LARS VON TRIER EXORCIZA seus DEMÔNIOS em ‘A CASA QUE JACK CONSTRUIU’

Matt Dillon

Jack (Matt Dillon) arrasta uma de suas vítima até seu freezer (pic by IMDb)

Você ficaria no mesmo quarto sozinho com Lars von Trier? Na época do Dogma 95 até Dançando no Escuro (2000), o convite seria mais do que bem-vindo, pois no mínimo renderia uma conversa agradável sobre o futuro do cinema e seus aspectos técnicos. Hoje, depois dos intensos Anticristo, Melancolia, Ninfomaníaca e este A Casa que Jack Construiu, e de ter se comparado a um nazista em 2011, a resposta seria: posso ir acompanhado?

Brincadeiras à parte, para nossa tranquilidade, Lars von Trier exorciza seus demônios através de seus filmes. É possível alegar que se trata de um raro autor que gosta de incomodar o espectador com temas espinhentos como culpa, mortalidade, desejo e prazer, suscitando reflexões que perduram muito além da duração dos filmes.

Neste A Casa que Jack Construiu, acompanhamos 12 anos na vida de um serial killer (um sinistro Matt Dillon), desde seu primeiro incidente que o inicia no crime, até literalmente sua descida para o inferno. No caminho, acompanhado pelo anjo da morte (Bruno Ganz), Jack conta sua história, suas reflexões e como passou a visualizar seus assassinatos como formas de arte.

Matt Dillon Bruno Ganz

Verge (Bruno Ganz) e Jack (Matt Dillon) caminham até o inferno (pic by IMDb)

Na primeira metade do filme, o diretor recupera aquele humor negro e non-sense de Ninfomaníaca e o aplica com maestria nos primeiros incidentes. Além de diálogos absurdos, descobrimos que o assassino sofre de TOC de limpeza, o que rende momentos hilários que trazem o público para o lado do criminoso.

Mas Lars von Trier não está interessado apenas em extrair humor das situações cruéis. Ele questiona a presença de um Deus e sua conivência diante de tantos acontecimentos brutais, o que nos remete a Dostoiévski, que em seu romance “Irmãos Karamazov”, lança o enunciado “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Diante da facilidade que o protagonista encontra, estamos sós nesse universo. E, visualmente, o diretor não desaponta ao se inspirar em pinturas renascentistas, na obra literária “A Divina Comédia”, de Dante Allighieri, até no videoclipe de Bob Dylan.

Matt Dillon Bob Dylan

Matt Dillon reproduz cena de videoclipe do cantor Bob Dylan (pic by IMDb)

A respeito de Lars von Trier, é impossível ficar em cima do muro. Ame ou odeie. Aqueles que o odeiam, tacham-no de controverso e polêmico barato. Contudo, para quem assistiu aos primeiros filmes dele, sabe que estamos falando de um diretor que tem propriedade e credibilidade pra ser comparado a artistas que buscam apenas chocar seu público de forma gratuita.

Só para citar alguns nomes, Quentin Tarantino elegeu o roteiro de Dogville um dos melhores já feitos. Paul Thomas Anderson é um profundo admirador e chegou a dizer que “carregaria as bagagens de Lars von Trier para qualquer lugar”, e Martin Scorsese listou Ondas do Destino como um dos 10 melhores filmes da década de 90. Não é pouca coisa.

Considerado ‘Persona non grata’ pelo Festival de Cannes em 2011, ele é perdoado e retorna sete anos depois com A Casa que Jack Construiu, mas agora exibindo fora de competição, parecendo aqueles castigos inúteis de pais coniventes. A verdade é que Cannes sabe que, ao ignorar os novos trabalhos do diretor, seria como dar um tiro no próprio pé. Em tempos politicamente corretos, um evento desse porte necessita de artistas que pensem fora da caixinha.

Nem por isso, o filme é perfeito. A Casa que Jack Construiu comete um deslize que poderia ter sido evitado, mas se voltarmos ao episódio da coletiva de imprensa de 2011 em que ele se define como nazista, entendemos que é uma mensagem pessoal. Na parte final do filme, Trier faz uma breve colagem com cenas de seus filmes anteriores como parte de uma explicação para um mundo virado do avesso. Obviamente, isso foi uma resposta indireta ao seu banimento de Cannes. Porém,  o erro não se baseia apenas em seu egocentrismo, mas por ser incoerente com o objetivo do filme.

Matt Dillon furgão vermelho.jpg

Matt Dillon e seu incidente na sua van vermelha (pic by IMDb)

Apesar do deslize e de ser a favor da redução dos 155 minutos para 135, ainda é um filme singular que pouquíssimos se arriscariam a fazer e suscitar questões filosóficas com um protagonista detestável que menospreza a vida. Numa época de lançamentos cada vez mais genéricos e pobres de idéias, Lars von Trier faz a manutenção de seu reinado no cinema de hoje.

AVALIAÇÃO: Ótimo 8/10
CHANCES DE OSCAR: Nenhuma (os velhinhos da Academia teriam um infarto!)

ESTRÉIA: 01/11/18
Circuito de São Paulo: Reserva Cultural, Espaço Itaú de Cinema (Frei Caneca, Pompéia, Augusta), Kinoplex Itaim e Cynesystem Morumbi Town.

A CASA QUE JACK CONSTRUIU (The House That Jack Built). Dir: Lars von Trier. Elenco: Matt Dillon, Uma Thurman, Riley Keough, Siobhan Fallon Hogan, Sofie GråbølBruno Ganz, Jeremy Davies. 155 min. Censura: 18 anos.

NOTA DE AGRADECIMENTO: Gostaria de agradecer a gentileza da hostess da cabine, Paula Ferraz, e o pessoal da California Filmes, assim como Chico Fireman pelo chute inicial (mesmo sabendo que ele não gostou do filme! rs).

POSTER

Pôster brasileiro de A Casa que Jack Construiu (pic by California Filmes)

Anúncios

Documentário italiano ‘Fire at Sea’ leva o Urso de Ouro em Berlim

Fire at Sea

Cena do documentário Fire at Sea, de Gianfranco Rosi (photo by outnow.ch)

TEMA DA IMIGRAÇÃO EUROPÉIA CHEGA AO FESTIVAL MAIS POLÍTICO DE TODOS

No meio da correria do Oscar, o Festival de Berlim anunciou seus vencedores. Em tempos de crise imigratória e xenofobia nas manchetes internacionais, o documentário sobre o tema se mostrou quase uma unanimidade no festival. O filme acompanha a trajetória de imigrantes refugiados de seus países por motivos de guerra, violência e necessidade financeira.

O documentário foca nas jornadas sacrificantes de incontáveis imigrantes oriundos do continente africano, asiático e Oriente Médio até esta ilha italiana chamada Lampedusa. “Nesse momento, tive que pensar em todas aquelas pessoas que não conseguiram sobreviver até chegar a Lampedusa,” ressaltou o diretor Gianfranco Rosi em discurso de agradecimento. “Lampedusa é um lugar generoso. É um reduto de pescadores, e eles sempre abrem seus braços para aqueles que vêm do mar.”

Nesta 66ª edição, a presidente do júri foi ninguém menos do que Meryl Streep. Ela liderou um júri formado por mais sete profissionais, tendo como único pacto “deixar a mente aberta”, ou seja, não ser influenciado pela mídia. Não sei se foi possível atenderem a esse pedido pela pressão que vem dos noticiários diariamente, mas por enquanto, acredito que o documentário foi premiado por suas habilidades de retratar um momento tão triste e desolador da História contemporânea.

