficou na expectativa sobre os demais indicados. Esta é apenas a segunda vitória de um filme turco na história de Cannes: a primeira ocorreu em 1982 com o filme O Caminho, de Serif Gören e Yilmaz Güney.

Quanto à expectativa de vitória feminina, podemos dizer que foi consolidada com o Grande Prêmio do Júri para The Wonders, segundo trabalho da jovem diretora italiana Alice Rohrwacher. Enquanto a presidente Jane Campion se defendeu ao afirmar “O gênero dos cineastas nunca entrou em nossas discussões. Apenas sentimos e respondemos aos filmes”, o diretor canadense Nicolas Winding Refn, membro do júri, justificou em detalhes a escolha: “Todos nós sentimos que era um incrível filme espiritual com ótimas performances dos atores. Chorei no fim. Fui levado a um outro mundo”.

Alice Rohrwacher recebe o Grande Prêmio do Júri das mãos da atriz Sophia Loren (photo by www.kpmrtv.com)

Alice Rohrwacher recebe o Grande Prêmio do Júri das mãos da atriz Sophia Loren (photo by http://www.kpmrtv.com)

Embora os principais vencedores não falem o inglês, dois vencedores de Cannes podem ter suas chances no Oscar 2015 impulsionadas: o diretor Bennett Miller e a atriz Julianne Moore. Enquanto o primeiro já foi indicado ao Oscar por Capote, a segunda já foi indicada quatro vezes: Boogie Nights: Prazer Sem Limites (atriz coadjuvante em 1998), Fim de Caso (atriz em 2000), As Horas (coadjuvante) e Longe do Paraíso (atriz, ambos em 2003).

O último trabalho de Bennett Miller, Foxcatcher, já vinha sendo cogitado ao Oscar desde o segundo semestre de 2013, mas o estúdio decidiu adiá-lo para 2014, provavelmente alegando uma competição bastante acirrada. O filme acompanha a tragédia real do assassinato de um atleta olímpico, interpretada por um elenco inspirado: Channing Tatum, Mark Ruffalo e Steve Carrell, sendo os dois últimos muito bem cotados para a categoria de coadjuvante para o ano que vem. Com a produtora Megan Ellison em alta com a Academia (recebeu duas indicações este ano por Trapaça e Ela), Foxcatcher já se elege como forte candidato para o Oscar 2015.

Melhor Diretor: Bennett Miller (Foxcatcher). Photo by www.straitstimes.com)

Melhor Diretor: Bennett Miller (Foxcatcher). Photo by http://www.straitstimes.com)

Já a vitória de Julianne Moore foi considerada uma surpresa, pois a disputa estava entre a canadense Anne Dorval por Mommy e a francesa Marion Cotillard por Two Days, One Night, dos irmãos Dardenne. Aliás, os Dardenne saíram de mãos vazias do festival. Sob a direção de David Cronenberg, Julianne Moore atua como atriz neurótica tentando sobreviver em Hollywood em Maps to the Stars. Esse reconhecimento pode colocar Moore de volta ao caminho das premiações americanas após vários papéis menos inspirados.

Na categoria de Melhor Ator, a vitória do britânico Timothy Spall por Mr. Turner confirma a maestria na direção de atores de Mike Leigh, cujos atores Brenda Blethyn (Segredos e Mentiras) e David Thewlis (Nu) já ganharam previamente a honraria. Em seu discurso, o ator cometeu a gafe de ter deixado o aparelho celular ligado e teve que contornar a situação: “Ops, mensagem de voz. Estou tentando desligar em meio às lágrimas”.

Curiosamente, no empate do Prêmio do Júri, os vencedores foram justamente o mais velho e o mais novo diretor concorrentes: Xavier Dolan com seus 25 anos, e Godard com 83. Enquanto o último estava ausente, o novato deu um belo discurso: “Para minha geração que acha que tem gosto diferente e sofre com isso: acredite e nunca abandone suas idéias”.

