Com presença de CLOONEY, ARONOFSKY e PAYNE, Festivais de VENEZA e TORONTO se consolidam como REDUTOS PRÉ-OSCAR

Suburbicon

Cena de Suburbicon, novo filme dirigido por George Clooney, com Julianne Moore e Matt Damon (pic by cine.gr)

PRÉ-CANDIDATOS AO OSCAR BUSCAM OS HOLOFOTES INTERNACIONAIS PARA ABRIR A TEMPORADA DE PREMIAÇÕES

Houve um tempo em que os filmes selecionados pelo Festival de Veneza, o mais antigo do mundo, tinham um distância quilométrica do Oscar. Era extremamente raro que um filme presente no evento italiano também estivesse no prêmio da Academia. Claro que todos os grandes festivais hoje tiveram uma aproximação com o Oscar por causa da projeção internacional, mas Veneza se tornou palco do “esquenta”.

Pra isso, Veneza convidou artistas hollywoodianos que certamente atrairão mais olhares para o evento e ao mesmo tempo se beneficiarão com a abertura de temporada de premiações. Assim, teremos os novos trabalhos de George Clooney, Darren Aronofsky, Alexander Payne e Guillermo del Toro. Se vão ganhar prêmios são outros quinhentos, mas somente a presença no festival já os consolida como fortes candidatos ao Oscar. Vale sempre ressaltar que Veneza teve recordistas de indicações ao Oscar nos últimos 4 anos: Gravidade (2013), Birdman (2014) e La La Land (2016).

Particularmente, já dou como certas as indicações para Clooney e Payne, que costumam ter uma forte afinidade com os gostos da Academia. Curiosamente, ambos os filmes foram protagonizados por Matt Damon, que pode ter até dupla indicação na categoria de Ator – Comédia ou Musical no próximo Globo de Ouro.

Já os filmes de Aronofsky e del Toro ainda tenho minhas dúvidas por apresentarem elementos do gênero terror, mas acredito que devem obter sucesso em categorias técnicas. Contudo, ambos podem ter ótimas chances com suas atrizes: Jennifer Lawrence e Sally Hawkins, respectivamente, em Mother! e The Shape of Water.

shape of water

Sally Hawkins interage com um experimento do governo em The Shape of Water, de Guillermo del Toro

Particularmente, tenho boas expectativas em relação a três diretores:

Martin McDonagh
Mais conhecido pelas ótimas comédias Na Mira do Chefe e Sete Psicopatas e um Shih Tzu, o diretor britânico chega com Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. Aqui temos a atriz Frances McDormand como uma mãe que desafia o chefe da polícia da cidade depois que sua filha foi assassinada e não houve nenhum preso. É curiosa a capacidade de McDonagh de conseguir extrair humor de temas bastante pesados, algo que apenas os irmãos Coen conseguiam fazer com maestria até alguns anos atrás. E engana-se quem pensa que se trata de apenas uma comédia. O filme critica a baixa eficiência policial (imagina se a personagem vivesse no Brasil…) e a prisão e tortura de negros, que continua recorrente nos EUA. Veja trailer abaixo:

Andrew Haigh
Admito que a trama de Lean on Pete, adaptação homônima do romance, sobre um jovem que busca sua tia perdida acompanhado por um cavalo de corrida não me animou muito, mas pra quem amou seu filme anterior, 45 Anos, é impossível não criar expectativas. No elenco, o diretor conta com os experientes Steve Buscemi e Chloë Sevigny. É esperar pra ver…

Abdellatif Kechiche
Esse diretor tunisiano conquistou Cannes e o mundo com seu filme anterior: Azul é a Cor Mais Quente, mas pra quem conferiu seus outros trabalhos como O Segredo do Grão e Vênus Negra, sabe que estamos diante de um diretor extremamente cuidadoso esteticamente e que não abre mão de seu olhar minucioso do comportamento humano. Ele traz Mektoub, My Love: Canto Uno que aborda a difícil decisão de um roteirista entre seu amor e sua carreira, curiosamente, um tema bastante parecido com o musical La La Land.

FORA DE COMPETIÇÃO

Embora não estejam competindo pelo Leão de Ouro, algumas produções também podem conseguir seu lugar ao sol na temporada de premiações. O novo filme de Stephen Frears, Victoria and Abdul, sobre a história verídica da amizade entre a rainha Victoria e um serviçal indiano, aparentemente se assemelha ao A Rainha (2006), que rendeu o Oscar para Helen Mirren. Honestamente, com exceção do ótimo Philomena (2014), os últimos trabalhos de Frears me desagradam um pouco por apresentarem formato e linguagem de TV, mas o diretor britânico tem seu talento inquestionável na direção de atores. E curiosamente Judi Dench volta a interpretar a rainha Victoria depois de Sua Majestade Mrs. Brown (1997), filme pelo qual foi indicada ao Oscar e perdeu injustamente para Helen Hunt.

Achei interessante o documentário que William Friedkin trouxe a Veneza: The Devil and Father Amorth (em tradução livre: “O Diabo e o Padre Amorth”), que captura imagens do nono exorcismo praticado pelo padre na Itália. Mesmo após mais de quatro décadas do clássico O Exorcista (1973), o diretor americano continua muito vinculado ao exorcismo, portanto, esse documentário pode de alguma forma “exorcizá-lo” dessa ligação e ao mesmo tempo, alimentar a sede de seus incontáveis fãs de como ele tratará desse tema novamente.

DISPUTA POR NOVOS FILMES

Por se tratar de um festival que acontece em setembro, existem desvantagens também, pois as atenções se dividem com o festival canadense de Toronto. Embora não tenha o mesmo prestígio do italiano, tem servido de vitrine para os filmes americanos, os vencedores do People’s Choice Awards costumam ser indicados a Melhor Filme (vide os recentes O Quarto de Jack, O Jogo da Imitação, 12 Anos de Escravidão e O Lado Bom da Vida), sem contar que o país é vizinho dos EUA e o mesmo idioma.

Em entrevista, o diretor do Festival de Veneza, Alberto Barbera, se disse “97% satisfeito” com sua seleção, já que houve apenas dois ou três filmes que ele queria exibir, mas não pôde porque já estavam comprometidos com outros festivais, provavelmente Toronto.