O Urso de Prata foi para o drama bósnio de Danis Tanovic, Death in Sarajevo, no qual um hotel hospeda uma delegação de diplomacia internacional, e sua repercussão da equipe de serviço e dos demais hóspedes. Apesar do diretor Tanovic ser frequentador de festivais internacionais, ficou conhecido pelo Oscar de Filme em Língua Estrangeira por Terra de Ninguém em 2002.

E ao contrário do que acontece no Oscar, em Berlim, uma mulher foi coroada melhor diretora. A francesa Mia Hansen-Løve ganhou o prêmio pelo drama Things to Come, protagonizado pela veterana Isabelle Huppert como uma professora de filosofia que precisa lidar com a morte da mãe, sua demissão e com a traição do marido.

Cena de Things to Come, com Isabelle Huppert (photo by outnow.ch)

Cena de Things to Come, com Isabelle Huppert (photo by outnow.ch)

Nas categorias de atuação, a dinamarquesa Trine Dyrholm levou como Melhor Atriz por The Commune, sob a direção de Thomas Vinterberg, que já havia trabalhado antes no icônico filme do Dogma 95, Festa de Família. Já na ala masculina, o estreante Majd Mastoura faturou o prêmio de Ator pelo drama tunisiano Hedi, que também levou o prêmio de Filme de Estréia.

Vencedora de Melhor Atriz por The Commune, Trine Dyrholm (photo by antenna.gr)

Vencedora de Melhor Atriz por The Commune, Trine Dyrholm (photo by antenna.gr)

Concedido para produções inovadoras, o prêmio Alfred Bauer deste ano foi para o filipino Lav Diaz. Seu filme, intitulado A Lullaby to the Sorrowful Mystery, tem a duração light de oito horas. Sim, 485 minutos de puro entretenimento! A sessão teria iniciado às 9h30 da manhã e terminado às 19h, com direito a um intervalo de uma hora! A trama do filme se passa no século XIX, quando estava ocorrendo a revolução das Filipinas contra a Espanha, com destaque para a figura de Andres Bonifacio. A produtora Bianca Balbuena agradeceu à comissão do festival, que permitiu sua inclusão na competição sem impôr qualquer tipo de corte.

A bela fotografia PB do filme A Lullaby to the Sorrowful Mystery, de oito horas. (photo by outnow.ch)

A bela fotografia PB do filme A Lullaby to the Sorrowful Mystery, de oito horas. (photo by outnow.ch)

Embora a presidente do júri seja um ícone hollywoodiano (Streep), não houve qualquer premiação para as produções estreladas por hollywoodianos como o filme Genius, com Colin Firth e Jude Law; ou Alone in Berlin, com Emma Thompson e Brendan Gleeson; ou Midnight Special, novo filme de Jeff Nichols protagonizado por Michael Shannon e Joel Egerton.

Seguem os vencedores da 66ª edição do Festival de Veneza:

URSO DE OURO
Fire At Sea
Dir: Gianfranco Rosi

URSO DE PRATA GRANDE PRÊMIO DO JÚRI
Death in Sarajevo
Dir: Danis Tanović

PRÊMIO ALFRED BAUER para filme que abre novas perspectivas
A Lullaby To The Sorrowful Mystery
Dir: Lav Diaz

MELHOR DIRETOR
Mia Hansen-Løve (Things To Come)

MELHOR ATRIZ
Trine Dyrholm (The Commune)

MELHOR ATOR
Majd Mastoura (Hedi)

Vencedor de Melhor Ator, Majd Mastoura por Hedi (photo by rbb-online.de)

Vencedor de Melhor Ator, Majd Mastoura por Hedi (photo by rbb-online.de)

MELHOR ROTEIRO
Tomasz Wasilewski (United States Of Love)

PRÊMIO DE CONTRIBUIÇÃO ARTÍSTICA
Mark Lee Ping-Bing pela fotografia de Crosscurrent

MELHOR FILME DE ESTRÉIA
Hedi (Inhebbek Hedi)
Dir: Mohamed Ben Attia

URSO DE OURO DE CURTA-METRAGEM
Balada De Um Batráquio
Dir: Leonor Teles

URSO DE PRATA PRÊMIO DO JÚRI DE CURTA-METRAGEM

A Man Returned
Dir: Mahdi Fleifel

PRÊMIO AUDIO DE CURTA-METRAGEM
Jin Zhi Xia Mao
Dir: Chiang Wei Liang

Retrospectiva 2014: Meu ano com os filmes


O host do Oscar 2015, Neil Patrick Harris, em sua mensagem de fim de ano

Primeiramente, gostaria de agradecer ao pessoal que visita o blog, acompanha os posts com paciência e comenta. Trata-se do melhor incentivo que recebo, uma vez que escrevo aqui puramente por paixão ao ofício e à Arte do Cinema. O post de hoje é o último do ano de 2014. Achei uma boa idéia fazer uma espécie de retrospectiva do ano em relação aos principais acontecimentos e aos filmes vistos. Gostaria também de convidar a todos pra escrever sobre os seus favoritos (ou piores) de 2014.

OSCAR 2014

A Academia fez história ao premiar 12 Anos de Escravidão como Melhor Filme. Trata-se do primeiro produzido e dirigido por um negro (Steve McQueen), assim como escrito por um roteirista negro (John Ridley) a ganhar o Oscar. Curiosamente, esse fato ocorre no mesmo ano em que há uma crise nos conflitos raciais nos EUA, originada por morte de negros por policiais brancos, prova de que o racismo está longe de ter fim, mesmo em pleno século XXI. Não sei se a escolha da Academia teve maior embasamento político, mas meu voto iria para O Lobo de Wall Street. Depois que Martin Scorsese ganhou finalmente seu Oscar em 2007, ele se libertou das amarras do academicismo e passou a alçar vôos mais ambiciosos. De lá pra cá, ele dirigiu o ousado terror noir de A Ilha do Medo, a carta de amor ao Cinema de A Invenção de Hugo Cabret e este libertino O Lobo de Wall Street, pelo qual ele teve finalmente sua recompensa em apostar em Leonardo DiCaprio. É um raríssimo caso em que o Oscar continuou iluminando a carreira já vitoriosa de um vencedor.

Quanto aos resultados, eu tiraria o Oscar de montagem de Gravidade e daria para Capitão Philips, por conseguir manter a tensão do início ao fim claustrofóbico. O Oscar de maquigem também teria outro dono na minha opinião, pois Clube de Compras Dallas tem mais do esforço dos atores do que maquiagem propriamente dita. E gostaria que o Oscar de coadjuvante fosse para a graciosa June Squibb por Nebraska. Pode parecer que estou preferindo Squibb a Lupita Nyong’o simplesmente pela idade, mas eu realmente considero sua interpretação mais consistente. Ela é o ponto de equilíbrio entre os personagens do filho (Will Forte) e o pai (Bruce Dern) sem deixar de perder o senso de humor e a ternura. Eu também gostaria que Judi Dench vencesse seu segundo Oscar por Philomena, mas Cate Blanchett estava tão imbatível em Blue Jasmine que parecia missão impossível.