VENCEDORES DE CANNES 2014:

PALMA DE OURO: Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan

DIRETOR: Bennet Miller (Foxcatcher)

GRANDE PRÊMIO DO JÚRI: The Wonders, de Alice Rohrwacher

PREMIO DO JÚRI: Mommy, de Xavier Dolan E Goodbye To Language, de Jean-Luc Godard

ATOR: Timothy Spall (Mr. Turner)

ATRIZ: Julianne Moore (Maps to the Stars)

ROTEIRO: Andrey Zvyagintsev e Oleg Negin (Leviathan)

CAMERA D’OR: Party Girl, de Marie Amachoukeli, Claire Burger e Samuel Theis

Melhor Ator: Timothy Spall (Mr. Turner). Photo by www.dailymail.co.uk)

Melhor Ator: Timothy Spall (Mr. Turner) recebe o prêmio da musa Monica Belucci. Photo by http://www.dailymail.co.uk)

Indicados à Palma de Ouro de Cannes 2014

Marcello Mastroianni em pôster oficial do Festival de Cannes (photo by http://www.filmindustrynetwork.biz/cannes-film-festival-gives-homage-italian-actor/23599)

Marcello Mastroianni em pôster oficial do Festival de Cannes (photo by http://www.filmindustrynetwork.biz/cannes-film-festival-gives-homage-italian-actor/23599)

FESTIVAL CONSEGUE BOM EQUILÍBRIO ENTRE LENDAS COMO JEAN-LUC GODARD E JOVENS CINEASTAS COMO ALICE ROHRWACHER

Com o anúncio dos filmes indicados à Palma de Ouro, o 67º Festival de Cannes oficialmente começa sua corrida. Como feito no ano passado, quando os atores Paul Newman e Joanne Woodward estamparam o pôster do evento, este ano outra lenda do cinema empresta sua imagem: o ator italiano Marcello Mastroianni. Vencedor do prêmio de interpretação masculina duas vezes por Ciúme à Italiana (1970) e Olhos Negros (1987), ele ficou mundialmente conhecido por sua parceria com o diretor Federico Fellini em produções como A Doce Vida e 8½.

Jane Campion (photo by festival-cannes.fr)

Jane Campion (photo by festival-cannes.fr)

Para presidir o júri, os organizadores do festival chamaram a cineasta neozelandesa Jane Campion, a única mulher a conquistar a Palma de Ouro com O Piano em 1993. Ela também conseguiu a proeza de ganhar a Palma de Ouro de Melhor Curta com An Exercise in Discipline – Peel em 1986. Entre outros filmes, Campion dirigiu Retratos de uma Mulher (1996), Fogo Sagrado! (1999), O Brilho de uma Paixão (2009) e recentemente dirigiu episódios da minissérie Top of the Lake.

Quanto à seleção oficial, o destaque fica para a presença da trinca de cinestas canadenses: David Cronenberg, Atom Egoyan e Xavier Dolan. Nenhum deles ganhou o prêmio máximo de Cannes, então esta pode ser uma oportunidade única. Mais conhecido por suas bizarrices dos anos 80 e 90 como A Mosca, ExistenZ e Crash – Estranhos Prazeres, Cronenberg vem buscando um amadurecimento de seu trabalho desde Marcas da Violência (2005), quando ele passou a priorizar uma economia de linguagem ou o famoso “menos é mais”. Particularmente, considero seus filmes indispensáveis, seja das décadas anteriores como os mais recentes, porque ele está sempre em busca de algo inovador, independente do resultado final. Espero que seu novo trabalho, Maps to the Stars, seja bem recebido em Cannes e que ele consiga um lugar na premiação.

