Django Livre (Django Unchained), de Quentin Tarantino (2012)

Pôster de Django Livre (foto por pipocamoderna.com.br)

Pôster de Django Livre (foto por pipocamoderna.com.br)

Tarantino retoma projeto pessoal, recebe críticas, mas leva 5 indicações ao Oscar

Depois do sucesso comercial dos dois volumes de Kill Bill (2003 e 2004), o diretor Quentin Tarantino resolveu abrir seu baú e revisitar antigos projetos pessoais. Entre eles, estavam Bastardos Inglórios (2009) e este Django Livre. Conhecido por seu dom de criação de diálogos afiados e seu repertório infinito de referências do universo pop, ele expôs os projetos ousados à luz do sol e agora colhe os frutos: 1 Oscar para Bastardos e 5 indicações para Django Livre.

Fã assíduo do western spaghetti dos diretores italianos Sergio Corbucci e Sergio Leone, ao contrário de muitos diretores, Tarantino faz questão de mostrar as devidas credenciais de suas referências. Ele usa a trilha original de Luis Bacalov de Django (1966), de Corbucci, além de trilhas do compositor Ennio Morricone, colaborador de Leone em Três Homens em Conflito (1966) e Era Uma Vez no Oeste (1968), denotando a extrema importância de suas fontes de inspiração para a criação de um novo material. Tomando como base “nada se cria, tudo se transforma”, Tarantino se tornou um artista que trabalha com recicláveis como ninguém. Acredito ainda que ele pode ser um dos cineastas-símbolo dessa geração atual que pouco cria e que celebra muito o vintage.

Quentin Tarantino busca o melhor ângulo que aprendera do mestre Sergio Leone (photo by BeyondHollywood.com)

Quentin Tarantino busca o melhor ângulo que aprendera do mestre Sergio Leone (photo by BeyondHollywood.com)

Como usa suas referências com extrema propriedade, Quentin Tarantino acaba estimulando o público novo a pesquisar essas mesmas fontes. Com certeza, enquanto você está lendo este post, há vários cinéfilos pelo mundo tirando o pó da capinha dos DVDs da seção Western das locadoras (ou fazendo certos downloads…) para conferir o que o diretor enxergou no material original. Além disso, outra consequência extremamente benéfica de sua metodologia ecológica é o resgate do brilho de alguns atores esquecidos pelo tempo.

Em Pulp Fiction – Tempo de Violência (1994), John Travolta ressurgiu das cinzas para voltar a mostrar seus movimentos na dança de “You Never Can Tell”, de Chuck Berry. Em Jackie Brown (1997), a estrela negra de filmes produzidos por Roger Corman nos anos 70, Pam Grier, foi redescoberta por Hollywood. O Bill de Kill Bill foi a estrela da série de TV Kung Fu, David Carradine, e Daryl Hanna teve seu primeiro papel interessante depois de ser a replicante de Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982) como a assassina caolha Elle Driver. Desta vez, por razões óbvias, Tarantino trouxe Franco Nero, o Django original, para fazer a breve cena da luta de mandigos ao lado de Leonardo DiCaprio. Também resgatou o James Crockett da série Miami Vice, Don Johnson, e o veterano Bruce Dern, que pode voltar a concorrer a um Oscar em 2014 pelo novo filme de Alexander Payne, Nebraska. Os EUA têm tantos talentos à disposição que é realmente lamentável que os cineastas não aproveitem.

Django e Django: Franco Nero (à esq) faz uma pequena participação (photo by OutNow.CH)

Django e Django: Franco Nero (à esq) faz uma pequena participação (photo by OutNow.CH)

Para o papel de protagonista, Tarantino havia escrito para Will Smith, mas por motivos não divulgados, recusou a proposta. Depois de fazer testes com Idris Elba, Chris Tucker e Terrence Howard, o papel acabou nas mãos de Jamie Foxx. Apesar de seu personagem falar pouco, o ator encorpora o espírito vingativo do escravo através do olhar. Já para o papel do vilão Calvin Candie, foi necessário um diálogo entre o diretor e Leonardo DiCaprio para convencê-lo a participar, pois como tem imagem de bom menino e líder do movimento Verde, estava desconfortável com o racismo explícito do personagem. Sinceramente, não sei se DiCaprio foi a melhor escolha, mas como cinéfilo, aplaudi seu esforço em se desvencilhar de filmes anteriores. Acredito que ele caminha bem para um futuro promissor se continuar ambicioso na escolha de projetos.