Contudo, se formos analisar os filmes exibidos em Veneza, temos muitos que também estarão presentes em Toronto. A única diferença é que o festival italiano exibirá alguns dias antes. Entre algumas exclusividades estão o novo filme de Angelina Jolie como diretora, First They Killed My Father, um drama pesado sobre o genocídio no Camboja feito para a Netflix; a nova produção de Joe Wright, Darkest Hour, que promete gerar a segunda indicação ao Oscar para Gary Oldman, interpretando um impecável Winston  Churchill; o drama verídico Film Stars Don’t Die in Liverpool sobre um romance da atriz Gloria Grahame com um jovem traz Annette Bening como a protagonista (será que ela ganha o Oscar desta vez?); e Stronger, um drama que recria o atentado da Maratona de Boston e uma vítima que perdeu as pernas com a explosão da bomba. Jake Gyllenhaal promete arrancar lágrimas do público.

Estou bastante curioso pra conferir o novo filme da dupla Jonathan Dayton e Valerie Faris, que se consagraram com Pequena Miss Sunshine (2006): Battle of the Sexes, que recria uma disputa de tênis bastante curiosa ocorrida em 1973 entre Billie Jean King (Emma Stone) e o ex-campeão Bobby Riggs (Steve Carell). Além de toda a caracterização de época (Emma Stone está quase irreconhecível com aqueles óculos fundo de garrafa), será curioso ver o quanto de atual ainda temos sobre essa discussão de igualdade entre gêneros.

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Emma Stone e Steve Carell fazem dupla de tenistas em 1973 em Battle of the Sexes (pic by moviepilot.de)

E também bastante interessado em assistir ao francês 120 Battements par Minute (BPM (Beats per Minute), de Robin Campillo, que foi bem ovacionado em Cannes. Trata-se da luta de um portador de Aids contra a indiferença no início dos anos 90. Embora os filmes representantes para o Oscar de Filme Estrangeiro ainda não tenham sido definidas, muito provavelmente este será o candidato da França e com fortes chances de ganhar a estatueta, que o país não ganha desde 1993 com Indochina.

toronto-international-film-festival-website

SELEÇÃO DO FESTIVAL INTERNACIONAL DE TORONTO

GALAS
Breathe
The Catcher Was A Spy
Darkest Hour
Film Stars Don’t Die in Liverpool
Kings
Long Time Running
Mary Shelley
The Mountain Between Us
Mudbound
Stronger
The Wife
Woman Walks Ahead

APRESENTAÇÕES ESPECIAIS
Battle of the Sexes
BPM (Beats Per Minute)
The Brawler
The Breadwinner
Call Me By Your Name
Catch the Wind
The Current War

The Children Act
Disobedience
Downsizing
A Fantastic Woman
First They Killed My Father
The Guardians
Hostiles
The Hungry
I, Tonya
mother!
Novitiate
Omerta
Plonger
The Price of Success
Professor Marston & the Wonder Women
The Rider
A Season in France
The Shape of Water
Sheikh Jackson
The Square
Submergence
Suburbicon
Thelma
Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
Untitled Bryan Cranston/Kevin Hart Film

Victoria and Abdul

 

Festival-de-Cinema-de-Veneza-em-2017

INDICADOS AO LEÃO DE OURO 2017

  • Human Flow
    Dir: Ai Weiwei (Alemanha, EUA)
  • Mother!
    Dir: Darren Aronofsky (EUA)
  • Suburbicon
    Dir: George Clooney (EUA)
  • The Shape Of Water
    Dir: Guillermo Del Toro (EUA)
  • L’Insulte
    Dir: Ziad Doueiri (França, Líbano)
  • La Villa
    Dir: Robert Guediguian (França)
  • Lean on Pete
    Dir: Andrew Haigh (Reino Unido)
  • Mektoub, My Love: Canto Uno
    Dir: Abdellatif Kechiche (França)
  • The Third Murder
    Dir: Hirkazu Koreeda (Japão)
  • Jusqu’a La Garde
    Dir: Xavier Legrand (França)
  • Amore e Malavita
    Dir: Manetto Bros. (Itália)
  • Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
    Dir: Martin McDonagh (Reino Unido)
  • Hannah
    Dir: Andrea Pallaoro (Itália, Bélgica, França)
  • Downsizing
    Dir: Alexander Payne (EUA)
  • Angels Wear White
    Dir: Vivian Qu (China, França)
  • Una Famiglia
    Dir: Sebastiano Risio (Itália)
  • First Reformed
    Dir: Paul Schrader (EUA)
  • Sweet Country
    Dir: Warwick Thornton (Austrália)
  • The Leisure Seeker
    Dir: Paolo Virzì (Itália)
  • Ex Libris – The New York Public Library
    Dir: Frederick Wiseman (EUA)

FORA DE COMPETIÇÃO

Eventos Especiais

  • Casa D’Altri
    Dir: Gianni Amelio (Itália)
  • Michael Jackson’s ‘Thriller’ 3D
    Dir: John Landis (EUA)
  • Making of Michael Jackson’s ‘Thriller’
    Dir: Jerry Kramer (EUA)

FICÇÃO

  • Our Souls at Night
    Dir: Ritesh Batra (EUA)
  • Il Signor Rotopeter
    Dir: Antonietta De Lillo (Itália)
  • Victoria and Abdul
    Dir: Stephen Frears (Reino Unido)
  • La Melodie
    Dir: Rachid Hami (França)
  • Outrage Coda
    Dir: Takeshi Kitano (Japão)
  • Loving Pablo
    Dir: Fernando Leon De Aranoa (Espanha)
  • Zama
    Dir: Lucrecia Martel (Argentina, Brasil)
  • Wormwood
    Dir: Errol Morris (EUA)
  • Diva!
    Dir: Francesco Patierno (Itália)
  • La Fidele
    Dir: Michael R. Roskam (Bélgica, França, Holanda)
  • The Private Life of a Modern Woman
    Dir: James Toback (EUA)
  • Brawl in Cell Block 99
    Dir: S. Craig Zahler (EUA)

NÃO-FICÇÃO

  • Cuba and the Cameraman
    Dir: Jon Albert (EUA)
  • My Generation
    Dir: David Batty (Reino Unido)
  • The Devil and Father Amorth
    Dir: William Friedkin (EUA)
  • This Is Congo
    Dir: Daniel McCabe (Congo)
  • Ryuichi Sakamoto: Coda
    Dir: Stephen Nomura Schible (EUA, Japão)
  • Jim & Andy: The Great Beyond. The Story of Jim Carrey, Andy Kaufman, and Tony Clifton
    Dir: Chris Smith (EUA)
  • Happy Winter
    Dir: Giovanni Totaro (Itália)