June Squibb em cena de Nebraska (photo by cinemagia.ro)

June Squibb em cena de Nebraska (photo by cinemagia.ro)

MARATONA JAMES BOND

Fui introduzido ao universo de James Bond pelo meu pai, que assistia aos filmes de Sean Connery nos cinemas. Na adolescência, cheguei a juntar minha mesada pra comprar a coleção de VHS que saiu nas bancas e fui conhecendo filme por filme. Como comprei a coleção em blu-ray no final do ano passado, achei uma ótima oportunidade pra fazer uma maratona James Bond neste ano e em ordem cronológica de lançamento.

Claro que os melhores filmes permanecem aqueles estrelados por Sean Connery. Meu pai e meu irmão gostam de Moscou Contra 007. Já eu prefiro 007 Contra o Satânico Dr. No pelo frescor na espionagem ou 007 Contra Goldfinger por ser bem icônico na saga, mas confesso que se eu pudesse eleger apenas um, meu favorito hoje seria 007 – Cassino Royale. Gosto da estrutura do filme, que segue as pistas até chegar aos peixes grandes. Os personagens estão bem definidos: dos vilões Mollaka, que pratica le parkour no início do filme, Le Chiffre, que conta com a força da presença de Mads Mikkelsen, a incógnita Vesper Lynd feita pela igualmente misteriosa Eva Green, e o que dizer de Daniel Craig? Admito que quando soube da escolha dele como 6º Bond, tive minhas dúvidas, mas que logo se dissiparam nos primeiros minutos do filme. Meu pai, fã de Connery, não gosta de Craig: “Ele é muito burucutu, sem charme”. Sim, no filme ele é meio sem noção, mas temos que lembrar que se trata de um reboot na franquia. O personagem icônico está em sua primeira missão como agente com permissão para matar e seus deslizes são mais do que comuns e perdoáveis. Daniel Craig tornou o personagem palpável, com direito a cometer erros, vulnerável e humano. É ali também que descobrimos por que ele se tornou tão desconfiado em relação às mulheres.

Indubitavelmente, depois de sua inserção no universo de Bond, a saga do espião nos cinemas definitivamente subiu de nível. Deixou de ser aquelas aventuras que só tinham o intuito de mostrar belas mulheres e locações para acrescentar à cultura mundial. Infelizmente, sofreu com a greve de roteiristas em 007 – Quantum of Solace, mas com 007 – Operação Skyfall, com a colaboração do diretor Sam Mendes, o diretor de fotografia Roger Deakins e o diretor de arte Dennis Gassner, a parte técnica foi para patamares nunca explorados, tanto que o filme recebeu indicações ao Oscar de fotografia, e o ganhou o BAFTA de Melhor Filme Britânico.

Um fato curioso é que este ano, três atores que viveram vilões na saga James Bond partiram: Richard Kiel, que interpretou Jaws, o vilão que virou mocinho (007 – O Espião que Me Amava e 007 Contra o Foguete da Morte). Gottfried John, o frio Coronel Ourumov (007 Contra GondenEye). E Geoffrey Holder, o imortal Barão Samedi (Com 007 Viva e Deixe Morrer).

Do topo da esquerda em sentido horário:  Sean Connery, George Lazenby, Roger Moore, Daniel Craig, Pierce Brosnan e Timothy Dalton (photo by thekliqnation.com)

Do topo da esquerda em sentido horário: Sean Connery, George Lazenby, Roger Moore, Daniel Craig, Pierce Brosnan e Timothy Dalton (photo by thekliqnation.com)

MARVEL NAS MÃOS CERTAS E ERRADAS

Como fã declarado da Marvel Comics do tipo que colecionava quadrinhos do Homem-Aranha e X-Men, vou aos cinemas ver as adaptações com um sorriso enorme no rosto, pois na época em que acompanhava as histórias, pensava que esse dia jamais chegaria. Este ano, o maior prazer foi assistir à sequência Capitão América: O Soldado Invernal, tanto que fui duas vezes ao cinema. A grande fórmula do sucesso do produtor Kevin Feige tem sido o acerto na hora de contratar os diretores, roteiristas e atores. Nada de ficar cedendo às pressões dos executivos dos estúdios para chamar celebridades ou diretores com pedigree. Os diretores Anthony Russo e Joe Russo também acertaram ao abordar o resgate do Capitão América ao século XXI como um grande filme de espionagem dos anos 70 como Três Dias de Condor.

Robert Redford e Chris Evans em cena de Capitão América: O Soldado Invernal (photo by cinemagia.ro)

Robert Redford e Chris Evans em cena de Capitão América: O Soldado Invernal (photo by cinemagia.ro)

Inteligentemente, a Marvel Studios não vive apenas de sequências para não ver a fonte de renda secar. Para isso, ela fez uma aposta de alto risco com a adaptação de Guardiões da Galáxia, pois são personagens considerados de segunda linha da editora, e por isso, tinham tudo para ser um possível fracasso comercial. A aposta se estendeu até na escolha do protagonista: o jovem Chris Pratt, que até então era ator de segundo escalão e coadjuvante da série de comédia Parks & Recreation, felizmente deu bastante certo como Peter Quill, vulgo Star Lord. Após tamanho sucesso nas bilheterias, a sequência já está confirmada para 2017, e Pratt ainda conseguiu papel de protagonista no próximo Jurassic World.

Integrantes excêntricos do grupo Guardiões da Galáxia. (photo by outnow.ch)

Integrantes excêntricos do grupo Guardiões da Galáxia. (photo by outnow.ch)

Infelizmente (mesmo!), como a Marvel Comics faliu nos anos 90, ela se viu obrigada a vender os direitos autorais de seus personagens para grandes estúdios como Fox e Sony, o que impossibilita os tão aguardados crossovers nas telas e geram incontáveis novas adaptações de qualidade duvidosa. Digamos que a Marvel Studios, que originou sucessos como a trilogia do Homem de Ferro e Os Vingadores, cria os filmes com planejamento e respeito ao público e aos milhares de fãs mundo afora. Já a Sony e Fox estão mais interessadas em pegar carona na alta dos super-heróis, tanto que fizeram reboots do Homem-Aranha apenas 5 anos depois de Homem-Aranha 3 (estrelado por Tobey Maguire) e dos mutantes X-Men com X-Men: Primeira Classe, retratando a juventude dos personagens nos anos 60 e, agora com X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, praticamente apagaram toda a história passada nos filmes anteriores por causa das viagens no tempo.

Para o grande público, talvez quem produz o filme não faça diferença, mas os números nas bilheterias são mais uma prova de que quando as adaptações são bem pensadas, bem filmadas e bem finalizadas, o sucesso é mera consequência e os filmes entram para a História do Cinema.

NETFLIX E OUTRAS ALTERNATIVAS

Depois da dificuldade que passei ano passado em encontrar títulos no mercado legal (precisava assistir a A Hora Mais Escura pra escrever um artigo antes do Oscar), tive que recorrer a outros meios “não tão legais assim”. Este ano, descobri um bom site chamado Toca dos Cinéfilos, que dispõe de um ótimo acervo de filmes em streaming. De lá, assisti finalmente ao filme romeno vencedor da Palma de Ouro, 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, que estava procurando há tempos. Claro que não apresenta a melhor qualidade de imagem de áudio e vídeo, mas na atual conjuntura, “é o que tem pra hoje”. Não recomendo aos cinéfilos assistir aos filmes nesses sites por se tratar de um crime previsto em lei, mas com a péssima distribuição de filmes e os altos impostos cobrados em mídias digitais como DVDs e Blu-Rays aqui no Brasil, não tem como desestimular as pessoas a procurar outras alternativas.

