Oscar 2015: Atores para sua consideração

Keira Knightley (The Imitation Game) - photo by outnow.ch

Pelo filme The Imitation Game: À esquerda, Keira Knightley, e ao centro, Benedict Cumberbatch, fazem parte do grupo de atores jovens e promissores de Hollywood que podem preencher as vagas do Oscar 2015 (photo by outnow.ch)

DISPUTA NAS CATEGORIAS DE ATUAÇÃO BUSCAM APOSTAS ALTERNATIVAS

Num recente levantamento feito pela Variety, houve uma previsão interessante para a categoria de Melhor Ator no Oscar 2015. Todos os cinco concorrentes podem ter sua primeira indicação! Dentre os possíveis concorrentes estão: Steve Carell (Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo), Benedict Cumberbatch (The Imitation Game), Michael Keaton (Homem-Pássaro), Oscar Isaac (A Most Violent Year), Jack O’Connell (Invencível), Eddie Redmayne (The Theory of Everything) e Timothy Spall (Sr. Turner), nenhum deles jamais foi reconhecido pela Academia.

Claro que dificilmente todos os cinco serão estreantes, mas no mínimo três são bem prováveis: Steve Carell, Michael Keaton e Benedict Cumberbatch. Embora nunca tenham sido indicados, o trabalho deles vêm sendo aclamado pela crítica, e dependendo dos prêmios de associação de críticos como o National Board of Review (NBR), New York Film Critics Circle (NYFCC) e Los Angeles Film Critics Association (LAFCA), as apostas ganham consistência e podem se concretizar em indicações.

Como levantado aqui no blog (https://cinemaoscareafins.wordpress.com/2014/09/05/primeira-previa-do-oscar-2015-para-aqueles-que-nao-aguentam-esperar/), alguns atores mais conhecidos são esperados na lista como Joaquin Phoenix (Vício Inerente), Brad Pitt (Corações de Ferro) e Ralph Fiennes (O Grande Hotel Budapeste), mas outros nomes ainda precisam daquele “empurrãozinho” na campanha pela indicação.

Já na ala feminina, nomes mais conhecidos e indicados anteriormente figuram na lista. Reese Witherspoon já corre um pouco na frente pelo drama Livre. Ela ganhou o Oscar em 2006 por sua performance como June Carter em Johnny & June. Se depender do número de indicações sem vitória, Amy Adams já está no páreo por Big Eyes. Recebeu ao todo 5 indicações: 4 como coadjuvante e uma como atriz principal neste ano por Trapaça. Existe a possibilidade também de Julianne Moore entrar no bolo por Still Alice, no qual ela faz uma professora de linguística que passa a esquecer as palavras. Personagens com problemas mentais sempre largam na frente, como a Iris de Judi Dench.

Também na lista, Jessica Chastain pode concorrer pela terceira vez ao Oscar por dois trabalhos: A Most Violent Year e The Disappearence of Eleanor Rigby. Numa disputa acirrada com Jennifer Lawrence em 2013, a Academia pode tentar compensá-la pela derrota por A Hora Mais Escura. Entre as nunca indicadas, estão Felicity Jones (The Theory of Everything) e Rosamund Pike (Garota Exemplar).

CHANNING TATUM
Melhor Ator (Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo)

Chaning Tatum (Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo) - photo by elfilm.com

Channing Tatum (Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo) – photo by elfilm.com

Quando o jovem Channing Tatum se tornou um rosto famoso, ele fez uma declaração que me deixou intrigado. Na ocasião, ele teria dito que faria de tudo para ser indicado ao Oscar. Não levei muito à sério devido ao naipe das produções que ele estrelava naqueles anos como G.I. Joe: A Origem de Cobra e Ela Dança, Eu Danço, mas ele passou a chamar a atenção de diretores renomados como Steven Soderbergh e Michael Mann, chegando a esse papel em Foxcatcher.

Sob a direção de Bennett Miller, Tatum consegue imprimir uma de suas melhores performances de forma bem contida. Tentamos entender seu personagem o filme todo através de seu olhar e mesmo assim, sem grande sucesso. Seu maior “problema” para ser indicado é justamente seu parceiro de tela, Steve Carell. A Sony Pictures Classics decidiu fazer a campanha de ambos para a categoria de Melhor Ator, o que deve enfraquecer seu lado, uma vez que Carell me parece imbatível com sua interpretação fria, contida e com a prótese de nariz. O caso de Channing Tatum me lembra muito o de Mark Wahlberg, que estava bem em O Vencedor, mas ficou em segundo plano por causa de seus colegas Christian Bale e Melissa Leo, que ganharam os Oscars de coadjuvante.

JAKE GYLLENHAAL
Melhor Ator (O Abutre)

Jake Gyllenhaal (O Abutre) - photo by outnow.ch

Jake Gyllenhaal (O Abutre) – photo by outnow.ch

Jake Gyllenhaal foi indicado uma vez como coadjuvante por O Segredo de Brokeback Mountain em 2006. De lá pra cá, ele vem testando seus limites como ator em papéis diversificados em Soldado Anônimo e nos elogiados Marcados Para Morrer e Os Suspeitos, pelos quais alguns críticos acreditam que ele merecia maior reconhecimento artístico. Mas talvez ele venha agora com seu novo trabalho em O Abutre, de Dan Gilroy.