À direita, David Cronenberg dirige Olivia Williams no set de Map to the Stars. Ao lado dele, o ator John Cusack. (photo by outnow.ch)

À direita, David Cronenberg dirige Olivia Williams no set de Maps to the Stars. Ao lado dele, o ator John Cusack. (photo by outnow.ch)

Seu conterrâneo, Atom Egoyan, já bateu na trave quando seu O Doce Amanhã faturou o Grande Prêmio do Júri em 1997. Ele já concorreu vezes à Palma, e esta é sua sexta chance com The Captive, um drama sobre seqüestro estrelado por Ryan Reynolds, Rosario Dawson e Bruce Greenwood. Curiosamente, Egoyan vai na cola de outro diretor canadense Denis Villeneuve, que dirigiu uma história de seqüestro em Os Suspeitos. E, aos 25 anos de idade, Xavier Dolan volta à Cannes pela quarta vez, mas a primeira em que concorre à Palma com seu drama de relacionamento Mommy.

Em se tratando de Cannes, obviamente os cineastas consagrados têm as melhores chances. Este ano, temos a ilustre presença de um dos maiores diretores de todos os tempos: Jean-Luc Godard. Ao contrário da onda comercial, Godard explora a linguagem do 3D em seu novo Goodbye to Language. Acredito que o diretor francês deverá ir além da profundidade de campo do uso tridimensional como fez alguns diretores renomados como Martin Scorsese. Aos 83 anos, Godard ainda atua como um incansável experimentalista. Seu filme anterior, Filme Socialismo, combina inúmeras idiomas em inúmeras conversações, usando várias linguagens em vários locais de filmagem. Ele foi indicado seis vezes, mas nunca ganhou em Cannes.

Já os laureados previamente Ken Loach, Mike Leigh e os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne voltam a concorrer. Loach, vencedor por Ventos da Liberdade em 2006, traz uma espécie de biografia do líder comunista irlandês James Gralton em Jimmy’s Hall, enquanto Mike Leigh, vencedor por Segredos e Mentiras (1996), trata da vida do pintor J.M.W. Turner do século XIX. Ele retoma sua parceria com os atores Timothy Spall e Lesley Manville.Considerados sempre favoritos, os irmãos belgas Dardenne exploram temática trabalhista no drama Two Days, One Night, com uma ótima candidata a Melhor Atriz, Marion Cotillard. Os diretores já venceram a Palma de Ouro duas vezes: em 1999 com Rosetta, e em 2005 por A Criança.

CELEBRIDADES NA CROISETTE

Elogiado por seu equilíbrio entre cinema de autor e comercial pela presidente do júri, Jane Campion, o Festival de Cannes não poderia dispensar a presença de algumas celebridades no glamoroso tapete vermelho da Croisette. Pelo novo filme dirigido pelo ator Tommy Lee Jones, a atriz vencedora de dois Oscars, Hilary Swank, deve marcar presença por The Homesman, um western sobre a escota de três criminosas. Além dela, outros atores que participaram do filme podem visitar o festival como Meryl Streep, James Spader, John Lithgow e Miranda Otto.

Tommy Lee Jones e Hilary Swank em cena de The Homesman (photo by cine.gr)

Tommy Lee Jones e Hilary Swank em cena de The Homesman (photo by cine.gr)

Foxcatcher, novo filme de Bennett Miller, diretor de Capote e O Homem que Mudou o Jogo, também pode chamar seus atores para o tapete vermelho. Além do jovem promissor Channing Tatum, os atores Steve Carell e Mark Ruffalo devem comparecer para prestigiar o trabalho. Curiosamente, o filme estava previsto para estrear no final de 2013 a fim de concorrer às indicações ao Oscar, mas o estúdio responsável preferiu adiar o lançamento, pois considerava a competição acirrada demais. Antes dessa mudança, Ruffallo e Carell estavam bem cotados para indicações de coadjuvante no prêmio da Academia. Foxcatcher reconstrói o período em que ocorreu o assassinato do campeão olímpico Dave Schultz.