HORIZONTES

  • Disappearance
    Dir: Ali Asgari (Irã, Catar)
  • Especes Menaces
    Dir: Gilles Bourdos (França, Bélgica)
  • The Rape of Recy Taylor
    Dir: Nancy Buirski (EUA)
  • Caniba
    Dir: Lucian Castaing-Taylor, Verena Paravel (França)
  • Les Bienheureux
    Dir: Sofia Djama (França, Bélgica)
  • Marvin
    Dir: Anne Fontaine (França)
  • Invisibile
    Dir: Pablo Giorgelli (Argentina, Brasil, Uruguai, Alemanha)
  • Brutti e Cattivi
    Dir: Cosimo Gomez (Itália, França)
  • The Cousin
    Dir: Tzahi Grad (Israel)
  • Reparer les vivants
    Dir: Katell Quillevere (França, Bélgica)
  • The Testament
    Dir: Amichai Greenberg (Israel, Áustria)
  • No Date, No Signature
    Dir: Vahid Jalilvand (Irã)
  • Los Versos Del Olvido
    Dir: Alireza Khatami (França, Alemanha, Holanda, Chile)
  • Nico, 1988
    Dir: Susanna Nicchiarelli (Itália)
  • Krieg
    Dir: Rick Ostermann, Barbara Auer (Alemanha)
  • West of Sunshine
    Dir: Jason Raftopoulos (Austrália)
  • Gotta Cenerentola
    Dir: Alessandro Rak, Ivan Cappiello, Marino Guarnieri, Dario Sansone (Itália)
  • Under The Tree
    Dir: Hafsteinn Gunnar Sigurdsson (Islândia, Dinamarca, Polônia, Alemanha)
  • La Vita in Comune
    Dir: Edoardo Winspeare (Itália)

CINEMA IN THE GARDEN

  • Manuel
    Dir: Dario Albertini (Itália)
  • Controfigura
    Dir: Ra Di Martino (Itália, França, Marrocos, Suíça)
  • Woodstock
    Dir: Kate Mulleavy, Laura Mulleavy (EUA)
  • Nato A Casal Di Principe
    Dir: Bruno Oliviero (Itália, Espanha)
  • Suburra — The Series
    Dir: Michele Placido, Andrea Molaioli, Giuseppe Capotondi (Itália)
  • Tuers
    Dir: Francois Truokens, Jean-Francois Hensgens (Bélgica, França)

VENEZA REALIDADE VIRTUAL

  • Melita
    Dir: Nicolas Alcala (EUA)
  • La Camera Insabbiata
    Dir: Laurie Anderson, Huang Sin-Chien (EUA)
  • The Last Goodbye
    Dir: Gabo Arora (EUA)
  • My Name Is Peter Stillman
    Dir: Lysander Ashton, Leo Warner (Reino Unido)
  • Alice, The Virtual Reality Play
    Dir: Mathias Chelebourg (França)
  • Arden’s Wake Expanded
    Dir: Eugene YK Chung (EUA)
  • Greenland Melting
    Dir: Nonny De La Pena (EUA)
  • Bloodless
    Dir: Gina Kim (EUA)
  • Nothing Happens
    Dir: Uri Kranot, Michelle Kranot (Dinamarca, França)
  • The Dream Collector
    Dir: Mi Li (China)
  • Snatch VR Heist Experience
    Dir: Rafael Pavon, Nicolas Alcala (EUA)
  • Nefertiti
    Dir: Richard Mills, Kim-Leigh Pontin (Reino Unido)
  • Proxima
    Dir: Mathieu Pradat (França)
  • In The Pictures
    Dir: Qing Shao (China)
  • Dispatch
    Dir: Edward Robles (EUA, Reino Unido)
  • The Argos File
    Dir: Josema Roig (EUA)
  • Gomorra VR – We Own The Streets
    Dir: Enrico Roast (Itália)
  • Draw Me Close, Chapters 1-2
    Dir: Jordan Tannahill (Canadá, Reino Unido)
  • The Deserted
    Dir: Tsai Ming-Liang (Taiwan)
  • I Saw The Future
    Dir: Francois Vautier (França)
  • Separate Silences
    Dir: David Wedel (Dinamarca)
  • Free Whale
    Dir: Zhang Peibin (China)

***

O Festival de Veneza começa dia 30 de agosto e encerra dia 09 de setembro.

Já o Festival Internacional de Toronto tem início em 07 de setembro e vai até o dia 17.

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Apesar de alta de filmes latinos, Brasil não disputa o Leão de Ouro no Festival de Veneza 2015

Pôster do 72º Festival de Veneza com Nastassja Kinski e Jean-Pierre Léaud.

Pôster do 72º Festival de Veneza com Nastassja Kinski e Jean-Pierre Léaud.

FESTIVAL CONTA COM SELEÇÃO QUE MISTURA NOMES CONSAGRADOS COM NOMES EM ASCENSÃO

Nesse último dia 29 de julho, o Festival de Veneza anunciou sua seleção oficial para esta edição de nº 72. A homenageada deste ano é a atriz alemã Nastassja Kinski, cujo retrato estampa o pôster do evento. Ao fundo, o jovem personagem Antoine Doinel dos filmes de François Truffaut indica a homenagem ao ator Jean-Pierre Léaud.

Para avaliar e premiar as produções selecionadas, o júri será presidido pelo diretor mexicano Alfonso Cuarón, que foi o primeiro latino a ganhar o Oscar de Direção por Gravidade em 2014. Ele contará com a colaboração de outros diretores como o turco Nuri Bilge Ceylan (que ganhou a Palma de Ouro com Winter Sleep), o polonês Pawel Pawlikowski (que ganhou o Oscar de Filme em Língua Estrangeira com Ida), a britânica Lynne Ramsay, o chinês Hou Hsiao-Hsien (que já levou o Leão de Ouro em 1989 por A Cidade do Desencanto) e o italiano Francesco Munzi. Além dos diretores, as atrizes Elizabeth Banks e Diane Kruger e o roteirista Emmanuel Carrère participarão do júri.