Nele, Gyllenhaal é um jornalista criminólogo que passa de observador a participante de um crime depois de muito tempo sem trabalho. A matéria da Variety aponta que não se trata de material para Oscar, o que é verdade, afinal é um filme e uma performance mais sombria que dificilmente sai premiada pela Academia, mas o ator obedeceu à cartilha de vitória no Oscar ao perder bastante peso para o papel (vencedor do Oscar deste ano, Matthew McConaughey, é um ótimo exemplo disso). Gyllenhaal perdeu mais de 13 quilos para viver o paparazoo Lou Bloom, e esta pode ser sua passagem para o tapete vermelho.

ELLAR COLTRANE
Melhor Ator (Boyhood – Da Infância à Juventude)

Ellar Coltrane (Boyhood - Da Infância à Juventude) - photo by cinemagia.ro

Ellar Coltrane (Boyhood – Da Infância à Juventude) – photo by cinemagia.ro

Com tantos atores na disputa na categoria de Melhor Ator, fica difícil de incluir o novato Ellar Coltrane até mesmo no buzz (burburinho) do Oscar. Claro que a sua conquista de 12 anos é digna de muitos prêmios, afinal, são poucos os atores que se comprometeriam a um projeto por tanto tempo de suas vidas (lembrando que o diretor Richard Linklater pediu para que os atores não fizessem alterações em seus rostos nesse período).

Obviamente, se a Academia estiver disposta a incentivar o menino, nada melhor do que uma indicação ao Oscar, certo? Em uma declaração recente, Coltrane teria dito que não tinha planos de continuar atuando, então essa decisão pode tomar rumos inesperados nessa temporada de premiação. Por um lado, o reconhecimento pode se tornar uma espécie de despedida, e de outro, um incentivo, do tipo que faltou para a cantora islandesa Björk depois da sua intensa atuação em Dançando no Escuro.

BEN AFFLECK
Melhor Ator (Garota Exemplar)

Ben Affleck (Garota Exemplar)

Ben Affleck (Garota Exemplar)

A Variety defende o posto de Ben Affleck aqui com o inedistimo de uma indicação como ator, já que já ganhou como roteirista por Gênio Indomável em 1998 e mais recentemente como produtor por Argo em 2013. Claro que a direção de David Fincher ajudou Affleck a encontrar uma atuação mais consistente, mas sinceramente? Só consigo ver Ben Affleck sendo Ben Affleck. Ele se esforça em construir a personalidade inferiorizada de Nick Dunne em meio ao caos do desaparecimento de sua esposa, mas não consigo me desvencilhar da imagem do próprio ator.

Essa interpretação me lembra um pouco a do ano passado de Tom Hanks em Capitão Phillips. Ele é capturado, torturado e mantido em cativeiro o filme todo, mas pra mim, era o Tom Hanks ali. Parecia não haver um trabalho para construir uma personagem de fato, mas apenas as reações de um personagem perante às situações absurdas do seqüestro do navio cargueiro. De qualquer forma, considero Affleck carta fora do baralho também pela forte concorrência do ano. Nem sua absurda não-indicação como diretor por Argo há dois anos vai ser compensada numa indicação aqui.

KEIRA KNIGHTLEY
Melhor Atriz (Mesmo se Nada der Certo)

Keira Knightley (Mesmo Se Nada Der Certo) - photo by outnow.ch

Keira Knightley (Mesmo Se Nada Der Certo) – photo by outnow.ch

A Academia adora quando atores soltam suas cordas vocais. Anne Hathaway, Marion Cotillard, Reese Witherspoon e Jamie Foxx são alguns exemplos recentes de vencedores da estatueta que cantaram para viver seus personagens. Nesse quesito, a jovem Keira Knightley pode ter um trunfo na manga por seu papel em Mesmo se Nada Der Certo. Nele, ela interpreta Gretta, uma dedicada cantora de Manhattan com o mesmo guarda-roupa da personagem Annie Hall (Diane Keaton em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), que tem que se virar depois se separar do namorado, que é uma estrela do rock.

Contudo, como a própria atriz ressaltou numa entrevista, ela gostaria que o filme tivesse sido mais visto nos cinemas, mas provavelmente só será nos formatos digitais do DVD e do Blu-ray. Os baixos números podem prejudicar sua campanha ao Oscar, mas os DVDs podem ser mais facilmente entregues aos votantes da Academia. De qualquer forma, Knightley está bem cotada para sua segunda indicação (foi previamente indicada como Melhor Atriz em 2006 por Orgulho e Preconceito), mas desta vez como coadjuvante por The Imitation Game.

ANNE DORVAL
Melhor Atriz (Mommy)

Anne Dorval (Mommy) - photo by outnow.ch

Anne Dorval (Mommy) – photo by outnow.ch

A atriz canadense Anne Dorval se mostra a mais bem cotada entre as estrangeiras a receber uma indicação em 2015. É bem provável que ela ganhe o prêmio de Melhor Atriz da Associação de Críticos de Los Angeles (LAFCA), que adora reconhecer o trabalho de atrizes estrangeiras. Só para citar algumas recentemente premiadas: as francesas Adèle Exarchopoulos e Emmanuelle Riva, as sul-corenas Jeong-hie Yun e Hye-ja Kim, e a belga Yolande Moreau. Além disso, o filme que ela protagoniza, Mommy, foi muito bem recebido em Cannes, e alguns alegam que ela foi “roubada” em sua categoria. O júri presidido pela cineasta Jane Campion resolveu premiar a atriz americana Julianne Moore por Maps to the Stars.