Por outro lado, as duas melhores atuações do filme vieram de escolhas previamente acertadas na cabeça de Tarantino: Christoph Waltz como Dr. King Schultz, e Samuel L. Jackson como o criado Stephen. Poliglota e excelente ator, Waltz revelou numa entrevista que tinha forte receio de que sua atuação repetisse seu personagem anterior de Coronel Hans Landa de Bastardos Inglórios. Esse medo reside principalmente no fato de ambos os personagens serem letrados e terem ótima dicção, mas os universos são totalmente diferentes. Quanto a Jackson, trata-se da sexta colaboração com Tarantino, então eles já estão num nível excepcional de sintonia no set. Ele trabalha tão bem a entonação de seus diálogos, que é possível ver o racismo extremo em cada palavra dita, enquanto ele nos diverte com seu humor negro. Fazia muito tempo em que não via Samuel L. Jackson tão inspirado, ainda mais num papel de idoso com debilidade física.

Samuel L. Jackson rouba suas cenas como o criado racista Stephen (photo by OutNow.CH)

Samuel L. Jackson (à esq) rouba suas cenas como o criado racista Stephen ao lado de Kerry Washington (photo by OutNow.CH)

Com Django Livre, é possível enxergar que Quentin está no fim de outra fase como diretor. Seus primeiros filmes formam uma trilogia que prioriza a estrutura narrativa. Histórias e personagens interligados tornaram-se sua marca principal nos anos 90, influenciando vários trabalhos como Trainspotting – Sem Limites, de Danny Boyle e Traffic, de Steven Soderbergh. Tarantino estava buscando modernizar o uso de múltiplos personagens e tramas no mesmo filme como Robert Altman fez em Nashville (1975) e ShortCuts – Cenas da Vida (1993).

Já na segunda trilogia, que se inicia com Kill Bill: Vol. 1 (2003), Tarantino resolve apelar na violência. Apesar do exagero, ele transforma essa gratuidade em uma beleza plástica. Ele convida o diretor de fotografia Robert Richardson a mergulhar num oceano de referências visuais fílmicas e televisivas para poder recriar e homenageá-las.

Cena visual de Kill Bill: Vol. 2 (2004) com fotografia de Robert Richardson (photo by odeon.typepad.com)

Cena visual de Kill Bill: Vol. 2 (2004) com fotografia de Robert Richardson (photo by odeon.typepad.com)

Shosanna e seu machado em Bastardos Inglórios (photo by OutNow.CH)

Shosanna e seu machado em Bastardos Inglórios (photo by OutNow.CH)

Violência em evidência: plasticidade no sangue e na plantação (photo by BeyondHollywood.com)

Violência em evidência: plasticidade no sangue e na plantação (photo by BeyondHollywood.com)

Além da violência mais acentuada e estetizada, como pode-se perceber pelas fotos acima, existem outras curiosidades nessa segunda fase. Todos esses filmes dialogam com o forte tema da vingança. A Noiva quer matar Bill. Shosanna quer a cabeça de Landa. E Django quer destruir Calvin Candie para resgatar sua esposa. Alguém aí falou em guardar rancor? Tarantino acredita que nada mais ferve o sangue do que uma vingancinha. No começo de Kill Bill: Vol. 1, ele coloca o antológico provérbio klingon de Jornada nas Estrelas: “Revenge is a dish best served cold (Vingança é um prato que se come frio)”.

Também vale ressaltar que o diretor coloca grupos que já foram minoria como tais personagens buscando vingança: Mulheres em Kill Bill, Judeus em Bastardos e Negros em Django. E quando se toca no assunto de minorias étnicas ou religiosas, a coisa tende a pegar fogo nessa sociedade politicamente correta ao extremo. O primeiro a se manifestar foi o diretor negro Spike Lee, mais conhecido por fazer filmes com temática racial como Febre da Selva e Faça a Coisa Certa.

Em entrevista, ele teria dito as seguintes palavras: “American Slavery Was Not A Sergio Leone Spaghetti Western. It Was A Holocaust. My Ancestors Are Slaves. Stolen From Africa. I Will Honor Them (A escravidão americana não era um filme de spaghetti western de Sergio Leone. Foi um Holocausto. Meus antepassados foram escravos. Tirados da África. Vou honrá-los)” – O que é mais ridículo é que o autor dessa crítica non-sense sequer viu o filme! Spike Lee estaria indignado com o fato de haver o termo racialmente pejorativo “nigger“, que seria algo como “crioulo” aqui. Esse termo era utilizado pelos senhores referindo-se a seus escravos. E como fazer um filme sobre esse período sem conter essa palavra no roteiro?