O presidente do júri Alfonso Cuarón (photo by cineuropa.org)

O presidente do júri Alfonso Cuarón (photo by cineuropa.org)

Embora não se confirme, com Cuarón na presidência, os concorrentes latino-americanos acabam ganhando algum status de favoritos. Pior para o Brasil que não teve nenhum representante na seleção oficial, aliás, fato que não ocorre há tempos. Felizmente, para não passar em branco na cerimônia, o país conta com dois longas na mostra paralela Orizzonti (Horizontes): Boi Neon, de Gabriel Mascaro; e Mate-me Por Favor, da estreante carioca Anita Rocha da Silveira. Além dos longas, o curta-metragem paranaense de Aly Muritiba e Marja Calafange, Tarântula, também integrará a mostra.

Cena do longa brasileiro Mate-Me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira (photo by reicine.com.ar)

Cena do longa brasileiro Mate-Me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira (photo by reicine.com.ar)

Já os latino-americanos marcam presença com um total de nove produções, tendo duas concorrendo ao prêmio máximo: Desde Allá, de Lorenzo Vigas (México – Venezuela), e El Clan, do argentino Pablo Trapero. O primeiro foca na busca de um homem de 50 anos por jovens para passar uma noite, enquanto o segundo se baseia em fatos verídicos sobre uma família que tinha uma loja e um bar para praticar sequestros, extorsões e até assassinatos na época da ditadura militar na Argentina.

Cena de Desde Allá, de Lorenzo Vigas (photo by filmaffinity.com)

Cena de Desde Allá, de Lorenzo Vigas (photo by filmaffinity.com)

O diretor do festival, Alberto Barbera confirmou o bom momento do cinema latino-americano: “O que há de mais fresco e inovador no cinema hoje em dia vem da América Latina. Finalmente, além da quantidade, há qualidade. São filmes que surpreendem.”

Cena do filme argentino El Clan, de Pablo Trapero  (photo by cine.gr)

Cena do filme argentino El Clan, de Pablo Trapero (photo by cine.gr)

Na corrida pelo Leão de Ouro, outros nomes já figuram como fortes candidatos. O italiano Marco Bellochio (Sangue del Mio Sangue) é considerado um dos cineastas mais influentes dessa geração e deve estar na lista de premiados. O canadense Atom Egoyan (Remember), o norte-americano Cary Fukunaga, que ficou conhecido pela série de TV True Detective (Beasts of No Nation), o israelense Amos Gitai (Rabin, the Last Day), o italiano Luca Guadagnino (A Bigger Splash), o russo Aleksandr Sokurov, que levou o prêmio por Fausto em 2011 (Francofonia), e os hollywoodianos Charlie Kaufman, que traz a animação de comédia e fantasia Anomalisa, e o britânico Tom Hooper, que dirigiu The Danish Girl, sobre um dos primeiros homens que passaram por cirurgia de troca de sexo.

Além de The Danish Girl, outro grande favorito ao Oscar 2016, Aliança do Crime (Black Mass), de Scott Cooper, será exibido em Veneza, mas fora de competição. Ambos os filmes apresentam dois fortíssimos candidatos ao Oscar de Melhor Ator: Pelo primeiro, Eddie Redmayne em outro papel transformador, e pelo segundo, Johnny Depp, caracterizado como o criminoso Bill Bulger com sua aparência calva e grisalha.

Eddie Redmayne caracterizado como a Danish Girl (photo by cine.gr)

Eddie Redmayne caracterizado como The Danish Girl (photo by cine.gr)

Johnny Depp como Bill Bulger em Aliança do Crime (photo by independent.co.uk)

Johnny Depp como Bill Bulger em Aliança do Crime (photo by independent.co.uk)

O 72º Festival de Veneza acontece entre os dias 02 e 12 de setembro.

INDICADOS AO LEÃO DE OURO:

FRENZY (Abluka), de Emin Alper

HEART OF A DOG, de Laurie Anderson

SANGUE DEL MIO SANGUE, de Marco Bellocchio

LOOKING FOR GRACE, de Sue Brooks

EQUALS, de Drake Doremus

REMEMBER, de Atom Egoyan

BEASTS OF NO NATION, de Cary Fukunaga

PER AMOR VOSTRO, Giuseppe M. Gaudino

MARGUERITE, de Xavier Giannoli

RABIN, THE LAST DAY, de Amos Gitai

A BIGGER SPLASH, de Luca Guadagnino

THE ENDLESS RIVER, Oliver Hermanus

THE DANISH GIRL, de Tom Hooper

ANOMALISA, de Charlie Kaufman e Duke Johnson

L’ATTESA, Piero Messina

11 MINUTES (11 Minuts), de Jerzy Skolimowski

FRANCOFONIA, de Aleksandr Sokurov

EL CLAN, Pablo Trapero

DESDE ALLÁ, Lorenzo Vigas

L’HERMINE, de Christian Vincent

BEHEMOTH, Zhao Liang

Idris Elba em cena de Beasts of No Nation, de Cary Fukunaga (photo by cine.gr)

Idris Elba em cena de Beasts of No Nation, de Cary Fukunaga (photo by cine.gr)

MOSTRA HORIZONTES (ORIZZONTI)

Madame Courage, de Merzak Allouache
A Copy of My Mind, de Joko Anwar
Pecore in erba, de Alberto Caviglia
Tempete, de Samuel Collardey
The Childhood of a Leader, de Brady Corbet
Italian Gangster, de Renato De Maria
Wednesday, May 9, de Vahid Jalilvand
Mountain, de Yaelle Kayam
A War, de Tobias Lindholm
Interrogation, de Vetri Maaran
Free in Deed, de Jake Mahaffy
Boi Neon, de Gabriel Mascaro
Man Down, de Dito Montiel
Why Hast Thou Forsaken Me?, de Hadar Morag
Un monstruo de mil cabezas, de Rodrigo Pla
Mate-me Por Favor, de Anita Rocha Da Silveira
Taj Mahal, de Nicolas Saada
Interruption, de Yorgos Zois

FORA DE COMPETIÇÃO

Everest, de Baltasar Kormákur (FILME DE ABERTURA)
Go With Me
, de Daniel Alfredson

Non Essere Cattivo, de Claudio Caligari
Aliança do Crime (Black Mass), de Scott Cooper
Spotlight, de Thomas McCarthy
La Calle de la Amargura, de Arturo Ripstein
The Audition, de Martin Scorsese
Winter on Fire, de Evgeny Afineevsky
De Palma, de Noah Baumbach e Jake Paltrow
Janis, de Amy Berg
Sobytie, de Sergei Loznitsa
Gli Uomini di Questa Citta Io Non li Consoco, de Franceo Maresco
L’Esercito Piu Piccolo Del Mondo, de Gianfranco Pannone
Na Ri Xiawu, de Tsai Ming-liang
In Jackson Heights, de Frederick Wiseman
Human, de Yann Arthus-Bertrand 
La Vie et Rien D’Autre, de Bertrand Tavernier