Em Mommy, Dorval interpreta uma mãe viúva disposta a tudo para ajudar seu filho violento e problemático. Com a categoria de Atriz não tão acirrada assim, a atriz canadense pode ter uma ótima chance de adentrar a lista de indicadas. Tudo vai depender dos prêmios dos críticos americanos até sua chegada no Globo de Ouro em janeiro.

JOHN LITHGOW
Ator Coadjuvante (O Amor é Estranho)

John Lithgow (O Amor é Estranho) - photo by cine.gr

John Lithgow (O Amor é Estranho) – photo by cine.gr

Uma das coisas que mais admiro no cinema americano é a existência de oportunidades de um ator ou atriz se reerguer. Sempre defendo que se um profissional de interpretação quer mesmo um desafio, procure o cinema americano independente. Lá, ele encontrará projetos estimulantes e desafiadores que podem  criar ou resgatar uma identidade do artista. Um que sempre cito nessas conversas é o Keanu Reeves. Se eu fosse amigo dele, falaria: “Keanu, meu filho, esqueça essas bobagens de blockbusters. Você já tem dinheiro o suficiente. Resgate sua auto-estima e procure projetos menores e independentes.” Claro que seu agente não deve compartilhar do mesmo pensamento que o meu, mas acredito que ele ainda pode resgatar um pouquinho daquela fase de Garotos de Programa (1991) e Parenthood – O Tiro que Não Saiu Pela Culatra (1990), com quem trabalhou com Gus Van Sant e Ron Howard, respectivamente.

Claro que o veterano John Lithgow não está no mesmo patamar fundo de poço de Reeves, mas digamos que ele ficou um pouco esquecido nas últimas duas décadas. Ele retomou um pouco sua popularidade com sua participação na série de TV Dexter, mas acredito que sua atuação em O Amor é Estranho pode ajudá-lo ainda mais na sua retomada.

No filme dirigido por Ira Sachs, ele é casado com Alfred Molina, formando um casal gay. Contudo, as dificuldades começam quando seu parceiro é despedido, obrigando-os a vender a casa e viver em locais diferentes até a poeira baixar e conseguir uma casa mais barata. Aqueles que viram o filme defendem que se trata do melhor trabalho de Lithgow desde O Mundo Segundo Garp (1983), e também a mais franca atuação dele desde então. Ele já foi indicado duas vezes como coadjuvante, a primeira por Garp e a segunda por Laços de Ternura, mas nunca levou. E a Academia adora retornos triunfais, tipo Alan Arkin e Christopher Plummer.

JAEDEN LIEBERHER
Melhor Ator Coadjuvante (St. Vincent)

Jaeden Lieberher (St. Vincent) - photo by cine.gr

Jaeden Lieberher (St. Vincent) – photo by cine.gr

Ok, crianças no Oscar vocês já sabem: ascensão ou maldição. Que o diga Tatum O’Neal e Haley Joel Osment (que sequer ganhou, mas desapareceu do mapa). Claro que existem casos mais raros em que o ator ou atriz-mirim conseguem driblar uma possível maldição provinda de um certo deslumbramento do Oscar e se tornar um sucesso por tempo indeterminado. O caso mais concreto disso é Jodie Foster, que atua em comerciais de TV desde os 3 anos e até hoje, com mais de 50, continua uma excelente profissional.Claro que o alto QI dela ajuda bastante, mas os pais são fundamentais nessas horas.

A Academia também gosta de fazer sua parte ao não premiar uma criança e acabar “estragando” um futuro todo de sucesso. Quando a jovem Abigail Breslin foi indicada por Pequena Miss Sunshine em 2007, seu colega de filme e veterano Alan Arkin declarou poucos dias antes da cerimônia que não gostaria que ela ganhasse para que a vitória não lhe subisse à cabeça. A Academia tem evitado indicar crianças, mas em alguns casos como o da própria Abigail, eles seriam crucificados se não o fizessem. Então, essa menção ao jovem Jaeden Lieberher tem de ser vista com cautela. Ele tem 12 anos e faz par com Bill Murray na comédia de humor negro St. Vincent.

No filme, ele faz um menino cujos pais acabam de se divorciar e acaba encontrando conforto e amizade no vizinho veterano de guerra. Dizem que sua química com Murray é tão boa e seus diálogos são tão afiados, que fica quase impossível não xingar a Academia em caso de ausência na lista de indicados…

TILDA SWINTON
Melhor Atriz Coadjuvante (Expresso do Amanhã)

Tilda Swinton (Expresso do Amanhã) - photo by outnow.ch

Tilda Swinton (Expresso do Amanhã) – photo by outnow.ch

Eu adoro Tilda Swinton. Desde os trabalhos em que ela protagoniza como Até o Fim (1999) até os que ela faz pontas como O Grande Hotel Budapeste (2014). Ela tem presença de tela e talento, uma combinação que ajudou Meryl Streep a assumir o posto que tem hoje. Ela só não foi mais indicada ou ganhou mais prêmios americanos porque ela é meio off-Hollywood.