Channing Tatum e Mark Ruffallo trabalham no novo filme de Bennett Miller (photo by outnow.ch)

Channing Tatum e Mark Ruffallo trabalham no novo filme de Bennett Miller (photo by outnow.ch)

Embora não se trate de uma produção hollywoodiana, Clouds of Sils Maria, do diretor Olivier Assayas, também trará artistas famosos: vencedora do Oscar por O Paciente Inglês, a francesa Juliette Binoche, sempre figura como favorita nas premiações, e a jovem Chloë Grace Moretz, que recentemente estrelou a refilmagem de Carrie, a Estranha. Vale ressaltar que Kristen Stewart, da cinessérie Saga Crepúsculo, poderá comparecer e acabar cruzando com seu ex, o ator Robert Pattison, que está no filme de David Cronenberg.

Da esquerda pra direita: Brady Corbet, Chloe Grace Moretz e Juliette Binoche em cena de Clouds of Sil Maria (photo by cine.gr)

Da esquerda pra direita: Brady Corbet, Chloë Grace Moretz e Juliette Binoche em cena de Clouds of Sils Maria (photo by cine.gr)

Vencedor do Oscar pelo adorado O Artista, o diretor francês Michel Hazanavicius volta a dirigir e decidiu optar por uma refilmagem de Perdidos na Tormenta (The Search), de Fred Zinnemann. A trama envolve a curiosa relação entre uma trabalhadora de uma ONG e um menino de uma devastada pela guerra Chechênia. Além de sua esposa, a atriz Bérénice Bejo, o filme também traz a indicada ao Oscar 4 vezes, Annette Bening.

Ainda sobre celebridades, o filme de abertura também trará uma: Nicole Kidman, no papel da atriz e princesa Grace Kelly, em Grace: A Princesa de Mônaco, do diretor Olivier Dahan, conhecido por Piaf – Um Hino ao Amor. Assim como Foxcatcher, esta produção estava prevista para estréia em 2013, mas acabou sendo adiada. Talvez o convite de abertura do festival de Cannes tenha pesado no planejamento… Mesmo assumindo a tarefa ingrata de personificar a beleza de Grace Kelly, Kidman vinha sendo bem cotada para Melhor Atriz no Oscar. Se o filme for bem recebido, sua indicação já estaria bem encaminhada para 2015.

Nicole Kidman como Grace Kelly em Grace of Monaco (photo by elfilm.com)

Nicole Kidman como Grace Kelly em Grace: A Princesa de Mônaco (photo by elfilm.com)

AUSÊNCIAS CRITICADAS

Assim como no Oscar, é muito difícil de agradar gregos e troianos. Se incluem os Dardenne, Godard, Loach, Mike Leigh e Cronenberg, muitos cinéfilos e críticos reclamam que os organizadores tomaram uma decisão segura e deixaram de apostar em nomes mais contemporâneos. O crítico Justin Chang da Variety citou alguns trabalhos que não foram lembrados por Cannes:

Inherent Vice, de Paul Thomas Anderson; Knight of Cups, de Terrence Malick; Big Eyes, de Tim Burton; The Assassin, de Hou Hsiao Hsien; Jersey Boys, de Clint Eastwood; Magic in the Moonlight, de Woody Allen; Edge of Tomorrow, de Doug Liman; Far from the Madding Crowd, de Thomas Vinterberg; Birdman, de Alejandro González Iñárritu; e a biografia sem título sobre Lance Armstrong, de Stephen Frears.

Sem querer defender nenhum lado, acredito que se esses nomes acima estivessem competindo, os que foram indicados de fato teriam suas ausências igualmente questionadas. Teríamos que ter uma seleção oficial de uns 50 nomes para tentar atender a todos os pedidos, mas certamente haveria filmes de qualidade duvidosa. É preciso dar crédito aos profissionais que fazem a seleção dos filmes, uma vez que o Festival de Cannes tem como marca registrada a busca por um cinema de autor contemporâneo.