Sueco ‘A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence’ vence o Leão de Ouro 2014, mas não empolga a mídia

O diretor sueco Roy Andersson posa com seu Leão de Ouro (photo by bbc.com)

O diretor sueco Roy Andersson posa com seu Leão de Ouro (photo by bbc.com)

AUSÊNCIA DE NOMES DE PESO TIRAM DESTAQUE DE EVENTO

Como foi reportado no post anterior sobre Veneza, o presidente do festival, Alberto Barbera, fracassou em trazer dois nomes de peso para a competição: David Fincher e Paul Thomas Anderson. E isso pode ter minado as chances de brilho do festival mais antigo de cinema, pois, se seus trabalhos recentes, Garota Exemplar e Inherent Vice, respectivamente, tivessem marcado presença, a premiação certamente sofreria alterações drásticas e o impacto da premiação seria bem maior na mídia. Claro que nomes por si só não garantem nenhum prêmio (exceto os honorários), mas boa parte da crítica estrangeira comentou a ausência de nomes fortes na disputa pelo Leão de Ouro.

Dos nomes mais famosinhos indicados: Fatih Akin, Alejandro González Iñárritu, David Gordon Green, Xavier Beauvois e Andrew Niccol, todos saíram de mãos abanando. De acordo com o júri presidido pelo compositor francês Alexandre Desplat, e composto por Joan Chen, Philip Gröning, Jessica Hausner, Jhumpa Lahiri, Sandy Powell, Tim Roth, Elia Suleiman e Carlo Verdone, nenhum dos trabalhos dos diretores citados acima merecia um reconhecimento, comprovando que nem sempre reputações fazem diferença na votação.

Aliás, o diretor do filme vencedor A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence, Roy Andersson, dirigiu alguns longas, curtas e documentários desde as décadas de 60 e 70, mas sem grandes repercussões; tanto que seus trabalhos mais conhecidos são Songs from the Second Floor (2000) e Vocês, os Vivos (2007). Em seu dicurso de agradecimento, Andersson citou o clássico neo-realista italiano Ladrões de Bicicletas (1948) como grande inspiração para se tornar um cineasta. Não se sabe se essa afirmação é verdade (devido aos diferentes estilos dos diretores) ou se Andersson queria puxar uma sardinha para o cinema da casa.

Em A Pigeon, temos dois protagonistas que pegam a estrada para vender produtos cômicos como um saco de risadas e máscaras. Durante o percurso, topam com histórias de outros personagens secundários como um homem que morre depois de pedir um lanche e logo em seguida, a garçonete pergunta aos demais clientes quem gostaria de usufruir do mesmo lanche pago. Além desse humor negro, o diretor abusa de planos-sequência e uma palheta de cores pálida, como se houvesse esse distanciamento com a realidade.

Cena de A PIgeon Sat on a Branch Reflecting on Existence (photo by outnow.ch)

Cena de A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence (photo by outnow.ch)

Já o Leão de Prata para Melhor Diretor foi para o russo Andrey Konchalovskiy por The Postman’s White Nights. A produção aborda um vilarejo real isolado numa ilha russa, onde só se é possível chegar e sair de barco, pilotado pelo carteiro, cuja esposa o abandona. No local, os habitantes vivem numa espécie de era neolítica, onde não há tecnologia, governo e empregos. Com larga experiência em documentários, Andrey utilizou habitantes reais da ilha como personagens, dando um tom documental ao trabalho final.

Andrey Konchalovskiy com seu Leão de Prata (photo by http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br)

Andrey Konchalovskiy com seu Leão de Prata (photo by http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br)

Curiosamente, o diretor já teve uma passagem pelo cinema norte-americano nas décadas de 80 e 90, quando dirigiu seu maior sucesso: Expresso Para o Inferno (1985), rendendo indicações ao Oscar para os atores Jon Voight e Eric Roberts, além de Melhor Montagem. Também chegou a dirigir Sylvester Stallone e Kurt Russell no filme de ação Tango & Cash – Os Vingadores (1989).

Nas categorias de atuação, os Volpi Cups foram concedidos para os atores centrais do filme italiano Hungry Hearts, de Saverio Costanzo: o americano Adam Driver e a italiana Alba Rohrwacher. Eles fazem um casal que se encontra por acaso em Nova York, iniciam um relacionamento sério e têm uma filha. Contudo, o cenário de felicidade muda radicalmente quando a mãe passa a apresentar sinais de doença mental e o pai receia pelas consequências na criação e nutrição do bebê.

Adam Driver e Ala Rohrwacher em cena de Hungry Hearts (photo by movieplot.com)

Adam Driver e Ala Rohrwacher em cena de Hungry Hearts (photo by movieplot.com)

O prêmio deve alavancar ainda mais a já promissora carreira de Adam Driver. Além de já ter trabalhado com os irmãos Coen em Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum e Clint Eastwood em J. Edgar, está sob a direção de Martin Scorsese em Silence (2015) e será um personagem importante do novo filme da saga Star Wars, sob o comando de J.J. Abrams. Ele não esteve presente na premiação, pois estava no Festival de Toronto, justamente promovendo o filme.

Pela repercussão na mídia, talvez a melhor escolha para Leão de Ouro tivesse sido para o documentário The Look of Silence, do mesmo diretor de O Ato de Matar, indicado ao Oscar este ano. Assim como em seu filme anterior, Joshua Oppenheimer aborda o genocídio da Indonésia através de um encontro de uma família de sobreviventes com o assassino de um de seus membros. Através das entrevistas, o diretor busca uma espécie de remorso do entrevistado pelas barbaridades que cometera no passado sangrento da ditadura de Suharto.

Entrevista de documentário The Look of Silence (photo by outnow.ch)

Entrevista de documentário The Look of Silence (photo by outnow.ch)

Embora Birdman não tenha conquistado nenhum prêmio, devo recordar que no mesmo Festival de Veneza do ano passado, Gravidade abriu o evento e também não levou nenhum prêmio. Porém, poucos meses depois, saiu da cerimônia do Oscar com sete estatuetas, incluindo Melhor Diretor para o mexicano Alfonso Cuarón.