Prova disso também são suas escolhas incomuns. Este ano, ela viveu uma espécie de líder distópica e autoritária na ficção científica futurista Expresso do Amanhã, dirigido pelo sul-coreano Bong Joon-ho. Neste futuro apocalíptico, as condições climáticas acabaram com a vida na Terra, restando apenas os passageiros do trem Snowpiercer, que viaja ao redor do globo. Ali dentro, as classes brigam entre si para ter o controle do sistema. A caracterização da personagem de Swinton chama a atenção já pelo figurino e pelos óculos fundos, e se aprofunda pelo tom de voz frio e autoritário com a imagem meio Margaret Thatcher de Meryl Streep em A Dama de Ferro.

Embora a Academia não saiba admirar uma boa atuação no gênero (aliás, uma das poucas atuações de ficção científica indicadas foi de Sigourney Weaver em Aliens, o Resgate em 1987), espero que o filme seja bem recebido pelos votantes e que pelo menos considerem o talento de Swinton. Ela ganhou um Oscar de coadjuvante em 2008 por Conduta de Risco.

 

* As indicações ao Oscar 2015 serão conhecidas no dia 15 de janeiro, e a cerimônia será no dia 22 de fevereiro.

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Prévia do Oscar 2013: Melhor Ator

O último vencedor do Oscar de Melhor Ator: Jean Dujardin por O Artista (foto por ABACA)

Quais atores que merecem ganhar um Oscar, mas nunca ganharam? Sim, essa lista é extensa. Existem casos mais gritantes em que as pessoas soltam um “Como assim Johnny Depp nunca ganhou o Oscar?!” Sem contar os vexames históricos de grandes atores que nunca foram devidamente reconhecidos com o Oscar: Cary Grant (foi indicado duas vezes, mas só levou o Oscar Honorário em 1970), Montgomery Clift (embora seja um dos ícones de atuação e beleza dos anos 50, nunca levou o Oscar apesar das quatro chances que teve), Richard Burton (infelizmente, acabou sendo um dos recordistas de derrotas no Oscar: sete em sete indicações), Peter O’Toole (supera Richard Burton com 8 derrotas, mas em 2003, levou o Oscar Honorário) e James Dean (duas indicações póstumas e só).

Embora nada esteja oficializado, para muitos especialistas na premiação, o Oscar tem essa característica (nem sempre benéfica) de tentar compensar um ator ou atriz por derrotas anteriores. Essa estratégia já ficou evidente com James Stewart, que claramente deveria ter ganhado em 1940 com A Mulher Faz o Homem, mas foi compensado logo no ano seguinte com uma atuação mais light em Núpcias de Escândalo. Compensar acaba se tornando um ciclo vicioso sem fim e muitas vezes acaba prejudicando um profissional que merecia ganhar no ano em que outro foi compensado. Continuando no mesmo exemplo, em 1941, James Stewart compensado bateu alguns nomes meio conhecidos: Laurence Olivier (Rebecca – A Mulher Inesquecível), Charles Chaplin (O Grande Ditador) e Henry Fonda (As Vinhas da Ira).

O queridíssimo Jimmy Stewart com seu Oscar. Levou pelo filme errado.

Seguindo com esse sistema de compensar nomes previamente indicados, já teríamos uma gama bem diversificada para os próximos anos: Gary Oldman, James Franco, Mark Ruffalo, Jeremy Renner, Matt Damon, Robert Downey Jr., Ryan Gosling, só pra citar atores mais contemporâneos. Este ano, um dos nomes mais fortes pertence a essa lista: Bill Murray, o comediante formado pelo Saturday Night Live na década de 70, foi indicado ao Oscar em 2004 pela ótima interpretação em Encontros e Desencontros (2003). Seu nome certamente estará em destaque na temporada de premiação por ter dois bons trabalhos: Moonrise Kingdom, de Wes Anderson, e principalmente Hyde Park on Hudson, de Roger Michell, no qual dá vida ao presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, durante episódio em que recebe o rei e rainha da Inglaterra.

Outro que deve estar em alta no Oscar 2013 e pode formar a dupla favorita na categoria é o veterano Daniel Day-Lewis, que curiosamente, também interpreta um presidente americano: Abraham Lincoln no drama histórico de Steven Spielberg, Lincoln. Ambos se encaixam nas preferências da Academia: papel biográfico, grande atuação e maquiagem de envelhecimento.