O único argumento que concordei com Justin Chang foi em relação à baixa presença de autoras femininas entre os indicados. Como lembrado anteriormente, Jane Campion foi a única mulher que venceu a Palma de Ouro. Talvez sua escolha como presidente do júri deste ano seja uma tentativa de amenizar essa estatística. Contudo, espero que não resolvam premiar um filme simplesmente por haver uma mulher atrás da câmera (duas diretoras competem: Naomi Kawase e Alice Rohrwacher), pois seria uma idéia estúpida, mas sim, por sua qualidade cinematográfica.

INDICADOS A PALMA DE OURO 2014:

– The Captive
Dir: Atom Egoyan

Palma de Ouro

Palma de Ouro

– Clouds of Sils Maria
Dir: Olivier Assayas

– Foxcatcher
Dir: Bennett Miller

– Goodbye to Language (Adieu au Langage)
Dir: Jean-Luc Godard

– The Homesman
Dir: Tommy Lee Jones

– Jimmy’s Hall
Dir: Ken Loach

– Leviathan
Dir: Andrei Zvyagintsev

– Le Meraviglie
Dir: Alice Rohrwacher

– Maps to the Stars
Dir: David Cronenberg

– Mommy
Dir: Xavier Dolan

– Saint Laurent
Dir: Bertrand Bonello

– The Search
Dir: Michel Hazanavicius

– Still the Water
Dir: Naomi Kawase

– Mr. Turner
Dir: Mike Leigh

– Timbuktu
Dir: Abderrahmane Sissako

– Two Days, One Night
Dir: Jean-Pierre e Luc Dardenne

– Wild Tales
Dir: Damian Szifron

– Winter Sleep
Dir: Nuri Bilge Ceylan

Da esquerda para a direita:

Da esquerda para a direita: Juliano Ribeiro Salgado, Sebastião Salgado e Wim Wenders. (photo by Thierry Poufarry in http://www.dw.de)

Ausente da competição à Palma de Ouro, o Brasil está representado pelo documentário The Salt of the Earth, sobre o fotógrafo breasileiro Sebastião Salgado. A direção é assinada pelo alemão Wim Wenders (Buena Vista Social Club) e por Juliano Ribeiro Salgado, filho do fotógrafo. Outros destaques da Un Certain Regard incluem Incompresa, o novo filme de Asia Argento, que foi elogiado pelo diretor do festival Thierry Frémaux como sendo “extremamente pessoal”, e também justificou a escolha de Party Girl como filme de abertura “porque notamos que o novo cinema francês está em estado de fervor e vitalidade, e precisamos encorajar isso”. E Bird People, de Pascale Ferran, foi considerado inovador por sua trama envolvendo elementos sobrenaturais.

Vale ressaltar a estréia na direção do ator Ryan Gosling com Lost River, um drama de fantasia que se passa em Detroit. Ele contou com as atrizes Eva Mendes, Christina Hendricks e Saoirse Ronan.

SELEÇÃO UN CERTAIN REGARD:

– Party Girl
Dir: Marie Amachoukeli, Claire Burger e Samuel Theis

Seleção Un Certain Regard

Seleção Un Certain Regard

– Amour fou
Dir: Jessica Hausner

– Away From His Absence
Dir: Keren Yedaya

– Bird People
Dir: Pascale Ferran

– The Blue Room
Dir: Mathieu Amalric

– Charlie’s Country
Dir: Rolf de Heer

– Eleanor Rigby
Dir: Ned Benson

– Fantasia
Dir: Wang Chao

– Force Majeure
Dir: Ruben Ostlund

– A Girl at My Door
Dir: July Jung

– Hermosa juventud
Dir: Jaime Rosales

– Incompresa
Dir: Asia Argento

– Lost River
Dir: Ryan Gosling

– Run
Dir: Philippe Lacote

– Salt of the Earth
Dir: Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado

– Snow in Paradise
Dir: Andrew Hulme

– Titli
Dir: Kanu Behl

– Untitled
Dir: Lisandro Alonso

– Xenia
Dir: Panos Koutras

SPECIAL SCREENINGS

* Bridges of Sarajevo
Dir: Aida Begic, Isild le Besco, Leonardo di Constanzo, Jean-Luc Godard, Kamen Kalev, Sergei Loznitsa, Vincenzo Marra, Ursula Meier, Vladimir Perisic, Cristi Puiu, Marc Recha, Angela Schanelec, Teresa Villaverde