VENCEDORES DO 71º FESTIVAL DE VENEZA:

LEÃO DE OURO
A Pigeon Sat On A Branch Reflecting On Existence
Dir: Roy Andersson

LEÃO DE PRATA DE DIREÇÃO
Andrey Konchalovskiy (The Postman’s White Nights)

GRANDE PRÊMIO DO JÚRI
The Look Of Silence
Dir: Joshua Oppenheimer

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI
Sivas
Dir: Kaan Mujdeci

VOLPI CUP DE MELHOR ATOR
Adam Driver (Hungry Hearts)

VOLPI CUP DE MELHOR ATRIZ
Alba Rohrwacher (Hungry Hearts)

PRÊMIO MARCELLO MASTROIANNI PARA JOVEM ATOR
Romain Paul (The Last Hammer Blow)

MELHOR ROTEIRO
Rakhshan e Farid Mostafavi (Tales)

LEÃO DO FUTURO LUIGI DE LAURENTIIS
Court
Dir: Chitanya Tamhane

MOSTRA HORIZONTES:

MELHOR FILME
Court
Dir: Chitanya Tamhane

MELHOR DIRETOR
Naji Abu Nowar (Theeb)

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI
Belluscone
Dir: Franco Maresco

PRÊMIO ESPECIAL PARA MELHOR ATOR OU ATRIZ
Emir Hadzihafizbegovic (These Are The Rules)

PRÊMIO HORIZONTES PARA MELHOR CURTA-METRAGEM
Maryam
Dir: Sidi Saleh

PRÊMIOS CLÁSSICOS DE VENEZA:

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Animata Resistenza
Dir: Francesco Montagner, Alberto Girotto

MELHOR FILME RESTAURADO
Um Dia Muito Especial (Una Giornata Particolare, 1977)
Dir: Ettore Scola

A atriz italiana Alba Rohrwacher com seu Volpi Cup de Melhor Atriz por Hungry Hearts (photo by http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br)

A atriz italiana Alba Rohrwacher com seu Volpi Cup de Melhor Atriz por Hungry Hearts (photo by http://pipocamoderna.virgula.uol.com.br)

 

Indicados ao Leão de Ouro 2014 não apresentam favoritos

Pôster oficial do 71º Festival de Veneza, que faz alusão ao momento culminante do clássico francês Os Incompreendidos (photo by primetv.pt - image by biennale di Venezia)

Pôster oficial do 71º Festival de Veneza, que faz alusão ao momento culminante do clássico francês Os Incompreendidos (photo by primetv.pt – image by biennale di Venezia)

EMBORA HAJA NOMES EM POTENCIAL, A DISPUTA PELO PRÊMIO ESTÁ BASTANTE EQUILIBRADA

Apesar do resultado do ano passado ter sido quase motivo de uma CPI (o documentário italiano Sacro GRA foi eleito o vencedor do Leão de Ouro pelo presidente do júri conterrâneo Bernardo Bertolucci), o Festival de Veneza é um dos mais prestigiosos do mundo, além de ser o mais antigo. Ao contrário da veia mais comercial de Cannes, Veneza não tem o costume de se limitar a nomes consagrados para compor suas seleções de filmes.

Contudo, em entrevista, o diretor artístico Alberto Barbera revelou um fracasso para esta edição. Tentou trazer duas produções norte-americanas, cujos diretores são ninguém menos que David Fincher e Paul Thomas Anderson, que levou o Leão de Prata de Melhor Diretor em 2012 por O Mestre. Os dois viriam com Garota Exemplar (Gone Girl) e Inherent Vice, respectivamente, mas as distribuidoras recusaram a proposta para lançá-los no New York Film Festival. Tanto a 20th Century Fox como a Warner alegam que o evento americano ganha a briga por acontecer mais próximo do fim do ano, quando começa a temporada de premiações que culmina com o Oscar, e também por darem valor ao público do próprio país.

Cena com Ben Affleck de Garota Exemplar: preferência por NY a Veneza. (photo by www.outnow.ch)

Cena com Ben Affleck de Garota Exemplar: preferência por NY a Veneza. (photo by http://www.outnow.ch)

As desculpas são válidas, mas a verdade que li no site The Playlist é que as distribuidoras estão pensando duas vezes antes de mandar elenco e equipe de seus filmes para divulgação internacional para evitar gastos. Simples assim. Pagar passagens aéreas e estadias em hotéis luxuosos nem sempre representam números maiores nas bilheterias; a menos que ganhe um prêmio importante e olhe lá!

Dito isso, a missão de Barbera não foi fácil. Assistiu a 1500 filmes para peneirar 55 sobreviventes, distribuídos em três listas (Competição Oficial, Fora de Competição e Horizontes). “É um trabalho mais complexo, mais doloroso porque tem de deixar de fora alguns filmes muito bons”, afirmou Barbera em comparação a outros festivais de filmes como Toronto, que não apresenta competição e por isso mesmo não há limites de quantidade. Sem Fincher e Anderson, Veneza ainda oferece nomes conhecidos como o do alemão Fatih Akin e do mexicano Alejandro González Iñárritu.

Aliás, o novo filme de Iñárritu, Birdman, abrirá a competição oficial por trazer mais atores mundialmente conhecidos ao tapete vermelho como Michael Keaton, Edward Norton, Naomi Watts e Emma Stone. Por se tratar de uma comédia de humor negro, dificilmente deve levar o Leão de Ouro. Outras presenças ilustres são aguardadas para o evento, casos de Al Pacino e Holly Hunter (ambos por Manglehorn), Ethan Hawke e January Jones (ambos por Good Kill) e Willem Dafoe (Pasolini). Pacino e Dafoe já largam como franco-favoritos na corrida pelo prêmio de interpretação masculina, especialmente Pacino que terá mais um filme (The Humbling) exibido fora de competição.

BIRDMAN

Cena de Birdman entre Michael Keaton e Edward Norton: comédia de humor negro com clima de Queime Depois de Ler (photo by outnow.ch)

Quanto à seleção oficial, existem nomes interessantes como o do francês Xavier Beauvois que dirigiu o bom Homens e Deuses, que faturou o Grande Prêmio do Júri em Cannes 2010; e o japonês Shin’ya Tsukamoto, que tem uma linguagem visual bem peculiar, especialmente no gênero ficção científica. Mas um dos nomes que podem surpreender é o do norte-americano Joshua Oppenheimer, que este ano foi indicado para Melhor Documentário no Oscar por O Ato de Matar e pode sair do festival com o Leão de Ouro por The Look of Silence.