Contudo, como o Oscar sempre tem envelopes com resultados imprevisíveis, Bill Murray e Daniel Day-Lewis podem bater palmas sentados nas poltronas para outro vencedor. A categoria de Melhor Ator sempre é uma das mais aguardadas por sempre apresentar fortes indicados (talvez exceto por aquele ano em que Roberto Benigni ganhou por A Vida é Bela e bancou o palhaço). Dê uma olhada em possíveis nomes que disputam as cinco cobiçadas vagas:

Clint Eastwood em Trouble With the Curve

CLINT EASTWOOD (Trouble With the Curve)

Clint Eastwood havia prometido que sua atuação em Gran Torino (2008) seria sua última da carreira, mas felizmente mudou de idéia com esse Trouble With the Curve. No filme, Clint vive Gus Lobel, um olheiro do beisebol que enfrenta dificuldades quando sua visão começa a falhar. Particularmente, gosto de assistir a um filme com Clint Eastwood, mesmo que seus últimos papéis praticamente tenham os mesmos problemas típicos da terceira idade (desde Os Imperdoáveis, 1992). Ele é uma estrela que aprendeu muito com diretores consagradíssimos como Don Siegel e Sergio Leone, tendo muito ainda a ensinar para esta geração. Aos 83 anos, não busca mais desafios como ator; simplesmente aceita seus papéis por identificação pessoal. Não é do tipo que usa maquiagem para se transformar e sequer muda os sotaques e o jeitão másculo de falar, mas mesmo assim, qualquer trabalho seu vale a pena assistir e curtir.

Ao contrário do que muitos pensam, Trouble With the Curve não foi dirigido por Eastwood, mas por seu assistente de direção de longa data, Robert Lorenz. Provavelmente, o fato de ele aceitar a atuar novamente se deve muito à gratidão a seu aprendiz e, claro, trabalhar com a jovem talentosa Amy Adams.

Já foi indicado duas vezes como Melhor Ator por Os Imperdoáveis e Menina de Ouro, mas nunca levou. Talvez a Academia tente compensar sua não-indicação por Gran Torino como forma de incentivá-lo a atuar.

Jamie Foxx em Django Livre

JAMIE FOXX (Django Livre)

Não que Jamie Foxx seja uma unanimidade para a Academia e seus votantes, mas devemos considerar dois fatos importantes: 1) Apesar de ter histórico maior com comédias, ele ganhou o Oscar merecidamente por interpretar o músico Ray Charles. 2) O diretor do filme Django Livre é Quentin Tarantino, cujo último filme, Bastardos Inglórios, conquistou 8 indicações, incluindo Melhor Filme. Apesar de serem qualificações que inevitavelmente o colocam em listas de possíveis nomes para o Oscar 2013, Jamie Foxx não teria sua maior arma: a transformação num papel biográfico.

Entretanto, seu papel de escravo que busca vingança contra seu dono e procura libertar sua mulher tem aquela alma de superação da trajetória de Russell Crowe em Gladiador, que levou o Oscar em 2001. Também conta a favor a presença de atores consagrados pela Academia: Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson, Jonah Hill e Bruce Dern.

Jamie Foxx foi indicado duas vezes ao Oscar, no mesmo ano, como Coadjuvante em Colateral (2004) e levando como Melhor Ator por Ray (2004). Sua indicação este ano por Django Livre corre por fora, mas à princípio não seria algo impossível.

John Hawkes em The Sessions

JOHN HAWKES (The Sessions)

Embora John Hawkes ainda não seja um nome bem conhecido fora de Hollywood, ele começou a atuar desde os anos 80 em papéis bem pequenos. Nessa trajetória, Hawkes soube priorizar a diversidade de gêneros que lhe trouxe maturidade. Participou do filmes de ação A Hora do Rush (1998) e Mar em Fúria (2000), filmes de terror Um Drink no Inferno (1996) e Identidade (2003), e dramas como O Gângster (2007) e Martha Marcy May Marlene (2011). Em 2011, foi indicado como Coadjuvante pelo obscuro O Inverno da Alma, fato que certamente lhe abriu muitas portas, e agoratem a grande chance de finalmente dar um salto na carreira com o filme The Sessions.

Nele, interpreta Mark O’Brien que, ao saber que tem seus dias contados, procura perder sua virgindade com uma profissional do sexo com a ajuda de sua terapeuta e um padre. Talvez a temática seja um pouco avançada para o Oscar, mas o filme saiu aplaudido e premiado do último Festival de Sundance e o trio de atores: Hawkes, Helen Hunt e William H. Macy têm sido elogiados pela crítica, o que favorece ainda mais sua indicação.

Para quem conhece alguns de seus trabalhos, sabe que o ator busca versatilidade (basta comparar Inverno da Alma e este filme) e, ao contrário de muitos colegas de profissão, não procura chamar atenção para si, mas para seus personagens. Apesar de já experiente, John Hawkes tende a crescer bastante no cenário artístico e na mídia, e sua segunda indicação ao Oscar (desta vez como ator principal) certamente o ajudará a receber projetos ainda maiores e mais ambiciosos. Não deve ganhar o prêmio este ano, mas quase 100% de certeza de que leva o Independent Spirit Award, que acontece um dia antes do Oscar.

Philip Seymour Hoffman em The Master

PHILIP SEYMOUR HOFFMAN (The Master)

Philip Seymour Hoffman começou a atuar em filmes no começo dos anos 90. Felizmente, nunca foi do tipo galã, então teve que ralar bastante para conquistar seu lugar ao sol. Mesmo em papéis menores, teve oportunidade de conhecer e atuar com grandes atores como Paul Newman, Al Pacino, James Woods e Ellen Burstyn, buscando construir seu próprio estilo de interpretação. Na maioria de seus trabalhos, percebe-se que Hoffman prioriza a atuação mais contida, mesmo com seu trabalho premiado pela Academia em Capote (2005), em que teve que copiar alguns trejeitos típicos do romancista Truman Capote, ele procurou reprimir a sexualidade de seu personagem.