Hoje em dia, um ingresso de cinema não sai por menos de 25 reais nos shoppings, sem contar o estacionamento e aqueles combos de pipoca de ouro. Enquanto isso, o filme polonês favorito ao Oscar de Filme em Língua Estrangeira, Ida, está disponível nesse site. Claro que em qualidade inferior e dublado num francês meio sofrível, mas quem não tem cão..

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (photo by outnow.ch)
4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (photo by outnow.ch)

Já no Netflix, confesso que mais revi do que assisti novos filmes. Um Príncipe em Nova York, Um Tira no Jardim de Infância e Os Garotos Perdidos foram alguns desses títulos, que não via há um bom tempo. Mas a maior surpresa ficou por conta de um achado: O Destino Mudou sua Vida, de Michael Apted. Como sempre fui atrás dos filmes que ganharam o Oscar, procurei por este que rendeu a estatueta de Melhor Atriz para Sissy Spacek por vários anos, mas nunca tinha visto cópia em VHS ou DVD. A performance de Spacek é digna de nota, pois ela abrange a personagem real Loretta Lynn da adolescência até a idade adulta no auge da carreira de cantora country, além de cantar com sua própria voz. A atriz bateu outros nomes de peso como Gena Rowlands, Ellen Burstyn e Mary Tyler Moore naquele ano de 1981. E curiosamente, Tommy Lee Jones faz o marido Doolittle Lynn; mesmo bem mais novo, já tinha aquela cara de carrancudo!

Tommy Lee Jones e Sissy Spacek em O Destino Mudou Sua Vida (photo by outnow.ch)

Tommy Lee Jones e Sissy Spacek em O Destino Mudou Sua Vida (photo by outnow.ch)

CRÍTICAS POSITIVAS E NEGATIVAS

Pra não dizer que só fui na base da ilegalidade, comprei o DVD da ficção científica Sob a Pele, de Jonathan Glazer, mesmo este disponível em streaming. Provavelmente é o filme mais estranho que vi este ano. Por mais que tenha sentido falta de uma coerência ou até mesmo uma questão de unidade, foi um dos filmes que mais se destacaram pelo frescor de suas imagens, aliadas a uma trilha igualmente bizonha com direito a tema de sedução. Acredito que são esses filmes que almejam inovações que fazem do cinema uma Arte que atravessa as décadas e se mantém no topo, porque se dependesse de produtores atuais que só pensam em números de bilheteria, o Cinema seria um entretenimento acéfalo do tipo “Pão e Circo”.

Cena de Sob a Pele (photo by cinemagia.ro)

Cena de Sob a Pele (photo by cinemagia.ro)

Apesar de não bater muito bem da cabeça, os filmes de Lars von Trier seguem na mesma linha de inovação, do tipo “ame ou odeie”. Este ano, vi os dois volumes do filme Ninfomaníaca. Assim como os filmes de Kill Bill, de Tarantino, a divisão tornou o primeiro volume em algo mais episódico e de humor mais acertivo, já o segundo é mais sóbrio com a busca pelo prazer ultrapassando os limites físicos e psicológicos que lembram o néo-clássico de Nagisa Oshima, O Império dos Sentidos (1976). Como o diretor dinamarquês iniciou sua carreira com filmes esteticamente perfeitos como Elemento de um Crime (1984) e Europa (1991), e depois pegou carona no Movimento Dogma 95 que não permitia recursos técnicos básicos como iluminação, resultando em Os Idiotas (1998) e Dançando no Escuro (2000), ele teve uma interessante experiência na mistura da estética com a narrativa. Seus últimos filmes são provas concretas desse aprendizado: Dogville (2003), Anticristo (2009), Melancolia (2011) e esses dois Ninfomaníaca. Em 2011, foi banido do Festival de Cannes quando declarou que “entendia Hitler” e se dizia anti-semita, mas independente de suas posições políticas, seus filmes já podem ser considerados eventos.

Cena de Ninfomaníaca Vol. 2 - Versão do Diretor (photo by outnow.ch)

Cena de Ninfomaníaca Vol. 2 – Versão do Diretor (photo by outnow.ch)

Já em relação aos filmes mais mainstream, meu voto de melhor do ano vai para Boyhood: Da Infância à Juventude. Gosto de praticamente tudo: do projeto de 12 anos, da paixão dos profissionais envolvidos por tanto tempo, do roteiro “sem história”, dos personagens centrais em constante transformação, da expectativa da mãe sobre a vida: “É isso? Eu esperava mais…”. É um filme intimista que explora a relação que temos com o tempo e com as pessoas que amamos. A gente fica tão ligado em histórias e tramas mirabolantes, que esquecemos o poder de um olhar tão atento aos detalhes como o de Richard Linklater. Não vi todos os possíveis concorrentes, mas espero que Boyhood consiga suas indicações e até ganhe o Oscar de Melhor Filme.

Da esquerda para a direita: Lorelei Linklater, Ethan Hawke e Ellar Coltrane em Boyhood: Da Infância à Juventude (photo by elfilm.com)

Da esquerda para a direita: Lorelei Linklater, Ethan Hawke e Ellar Coltrane em Boyhood: Da Infância à Juventude (photo by elfilm.com)

Quanto às bombas do ano, meu voto vai para o novo Godzilla. Quando se erra no tom, nem trazendo Tom Cruise, Brad Pitt, Julia Roberts, Meryl Streep… quer dizer, Meryl Streep não. Ela é à prova de fracassos! Não sou fanático por filmes de monstros, mas gostei do sul-coreano O Hospedeiro (2006) e achei interessante o Cloverfield: Monstro (2008), por exemplo, mas essa nova versão do monstro nuclear nipônico não acrescenta em nada na história originada nos anos 50. Quanto ao tom, se fosse mantido o mesmo do início do filme em que Juliette Binoche e Bryan Cranston realmente vivem personagens envolvidos numa tragédia, certamente o filme seria outro. Se tem uma receita certa para filmes de monstros, é que se deve valorizar muito mais os personagens do que o monstro em si. E fiquei com pena da Sally Hawkins, que por mais que tenha ganhado seu salário, não passou de uma tradutora de japonês de Ken Watanabe: um desperdício de talento.

Godzilla: Enquanto Bryan Cranston esteve na tela, o filme era "assistível". Depois eu queria meu dinheiro de volta! (photo by outnow.ch)

Godzilla: Enquanto Bryan Cranston esteve na tela, o filme era “assistível”. Depois eu queria meu dinheiro de volta! (photo by outnow.ch)

Gostaria de aproveitar pra fazer um comentário à parte em relação ao filme Garota Exemplar. Quando soube que o livro seria adaptado para o cinema pelas mãos de David Fincher, não hesitei em comprar o livro e ler, afinal, ele é o melhor diretor pra cuidar de personagens psicóticos (Seven: Os Sete Crimes Capitais, Clube da Luta e Zodíaco), mas fiquei um pouco desapontado com o resultado final. Desde o sucesso de A Rede Social (2010), o estilo visual de Fincher não mudou quase nada nos filmes seguintes: Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011) e agora Garota Exemplar. Mesmo não se tratando de um trilogia, o diretor realizou uma espécie de “pasteurização” em todos os departamentos: fotografia com cores frias, direção de arte, trilha musical com poucas notas e uma montagem frenética que beira o automático. Embora Garota Exemplar seja uma boa adaptação do best-seller de Gillian Flynn, o diretor poderia rever seus conceitos para o próximo projeto antes que se torne repetitivo demais.