Não-oficialmente falando, talvez essa birra por parte de Lee venha de uma regrinha de humor americano que implica que apenas as vítimas da piada têm o direito de criar essas mesmas piadas. Por exemplo: só judeu pode tirar sarro de judeu, caso contrário seria um ultraje tão grande que seria um incidente diplomático. Jamie Foxx logo rebateu a polêmica através do jornal The Guardian: “…I respect Spike, he’s a fantastic director. But he gets a little shady when he’s taking shots at his colleagues without looking at the work. To me, that’s irresponsible. (Respeito Spike, ele é um diretor fantástico. Mas ele fica um pouco sombrio quando atira em seus colegas sem olhar para o trabalho deles. Para mim, isso é irresponsabilidade)”.

Os pré-conceituosos: A presidente Dilma Roussef recebe Spike Lee no Planalto em visita para realização de documentário Go Brazil Go em abril de 2012 (foto por blog.planalto.gov.br)

Os pré-conceituosos: A presidente Dilma Rousseff recebe Spike Lee no Planalto em visita para realização de documentário Go Brazil Go! em abril de 2012 (foto por Roberto Stickert Filho/PR de blog.planalto.gov.br)

Aproveitando o tema, outro filme indicado ao Oscar também tem sido alvo de controvérsias. Segundo declarações de um membro da Academia, um panaca chamado David Clennon, teria dito em carta aberta que não votaria em A Hora Mais Escura, porque o filme faria apologia à tortura. Para quem não conhece, o novo filme de Kathryn Bigelow teve acesso exclusivo aos arquivos da CIA na captura e morte do líder terrorista Osama Bin Laden, e há algumas cenas em que membros da inteligência americana aplicam torturas a fim de obterem pistas. Em defesa de seu filme, a diretora declarou: ” Torture was, as we all know, employed in the early years of the hunt. That doesn’t mean it was the key to finding Bin Laden. It means it is a part of the story we couldn’t ignore. (Tortura foi, como todos sabemos, empregada nos primeiros anos da caça. Isso não significa que foi a chave para encontrar Bin Laden. Significa que foi uma parte da história que nós não poderíamos ignorar)”.

A sociedade americana anda muito politicamente correta, e ainda sente as consequências daquele vídeo horroroso (em todos os sentidos) intitulado Innocence of the Muslims (Inocência dos Muçulmanos – ver vídeo e post em https://cinemaoscareafins.wordpress.com/2012/09/19/video-causa-conflito-no-oriente-medio/), que desencadeou uma briga internacional entre os países de origem muçulmana e os EUA, por abrigarem o responsável pelo filme. Além disso, hoje negros deixaram de ser negros. São afro-descendentes. Estamos pisando em ovos ao falar sobre temas étnicos. Isso porque nem vou comentar sobre as cotas raciais racistas criadas pelo ex-(e atual) presidente Lula e companhia. Se querem compensar décadas e mais décadas de escravidão, respeito e igualdade funcionam melhor como dignidade.

Veredito final: Nem Tarantino, nem Bigelow foram indicados ao Oscar de direção. Mas isso pouco importa agora. Django Livre é um ótimo filme que busca contar uma história de amor e vingança. Como qualquer outra obra de arte, não precisa estar atrelada à verdade absoluta ou a fatos verídicos. E como qualquer Arte boa, deve ter o poder de abrir espaço para interpretação e discussão saudável.

AVALIAÇÃO: MUITO BOM

Dr. King Schultz e Django formam uma dupla um tanto incomum (photo by BeyongHollywood.com)

Dr. King Schultz e Django formam uma dupla um tanto incomum (photo by BeyongHollywood.com)

Anúncios

Irã boicota o Oscar 2013 por causa do vídeo ‘Inocência dos Muçulmanos’

Asghar Farhadi com seu Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para o Irã. Pelo visto, não foi suficiente para evitar um boicote em 2013 (foto por Jason Merritt/ Getty Images)

Depois de ataques às embaixadas norte-americanas, bandeiras queimadas em público e recompensa de 100 mil dólares pela cabeça do diretor Nakoula Basseley Nakoula, responsável pelo vídeo produzido nos EUA Inocência dos Muçulmanos (Innocence of the Muslims), era questão de tempo essa pressão atingir o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Mesmo tendo vencido o último Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com o belo drama A Separação, de Asghar Farhadi, o Irã (leia-se seu governo) decidiu boicotar o Oscar devido ao incendiário vídeo que vem causando muita violência e revolta no mundo muçulmano entre o Paquistão e o Egito, resultando em mais de cinquenta mortos, incluindo o assassinato do embaixador americano na Líbia.