Além do aprendizado com referências de Hollywood, outro fator notável na carreira de Hoffman foi o início de uma parceria forte com o jovem cineasta norte-americano Paul Thomas Anderson que, aos 26 anos, realizou seu primeiro longa, Jogada de Risco (1996). Com o diretor, Philip Seymour Hoffman voltou a trabalhar em Boogie Nights – Prazer Sem Limites (1997), Magnólia (1999), Embriagado de Amor (2002) e agora no tão aguardado The Master, no qual dá vida ao filósofo carismático Lacaster Dodd, que seria baseado na figura do criador da Cientologia, L. Ron Hubbard.

Pelo filme, Philip Seymour Hoffman já ganhou o Volpi Cup de Melhor Ator (compartilhado com seu colega Joaquin Phoenix) no último Festival de Veneza, de onde Paul Thomas Anderson também saiu premiado como Melhor Diretor. Hoffman já foi indicado três vezes ao Oscar: Melhor Ator por Capote (2005), Melhor Ator Coadjuvante por Jogos do Poder (2007) e Dúvida (2008), tendo levado pelo primeiro.

* Existe uma possibilidade dos produtores do filme quererem colocar Philip Seymour Hoffman na disputa de Ator Coadjuvante, pois na teoria aumentariam suas chances.

Anthony Hopkins em Hitchcock

ANTHONY HOPKINS (Hitchcock)

Para muitos que acompanham os trabalhos do ator briânico Anthony Hopkins, há de concordar que faz um tempo que ele não oferece uma atuação de maior relevância. Hoje em dia, é mais conhecido apenas pelo seu papel mais famoso e assustador: o Dr. Hannibal Lecter, com o qual fez três filmes: O Silêncio dos Inocentes (1991), Hannibal (2001) e Dragão Vermelho (2002). Mas apesar do atual rótulo de psicopata e o tratamento de coadjuvante de luxo, Hopkins sempre se mostrou um ator completo desde que trabalhou ao lado de dois gigantes da profissão: Katharine Hepburn e Peter O’Toole em O Leão no Inverno (1968). De lá pra cá, conquistou a confiança de renomados diretores como James Ivory, Alan Parker, Richard Attenborough, Steven Spielberg e mais recentemente, o diretor brasileiro Fernando Meirelles, com quem trabalhou em 360.

Tem muitos atores que depois de atingir seu ponto culminante na carreira, deixa de procurar novos desafios pois não teria mais nada a provar para ninguém. Com este novo filme, Anthony Hopkins comprova que não é um deles. Para isso, engordou muitos quilos e ficou algumas horinhas na cadeira de maquiagem, certamente aperfeiçoando aquele sotaque característico do diretor Alfred Hitchcock e suas expressões frias.

Em Hitchcock, dirigido pelo novato Sacha Gervasi do premiado documentário Anvil: The Story of Anvil (2008), acompanhamos as filmagens do mais famoso longa do mestre do suspense: Psicose (1960). Nele, descobrimos os bastidores do filme coberto por algumas discussões e polêmicas envolvendo desde o uso de dublê de corpo para Janet Leigh (vivida pelo sex symbol Scarlett Johansson) na antológica cena do chuveiro, sua relação de amor e profissional com sua mulher Alma Reville (interpretada por Dame Helen Mirren), as brigas contra a censura que alegava violência excessiva, os problemas financeiros para investir na produção e a superação do próprio diretor que queria provar que ainda tinha muito a ensinar a Hollywood.

Anthony Hopkins já foi indicado quatro vezes para o prêmio da Academia: Melhor Ator por Vestígios do Dia (1993) e Nixon (1995), Melhor Ator Coadjuvante por Amistad (1997) e vencedor com um belo chianti por O Silêncio dos Inocentes (1991).

Hugh Jackman em Les Miserables

HUGH JACKMAN (Les Miserables)

Para muitos, ele pode ser apenas aquele que deu vida a um dos personagens mais queridos da Marvel Comics: Wolverine em cinco filmes, mas existe um ator por trás de tudo, e dos bons. Jackman foi descoberto ao atuar numa peça musical da Broadway intitulada Oklahoma! e depois disso, foi abraçado pelo mundo através dos filmes dos X-Men. Por causa do charme e boa aparência, foi questão de tempo migrar para as comédias românticas, nas quais fez par com Ashley Judd e Meg Ryan. Mas Jackman queria aproveitar seu ápice como celebridade e atuar em filmes blockbuster. Então, além das adaptações de HQs, tentou criar uma franquia rentável com o péssimo Val Helsing – O Caçador de Monstros (2004), trabalhou com Christopher Nolan no imponente O Grande Truque (2006) ao lado de Christian Bale, fez par romântico com Nicole Kidman na grandiosa produção de Baz Luhrmann, Austrália (2008), e estrelou o bom filme de efeitos especiais Gigantes de Aço (2011). Em 2013, ele retorna ao papel que o consagrou em The Wolverine, de James Mangold.