FILMES NA 38ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO

Toda vez que a Mostra de Cinema vai vender pacotes de filmes, estou fora da cidade! Felizmente, desde o ano passado, o evento passou a contar com a evolução das vendas de ingresso pela internet. Pra quem trabalha o dia todo e não tem como ficar trocando ingressos durante o dia, a internet é uma mão na roda. Depois de muita análise da programação, consegui pegar algumas sessões interessantes como a de Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo. O novo filme de Bennett Miller foi indicado à Palma de Ouro em Cannes e saiu com o prêmio de Direção. O trio de atores está excepcional: Steve Carell impressiona por sua frieza nas expressões e em sua movimentação lenta, como se estivesse num transe; Channing Tatum como uma força incontrolável e sem direção, com olhar misterioso e perdido; e Mark Ruffalo consegue cativar como o irmão mais velho de Tatum com carisma e seriedade sem fazer muito esforço, já que tem um talento natural para se transformar nos personagens.

Channing Tatum e Mark Ruffallo trabalham no novo filme de Bennett Miller (photo by outnow.ch)

Channing Tatum e Mark Ruffallo trabalham no novo filme de Bennett Miller, Foxcatcher (photo by outnow.ch)

Também destaco o filme russo Leviatã, que faz uma ótima metáfora religiosa da história de Jó com uma leitura política da Rússia de hoje, sem abrir mão do humor ácido e politicamente incorreto. Adoraria ver a reação do presidente Vladimir Putin ao ver esse filme! É um belo tapa na cara da república ditatorial que ele vem criando. Gostaria que houvesse mais filmes assim aqui no Brasil, pois já que os políticos são intocáveis, nada melhor do que um tapa bem dado em quem governa e rouba este país. Por Leviatã, o diretor Andrey Zvyagintsev foi merecidamente premiado pelo roteiro em Cannes, e está concorrendo ao Globo de Ouro de Filme Estrangeiro.

Cena de A Pequena Morte (photo by outnow.ch)

Cena de A Pequena Morte (photo by outnow.ch)

Já na repescagem da Mostra, apostei no filme australiano A Pequena Morte e me surpreendi bastante. Já que o título se refere à pequena morte do orgasmo, o filme conta com várias histórias de casais com problemas sexuais que habitam o mesmo bairro. Como num filme de Robert Altman, os personagens cruzam entre si durante suas jornadas particulares, formando um mosaico irresistível de humor refinado, que nunca vi antes numa comédia americana. Aliás, vi o filme no CineSesc da rua Augusta e nessa noite, estava caindo um temporal dos infernos. Como a sala não tinha gerador, a projeção foi interrompida umas cinco vezes! O público só ficou mesmo porque o filme valia a pena. Não deve ter previsão de estréia por aqui, pra variar, então o jeito é vasculhar na internet…

ATOS SELVAGENS NO CINEMA

Enquanto o filme começava na sala do shopping Bourbon, um casal chegou atrasado e segundo relatos da minha prima, que sentou ao lado, não parava de fazer comentários do tipo: “Ah isso é típico de argentino!”. Fato que irritou também o casal de idosos que estava sentado logo na fileira de trás, que passou a dar uns “chutes amigáveis” na poltrona na mulher falastrona pra ver se se toca, mas o nível de ignorância foi tamanha, que a mulher passou a gritar com palavras de baixo calão para a senhora, que ficou perplexa. A discussão durou cerca de 2 minutos, e nesse momento, o público ficou mais interessado no relato selvagem da realidade do que do próprio filme que trata de personagens em situação limite.

Relatos Selvagens é formado por seis segmentos não-interligados entre si, mas que possuem personagens à beira de um ataque de nervos em comum, então são muitas situações envolvendo vingança e momentos críticos. Como é um tema universal, fica muito fácil de se identificar com as histórias. Em especial, a história denominada “Bombita”, estrelada por Ricardo Darín, ele tem seu carro guinchado por ter estacionado em local proibido mal sinalizado. Indignado com a lei má aplicada, ele enfrenta a burocracia a seu modo. Tenho certeza de que todo brasileiro se identificou e torceu pelo personagem.

Cena da última história do argentino Relatos Selvagens (photo by cine.gr)

Cena da última história do argentino Relatos Selvagens (photo by cine.gr)

Quanto à barbarie dentro das salas de cinema, tive outra experiência negativa ao assistir o terror Annabelle. Eu já sabia que encararia público mais mal comportado e “aborrecente”, por isso mesmo, meus amigos e eu decidimos pegar a última sessão de uma segunda-feira. Eu até pensei em deixar pra ver em casa, mas além de terror ser um gênero propício para cinema, o filme estava batendo recordes de bilheteria no Brasil, sendo o mais visto no gênero da História! Depois que o filme terminou, vi o quão baixo está o nível mínimo de exigência do público brasileiro. Que filme ruim! Roteiro fraquíssimo com personagens fúteis em cenas que não avançam a história e sequer assustam. Como se não bastasse o horror do filme, tinha o horror da sala de cinema pra aturar. Havia dois casais do tipo início de relacionamento, em que o macho quer impressionar a fêmea explicando os acontecimentos com narração à la Galvão Bueno. Felizmente, meu amigo é mais cri-cri do que eu, ele conseguiu impôr silêncio a um dos casais com um pedido educado, mas o outro não quis nem saber. Achava que estava na sala da casa deles, e nem quis saber!

Quando eu reclamo bastante aqui que o público não sabe se comportar na sala de cinema, não é exagero da minha parte. Tem muita gente que acha que tem o direito de conversar, falar alto, deixar o celular ligado e atender (!), comer alimentos impróprios para uma sala fechada como McDonald’s (a sala inteira passa a cheirar queijo) e, se abordada por outro espectador incomodado, ainda se defende dizendo que está pagando para ver o filme! Teve momentos na minha vida, em que eu era mais revoltado e chegava a discutir ou pelo menos lançar um sucinto “Shhh”, mas depois de tanto presenciar reações ignorantes e até agressivas, passei a deixar de lado. Procuro me concentrar no filme ao máximo, e caso o papagaio seja incansável, procuro um outra poltrona livre para me mudar.

‘A ENTREVISTA’ ENTRE EUA, HOLLYWOOD E CORÉIA DO NORTE

A saga do filme A Entrevista começou alguns meses atrás, mas como continua tendo desdobramentos, preferi aguardar algum desfecho para me pronunciar aqui. Resumidamente, o estúdio Sony sofreu um ataque de hackers em novembro, causando desdobramentos desagradáveis. Primeiramente, e-mails entre executivos foram expostos, revelando orçamentos de produções, salários de artistas e expondo conversas pessoais contendo críticas e ofensas a algumas celebridades como Angelina Jolie. O produtor Scott Rudin teria classificado a atriz e diretora como “mimada e pouco talentosa” numa troca de e-mails com a produtora Amy Pascal.