Já na mostra fora de competição, vale a pena destacar os retornos de dois grandes diretores. Peter Bogdanovich, que estava sumido desde O Miado do Gato (2001), volta com She’s Funny That Way, uma comédia sobre Broadway com Owen Wilson, Jennfer Aniston e Imogen Poots. E Joe Dante, que ficou conhecido por suas doideiras como Gremlins, Piranha e Viagem Insólita, faz sua versão de filme de zumbi, Burying the Ex, focado num casal de namorados formado por Anton Yelchin e Ashley Greene. E também se mostra interessante a reunião de diretores para fazer o filme mosaico Words With Gods, com tema voltado à religião. Nomes como Emir Kusturica, Mira Nair, Hideo Nakata e Hector Babenco já garantem maior atenção da mídia e do público.

INDICADOS AO LEÃO DE OURO

The Cut
Dir: Fatih Akin (Alemanha, França, Itália, Rússia, Canadá, Polônia, Turquia)
• A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence
Dir: Roy Andersson (Suécia, Alemanha, Noruega, França)
• 99 Homes
Dir: Ramin Bahrani (U.S.)
• Tales
Dir: Rakhshan Bani E’temad (Irã)
• La rancon de la gloire
Dir: Xavier Beauvois (França)
• Hungry Hearts
Dir: Saverio Costanzo (Itália)
• Le dernier coup de marteau
Dir: Alix Delaporte (França)
• Manglehorn
Dir: David Gordon Green (EUA)
• Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)
Dir: Alejandro Gonzáles Iñárritu (EUA)
• Three Hearts
Dir: Benoit Jacquot (France)
• The Postman’s White Nights
Dir: Andrei Konchalovsky (Rússia)
•  Il Giovane Favoloso
Dir: Mario Martone (Itália)
• Sivas
Dir: Kaan Mujdeci (Turquia)
• Anime Nere
Dir: Francesco Munzi (Itália, França)
• Good Kill
Dir: Andrew Niccol (EUA)
• Loin des Hommes
Dir: David Oelhoffen (França)
• The Look of Silence
Dir: Joshua Oppenheimer (Dinamarca, Finlândia, Indonésia, Noruega, Reino Unido)
• Nobi
Dir: Shin’ya Tsukamoto (Japão)
• Red Amnesia
Dir: Wang Xiaoshuai (China)

FORA DE COMPETIÇÃO

• Words with Gods
Dir: Guillermo Arriaga, Emir Kusturica, Amos Gitai. Mira Nair, Warwick Thornton, Hector Babenco, Bahman Ghobadi, Hideo Nakata, Alex de la Iglesia (México, EUA)
• She’s Funny That Way
Dir: Peter Bogdanovich (EUA)
• Dearest
Dir: Peter Ho-sun Chan (Hong Kong, China)
• Olive Kitteridge
Dir: Lisa Cholodenko (EUA)
• Burying the Ex
Dir: Joe Dante (EUA)
• Perez
Dir: Edoardo De Angelis (Itália)
• La zuppa del demonio
Dir: Davide Ferrario (Itália)
• Tsili
Dir: Amos Gitai (Israel, Rússia, Itália, França)
• La trattativa
Dir: Sabina Guzzanti (Itália)
• The Golden Era
Dir: Ann Hui (China, Hong Kong)
• Make Up
Dir: Im Kwontaek (Coréia do Sul)
• The Humbling
Dir: Barry Levinson (EUA)
• The Old Man of Belem
Dir: Manoel de Oliveira (Portugal, França)
• Italy in a Day
Dir: Gabriele Salvatores (Itália, Reino Unido)
• In the Basement
Dir: Ulrich Seidl (Áustria)
• The Boxtrolls
Dir: Anthony Stacchi, Annable Graham (U.K)
• Ninfomaníaca: Volume II (versão longa) Director’s Cut
Dir: Lars Von Trier (Dinamarca, Alemanha, França, Bélgica)

HORIZONTES

• Theeb
Dir: Naji Abu Nowar (Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Catar, Reino Unido)
• Line of Credit
Dir: Salome Alexi (Georgia, Alemanha, França)
• Cymbeline
Dir: Michael Almereyda (EUA)
• Senza Nessuna Pieta
Dir: Michele Alhaique (Itália)
• Near Death Experience
Dir: Benoit Delepine, Gustave Kervern (França)
• Le Vita Oscena
Dir: Renato De Maria (Itália)
• Realite
Dir: Quentin Dupieux (França, Bélgica)
• I Spy/I Spy
Dir: Veronika Franz, Severin Fiala (Áustria)
• Hill of Freedom
Dir: Hong Sangsoo (Coréia do Sul)
• Bypass
Dir: Duane Hopkins (Reino Unido)
• The President
Dir: Moshen Makhmalbaf (Georgia, França, Reino Unido, Alemanha)
• Your Right Mind
Dir: Ami Canaan Mann (EUA)
• Belluscone, una storia siciliana
Dir: Franco Maresco (Itália)
• Nabat
Dir: Elchin Musaoglu (Azerbaijão)
• Heaven Knows What
Dir: Josh Safdie, Ben Safdie (EUA, França)
• These Are the Rules
Dir: Ognjen Svilicic (Croatia, France, Serbia, Macedonia)
• Court
Dir: Chaitanya Tamhane (Índia)

‘Miss Violence’, de Alexandros Avranas (2013)

Miss Violence, de Alexandros Avranas

Miss Violence, de Alexandros Avranas

Atual cinema grego nasce da crise econômica do país

Você já assistiu a um filme do Neo-realismo italiano? Talvez Ladrões de Bicicletas, de Vittorio De Sica? Ou algum filme da safra do Cinema Argentino? O Pântano, de Lucrecia Martel? Ambos os cinemas citados acima inspiraram o atual cinema grego, que tem se apoiado na crise econômica que assola a Europa desde 2008 para criar filmes que dissecam a sociedade vitimada.

Para a maioria dos cinéfilos, o cinema grego tinha como referência apenas Theo Angelopoulos. Falecido em 2012, o diretor se consagrou com títulos como Uma Eternidade e Um Dia, vencedor da Palma de Ouro em Cannes de 1998. Contudo, quando Dente Canino, de Giorgos Lanthimos, destacou-se ganhando inúmeros prêmios internacionais como o Un Certain Regard em Cannes e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, a crítica e os holofotes miravam uma nova onda de criatividade na terra dos deuses.