Ainda na veia do espetáculo, Jackman tem a oportunidade de atingir seu auge no musical Les Miserábles, de Tom Hooper, uma vez que ele tem vasta experiência em montagens de palco e nas premiações em que foi anfitrião: o Tony Award e o Oscar, onde ele canta e dança com extrema facilidade. Como o retorno do gênero musical ainda é considerado uma aposta em Hollywood, esta adaptação da obra homônima de Victor Hugo vem sendo chamada de ousada pelas proporções e estrelas. Além de Jackman, o diretor chamou alguns nomes com conhecimentos musicais: Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Sacha Baron Cohen, Amanda Seyfried, Russell Crowe (tem uma banda de rock australiana chamada 30 Odd Foot of Grunts) e Samantha Barks (descoberta num concerto musical do próprio Les Miserábles, interpretando seu papel de Éponine).

Hugh Jackman tem a faca e o queijo na mão para finalmente conseguir sua primeira indicação ao Oscar: musical de grande produção (espera-se que as bilheterias correspondam), diretor vencedor do Oscar, roteiro baseado em antológica obra literária e elenco premiado e/ou indicada pela Academia. Ele já foi indicado para o Globo de Ouro, como Melhor Ator – Comédia ou Musical, pela comédia Kate & Leopold (2001).

Daniel Day-Lewis em Lincoln

DANIEL DAY-LEWIS (Lincoln)

Quando a parceria com Spielberg havia sido anunciada num projeto tão grandioso, Daniel Day-Lewis já estava com uma mão na estatueta do Oscar: sua terceira. Não querendo desmerecer outros atores e suas performances, mas quem conhece o trabalho de Day-Lewis, sabe que ele realmente se aprofunda na personagem (até demais) e sempre entrega uma interpretação no mínimo notável e digna de premiação. Essa colaboração de um dos maiores atores do mundo com um dos maiores diretores do mundo causa expectativas enormes antes mesmo de ver um trailer do filme.

Lincoln tem todos os ingredientes para se sagrar vencedor do Oscar de Melhor Filme, a começar pelo roteiro de Tony Kushner (vencedor do prêmio Pulitzer) que abrange um período de lutas e vitórias do presidente Abraham Lincoln, figura de extrema importância para o nascimento da nação americana. Com Steven Spielberg assumindo o controle do projeto, vários colaboradores oscarizados automaticamente embarcam como o diretor de fotografia Janusz Kaminski, o montador Michael Khan, o compositor John Williams e o diretor de arte Rick Carter. Ainda nesse tabuleiro de xadrez, temos peças de renome como Tommy Lee Jones, Sally Field, Jackie Earle Haley, James Spader, Hal Holbrook, John Hawkes e Joseph Gordon-Levitt.

Com esse cenário colossal por trás, Daniel Day-Lewis, que normalmente já seria um nome provável para o Oscar, tem chances reais de subir pela terceira vez no palco e agradecer novamente pelo Oscar e pela equipe de maquiagem, que fez um trabalho excepcional para deixá-lo com a cara de Lincoln. Suas performances são resultado de extenso trabalho de pesquisa e concentração no set de filmagem. Há quem diga que o ator não sai do personagem até pouco tempo depois das filmagens, como se estivesse possuído. Apesar de ortodoxo, esse método já foi indicado quatro vezes ao Oscar: Em Nome do Pai (1993), Gangues de Nova York (2002), Meu Pé Esquerdo (1989) e Sangue Negro (2007), vencendo duas vezes pelos dois últimos filmes. Se ganhar, Daniel Day-Lewis se torna o maior vencedor de Oscar de Melhor Ator de todos os tempos. Jack Nicholson tem três estatuetas, sendo duas como Melhor Ator e uma como Coadjuvante.

Bill Murray em Hyde Park on Hudson

BILL MURRAY (Hyde Park on Hudson)

Se Bill Murray não tivesse sido indicado por Encontros e Desencontros em 2004, talvez seu nome nem figuraria aqui na lista. Não que seu trabalho não seja digno de reconhecimento, mas como todos sabemos, a Academia costuma desprezar atores de comédia. Felizmente, mesmo que tardia, sua indicação ao Oscar veio, e desde então, todos os projetos em que Murray atua automaticamente se torna uma promessa de reconhecimento.

Murray já foi o carismático Dr. Peter Venkman de Os Caça-Fantasmas, já parou no tempo como o jornalista Phil em O Fetiço do Tempo e já foi Bosley, o chefe das Panteras. Embora não sejam exatamente filmes típicos de material de Oscar, essas comédias exercitaram bastante o timing cômico dele. Qualquer projeto em que Bill Murray participa acaba progredindo com sua presença na tela. Aquele personagem razoável do roteiro se torna uma figuraça na pele do ator-comediante. E, ao contrário de Jim Carrey, a atuação cômica de Bill Murray se mostra no tom da voz, na ironia de suas palavras e principalmente na falta de careta.

Quando esteve na cerimônia do Oscar e perdeu para Sean Penn em 2004, Bill sentiu a derrota porque queria muito ganhar, pois achava que seria muito improvável retornar à premiação. Agora com este Hyde Park on Hudson, drama com humor baseado em fatos reais do presidente Franklin D. Roosevelt durante visita do rei George VI e rainha Elizabeth da Inglaterra em 1939, ele tem a maior chance de sua vida com uma segunda indicação ao Oscar. Apesar do favoritismo de Daniel Day-Lewis, o fato de Bill Murray nunca ter ganhado o prêmio pode pesar a seu favor.