Nakoula Basseley Nakoula WANTED: A cabeça deste homem está valendo 100 mil dólares? Quando é o próximo vôo para os EUA? Quem está pagando é o político paquistanês Ghulam Ahmad Bilour.

O ministro da cultura do Irã, Mohammed Hosseini, admitiu pela imprensa de que o país já havia eleito o filme A Cube of Sugar (Ye habe Ghand), do diretor Seyyed Reza Mir-Karimi – que trata de um casamento que termina em funeral quando os pais do noivo morrem – para a competição internacional, mas voltaram atrás por considerarem Inocência dos Muçulmanos “um insulto intolerável para o Profeta do Islã”. Hosseini, juntamente com o chefe da agência controladora do cinema iraniano, Javad Shamaghdari, concordam com o boicote e incentivam outros países islâmicos a fazerem o mesmo.

Esse boicote só teria fim se as autoridades americanas revelassem à justiça os responsáveis pelo vídeo Inocência dos Muçulmanos. Em discurso nas Nações Unidas, o presidente Barack Obama condenou o filme anti-Islâmico, mas insistiu que os tumultos que ele acarretou não são justificados. “Não há palavras que sirvam como desculpa para a matança de pessoas inocentes. Nenhum vídeo justifica um ataque a uma embaixada”.

O presidente Barack Obama em discurso na ONU. “Nada justifica matança de inocentes” (foto por Associated Press)

Obviamente, o governo iraniano quer se aproveitar da projeção internacional do Oscar para demonstrar insatisfação com o governo norte-americano. Por mais que Obama concorde que o vídeo é uma ofensa, seu país prega a democracia e a liberdade de expressão. Se ele condena o diretor pelo filme, pode arranjar briga com a ONU e os defensores da Constituição. Se em circusntâncias normais, o presidente não tocaria nesse vespeiro, imagina em época de eleição!

Para os fanáticos religiosos islâmicos, cinema não tem nada a ver com Arte, mas uma arma para atingir os inimigos. Na competição da categoria de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, embora tenham comemorado a vitória sobre seus rivais de Israel (o filme Footnote, de Joseph Cedar) como se fosse uma guerra vencida, os iranianos mais radicais ainda reclamaram da exposição dos problemas de sua sociedade por meio da história de separação de um casal. Desse jeito, fica difícil de encontrar alguma conciliação se já emperram com questões mais insignificantes.

Independente do rumo que esses conflitos tomem, o Oscar, o filme iraniano A Cube of Sugar e seu diretor Seyyed Reza Mir-Karimi nada devem para os fundamentalistas islâmicos ofendidos por um vídeo tosco, mas infelizmente, acabam sendo os bodes expiatórios. Nas cidades em conflito, uma filial da rede de restaurantes KFC acabou sendo destruída só porque é americana. Isso é justo?

Sobrou para o representante iraniano A Cube of Sugar, de Seyyed Reza Mir-Karimi. O cinema paga o pato dos fundamentalistas islâmicos.

Aqui no Brasil, quando a classe média xiita fica revoltada com os “estadunidenses”, eles batem o pé e boicotam o McDonald’s. Sim, é um protesto devastador, mas bem mais sensato do que sair travestido de viking e arrasar com tudo pela frente.

*Devido a protestos de um grupo de muçulmanos no Brasil contra o Google (que detém os direitos do Youtube), uma corte em São Paulo ordenou que a empresa retire o vídeo do ar no prazo de 10 dias. Por isso, para quem ainda não viu o vídeo, aproveite para checar: https://cinemaoscareafins.wordpress.com/2012/09/19/video-causa-conflito-no-oriente-medio/. Curiosamente, essa decisão foi tomada um dia após o discurso da presidente Dilma Roussef na ONU contra a “islamofobia”. Para quem não conhece o jeito do PT (partido trabalhista) trabalhar, acostume-se. Eles adoram controlar com censura os meios de comunição e acreditam que o “Mensalão” é uma história de ficção científica. Nesse quesito, o país está a um passo do governo ditatorial de Hugo Chavez.

Com ou sem o Irã, as indicações ao Oscar 2013 serão anunciadas no dia 10 de janeiro de 2013.