* Caricaturistes: Fantassins de la democratie
Dir: Stephanie Valloatto

* Maidan
Dir: Sergei Loznitsa

* Red Army
Dir: Gabe Polsky

* Silvered Water
Dir: Mohammed Oussama e Wiam Bedirxan

MIDNIGHT SCREENINGS

* The Rover
Dir: David Michod

* The Salvation
Dir: Kristian Levring

* The Target
Dir: Yoon Hong-seung

CELEBRATION OF THE 70TH ANNIVERSARY OF LE MONDE

* Les Gens du Monde
Dir: Yves Jeuland

A edição do Festival de Cannes acontece entre os dias 14 a 25 de maio de 2014.

Cena de Le Meraviglie, de Alice Rohrwacher, uma das duas mulheres presente na seleção oficial de Cannes (photo by cine.gr)

Cena de Le Meraviglie, de Alice Rohrwacher, uma das duas mulheres presente na seleção oficial de Cannes (photo by cine.gr)

‘La Vie d’Adèle (Blue is the Warmest Color)’ vence a Palma de Ouro de Cannes 2013

Palma de Ouro para La Vie d'Adèle (Blue is the Warmest Color), de Abdellatif Kechiche, que está entre as atrizes Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos

Palma de Ouro para La Vie d’Adèle (Blue is the Warmest Color), de Abdellatif Kechiche, que está entre as atrizes Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos

Contradizendo todos, o presidente do júri, Steven Spielberg, premiou um filme francês com temática lésbica quase explícita de três horas de duração! Talvez eu seja uma das pessoas mais surpresas com essa escolha. Explico. O filme que mais aprecio de Spielberg é Tubarão (1975) por uma série de motivos, mas a coragem e a ousadia do projeto que realmente me impressionaram. Claro que o diretor era muito jovem na época e permitia-se tais loucuras, mas ao longo dos últimos anos, acompanhei algumas mudanças de pensamento que causaram certa desilusão. Além de Steven Spielberg afirmar que mudaria o final de Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), ele fez aquela terrível lambança na nova versão de E.T. – O Extraterrestre (1982) ao apagar digitalmente as armas de fogo dos policiais e trocá-las por walkie talkies por considerar violento demais. Pensei comigo: “Steven está ficando um senhor conservador, mas com espírito gagá de George Lucas!”

Então, eis a grande surpresa em ver o senhor Spielberg premiando um filme ousado e polêmico! Obviamente, não conferi o vencedor da Palma de Ouro, mas fico feliz pela escolha, afinal o filme foi bastante elogiado e o diretor Abdellatif Kechiche é um cineasta em extrema ascensão por seu perfeccionismo e diálogo com seu tempo. Havia um forte rumor de que La Vie d’Adèle (Blue is the Warmest Color) sequer tinha chances de prêmio justamente pelo conhecido conservadorismo de Spielberg. Quem diria que ele surpreenderia todos? Claro que existe um grupo de artistas no júri como Ang Lee, Cristian Mungiu e Christoph Waltz, que certamente tiveram alto poder de decisão, mas por ora, não vamos estragar a coragem do presidente, afinal, ele justificou sua escolha com belas palavras:

“Uma grande história de amor que fez todos nós nos sentirmos privilegiados de ser uma mosca na parede para admirar esta história de amor profundo e desgosto profundo evoluir desde o início. O diretor não colocou quaisquer restrições sobre a narrativa. Ele deixou as cenas tocarem na vida real, e ficamos absolutamente encantados.”