Cena de A Entrevista com James Franco (centro) e Seth Rogen (à direita). Photo by outnow.ch

Cena de A Entrevista com James Franco (centro) e Seth Rogen (à direita). Photo by outnow.ch

Até aí, tudo bem. Não houve consequências desastrosas, mas apenas situações embaraçosas. Contudo, o vazamento ganhou proporções colossais quando o grupo por trás do ataque passou a ameaçar os EUA se a Sony resolvesse lançar o filme de comédia A Entrevista: “Mostraremos claramente que os locais de exibição de ‘A Entrevista’ no dia da estréia terão um destino amargo… O mundo verá em breve que filme ruim fez a Sony Pictures. O mundo estará repleto de medo. Lembrem-se do 11 de setembro de 2001. Recomendamos que fiquem longe dos cinemas”. Aí o negócio ficou feio e a Sony decidiu cancelar o lançamento previsto para o Natal. A decisão não agradou o presidente Barack Obama, que em seu discurso, diz que não negocia com terroristas e que baixar a cabeça é abrir mão da liberdade de expressão que tanto o país lutou para conquistar. Houve um disse-que-me-disse entre a Sony e os exibidores. O estúdio alegou que os cinemas abortaram a exibição, enquanto os cinemas defendem que a Sony que cancelou o lançamento.

A bem da verdade é que não dá pra arriscar vidas inocentes, ainda mais depois do 11 de setembro, mas também não podemos ferir a liberdade que nos é tão essencial hoje. Em minha humilde opinião, adiaria o lançamento por umas duas semanas até conseguir rastrear o sinal dos hackers; e não simplesmente cancelar. Muito se falou que o governo norte-coreano estaria por trás do ataque e das ameaças, mas nada foi realmente provado. Acho inadmissível o governo da maior potência do mundo não conseguir identificar a origem das ameaças. Se o ex-funcionário da NSA, Edward Snowden, nos ensinou é que todos podem ser vigiados pela Inteligência norte-americana. Onde estão os responsáveis? Meu palpite é que são um bando de nerds hackers gordinhos escondidos numa casa num estado americano.

Ativistas? ONG? Teorias conspiratórias republicanas que almejam uma guerra entre EUA e Coréia do Norte para vender mais armamento bélico? Depois do fascínio pelo personagem anárquico do Coringa em Batman: O Cavaleiro das Trevas, não duvido nem um pouco que se tratam de pessoas que querem ver apenas o circo pegar fogo.

Por enquanto, o resultado final é feliz. O filme foi lançado em salas selecionadas e está faturando alto, até mesmo pela curiosidade do público depois das notícias. Apesar de ter faturado 3 milhões de dólares nas salas, está rendendo mais de 15 milhões em serviços online. Engraçado que depois de um incidente desses, se os resultados melhorarem ainda mais, os executivos podem lançar mais filmes online.

DESPEDIDAS

No Oscar 2015, a homenagem In Memorian deverá tomar mais tempo. Foram tantos artistas e profissionais que nos deixaram este ano, que a lista é extensa. Remanescentes e lendas da era de ouro do Cinema como Lauren Bacall, Shirley Temple e Mickey Rooney se foram, assim como grandes nomes indicados ao Oscar como James Garner, Bob Hoskins, Ruby Dee, Juanita Moore, e o diretor Paul Mazursky. Entre os vencedores do prêmio da Academia, perdemos o grande diretor Mike Nichols (vencedor por A Primeira Noite de um Homem em 1968), o diretor Richard Attenborough (vencedor por Gandhi) e que curiosamente, é mais conhecido por ter vivido o criador do parque dos dinossauros, o Dr. Hammond em Jurassic Park, e a perda precoce do documentarista Malik Bendjelloul, vencedor de Melhor Documentário por Procurando Sugar Man em 2013, aos 36 anos por suicídio.

Aliás, infelizmente, o suicídio foi pauta nas mortes dos atores Robin Williams e Philip Seymour Hoffman. Enquanto o primeiro sofria de um quadro de depressão, o segundo estava lutando contra as drogas, mas ambos estavam necessitando de ajuda urgentemente. A morte de Robin Williams acabou chamando mais a atenção da mídia pela disparidade, tanto que muitos se perguntavam: “Como um ator e comediante que vivia fazendo papéis cômicos se enforca por depressão?”. Se olharmos com atenção a escolha de papéis dele, só tem tristeza: o pediatra de crianças especiais de Patch Adams – O Amor é Contagioso, o mendigo de O Pescador de Ilusões, o pai que não consegue ficar com os filhos em Uma Babá Quase Perfeita, e o que dizer do médico que morre para resgatar sua esposa do inferno em Amor Além da Vida!? Já dá pra ficar deprê só de ver os filmes, imagine vivenciar esses personagens por meses?

A morte de Philip Seymour Hoffman me lembrou a perda de Heath Ledger. Dois talentos recentemente descobertos que logo partiram deixando um legado que muitos batalham a carreira toda e não conseguem. O mais triste foi ler no jornal: “Ator de ‘Jogos Vorazes’ morre aos 46 anos”. O cara estrela Boogie Nights – Prazer Sem Limites, O Grande Lebowski, Magnólia, O Talentoso Ripley, A Última Noite, A Família Savage, Jogos do Poder, Sinédoque Nova York, Dúvida, O Mestre e vence o Oscar por Capote, e termina como ator de Jogos Vorazes. Que triste…

Philip Seymour Hoffman com seu Oscar por Capote (photo by post-gazette.com)

Philip Seymour Hoffman com seu Oscar por Capote (photo by post-gazette.com)

Também gostaria de citar o ator e diretor Harold Ramis, que ficou mais conhecido como Egon dos Caça-Fantasmas e diretor de Feitiço do Tempo; e do grande Eli Wallach, que viveu o inesquecível Tuco do grande western spaghetti Três Homens em Conflito, de Sergio Leone. E hoje foi anunciada a morte da atriz Luise Rainer aos 104 anos. Ela ganhou dois Oscars consecutivos de Melhor Atriz por Ziegfeld – O Criador de Estrelas e Terra dos Deuses na década de 30.

FELIZ 2015!

Gostaria de desejar um próspero ano novo para todos os cinéfilos mundo afora. Que em 2015, haja mais compreensão e menos corrupção. Não defendo nenhum partido, mas só nesse escândalo da Petrobrás, foram roubados 10 bilhões de reais. Imaginem o que esse dinheiro poderia fazer para a educação do nosso país? Recentemente, assisti ao Noites de Cabíria, de Federico Fellini. Nele, a personagem de Giulietta Masina vive uma prostituta que sofre o filme todo, mas sempre mantém a esperança de uma vida melhor. E é esse filme que recomendo para aqueles que acreditam que o futuro pode ser, sim, melhor! Forte abraço a todos e Feliz 2015!

Giulietta Masina como a personagem Cabiria (photo by cineyteatro.es)

Giulietta Masina como a personagem Cabiria (photo by cineyteatro.es)

 

Lars von Trier contra-ataca com os pôsteres de ‘Nymphomaniac’

Charlotte Gainsbourg

Charlotte Gainsbourg

Há quanto tempo você não ficava admirando um pôster de um filme no cinema? Considerado essencial para a venda de um filme entre as décadas de 50 e 70, o pôster (ou cartaz para alguns) foi perdendo sua importância, e hoje mais serve para como capa para DVDs e Blu-Rays. Com esse trabalho ousado, o diretor dinamarquês Lars von Trier busca o choque para chamar a atenção para seu mais novo filme: Nymphomaniac.