Joaquin Phoenix em The Master

JOAQUIN PHOENIX (The Master)

O irmão mais novo do promissor River Phoenix, Joaquin também teve sua carreira de ator iniciada na infância, tendo sua atuação mais memorável no drama familiar Parenthood – O Tiro que Não Saiu Pela Culatra (1989). Desiludido com os papéis oferecidos a jovens atores, decidiu se afastar da profissão e do país, vivendo no México por três anos ao lado do pai. Em 1993, voltou em circunstâncias trágicas, quando encontrou seu irmão num club em Los Angeles sofrendo de overdose. Apesar de sua ligação pedindo uma ambulância, River Phoenix morreu jovem. E esse acontecimento teve um impacto sobre seu retorno à carreira de ator. Após muita insistência por parte de amigos e familiares, Joaquin aceitou um papel em Um Sonho Sem Limites (1995), dirigido por Gus Van Sant (diretor que trabalhou com River em Garotos de Programa).

Seu retorno recebeu elogios da crítica e Joaquin Phoenix foi se animando novamente, ganhando a confiança de atores e colegas. Em 1999, numa ótima performance no polêmico 8mm – Oito Milímetros, ele havia chamado minha atenção pela frieza do personagem do submundo dos “snuff films” (filmes pornográficos com violência real). Contudo em 2000, pelo épico Gladiador, Phoenix deixou de lado a atuação contida para se acabar em gritos, gestos e expressões fortes como o jovem imperador de Roma que busca a auto-afirmação. Apesar de ter recebido sua primeira indicação pelo papel, o ator só realmente se firmou nos anos seguintes ao interpretar o cantor country Johnny Cash em Johnny & June (2005), que resultou em sua segunda indicação, e principalmente em seu trabalho no ótimo drama Os Amantes (2008), de James Gray, no qual interpreta um homem dividido entre a paixão de duas mulheres.

Não sei se o fato de Joaquin aceitar muitos papéis de personagens depressivos ou em decadência tenha lhe afetado psicologicamente, mas em 2008, ele anunciou que iria se aposentar da carreira e pouco depois, participou do talk show de David Letterman (veja vídeo da entrevista abaixo). Alguns dizem que se trata de uma atuação, outros falam de “puro maketing pessoal” e talvez os mais sensatos digam que o parafuso soltou. Na entrevista, ele chega com um visual alternativo (barba comprida e óculos escuros), parece estar totalmente alienado e indiferente em relação às perguntas de Letterman. Mas, felizmente, Joaquin Phoenix voltou a atuar e este retorno triunfal pode ser premiado pela Academia.

* Se Philip Seymour Hoffman realmente for transferido para a categoria de coadjuvante, as chances de Phoenix certamente triplicam.

Denzel Washington em Flight

DENZEL WASHINGTON (Flight)

Desde que ganhou o Oscar de Melhor Ator em 2002, Denzel Washington nunca mais figurou na lista de indicados. Seria o começo da maldição do Oscar? Entre as décadas de 80 e 90, o ator deu preferência aos personagens engajados, que buscam valores essenciais para a humanidade como a liberdade. Assim, Denzel participou de A Soldier’s Story (1984), de Norman Jewison, Um Grito de Liberdade (1987), de Richard Attenborough, e Tempo de Glória (1989), de Edward Zwick, tornando-o automaticamente uma figura que representa toda uma nação negra pelos direitos de igualdade. E quando ele aceitou trabalhar com um dos diretores mais engajados, Spike Lee, em Malcolm X (1992), todos tinham certeza de que ele seria o segundo negro a ganhar o Oscar de Melhor Ator (o primeiro foi Sidney Poitier na década de 60). Bem, ele acabou sendo o segundo negro, mas não naquele ano, pois perdeu para Al Pacino.

Depois que ganhou por um papel considerado de vilão (um policial corrupto) em Dia de Treinamento (2001), Washington passou a atuar em filmes policiais com o recém-falecido Tony Scott, como Chamas da Vingança (2004) e Déjà vu (2006), e O Gângster (2007) sob a direção do irmão Ridley Scott,  vivendo um período de descanso dos papéis políticos. Este ano, aceitou trabalhar pela primeira vez com Robert Zemeckis (diretor inovador, responsável pela trilogia De Volta para o Futuro, por Forrest Gump – O Contador de Histórias (1994) e Náufrago (2000)) no filme Flight, de temática mais séria sobre piloto que salva avião de queda e passa a ser tratado como herói nacional até que novas investigações apontam seus defeitos.

Acredito que se o filme for bem recebido pelo público americano, tem grandes chances de Denzel Washington voltar como indicado ao prêmio da Academia, pois ele é uma celebridade muito querida em Hollywood apesar da seriedade política. Já foi indicado cinco vezes: Melhor Ator Coadjuvante por Um Grito de Liberdade e por Tempo de Glória (seu primeiro Oscar), Melhor Ator por Malcolm X, em 2000 por Hurricane: O Furacão e em 2002, vencendo por Dia de Treinamento.