Pôster de Blue is the Warmest Color

Pôster de Blue is the Warmest Color

Baseado numa graphic novel de Julie Maroh, La Vie d’Adèle (Blue is the Warmest Color) acompanha a vida da adolescente de 15 anos Jocelyne, interpretada pela elogiadíssima Adèle Exarchopoulos. Ela se apaixona por uma moça um pouco mais velha do que ela e com cabelos azuis (referência ao título do filme). Além de despertar sexual, o longa de Kechiche procura destrinchar todo esse relacionamento até o coração partido e claro, a auto-descoberta.

Claro que aos olhos de mente livre, trata-se apenas de uma história de amor com todos os prazeres e dissabores. Contudo, em pleno século XXI, o homossexualismo continua causando polêmicas. Na própria França, país-sede do Festival de Cannes e terra da Revolução, houve protestos violentos da extrema direita e de grupos católicos nesse domingo (dia 26) contra a lei de 23 de abril que permite o casamento de pessoas do mesmo sexo no país. Apesar de já aprovada, a lei acabou sendo promulgada até o dia 18 de maio devido às fortes resistências no parlamento e nas ruas.

Manifestante protestam contra casamento gay na França. Repare nas bandeiras com a típica família feliz (foto Revista Exame)

Manifestantes protestam contra casamento gay na França. Repare nas bandeiras com a típica família feliz (foto Revista Exame)

Spielberg desmentiu a possibilidade da política ter influenciado na decisão. “Como vocês sabem, as personagens do filme não se casam. Política nunca esteve na mesma sala que nós do júri”. Questionado sobre a trajetória de La Vie d’Adèle (Blue is the Warmest Color) nos EUA , foi sucinto: “Não tenho certeza se será exibido em todos os estados”.

Aqui no Brasil, o mesmo protesto da França tem cara: para quem acompanha as notícias, o presidente da Comissão dos Direitos Humanos (!), o deputado Marco Feliciano, não precisa nem de apresentações. Desde o dia 14 de maio, os cartórios do Brasil são obrigados a registrar a união legal de casais homossexuais, um direito conquistado graças ao presidente do Supremo Tribunal Federal e autor da lei, Joaquim Barbosa. Mas Feliciano (do Partido Social Cristão – PSC) está tentando entrar com pedido de suspensão do casamento alegando que esta decisão cabe ao Congresso Nacional. Nessas horas as leis valem mais do que o bem-estar da sociedade…

Alguém me explica como um deputado que é homofóbico, racista e religioso se torna presidente da Comissão de Direitos Humanos?

Alguém me explica como um deputado que é homofóbico, racista e religioso se torna presidente da Comissão de Direitos Humanos?

Os demais prêmios do festival foram bastante democráticos, tanto que nenhum filme acumulou mais do que um reconhecimento. O Grande Prêmio do Júri, uma espécie de segundo colocado, acabou nas mãos dos irmãos Joel e Ethan Coen por Inside Llewyn Davis, que tem como cenário a Nova York do ano 1961. Havia uma dúvida se Oscar Isaac ganharia o prêmio de interpretação masculina, mas a larga experiência de Bruce Dern se destacou mais pelo drama Nebraska, de Alexander Payne.

E já que Adèle Exarchopoulos foi compensada pela Palma de Ouro, o prêmio de interpretação feminina foi para a bela francesa Bérénice Bejo pelo drama Le Passé (The Past), de Asghar Farhadi. Apesar de repetir a fórmula de A Separação, o filme foi bem recebido em Cannes, rendendo esse reconhecimento importante. Para quem não se lembra, Bejo foi indicada ao Oscar de Atriz Coadjuvante em 2012 por O Artista. Com a vitória em Cannes, ambos os atores têm suas chances multiplicadas para o Oscar 2014. No caso de Dern em particular, além de estrelar um filme americano com um diretor muito querido pela Academia (Alexander Payne), o ator já tem 76 anos e nunca levou o Oscar. Acredito que sua indicação já é certa. Em caso de vitória, seria a primeira (merecida) da carreira de diretor para Payne.