Com previsão de estréia no dia 25 de dezembro deste ano na Dinamarca (e obviamente sem previsão de estréia no Brasil), Nymphomanic foca numa ninfomaníaca (Charlotte Gainsbourg) que reconta suas experiências eróticas a um homem que a salvou de um espancamento. Para quem conhece a filmografia de Trier, sabe que esse tipo de trama não é nenhuma novidade, especialmente se já viu Anticristo (2009), no qual havia cenas de sexo explícito numa sequência inicial belíssima em fotografia PB.

Charlotte Gainsbourg num momento garota fiel... (photo by www.OutNow.CH)

Charlotte Gainsbourg num momento garota fiel… (photo by http://www.OutNow.CH)

Charlotte Gainsbourg num sanduíche em cena de Nymphomaniac (photo by www.OutNow.CH)

… e em seguida num momento “very nasty” num sanduíche em cena de Nymphomaniac (photo by http://www.OutNow.CH)

Pra quem desconhece Lars von Trier, vale lembrar que ele foi um dos fundadores do movimento Dogma 95, que tinha como lema a busca por um cinema voltado exclusivamente à história. Nesse período, ele lançou o polêmico Os Idiotas (1996), que já continha cenas explícitas de um grupo que se reunia no subúrbio de Copenhague para testar seus limites, e o não menos polêmico Ondas do Destino (1996), no qual Emily Watson (indicado ao Oscar) atende ao pedido do marido para fazer sexo com outros homens. Porém, antes do movimento, o diretor já era conceituado devido a filmes de forte impacto visual como Elemento de um Crime (1984) e Europa (1991).

Lars von Trier não bate muito bem da cabeça (já foi internado numa espécie de hospital psiquiátrico na Dinamarca) e às vezes se mostra tão espontâneo que acaba prejudicando seus filmes. Em 2011, quando seu filme Melancolia estava indicado à Palma de Ouro, na coletiva de imprensa no Festival de Cannes, ao ser questionado sobre suas origens germânicas, o diretor respondeu: “Eu entendo Hitler, até simpatizo com ele”. Foi um choque até para as atrizes Charlotte Gainsbourg e Kirsten Dunst que estavam ao lado. “Durante muito tempo pensei que fosse judeu e era feliz com isso. Aí conheci Susanne Bier (a diretora dinamarquesa judia que fez parte do Dogma 95) e não fiquei tão contente. Então descobri que era nazista, que minha família era alemã. O que me deu muito prazer”, continuou o diretor.

Como se não bastassem os comentários nazistas, Lars von Trier queria compartilhar sua tatuagem fofa de FUCK. Isso que é macho! (photo by www.20minutos.es)

Como se não bastassem os comentários nazistas, Lars von Trier queria compartilhar sua tatuagem fofa de FUCK. Isso que é macho! (photo by http://www.20minutos.es)

Depois dessa declaração, mesmo tendo pedido desculpas, o diretor foi banido do festival e teve suas chances anuladas de vencer pela segunda vez a Palma de Ouro (venceu em 2000 com o musical Dançando no Escuro). Em entrevista em abril deste ano, o diretor artístico de Cannes, Thierry Frémaux, afirmou que Lars von Trier é bem-vindo novamente, e que sua expulsão valia apenas para aquele ano. Apesar de toda a polêmica, Kirsten Dunst saiu consagrada com o prêmio de interpretação feminina.

A verdade é que Lars von Trier é um nome que o Cinema atual necessita. Em meio a tantas produções chochas, sem criatividade e que trazem mais a visão dos produtores do que do diretor, é impossível sair da exibição de um de seus filmes indiferente. As imagens grudam na nossa mente, a temáticas pedem por uma reflexão e seu cinema como linguagem busca inovar o modo como o público vê cinema. Claro que você pode ter odiado um filme ou outro dele, mas certamente perdurará muito mais tempo na memória. Alguns podem considerar exagero da minha parte, mas considero Lars von Trier do mesmo patamar de Stanley Kubrick que, além de ser um mestre visual, busca inovações em todos os gêneros do cinema. (Claro que Kubrick tinha mais acertos do que erros, mas aí seria uma outra questão…)

E pra comprovar que não é exagero, Lars tem conseguido atrair atores queridinhos de Hollywood. Além da Mary Jane de Homem-Aranha, Kirsten Dunst, temos Christian Slater (Entrevista com o Vampiro), Jamie Bell (Billy Elliot), Uma Thurman (Kill Bill vol. 1 e 2), Connie Nielsen (Gladiador), Willem Dafoe (Homem-Aranha), Stellan Skarsgård (The Avengers – Os Vingadores) e até o astro de Transformers, Shia LaBeouf.

Elenco de Nymphomaniac numa foto que tenta recriar as ilusões sexuais

Elenco de Nymphomaniac numa foto que tenta recriar as “ilusões” sexuais. Ao fundo à esquerda, o diretor Lars von Trier com uma câmera e a boca tapada por um silver tape. Homenagem à Cannes?

Voltando ao Nymphomaniac, cada um dos atores do filme estrelou seu pôster num momento bastante íntimo do orgasmo. Obviamente, já houve críticos ferrenhos contra essa arte, mas vale lembrar que estamos numa geração em que o livro best-seller, “Cinquenta Tons de Cinza”, é sobre sadomasoquismo e otras coisitas más. Obviamente, um pôster está muito mais suscetível aos olhos de uma criança que passeia pelo cinema do que um livro. Fica meio difícil para um pai ou uma mãe responder à pergunta: “Mãe, por que ela está com essa cara?”. Que fique claro que não sou a favor de NENHUM tipo de censura, mas por salas de cinema serem frequentadas por crianças, talvez os distribuidores e os exibidores devam analisar o melhor local para que esses pôsteres sejam admirados pelo público adulto. Se a rede Cinemark exibir o filme, talvez seja uma estratégia a seguir, mas se Nymphomaniac se limitar a salas de público adulto como Reserva Cultural, não haveria problema algum.

Lembrando que já está acertada a sequência The Nymphomaniac – Part 2, sem previsão de estréia. Enquanto isso, confira os demais pôsteres de Nymphomanic (posters by http://blogs.indiewire.com/theplaylist):

nymphomaniac_slater

Christian Slater

nymphomaniac_mia

Mia Goth

nymphomaniac_shia

Shia LaBeouf

nymphomaniac_stellan

Stellan Skarsgård

nymphomaniac-willem

Willem Dafoe

Jens Albinus

Jens Albinus

Connie Nielsen

Connie Nielsen

Nicolas Bro

Nicolas Bro

Udo Kier

Udo Kier

 

Sophie Kennedy Clark

Sophie Kennedy Clark

 

Stacy Martin

Stacy Martin

 

Uma Thurman

Uma Thurman

 

 

Os Miseráveis (Les Misérables), de Tom Hooper (2012)

Os Miseráveis, de Tom Hooper (foto por cinemarcado.com.br)

Os Miseráveis, de Tom Hooper (foto por cinemarcado.com.br)

MUSICAL CANSATIVO DE 160 MINUTOS EXAGERA NA CANTORIA

Quando se pensa numa adaptação fílmica de um romance da importância de Les Misérables, de Victor Hugo, logo vem à cabeça a imagem daquele espetáculo grandioso, repleto de figurantes, com cenários e figurinos riquíssimos em detalhes. Não querendo apequenar o trabalho da equipe, mas não poderíamos esperar menos do que o capricho imaginado, afinal, o clássico francês representa um marco na Literatura universal, pois se trata de uma narrativa ambiciosa porém acessível, que traz uma perspectiva filosófica intensa.