Vídeo causa conflito no Oriente Médio

Manifestantes um pouco alterados na embaixada norte-americana

Recentemente, o filme fictício sobre a vida de Maomé, Inocência dos Muçulmanos (Innocence of the Muslims), circulou pela internet e chegou ao povo que adotou sua religião. Aí que o pavio foi aceso. Para quem segue as notícias internacionais, nos países de maioria muçulmana, as embaixadas norte-americanas estão sofrendo fortes retaliações dos fundamentalistas islâmicos, assim como as franquias de restaurantes americanos nessas terras.

Resolvi ver o vídeo inteiro (com duração aproximada de 14 minutos) e postei abaixo o link do Youtube para quem tiver curiosidade e senso de humor. Na verdade, esse vídeo seria uma espécie de trailer, pois apresenta cortes repentinos de sequências variadas de cenário e personagens. Trata-se de uma produção mais tosca que os filmes do Ed Wood (considerado o pior diretor de todos os tempos), com atuações pífias e história com propósitos bastante discutíveis.

Por não seguir religião nenhuma, confesso que não entendo muito bem (apenas o suficiente para não seguir nenhuma). Mas o primeiro “erro” desse vídeo seria personificar a figura de Maomé. Não é um Jesus que dá pra simplesmente colocar um homem branco de barba e trajado com manta. Maomé é uma espécie de profeta, que equivale à figura de Moisés, escolhido por Deus, para divulgar Sua palavra pelo livro sagrado chamado Alcorão. Resumindo: os muçulmanos o idolatram. Agora, imaginem transformar a figura de Maomé num homem homossexual, mulherengo e pedófilo? Aí seria enfiar o braço inteiro no vespeiro. Os muçulmanos radicais estão que nem o povo de Springfield após uma briga: carregando tochas e tridentes, tocando a trilha musical de O Planeta dos Macacos!

Diante dos protestos e até uma iminente guerra, alguns atores que participaram do vídeo fizeram declarações para as mídias, alegando que foram enganados pelo suposto diretor. O roteiro que leram e interpretaram foi nitidamente alterado e dublado na pós-produção. Nas mãos dos atores, o título do roteiro era Desert Warriors (Guerreiros do Deserto), mas depois na edição, virou Inocência dos Muçulmanos. As dublagens podem ser facilmente detectadas e comprovadas por qualquer leigo, mas esse papo de que os atores foram ludibriados por completo soa como baboseira. Por mais que eles não tivessem idéia das alterações ou mesmo do fundo digital, eles sabiam que o texto remetia diretamente à religião (cenas com áudio original comprovam), usaram figurinos típicos do Oriente Médio e em algumas cenas, as ações de seus personagens se mostram bem vulgares para quaisquer bons costumes.

Aparentemente, o homem por trás da câmera se chama Nakoula Basseley Nakoula, um cristão extremista. Inicialmente, o filme fora dirigido por um tal Sam Bacile (inclusive, este é o nome da conta do vídeo no Youtube), mas após algumas investigações de linhas telefônicas, o responsável foi desmascarado. Aparentemente, Nakoula já fora sentenciado duas vezes nos EUA: em 2010 por fraudes bancárias, e em 1997, por fabricar metanfetamina. Ele se declarou culpado, pegando 1 ano de cadeia e 3 de liberdade condicional. Provavelmente, a justiça norte-americana deve recapturar o salafrário e fazê-lo cumprir duras penas, preferencialmente, com julgamento exibido em rede internacional para acalmar os ânimos muçulmanos.

Resolvido o caso, faz-se necessária uma discussão em torno da notícia:

1. Primeiramente, vamos considerar que Inocência dos Muçulmanos seja de fato um filme. Quem está certo e quem está errado? Existe lado certo e errado? Antes de responder a essas questões, é preciso saber qual o papel de um filme na sociedade. Na História do Cinema, já houve produções polêmicas que envolviam temas sexuais e políticos, sendo o italiano Pier Paolo Pasolini um dos mais famosos e controversos. Em seus filmes, havia uma mensagem que, como qualquer obra de Arte, merece ser analisada e discutida. Seu filme mais polêmico, Salò ou os 120 Dias de Sodoma (1975), foi banido na Itália e em outros países por vários anos por mostrar fortes cenas que misturam sexo com escatologia envolvendo membros da Igreja. A mensagem de Pasolini era simples: trazer a obra do escritor (igualmente polêmico) Marquês de Sade para os dias de fascismo de Benito Mussolini. Depois de terminar as filmagens, o diretor foi encontrado morto numa praia e as circunstâncias ainda são um mistério. Algum palpite?