Bérénice Bejo volta a brilhar em Cannes por Le Passé

Bérénice Bejo volta a brilhar em Cannes por Le Passé

O veterano Bruce Dern ao lado da filha, a também atriz Laura Dern, em sessão de fotos de Cannes pelo filme Nebraska.

O veterano Bruce Dern ao lado da filha, a também atriz Laura Dern, em sessão de fotos de Cannes pelo filme Nebraska.

Talvez a maior surpresa tenha ficado na categoria de direção, na qual o espanhol Amat Escalante foi reconhecido pelo violento Heli, um drama cruel sobre a decadência de uma família por causa de uma gangue de drogas. Causou certo rebuliço devido a cenas fortes como na qual um homem tem suas genitálias queimadas.

Os demais prêmios foram distribuídos de forma muito democrática. Dois dos três filmes asiáticos em competição que foram aplaudidos receberam um prêmio. Enquanto Like Father, Like Son, de Hirokazu Kore-eda levou o Prêmio do Júri por se tratar de um drama delicado de duas famílias que descobrem que seus filhos foram trocados na maternidade, o chinês Jia Zhangke foi contemplado pelo prêmio de roteiro por sua abordagem episódica da violência em seu país em A Touch of Sin.

Like Father, Like Son, de Hirokazu Kore-eda

Like Father, Like Son, de Hirokazu Kore-eda

Até mesmo na competição Un Certain Regard, o drama independente americano Fruitvale Station, que tinha grandes chances, recebeu o Future Prize como incentivo e propulsor para a corrida do Oscar 2014, com a Weinstein Company fazendo lobby.

CONFIRA OS PRINCIPAIS PRÊMIOS DE CANNES 2013:

Palma de Ouro: La Vie d’Adèle (Blue Is the Warmest Color), de Abdellatif Kechiche

Grande Prêmio do Júri: Inside Llewyn Davis, de Joel Coen e Ethan Coen

Direção: Amat Escalante (Heli)

Prêmio do Júri: Like Father, Like Son, de Hirokazu Kore-eda

Interpretação Masculina: Bruce Dern (Nebraska)

Interpretação Feminina: Bérénice Bejo (Le Passé)

Roteiro: A Touch of Sin, de Jia Zhangke

 

UN CERTAIN REGARD JURY PRIZES

Un Certain Regard: The Missing Picture, de Rithy Panh

Prêmio do Júri: Omar, de Hany Abu-Assad

Direção: Alain Guiraudie (Stranger by the Lake)

Future prize: Fruitvale Station, de Ryan Coogler

A Certain Talent prize: O elenco de La jaula de oro

The Missing Picture, de Rithy Panh, que levou o Un Certain Regard

The Missing Picture, de Rithy Panh, que levou o Un Certain Regard

OTHER JURY PRIZES

Camera d’Or: Ilo ilo, de Anthony Chen

Directors’ Fortnight Art Cinema Award: Me Myself and Mum, de Guillaume Gallienne

Directors’ Fortnight Europa Cinemas Label: The Selfish Giant, de Clio Barnard

Directors’ Fortnight SACD Prize: Me Myself and Mum, de Guillaume Gallienne

Critics’ Week Grand Prix: Salvo, de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza

Critics’ Week Visionary Prize: Salvo, de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza

Critics’ Week Special Mention: The Owners, de Agustin Toscano e Ezequiel Radusky

Critics’ Week SACD Prize for Screenplay: Le Demantelement, de Sebastien Pilote

Palma de Ouro de Curta-Metragem: Safe, de Moon Byoung-gon

Ecumenical Jury Prize: Le Passé, de Asghar Farhadi

 

FIPRESCI PRIZES

Competition: La Vie d’Adèle (Blue Is the Warmest Color), de Abdellatif Kechiche

Un Certain Regard: Manuscripts Don’t Burn, de Mohammad Rasoulof

Directors’ Fortnight: Blue Ruin, de Jeremy Saulnier