Mas talvez, a obra literária seja mais conhecida pelo público através de suas várias montagens musicais. Em 1980, a dupla Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg compôs canções que colaboraram para o sucesso estrondoso em Paris. Cinco anos depois, o produtor Cameron Mackintosh resolveu trazer o espetáculo para Londres, com letras adaptadas para o inglês por Herbert Kretzmer, repetindo o sucesso de seu antecessor. Desde o início da década de 90, Mackintosh tinha esse desejo de trazer o musical às telas, mas só em 2012 conseguiu concretizar esse sonho. Além de produzir, resgatou Boublil, Schönberg e Kretzmer para colaborarem no roteiro de William Nicholson.

Tom Hooper (centro) e set de filmagem de Os Miseráveis (photo by BeyondHollywood.com)

O diretor Tom Hooper (centro) parece meio perdido em set de filmagem de Os Miseráveis (photo by BeyondHollywood.com)

Como previsto, o trabalho técnico desta adaptação para o cinema se mostra impecável. Obviamente, direção de arte e figurino se destacam por reconstituírem o século XIX, alguns anos após a Revolução Francesa. Contudo, a opção do diretor Tom Hooper de tornar 99% dos diálogos em música num filme de 2h40 não soou como a melhor das idéias. Aqui, a música, que deveria ser um momento de exaltação ou repressão de sentimentos, ganha ares de banalidade. Toda e qualquer interação entre personagens acontece com diálogos cantados, reduzindo drasticamente a importância da musicalidade na trama.

Assim, momentos mais sublimes como o desabafo de Fantine correram o risco de passar desapercebidos. Felizmente, nesse caso específico, o diretor isolou a personagem num fundo desfocado para valorizar a interpretação de Anne Hathaway numa performance vocal estupenda de “I Dreamed a Dream”. Resultado: o melhor momento do filme todo que, de quebra, deve render o Oscar de coadjuvante para a jovem atriz. Teria faltado maior sensibilidade por parte de Tom Hooper para enxergar essa saturação musical.

Anne Hathaway em melhor momento de Os Miseráveis (photo by criticbehindthecurtain.wordpress.com)

Anne Hathaway como Fantine em melhor momento de Os Miseráveis (photo by criticbehindthecurtain.wordpress.com)

E apesar de ser contrário à idéias pré-estabelecidas de gênero, a ausência quase total de números musicais com coreografia foi muito sentida. Cinema é uma Arte que exalta a força e a beleza plástica do movimento. Faltou aí a qualidade técnica e disposição de diretores renomados como Vincente Minnelli (Sinfonia de Paris) e Bob Fosse (Cabaret) para tornar o romance de Victor Hugo em uma obra bem mais convidativa aos olhos.

Para não ficar limitado aos mestres do gênero, vale citar exemplos mais recentes do cinema como o musical Chicago (2002), estrelado por Renée Zellwegger, Richard Gere e Catherine Zeta-Jones. O diretor estreante Rob Marshall consegue valorizar suas sequências musicais através de boa coreografia bem valorizada pela fotografia sem se desviar da trama que critica a sociedade de espetáculo controlada pela mídia.

Exemplificando algo ainda mais trágico, temos a incursão do diretor dinamarquês Lars von Trier (do movimento Dogma 95) ao gênero em Dançando no Escuro (2000). Embora tenha o senso de objetividade que seu movimento artístico pregava, Trier sabia que para o musical funcionar, precisava de boa música com números coreografados. Sua grande sacada foi a escalação da cantora islandesa Björk, que além de trazer alma para seu papel de operária, criou musicalidade a partir de ruídos do cenário. Numa sequência na fábrica, os barulhos das máquinas ganham ritmo e formam uma melodia para que Selma cante e os demais personagens caiam na dança.

A cantora e atriz Björk em sequência musical na fábrica de Dançando no Escuro (photo by http://rustywhitesfilmworldobituaries.blogspot.com.br)

A cantora e atriz Bjrk em sequência musical na fábrica de Dançando no Escuro (photo by http://rustywhitesfilmworldobituaries.blogspot.com.br)

Isso não acontece em Os Miseráveis, porque Tom Hooper acreditou que bastavam bons atores e o histórico e sucesso das peças musicais, tanto que optou pela cômoda escolha do diretor de fotografia Danny Cohen, com quem já trabalhou em O Discurso do Rei e a mini-série John Adams, enquanto deveria contratar alguém mais experiente em filmes grandes como Emmanuel Lubezki justamente pela ambição do projeto. Essa escolha resultou num filme pobre em movimentação de câmera e que não dá a devida dramaticidade através da iluminação em determinadas sequências como nos becos de Paris.

Pelo menos a escolha dos atores foi acertada. Hugh Jackman (como Jean Valjean) e Anne Hathaway, que já cantaram juntos no palco do Oscar, formam uma boa dupla da primeira metade do filme. A jovem britânica Samantha Barks, que foi convidada após atuar pelo mesmo papel de Eponine no concerto Les Misérables in Concert (2010) em homenagem aos 25 anos do primeiro musical francês, demonstra que tem talento musical em duas cenas, sendo uma delas um solo de últimos suspiros. Eddie Redmayne como o membro apaixonado da resistência Marius e o pequeno Daniel Huttlestone como Gavroche também têm seus momentos de destaque pela qualidade musical.

O único que destoa musicalmente do elenco de fato é Russell Crowe. Apesar de sua aparência fechada combinar com a figura dura e persistente do Inspetor Javert, suas cordas vocais são fracas para o vozeirão firme que se esperava do antagonista. Talvez Crowe tenha sido escolhido por terem deduzido que cantava bem só porque tem uma banda chamada Thirty Odd Foot of Grunt, ou porque ninguém teve coragem de dizer que ele não tinha talento musical, porque o ator é, digamos, “um pouco esquentadinho”.

Russell Crowe como o Inspetor Javert. Será que ele reconhece sua inferioridade vocal? (photo by BeyondHollywood.com)

Russell Crowe como o Inspetor Javert. Será que ele reconhece sua inferioridade vocal? (photo by BeyondHollywood.com)

Para a atuação do elenco com música, o método de Hooper foi inédito na história do cinema. Enquanto os musicais sempre se utilizaram do sistema de playback (música gravada em estúdio e apenas sincronizada no set de filmagem), Os Miseráveis gravava a cantoria dos atores ao vivo no set. Eles usavam pontos eletrônicos no ouvido que tocavam um piano para mantê-los no tom certo, e não havia tempo pré-determinado, o que dava total liberdade ao elenco.

Entretanto, ao invés de explorar essa liberdade dos atores, parece que Tom Hooper simplesmente pegou a câmera steadycam e filmou uma peça de teatro, andando pelo palco entre os atores. Então, o espectador comum que resolver assistir ao musical, terá que suportar bravamente atores cantando ininterruptamente por 160 minutos (goste ou não dos diálogos cantados) sem a dinâmica necessária para um filme mais palatável.

Depois da sessão, deixei de estranhar a ausência de Tom Hooper na categoria de direção do Oscar. E devido à forte concorrência nas categorias técnicas, talvez Os Miseráveis e Victor Hugo tenham que se contentar com o Oscar de coadjuvante para Anne Hathaway.

AVALIAÇÃO: REGULAR