Cena de Dente Canino, de Yorgos Lanthimos: o primeiro dessa nova onda do cinema grego (photo by www.outnow.ch)

Cena de Dente Canino, de Giorgos Lanthimos: o primeiro dessa nova onda do cinema grego (photo by http://www.outnow.ch)

Um dos expoentes desse novo cinema grego atende pelo nome de Alexandros Avranas. Com apenas 36 anos, seu segundo longa-metragem foi selecionado para o último Festival de Veneza, de onde saiu premiado com o Leão de Prata de direção e Volpi Cup de Melhor Ator para Themis Panou. Dizem as más línguas que, se o presidente do júri, o italiano Bernardo Bertolucci, não fosse tão patriota ao selecionar o documentário italiano Sacro GRA, Miss Violence teria levado o prêmio máximo.

O diretor grego Alexandros Avranas: Vencedor do Leão de Prata no último Festival de Veneza (photo by www.kinetophone.com)

Prêmio de consolação? O diretor grego Alexandros Avranas ostenta seu Leão de Prata no último Festival de Veneza (photo by http://www.kinetophone.com)

Miss Violence começa direto ao ponto. Estamos na festa de aniversário numa casa de família feliz. Ao cometer suicídio pulando da sacada de casa, a menina de 11 anos aniversariante já revela problemas no paraíso. Nos minutos seguintes, tudo leva a crer que se trata de uma família típica disfuncional retratada em filmes americanos. Ledo engano. O buraco é bem mais abaixo. O que choca mais do que o próprio suicídio é a tranqüilidade da família perante o incidente.

Avranas compõe seqüências aparentemente sem muito nexo como uma espécie de quebra-cabeças. Apesar de se assemelharem a uma família comum, não sabemos exatamente qual a relação de cada um dos personagens ali: pai, mãe, avô, filha ou neta? Sem utilizar trilha musical, ele abusa de enquadramentos fechados de seus personagens, que parecem buscar cumplicidade do espectador ao olhar diretamente para a câmera. À medida em que as ligações entre eles se revelam mais claras, a tensão aumenta através da revelação das ações obscuras da figura dominante do patriarca na família.

Para quem ficar atento às pistas, o final pode deixar a desejar, pois fica a impressão um pouco amarga de que o segredo da trama, ostentada como clímax, não estava acima de qualquer suspeita. Ao longo do filme, o rigor disciplinar do patriarca vai ganhando contornos excessivamente violentos e essa frieza não deixa muitas dúvidas a respeito do segredo dessa família.

Família feliz: o patriarca cercado por suas meninas de ouro (photo by www.adorocinema.com.br)

Família feliz: o patriarca cercado por suas meninas de ouro (photo by http://www.adorocinema.com.br)

Isso não significa necessariamente uma falha, mas como a proposta de Alexandros Avranas era causar impacto desde a primeira cena, a resposta final, apesar de ainda forte, acaba soando um pouco óbvia. E também perde o frescor, ainda mais se considerarmos as semelhanças da nova tragédia grega lançada por Giorgos Lanthimos em seu Dente Canino em 2009. Também temos ali um núcleo familiar, violência e um universo paralelo.

Claro que isso não tira os méritos de Avranas. Sua direção se mostra bastante segura, explorando a fotografia nos planos estáticos e nos preciosos movimentos de câmera. A direção de arte e os figurinos acompanham a falta de cores fortes da fotografia com intenção de expôr a atmosfera de desafeto e a falta de sentimentos da casa. Também vale ressaltar a excelente escolha da música “Dance me To the End of Love”, de Leonard Cohen para a sequência do aniversário.

“A família na Grécia serve para falar sobre a sociedade. Podemos olhar para a família com uma lupa e encontrar os defeitos sociais. Tudo está muito cruel e o cinema grego não fazia nada. Isso está mudando”, disse o diretor numa entrevista à Folha de S. Paulo. Ao assistir ao filme, fica impossível não buscar respostas na crise econômica que atingiu bruscamente a Grécia. O desemprego, a assistência social, a economia nas despesas, está tudo impresso no filme.

Disciplina rígida: o patriarca dita as normas da casa (photo by http://plays2place.com/?portfolio=missviolence)

Disciplina rígida: o patriarca dita as normas da casa (photo by http://plays2place.com/?portfolio=missviolence)

Além do próprio conterrâneo Dente Canino, é possível fazer uma breve analogia com alguns filmes que têm a crise internacional como pano de fundo. No ano passado por exemplo, o sul-coreano Kim Ki-duk explorou atitudes extremamente brutais de seu protagonista, que decepava membros de devedores para coletar o dinheiro do seguro em Pieta, vencedor do Leão de Ouro 2012.  Aliás, na última edição do Festival de Veneza, o diretor artístico do evento, Alberto Barbera, revelou ter ficado impressionado com a quantidade de filme sombrios inscritos: “Os cineastas decidiram encarar o fato de que estamos vivendo um tipo de crise de todos os valores da nossa civilização.” Indo mais à fundo na questão, Barbera continua: “Não é só uma questão de crise financeira, é o fato de que perdemos um sistema de valores que manteve nossas sociedades vivas até agora, e já não o temos mais. Acho que os filmes gregos estão pelo menos obliquamente lidando com a crise de uma forma que a maioria das outras indústrias nacionais não lida”.

Se as seqüelas desumanas da 2ª Guerra Mundial criaram o Neo-realismo italiano, e a crise econômica argentina foi diretamente responsável pela origem de personagens e histórias humanistas do novo cinema argentino, a crise na Grécia também pode ser classificada como um daqueles “males que vêm para o bem”. Como cinéfilo, espero que os males da nossa política tão corrupta e o sistema brasileiro de justiça falho possam em breve gerar filmes igualmente reflexivos que estimulem a população a repensar o país.

AVALIAÇÃO: BOM

O elenco de Miss Violence dosa a frieza de seus personagens (photo by http://plays2place.com/?portfolio=missviolence)

O elenco de Miss Violence dosa a frieza de seus personagens (photo by http://plays2place.com/?portfolio=missviolence)

* Miss Violence está sendo exibido pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (www.mostra.org). Ainda sem previsão de estréia, se for lançado no circuito comercial de cinema, o filme deve ficar restrito a salas mais alternativas devido ao tema.