É claro que o nosso cineasta Nakoula Basseley Nakoula não é exatamente um Pasolini, mas os princípios seriam os mesmos.

Salò, ou os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini. Se for pra comparar, o vídeo do Youtube é fichinha.

2. Seguindo esse pensamento, pela legislação, o suposto cineasta estaria livre de qualquer pena pelo filme, pois a liberdade de expressão o protege. Desse modo, a justiça deve condená-lo pelos demais crimes de fraude. Além disso, esse vídeo tosco seria uma consequência natural da Arte estando à disposição de todos. Multiplicando-se a quantidade de produções e o fácil acesso à mídia pelo Youtube, era questão de tempo algo desse naipe acontecer. Essa é uma matemática pura e simples de se entender.

Embora, Nakoula estivesse em seu direito fazer um filme, de forma alguma estou defendendo o autor do vídeo, pois ele foi bastante infeliz por ter criado uma história puramente provocativa e gratuita. Para esse tipo de “artista”, a liberdade de expressão serve como papel higiênico, mas trata-se de um direito conquistado pela civilização, devendo ser utilizada de forma consciente e com propriedade.

E as críticas a Nakoula não param por aí. O que se pode esperar de um “artista” que enganou alguns profissionais que trabalharam no filme? Esse indivíduo mau caráter distorceu o trabalho deles e agora está sendo processado pelas atrizes. Mas a pior consequência de sua irresponsabilidade deve ganhar maiores proporções. Por se tratar de uma produção realizada em solo americano, as autoridades dos Estados Unidos se vêem obrigadas a pedir desculpas publicamente para evitar maiores tragédias.

3. Agora, pelo outro lado da história, convenhamos que qualquer pessoa com bom senso jamais daria tanta importância para um vídeo desses. Ok, todos sabemos o quão radicais são alguns religiosos, mas nesse casos, quanto mais atenção se dá a esse vídeo, mais ele cresce na mídia, aumentando as chances de começar uma guerra sem fundamento. Os estragos causados até o momento denotam a delicadeza da situação.

Apesar de muitos culparem o filme, foram as pessoas que aceitaram a mensagem provocativa do vídeo e aumentaram a tensão internacional. A relação entre os norte-americanos e o povo muçulmano e do Oriente Médio não tem sido a mesma desde os ataques terroristas do 11 de Setembro de 2001. Além do caos aéreo e das questões de segurança, o preconceito vem causando muitas tragédias como o recente ataque à comunidade Sikh, que prega justamente a tolerância. Ou as autoridades norte-americanas tratam logo essa questão tensa, ou podemos presenciar uma nova guerra mundial na próxima década.

Paquistaneses se aquecem em volta da fogueira, coincidentemente, na bandeira americana.

4. Como disse anteriormente, eu não tenho religião alguma. Mas o que podemos dizer de uma religião que quer condenar uma menina de 11 anos à morte por ter queimado um Alcorão? (Veja notícia de agosto/12: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/08/menina-e-presa-por-queimar-paginas-do-alcorao-no-paquistao.html) Seria mais fácil supôr que a menina estaria possuída por um demônio do que analisar se ela tem capacidade ou não para distinguir o certo do errado, e se ela tem alguma doença mental. Mesmo assim, alguns poderiam defender essa atitude com as diferenças sócio-culturais, que realmente existem e devem ser respeitadas. Porém, uma coisa é ver um boliviano não tomar banho diariamente pelo costume da neve ou um indiano não comer carne bovina por questões religiosas. Outra coisa é ver um muçulmano querer matar uma criança por queimar um livro sagrado (como se crianças soubessem o que fazem toda hora).

Por favor, não me levem a mal. Acredito em valores e respeito todas as religiões, mas vale ressaltar aquele bom e velho ditado: “Tudo que é demais faz mal”. Não levem tudo muito à sério, não seja extremista. Até onde eu sei, todas as religiões pregam a paz e a aceitação, certo? Mas não é o que estamos vendo hoje nos noticiários.

5. No final deste ano, estréia o novo filme de Paul Thomas Anderson, The Master, que trata dos primórdios da Cientologia. Se o filme for provocativo, de péssima qualidade e receber indicações ao Oscar, Tom Cruise e John Travolta prometem destruir Hollywood. Fiquem atentos!

Veja o vídeo Innocence of the Muslims pelo próprio postador e tirem suas próprias conclusões: