Spike Lee, Debbie Reynolds e Gena Rowlands serão homenageados no Governors Awards

Spike Lee, Debbie Reynolds e Gena Rowlands serão os homenageados deste ano (photo by elperiodico.com.do)

Spike Lee, Debbie Reynolds e Gena Rowlands serão os homenageados deste ano (photo by elperiodico.com.do)

ACADEMIA HONRA TRÊS INDICADOS QUE NUNCA VENCERAM

Para quem assiste à cerimônia do Oscar e não é lá muito cinéfilo, algumas categorias técnicas e/ou menores tais como Efeitos Sonoros ou Curta-Metragem de Animação podem ser um tédio interminável, ainda mais quando o vencedor sobe ao palco achando que tem que agradecer todas as pessoas que conheceu na vida. Aliás, há uns dois anos, já ouço rumores de que os organizadores do evento estariam interessados em limar essas categorias justamente para dar mais ritmo ao show e atrair mais audiência televisiva, que vem caindo nos últimos anos. E há 7 anos, em 2009, a Academia tomou uma decisão sábia nesse sentido: retirou o Oscar Honorário da cerimônia.

Calma. Não me interpretem mal! Sou cinéfilo e adoro as homenagens, especialmente com profissionais tão talentosos e experientes como os que ganharam a honraria como Stanley Donen e Robert Altman, mas em termos práticos, digamos assim, foi uma decisão acertada, pois era nesses momentos nostálgicos que o telespectador comum trocava de canal ou ia pra cama mais cedo. Além disso, com a criação do Governors Awards, um evento paralelo ao Oscar que ocorre em novembro, é possível fazer a homenagem com o devido respaldo e tempo (sem precisar tocar musiquinha pra expulsar o veterano do palco). E ao contrário do Oscar Honorário, que costumava honrar apenas um por ano, o Governors emplaca pelo menos três de uma vez! E com a festa separada, cada homenageado tem seu devido tempo com seu apresentador exclusivo.

Pra quem não conhece, veja o vídeo da homenagem ao mestre da animação Hayao Miyazaki no Governors Awards 2014, feito por John Lasseter, e em seguida, o discurso de Miyazaki:

Não existe uma regra específica para quem pode ser homenageado como o fato de nunca ter ganhado o Oscar. Prova disso foi o próprio diretor Hayao Miyazaki, que em 2002, mesmo ausente da cerimônia, venceu o Oscar de Melhor Longa de Animação por A Viagem de Chihiro. Mas, coincidência ou não, este ano, todos os artistas saudados nunca ganharam uma estatueta. Eles são: Spike Lee, Debbie Reynolds e Gena Rowlands. Eles foram os mais bem votados entre os membros da Academia na eleição que ocorreu no último dia 25. Não haverão receptores para os prêmios especiais Jean Hersholt Humanitarian Award e Irving G. Thalberg, destino a produtores.

DEBBIE REYNOLDS

Debbie Reynolds com Gene Kelly no filme Cantando na Chuva (photo by thetimes.co.uk)

Debbie Reynolds com Gene Kelly no filme Cantando na Chuva (photo by thetimes.co.uk)

Para o público cinéfilo, Debbie Reynolds será eternizada por sua performance como a atriz Kathy Selden no clássico musical Cantando na Chuva (1952). Além de seu talento como atriz, ela demonstrou habilidade na dança que muitos duvidaram. Afinal, não era qualquer uma que conseguiria acompanhar os passos de Gene Kelly e Donald O’Connor. Já para o público nerd, ela será sempre a mãe da Princesa Leia, a atriz Carrie Fisher, da cinessérie Star Wars, que terá a franquia reativada este ano com Star Wars: Episódio VII: O Despertar da Força.

Foi indicada uma vez para Melhor Atriz em 1965 por A Inconquistável Molly, mas perdeu para Julie Andrews (Mary Poppins). Curiosamente, recebeu o Lifetime Achievement Award no SAG este ano.

SPIKE LEE

Spike Lee em cena de Faça a Coisa Certa, escrito e dirigido por ele (photo by theodysseyonline.com)

Spike Lee em cena de Faça a Coisa Certa, escrito e dirigido por ele (photo by theodysseyonline.com)

Um dos primeiros filmes que assisti de Spike Lee foi Faça a Coisa Certa (1989). O que era aquele filme? Aquela obra transpirava criatividade e tinha uma voz única que pouco vi no cinema. Merecia o Oscar de Melhor Filme, que acabou indo para outro longa sobre racismo (Conduzindo Miss Daisy), mas beeeem mais light e conservador. Spike Lee, norte-americano negro, é um artista que trouxe orgulho à comunidade negra por sua defesa e retrato de personagens de seus filmes, sejam eles ficcionais ou verídicos como o lendário Malcolm X, impecavelmente interpretado por Denzel Washington. Porém, nos últimos anos, talvez exceto pelo bom O Plano Perfeito (2006), suas produções se tornaram menos relevantes. E pra piorar, caiu no meu conceito quando comprou briga com o diretor Quentin Tarantino por ele ter usado o termo “nigger” (crioulo) – muito comum na Mississipi racista – no filme Django Livre (2012). Parecia atitude de ex-Big Brother querendo causar pra aparecer na mídia… Uma pena.

Foi indicado ao Oscar duas vezes. Em 1990, pelo Roteiro Original de Faça a Coisa Certa. E em 1998, pelo Documentário 4 Little Girls.

GENA ROWLANDS

Gena Rowlands em cena de Uma Mulher Sob Influência (photo by crimsonkimono.com)

Gena Rowlands em cena de Uma Mulher Sob Influência (photo by crimsonkimono.com)

Quando se vê o conjunto de trabalho de Gena Rowlands, é de se espantar como ela não ganhou seu merecido Oscar. Tudo bem que a maioria de suas performances estão em produções independentes que, nos anos 70 e 80 eram menos vistos do que hoje, mas felizmente a Academia está tentando reparar essa enorme injustiça ao lhe fazer esta bela homenagem. Para o público de hoje, ela é mais conhecida como a versão idosa da protagonista do romance Diário de uma Paixão (2004) ou do filme de terror A Chave Mestra (2005), mas houve um tempo em que ela era a rainha dos filmes independentes ao lado do marido e diretor John Cassavetes.

Aliás, Cassavetes é considerado por muitos o pai do cinema independente americano, inclusive tendo um prêmio em seu nome no prestigiado Independent Spirit Awards. O casal fez ao todo dez filmes juntos, tendo como highlights justamente aqueles por qual ela recebeu indicação ao Oscar: Uma Mulher Sob Influência em 1975 e Gloria em 1981. Rowlands tornou suas personagens fortes em mulheres fortes, porém com uma sensibilidade que pouco se via.

Seguem os vencedores do Governors Awards desde sua criação em 2009:

2009: Lauren Bacall, John Calley, Roger Corman, Gordon Willis

2010: Jean-Luc Godard, Kevin Brownlow, Francis Coppola, Eli Wallach

2011: James Earl Jones, Dick Smith, Oprah Winfrey

2012: Jeffrey Katzenberg, Hal Needham, D.A. Pennebaker, George Stevens Jr.

2013: Angelina Jolie, Angela Lansbury, Steve Martin, Piero Tosi

2014: Harry Belafonte, Jean-Claude Carrière, Maureen O’Hara, Hayao Miyazaki

A cerimônia do 7º Governors Awards será no dia 14 de novembro.

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21 Animações inscritas para o Oscar 2013

O diretor Tim Burton trabalhando num dos moldes da animação Franknweenie, provável candidato a favorito ao Oscar 2013 (photo by Enterntainment Weekly)

Inscrições encerradas. O Oscar 2013 já fechou com 21 animações que se tornarão cinco finalistas. Vendo os concorrentes, dá pra fazer uma breve análise de quem tem maiores chances de chegar ao tapete vermelho. Apesar da categoria de Melhor Animação ser a mais nova da premiação com seus 11 aninhos, é possível distinguir um certo padrão nos indicados.

Regrinha número 1: Reserve uma das vagas para a PIXAR. Se lançaram um filme produzido pela Pixar, pode incluí-lo na lista. E os números são impressionantes. Dos dez vencedores do Oscar de animação, a Pixar levou o ouro seis vezes! Concorreu em oito oportunidades e perdeu em apenas duas ocasiões: Em 2002, Monstros S.A. para o imbatível Shrek. E em 2007, Carros foi batido por Happy Feet – O Pinguim. A Pixar só não chegou na reta final em uma única vez, este ano, porque Carros 2 foi nitidamente feito pra ganhar dinheiro e agradar um dos chefes da produtora e diretor do próprio filme: John Lasseter.

Procurando Nemo (2003), de Andrew Stanton. Vencedor pela Pixar em 2004 foi relançado nas salas de cinema este ano no formato 3D.

Em 2013, a Pixar deve voltar a concorrer pelo novo trabalho Valente, de Mark Andrews e Brenda Chapman. Não sei se tentaram ir na onda do sucesso de Como Treinar Seu Dragão, mas a temática viking não fez o sucesso que se esperava. Por se tratar de uma animação com o selo da Pixar, a bilheteria costuma ficar garantida e a vaga no Oscar também, mas deve se tornar a terceira derrota da produtora.

Regrinha número 2: Traga material estrangeiro para a categoria. O segundo Oscar de animação foi para o pioneiro Hayao Miyazaki e seu belíssimo filme A Viagem de Chihiro. Nos anos seguintes, a Academia pegou esse costume de tentar trazer sempre produções internacionais, valorizando a categoria, os artistas responsáveis e a audiência na TV. Além do Japão de Miyazaki, que voltou a concorrer em 2006 com O Castelo Animado, a França se destacou com As Bicicletas de Belleville e O Mágico, ambos de Sylvain Chomet, com Persepolis, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, e este ano com o espanhol Chico & Rita, de Tono Errando, Javier Mariscal e Fernando Trueba, e o francês Um Gato em Paris, de Jean-Loup Felicioli e Alain Gagnol.

As Bicicletas de Belleville (2003), de Sylvain Chomet, marcou a estréia da França na categoria. Merecia o Oscar.

Independente dos motivos comerciais e de audiência do Oscar, a presença da diversidade internacional ressalta a qualidade de trabalhos feitos fora do território americano, dominado pela técnica de 3D (animações tridimensionais como as da Pixar). As animações cresceram bastante com o 3D, mas pra mim, o 2D tem muito mais charme.

Regrinha número 3: Não se trata exatamente de um regra, mas uma tendência. Nos últimos anos, alguns diretores de filmes com atores vêm se aventurando no gênero da animação. O primeiro diretor sem tradição com desenho a ganhar o Oscar da categoria foi George Miller com Happy Feet – O Pinguim em 2007. Miller ficou mais conhecido pela trilogia do violento Mad Max, estrelada pelo jovem Mel Gibson. Este ano, o vencedor Rango foi dirigido por Gore Verbinski, cuja filmografia inclui Piratas do Caribe – A Maldição do Pérola Negra e O Chamado.

Quando as pessoas ainda estavam na onda “fofa” dos pinguins de A Marcha dos Pinguins, Happy Feet – O Pinguim (2006), de George Miller, foi o vencedor da categoria por causa de sua alta bilheteria. Mas quem realmente merecia era A Casa Monstro, de Gil Kenan.

Em 2013, Tim Burton pode se juntar a essa tendência. Embora tenha realizado alguns curtas de animação (como o próprio curta Frankenweenie, de 1984, que dá origem ao longa) e o longa Noiva-Cadáver (2005), que lhe rendeu a primeira e única indicação ao Oscar, o diretor ficou bem mais marcado por trabalhos com atores como Edward Mãos-de-Tesoura (1990), Ed Wood (1994) e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999).

DOS CONCORRENTES DE 2013

Como a Academia fez a pré-seleção com 21 candidatos, isso significa que haverão cinco finalistas. Para que isso aconteça, é necessário o mínimo de 16 produções. Abaixo disso, a categoria teria apenas 3 finalistas.

Obviamente, não conferi todos os 21 filmes, mas dei uma olhada em cada um e cheguei a algumas conclusões. Primeiro, vamos conferir a lista das 21 animações, em ordem alfabética:

Frankenweenie, de Tim Burton: Favorito ao Oscar 2013.

Delhi Safari, de Nikhil Advani (Índia)

Detona Ralph (Wreck-It Ralph), de Rich Moore (EUA)

A Era do Gelo 4 (Ice Age Continental Drift), de Steve Martino e Mike Thurmeier (EUA)

Frankenweenie (Frankenweenie), de Tim Burton (EUA)

From Up on Poppy Hill (Kokuriko-zaka Kara), de Goro Miyazaki (Japão)

O Gato do Rabino (Le Chat du Rabbin), de Antoine Delesvaux e Joann Sfar (França/ Áustria)

Hey Krishna (Krishna Aur Kans), de Vikram Veturi (Índia)

Hotel Transilvânia (Hotel Transylvania), de Genndy Tartakovsky (EUA)

A Liar’s Autobiography: The Untrue Story of Monty Python’s Graham Chapman, de Bill Jones, Jeff Simpson e Ben Timlett (Reino Unido)

O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida (Dr. Seuss’ The Lorax), de Chris Renauld (EUA)

Madagascar 3: Os Procurados (Madagascar 3: Europe’s Most Wanted), de Eric Darnell, Tom McGrath e Conrad Vernon (EUA)

The Mystical Laws (Shinpi no hô), de Isamu Imakake (Japão)

A Origem dos Guardiões (Rise of the Guardians), de Peter Ramsey (EUA)

The Painting (Le Tableau), de Jean-François Laguionie (França)

ParaNorman (ParaNorman), de Chris Butler e Sam Fell (EUA)

Piratas Pirados! (The Pirates! Band of Misfits), de Peter Lord (Reino Unido/ EUA)

Tinker Bell: O Segredo das Fadas (Secret of the Wings), de Roberts Gannaway e Peggy Holmes (EUA)

Valente (Brave), de Mark Andrews e Brenda Chapman (EUA)

Walter & Tandoori’s Christmas (Le Noël de Walter et Tandoori), de Sylvain Viau (Canadá)

Zambezia, de Wayne Thornley (África do Sul)

Zarafa, de Rémi Bezançon e Jean-Christophe Lie (França/ Bélgica)

Piratas Pirados!, de Peter Lord: animação de massinha muito bem representado.

Como realizador, só o fato de ter seu filme lançado numa sala de cinema já seria motivo de orgulho. Imagine então tê-lo nessa lista! Apesar da quantidade de animações lançadas em um ano ser bem inferior ao de filmes com atores (live-action), ainda assim, trata-se de uma seleção oficial da Academia. Contudo, alguns desses trabalhos não devem seguir adiante na classificação como são os casos de Tinker Bell: O Segredo das Fadas e Walter & Tandoori’s Christmas, por se tratarem de filmes mais comuns.

Voltando ao tema da diversidade internacional, acho muito bacana ver uma produção sul-africana na lista. Apesar de Zambezia parecer um clone genérico de Madagascar, vale pelo incentivo aos artistas do continente africano, que têm orçamento bastante reduzido. As animações indianas Delhi Safari e Hey Krishna também não vão muito longe no âmbito visual, mas para quem achava que a Índia só tinha musicais à la Bollywood, aí está a prova de que existe diversidade em todos os países.

Tirando Frankenweenie e Valente, que já são presença certa entre os indicados pelos motivos citados no início do post, não existem mais favoritismos. Porém, por se tratar da única animação feita com massinha, Piratas Pirados! tem boas chances de concorrer. Além de reforçar a diversidade, a Academia já comprovou que gosta dessa técnica de stop-motion ao premiar Wallace & Grommit – A Batalha dos Vegetais, de Steve Box e Nick Park, em 2006.

Detona Ralph pode se tornar uma grata surpresa na lista pelo sucesso de público.

Outro detalhe que faz diferença é a bilheteria da animação. Nesse quesito, Detona Ralph, que conta com vários personagens do universo do video-game, estreou semana passada em primeiro lugar nos EUA, com 49 milhões de dólares. É lógico que os números não se comparam a uma estréia da Pixar, que costuma superar os 100 milhões, mas devemos considerar como um sucesso grande nessa reta final. Vale lembrar que o simpático Hotel Transilvânia está na sua sexta semana em cartaz e já faturou 137 milhões.

Não acredito que a Academia vá compensar com uma indicação as sequências A Era do Gelo 4 e Madagascar 3 – Os Procurados, mas não podemos ignorar que Shrek 2 e Kung Fu Panda 2 já foram finalistas. Isso acabaria abrindo uma bela brecha para que a produção com visual mais caprichado entre na roda: o francês The Painting (Le Tableau), que mexe com pinturas e surrealismo. Por mais que não agrade alguns votantes, é inegável a qualidade estética da animação de Jean-François Laguionie, um veterano que já dirigiu sete curtas e quatro longas. Deve e merece ser indicado. Veja a foto abaixo e tente discordar:

The Painting (Le Tableau): um espetáculo visual que merece maior exposição internacional

Ainda vale citar alguns trabalhos que podem surpreender como o japonês From Up on Poppy Hill, dirigido pelo filho de Hayao Miyazaki, Goro Miyazaki. O Gato do Rabino seria uma segunda opção para a França, caso The Painting não passe, ainda mais que contém elementos da religião judaica, muito forte entre os votantes da Academia. Eu também citaria ParaNorman pelo sucesso que fez em solo americano, mas talvez o fato de ter algumas semelhanças mórbidas com Frankenweenie atrapalhe na seleção.

E pra fechar, gostaria muito de ver o alternativo britânico A Liar’s Autobiography: The Untrue Story of Monty Python’s Graham Chapman entre os indicados. A animação que mistura várias técnicas diferentes como 2D, 3D, pintura e colagem pra contar a história de Graham Chapman, criador do grupo de humor Monty Phyton já vale pela idéia genial. Resta saber se os votantes têm a cabeça aberta para algo mais incomum, pois infelizmente, a maioria ainda acredita que animação é obrigatoriamente material infanto-juvenil. Vamos crescer, né?

A Liar’s Autobiography: The Untrue Story of Monty Python’s Graham Chapman: uma das cenas que contém colagem. Será que cola na Academia?

Então, sem mais delongas, minha lista de palpites ficaria assim: (Seria uma mistura das minhas apostas com o que gostaria de ver na categoria)

Detona Ralph

Frankenweenie

The Painting

Piratas Pirados!

Valente

Valente: aposta certa da Pixar, mas não detém o favoritismo desta vez