Começando bem 2014: indicados ao DGA, PGA e WGA

Que tal menos filmes em 3D em 2014? (photo by

Que tal menos filmes em 3D em 2014? (photo by http://www.dailyfinance.com)

Ooooiii, pessoal! Feliz Ano Novo pra todos! Chego de volta a São Paulo e vejo uma caixa de entrada de e-mail abarrotada de mensagens de premiações e indicações louquinhas pra serem abertas e discutidas. Ao contrário do que fiz em outros anos, vou juntar tudo em apenas um post, porque estou no espírito de férias ainda! Não, não… brincadeirinha! Com uma safra tão rica de produções, é interessante ver as escolhas de três sindicatos que apontam os grandes favoritos ao Oscar.

DGA images

Dentre eles, o mais acertivo continua sendo o DGA (Directors Guild of America). Em apenas sete (!) vezes, o vencedor não coincidiu com o vencedor do Oscar de direção. Até o ano passado, quando Ben Affleck ficou estranhamente de fora da categoria, o último vencedor do DGA que não repetiu a façanha no Oscar foi Rob Marshall (Chicago) em 2003! Este ano, o páreo estava duríssimo. Não tinha como não deixar de lado alguns nomes consagrados. Assim, Alexander Payne (Nebraska), Spike Jonze (Ela) e Joel e Ethan Coen (Inside Llewyn Davis) foram eliminados por um nariz de diferença. Confira os selecionados:

DIRECTORS GUILD AWARDS

AlfonsoCuaron.ashxAlfonso Cuarón (Gravidade)
O diretor mexicano é um ótimo exemplo de como um profissional estrangeiro consegue atingir maturidade na indústria americana. Cuarón sempre primou por sua marca imagética. Seja um filme poético como A Princesinha, um blockbuster (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban), um road movie pós-moderno (E Sua Mãe Também) ou criando um novo marco tecnológico (Gravidade), o diretor de fotografia e colaborador assíduo, Emmanuel Lubezki, foi sempre fundamental em sua escrita. Seria uma grata surpresa uma dupla vitória neste Oscar: direção para Cuarón e o merecidíssimo de fotografia para Lubezki.

Paul Greengrass (Capitão Phillips)PaulGreengrass.ashx
Descoberto pelo ótimo drama Domingo Sangrento, que lhe rendeu o Urso de Ouro em 2002, o britânico Greengrass criou um nicho no cinema contemporâneo no qual ele pode trabalhar a linguagem documental numa ficção, gerando uma veracidade que espanta e emociona o público. Ele conseguiu essa proeza em Vôo United 93 na recriação do atentado terrorista do 11 de setembro e nesse episódio de pirataria moderna de Capitão Phillips, criando uma tensão interminável. Também emprestou seu estilo à série de ação e espionagem de Jason Bourne em A Supremacia Bourne e O Ultimato Bourne, que obrigou os produtores de James Bond a repensar a criação de Ian Fleming.

Steve McQueen (12 Anos de Escravidão)SteveMcQueen.ashx
Artista plástico premiado, este diretor britânico, que compartilha o mesmo nome artístico do ator Steve McQueen, está em extrema ascensão em apenas seu terceiro longa. Como bom entendedor do poder da imagem para uma história, ele busca aqueles enquadramentos que possam dizer algo sobre o filme que vemos. Em Shame, por exemplo, ele usa e abusa das linhas urbanas do cenário para contar um pouco mais sobre o personagem viciado em sexo numa cidade que ostenta a civilidade. Sendo um negro e com um filme sobre escravidão na manga, Steve McQueen corre na frente, afinal, eles adorariam a manchete: “O primeiro diretor afro-americano a ganhar um Oscar”. Sinceramente, espero que ele ganhe por méritos profissionais, e não raciais, pois trata-se de uma voz singular no cinema contemporâneo.

David O. Russell (Trapaça)DavidORussell.ashx
“Há um parafuso faltando aqui”, pensava eu ao falar de David O. Russell, na época em que vi Três Reis (1999) e Huckabees: A Vida é uma Comédia (2004). Não que isso seja ruim. Muito pelo contrário! Ele tinha um senso de humor bastante incomum que me atraía, mas eu sentia que ele não conseguiria decolar em Hollywood apenas com aquilo. Felizmente, nosso David O. Russell amadureceu seu cinema e nos entregou ótimos filmes como os recentes O Vencedor (2010) e O Lado Bom da Vida (2012). De longe, concordo, são filmes que você não dá nada. Não tem uma grandiosidade de um gladiador ou um grande navio afundando, mas ele explora tão bem a humanidade das histórias simples que fica impossível não lhe dar crédito. Além disso, tem se tornado um dos melhores diretores de atores dos últimos anos. Já conquistou sete indicações e três Oscars de atuação de seus elencos: Melissa Leo, Christian Bale e Jennifer Lawrence. Tem tudo pra conquistar mais com Trapaça e pode se tornar a grande surpresa da categoria.

scorsesewolf.ashxMartin Scorsese (O Lobo de Wall Street)
O que dizer de Marty? Nem posso dizer que ele é como vinho, que fica melhor a cada ano, pois também dirigiu obras-primas como Taxi Driver (1976) e Touro Indomável (1980) no passado. Mas definitivamente não existe diretor mais apaixonado por Cinema do que Scorsese. Isso já estava provado nas incontáveis entrevistas e no apoio às restaurações de películas antigas e perdidas no tempo. Ele comprovou essa paixão numa tocante homenagem à Sétima Arte e a Georges Méliès em A Invenção de Hugo Cabret. Talvez a polêmica sobre sexo e drogas de O Lobo de Wall Street atrapalhe na conquista de mais uma indicação ao Oscar, mas se ele está nesta lista, não acredito que seja favorecimento nenhum. Martin Scorsese cria filmes atemporais.

Ainda está cedo para previsões de vitória, mas até o momento, Alfonso Cuarón e Steve McQueen dividem a ponta, com David O. Russell cheirando o cangote deles logo atrás. E o vencedor tem 99% de vitória no Oscar, pois não creio em duas exceções consecutivas na história do DGA.

PGA headerJá o sindicato de Produtores teve uma tarefa mais fácil. Ou pelo menos, menos árdua do que o DGA, afinal poderiam selecionar 10 produções. Contudo, com uma grande variedade de candidatos de boa qualidade, dez vagas também não deram conta de tudo.

Vale destacar a importante marca para a produtora Megan Ellison (da Annapurna Pictures). Ela foi a única a conquistar duas indicações com Trapaça e Ela. Megan poderia ter conquistado três, mas Foxcatcher foi adiado para 2014. No ano passado, ela produziu dois filmes de qualidade e que ainda geraram discussão acalorada na mídia e na temporada de premiações: O Mestre e A Hora Mais Escura. Numa Hollywood dominada por produtores covardes e que só pensam em lucro, a presença de Megan Ellison me enche de esperança. Claro que ninguém é de ferro. Ela vai produzir o reboot de uma nova trilogia de O Exterminador do Futuro, que começa em 2015. Mas mesmo assim, acredito que ela não fará apenas pelas bilheterias. Guardem o nome dela, pois mais conquistas importantes estão por vir.

A produtora Megan Ellison (à dir) ao lado da diretora Kathryn Bigelow e da bela atriz Jessica Chastain na festa do Globo de Ouro 2013. (photo by www.vanityfair.com)

A produtora Megan Ellison (à dir) ao lado da diretora Kathryn Bigelow e da bela atriz Jessica Chastain na festa do Globo de Ouro 2013. (photo by http://www.vanityfair.com)

MELHORES PRODUTORES – LONGAS-METRAGENS

Trapaça (American Hustle)
Blue Jasmine (idem)
Capitão Phillips (Captain Phillips)
Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club)
Gravidade (Gravity)
Ela (Her)
Nebraska
Walt nos Bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks)
12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave)
O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street)

Em 2011, o PGA decidiu estender seus indicados para 10 fixos, o que não ocorre no Oscar, onde pode haver de 5 a 10. Vale ressaltar também o alto índice de acertos de vencedores em relação à Academia. Em seus 24 aninhos de existência, o PGA elegeu 17 vezes o vencedor de Melhor Filme no Oscar, incluindo os recentes Argo e O Artista. A última divergência ocorreu em 2007, quando Pequena Miss Sunshine perdeu para Os Infiltrados.

Para a edição de 2014, as ausências mais sentidas foram Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum e Fruitvale Station: A Última Parada pela alta participação nas últimas listas de críticos. Mas vale citar também Álbum de Família, All is Lost e Philomena, que conseguiu uma indicação ao Globo de Ouro.

Dentre os 10 candidatos, Trapaça, 12 Anos de Escravidão e Gravidade largam na frente, mas Ela pode roubar o show sem grandes dificuldades por ser querido pela crítica. Por outro lado, se pensarmos em bilheteria, Gravidade tem todas as cartas por ter faturado mais de 600 milhões de dólares mundo afora, muito longe dos 208 milhões do segundo lugar Capitão Phillips. No Oscar, eu ainda acho que Gravidade deverá se concentrar nos prêmios mais técnicos como fotografia, montagem e som.

Gravidade: no páreo para o DGA e PGA (photo by www.beyondhollywood.com)

Gravidade: no páreo para o DGA e PGA (photo by http://www.beyondhollywood.com)

MELHORES PRODUTORES – ANIMAÇÕES

Os Croods (The Croods)
Meu Malvado Favorito 2 (Despicable Me 2)
Reino Escondido (Epic)
Frozen: Uma Aventura Congelante (Frozen)
Universidade Monstros (Monsters University)

Sem um dos grandes favoritos fora do páreo por não pertencer ao sindicato americano, a animação japonesa Vidas ao Vento, de Hayao Miyazaki, a categoria conta apenas com produções de grandes estúdios como Disney, Pixar, Dreamworks e Universal. Porém, essa ausência não deve reduzir as chances de Miyazaki conseguir sua segunda estatueta do Oscar. Ainda não conferi Frozen, mas premiaria Os Croods pela alta abrangência de público-alvo de sua história de uma família das cavernas se adaptando às mudanças na Terra.

Os Croods: caminho mais livre para o PGA (photo by www.beyondhollywood.com)

Os Croods: caminho mais livre para o PGA (photo by http://www.beyondhollywood.com)

MELHORES PRODUTORES – DOCUMENTÁRIOS

A Place at the Table
Far Out Isn’t Far Enough
Life According to Sam
We Steal Secrets: The Story of WikiLeaks
Which Way is the Front Line From Here? The Life and Time of Tim Hetherington

Com o documentário História que Contamos, de Sarah Polley, fora da competição, o grande favorito fica sendo We Steal Secrets, que aborda a história do WikiLeaks do exilado Julian Assange. Conta muito a favor ter o diretor Alex Gibney, de Um Táxi Para a Escuridão, que ganhou o Oscar em 2008. Infelizmente, não há previsão de estréia no Brasil para a maioria dos documentários, o que dificulta a análise dessa categoria.

Julian Assange no documentário de Alex Gibney (photo by www.elfilm.com)

Julian Assange no documentário de Alex Gibney (photo by http://www.elfilm.com)

Dos três sindicatos, o WGA é o menos badalado. Mas não porque se trataria de um prêmio menor, mas suas regras inviabilizam indicações de trabalhos pertinentes. Como os demais prêmios, ele exige a filiação do profissional ao sindicato, mas também a exigência da produção do filme sob a sua jurisdição, o que implica em mais regras que eliminam bons candidatos.

Desse modo, as estatísticas de acerto são bem menores. Os excluídos pela regra deste ano incluem: John Ridley (12 Anos de Escravidão), Steve Coogan e Jeff Pope (Philomena), Ryan Coogler (Fruitvale Station: A Última Parada), Peter Morgan (Rush: No Limite da Emoção) e Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix (Azul é a Cor Mais Quente). Já os trabalhos originais incluem: Alfonso Cuarón e Jonas Cuarón (Gravidade), Joel e Ethan Coen (Inside Llewyn Davis), Kelly Marcel e Sue Smith (Walt nos Bastidores de Mary Poppins) e Jason Reitman (Refém da Paixão).

Claro que se levarmos em consideração que a Academia também premia roteiros desclassificados pela WGA, essas exclusões não pesariam tanto na temporada. Só para citar um exemplo, o roteiro de Quentin Tarantino para Django Livre foi cortado da WGA, mas ganhou o Oscar.

ROTEIRO ORIGINAL

Eric Singer, David O. Russell (Trapaça)
Woody Allen (Blue Jasmine)
Craig Borten, Melisa Wallack (Clube de Compras Dallas)
Spike Jonze (Ela)
Bob Nelson (Nebraska)

ROTEIRO ADAPTADO

Tracy Letts (Álbum de Família)
Richard Linklater, Ethan Hawke, Julie Delpy (Antes da Meia-Noite)
Billy Ray (Capitão Phillips)
Peter Berg (O Grande Herói)
Terence Winter (O Lobo de Wall Street)

O diretor e roteirista Richard Linklater entre os atores e roteiristas Julie Delpy e Ethan Hawke no set de Antes da Meia-Noite (photo by www.elfilm.com)

O diretor e roteirista Richard Linklater entre os atores e roteiristas Julie Delpy e Ethan Hawke no set de Antes da Meia-Noite (photo by http://www.elfilm.com)

ROTEIRO DE DOCUMENTÁRIO

David Riker, Jeremy Scahill (Guerras Sujas)
Sara Lukinson, Michael Stevens (Herblock: The Black & the White)
Janet Tobias, Paul Laikin (No Place on Earth)
Sarah Polley (Histórias que Contamos)
Alex Gibney (We Steal Secrets: The Story of WikiLeaks)

Indicados ao BAFTA Rising Star de 2014 (photo by www.empireonline.com)

Indicados ao BAFTA Rising Star de 2014, do topo da esquerda à direita: Dane DeHaan, Lupita Nyong’o, Léa Seydoux, Will Poulter e George MacKay (photo by http://www.empireonline.com)

Também gostaria de aproveitar o post para divulgar os indicados ao Rising Star do BAFTA, concedido a um ator ou atriz revelação que se destacou no ano. Vencedores recentes incluem Juno Temple, Tom Hardy e Kristen Stewart. Porém, vale lembrar que os vencedores são eleitos pelo público, o que quase sempre resulta em vitória injusta. Talentos como Michael Fassbender, Carey Mulligan e Alicia Vikander já concorreram, mas perderam em edições anteriores. Particularmente, tenho certa aversão às escolhas do público como no MTV Movie Awards. Se dependesse dos votos na internet, os melhores filmes de todos os tempos seriam Star Wars e O Senhor dos Anéis para toda a eternidade…

Dane DeHaan
George MacKay
Lupita Nyong’o
Will Poulter
Léa Seydoux

* Fique atento às datas: O PGA divulga seus vencedores no dia 19 de janeiro. O DGA no dia 25, enquanto o WGA fica para o dia 1º de fevereiro.

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Argo (Argo), de Ben Affleck (2012)

Argo, de Ben Affleck. Fortíssimo candidato ao Oscar 2013.

TERCEIRO FILME DE BEN AFFLECK RESGATA HUMOR POLÍTICO

Apesar de ser inspirada em fatos verídicos, a história de Argo contém elementos fictícios que simplificam o contexto de forma que qualquer espectador possa entender e embarcar na arriscada missão. Desde que estreou nos EUA em outubro, vem conquistando elogios da crítica e tem se tornado um dos fortes candidatos ao Oscar.

Logo no início, somos apresentados a uma breve história do Irã, passando pela desavença causada pelo exílio do Xá e a revolta do povo xiita liderado pelo aiatolá Khomeini para invadir a embaixada americana no Teerã com o objetivo de levar o líder político a julgamento. Nesse cenário de caos e barbárie, seis funcionários da embaixada conseguem escapar a tempo e se refugiam na casa do embaixador canadense. Com a pressão política devastando o país, a CIA se vê obrigada a retirá-los do solo iraniano antes que haja uma tragédia e comprometa o diplomata canadense.

Os seis americanos na casa do embaixador canadense.

Incontáveis idéias surgem das cabeças do alto escalão, sendo uma delas conseguir documentos de professores estrangeiros. Nesse momento conturbado, surge o agente Tony Mendez (Ben Affleck), especializado em exfiltração. Numa noite, ao falar com o filho que mora com a mãe por telefone, ele assiste a um dos filmes da série O Planeta dos Macacos e dali nasce o plano mirabolante. Mendez precisa convencer as autoridades do aeroporto do Irã que seus seis refugiados são parte de uma equipe de filmagem canadense para o falso filme de ficção científica intitulado Argo, que teria vindo ao país para pesquisar locações para os cenários de desertos.

Como o agente desconhece o universo fílmico, é enviado para Los Angeles, mais precisamente em Hollywood, onde conhece o maquiador John Chambers (artista verídico, falecido em 2001), vivido por John Goodman, e o produtor fictício Lester Siegel (Alan Arkin). Nessa parte que Argo mais cresce, pois explora o paralelo entre a vida e a arte, e a CIA e Hollywood. Chambers e Siegel brilham na tela ao criticar Hollywood e seu mercenarismo. São deles os melhores diálogos do roteiro de Chris Terrio, jovem escritor nova-iorquino que deve ter inúmeras oportunidades depois do sucesso de Argo.

Quando a idéia vira realidade. Chambers (Goodman), Siegel (Arkin) e Mendez (Affleck) se reunem para discutir a “Opção Hollywood”

Como se tratava de uma operação altamente confidencial, pela mídia, os refugiados conseguiram escapar graças aos esforços do Canadá, que ganharam o crédito do salvamento das vidas. Só depois de 17 anos que o então presidente americano Bill Clinton tornou público todo o planejamento originado na CIA, em parceria com Hollywood, e o cabeça Tony Mendez, que ganhou dinheiro depois ao publicar um livro. Mas ao contrário do que muitos pensam, o roteiro de Chris Terrio nada tem a ver com o livro de Mendez, pois é baseado no artigo de Joshuah Bearman, publicado na revista Wired.

Outra fato que parece ter alguma influência ou ligação com Argo seria o exílio do fundador do WikiLeaks, Julian Assange, na embaixada do Equador em Londres. O abrigo político de Assange, que se iniciou em junho deste ano, ainda continua sem solução. Infelizmente, com a popularidade do filme de Affleck, a estratégia de  sair disfarçado como membro de equipe de filmagem já está batida. Agora vai ter que ser bem mais criativo pra sair de lá…

Julian Assange, fundador do WikiLeaks, exilado na embaixada do Equador. Devido ao vazamento de informações confidenciais de alguns governos, muitos querem entregá-lo às autoridades…

… já outros querem a sua liberdade. O protesto homenageia a graphic novel de Alan Moore, V de Vingança, protagonizada pelo anti-herói anarquista V.

Em seu terceiro longa como diretor, Ben Affleck confirma maturidade com uma trama política, pela qual consegue extrair críticas a Hollywood, aos governos americano e iraniano e ainda entregar um filme tenso do começo ao fim. Com o roteiro altamente abrangedor, ele desvia das armadilhas e salta com leveza entre os gêneros do drama, comédia e suspense, resultando num filme coerente, que agrada a todos os públicos. Sem contar que enquanto cuida desses aspectos, ainda dirige a si mesmo de forma convincente. Affleck queria Brad Pitt para o papel de Tony Mendez, mas como ele estava bastante atarefado, acabou protagonizando.

Em se tratando de atuação, depois de sua aclamada estréia na direção com Medo da Verdade (Gone Baby Gone), Ben Affleck voltou a surpreender os críticos com o drama policial Atração Perigosa (The Town, 2010). Além dos elogios, os filmes renderam duas indicações ao Oscar: Melhor Atriz Coadjuvante para Amy Ryan por Medo da Verdade, e Melhor Ator Coadjuvante para Jeremy Renner por Atração Perigosa.

Mesmo que tenha convencido a todos de suas qualidades no quesito direção de atores, Ben Affleck ainda permanece uma grata surpresa, afinal, ele mesmo nunca se firmou como um dos bons. Na carreira de atuação, Affleck teve algumas performances razoáveis nos filmes de Kevin Smith (Barrados no Shopping, Procura-se Amy e Dogma), participou de alguns filmes em destaque como Shakespeare Apaixonado (1998) e chegou a ganhar o Volpi Cup de Melhor Ator no Festival de Veneza por Hollywoodland – Bastidores da Fama (2006) ao interpretar o ator que foi o Super-Homem na TV, George Reeves. Contudo, a carreira de ator para Affleck não deslanchava porque tentaram vendê-lo como galã nos filmes Armageddon (1998), Pearl Harbor (2001), na refilmagem do sucesso estrelado por Harrison Ford, A Soma de Todos os Medos (2002) e até como o herói da Marvel no fracasso Demolidor – O Homem Sem Medo (2003).

Ben Affleck ao lado de Matt Damon (a esquerda). Vencedores do Oscar de Melhor Roteiro Original por Gênio Indomável (1997).

Embora a estratégia tenha fracassado, especialmente no filme Contato de Risco (2003) quando Ben atingiu o fundo do poço ao lado da então namorada Jennifer Lopez, ele aprendeu bastante com bons diretores. Além do já citado Kevin Smith, Ben Affleck pôde observar de camarote o método de trabalho de Gus Van Sant (Gênio Indomável, pelo qual ganhou o Oscar de Roteiro Original com Matt Damon), Michael Bay (sim, aprendeu como não fazer filmes com Armageddon e Pearl Harbor), John Madden (Shakespeare Apaixonado) e com o falecido John Frankenheimer (sequências de ação e tensão em Jogo Duro). Dessa diversidade de projetos e estilos, Affleck foi criando seu próprio métodos de trabalho que acaba sintetizando muitas das qualidades que ele presenciou nos sets de filmagem, além das suas próprias referências pessoais.

Vale ressaltar que nesses três primeiros filmes, ele soube escolher minuciosamente seu elenco, tarefa nada fácil para um diretor novato. Aí entra também seu trabalho como ator, pois ao longo de sua experiência, pôde ver e conhecer melhor os atores com quem poderia trabalhar no futuro. Logo em seu primeiro projeto, conseguiu escalar Morgan Freeman. Já no segundo, convenceu os veteranos Pete Postlethwaite e Chris Cooper a embarcar na história de ladrões de banco de Atração Perigosa. Em Argo, a façanha se repete devido ao seu alto comprometimento profissional. Alan Arkin, John Goodman e Bryan Cranston fazem parte de um forte grupo que tem grandes chances de ganhar o prêmio de Melhor Elenco (Ensemble Cast in a Movie) do SAG Awards em 2013.

Ben Affleck dirige John Goodman (a esquerda). O jovem diretor vem confirmando seu talento para trabalhar com atores.

O sucesso de Ben Affleck na cadeira de diretor também possibilita novas parcerias por trás das câmeras. Além da diretora de arte Sharon Seymour, que trabalhou nas três produções, Affleck conseguiu colaborações importantes como a do compositor Harry Gregson-Williams e agora com Alexandre Desplat, o montador William Goldenberg (que trabalha frequentemente com Michael Mann), os produtores George Clooney e Grant Heslov para dar mais tranquilidade ao diretor, e apesar de não ter repetido, conseguiu três excelentes diretores de fotografia na ordem: John Toll, Robert Elswitt e Rodrigo Prieto.

Curiosamente, Argo, antes intitulado Escape from Tehran (Fuga de Teerã) estava previsto para ser dirigido por George Clooney e co-escrito por Grant Heslov em 2007 devido ao sucesso de crítica que foi Boa Noite e Boa Sorte (2005). Mas algumas complicações surgiram e o projeto ficou encalhado até 2011, quando Ben Affleck foi apadrinhado por Clooney e desenvolveu o filme com a Warner Bros.

A aposta deu certo. Argo estreou em primeiro lugar nos EUA e se manteve na mesma posição por mais quatro semanas, tendo faturado até o momento, mais de 76 milhões de dólares só em solo americano, fato que só favorece indicações ao Oscar, pois a Academia costuma premiar produções que tiveram pelo menos um sucesso razoável nas bilheterias.

Ainda na questão do Oscar, Alan Arkin e John Goodman podem se tornar indicados na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. Infelizmente, seus papéis têm pouco tempo na tela, o que pode atrapalhar no favoritismo, mas certamente ambos roubam a cena por seu lado cômico que satiriza Hollywood. Arkin já venceu na mesma categoria em 2007 pela comédia independente Pequena Miss Sunshine e Goodman pode finalmente ter sua primeira indicação por interpretar uma figura importante como John Chambers, que ficou mundialmente conhecido por ter criado as próteses dos macacos de O Planeta dos Macacos e ter ganhado um Oscar Honorário de Maquiagem em 1969 (a categoria de Melhor Maquiagem foi criada apenas em 1981, quando Rick Baker venceu pelo primoroso trabalho em Um Lobisomem Americano em Londres).

John Chambers (a esquerda) ao lado de sua criação de O Planeta dos Macacos, que lhe renderia um Oscar Honorário de Maquiagem.

Além de Melhor Filme, Argo pode conseguir a primeira indicação para Melhor Diretor para coroar a maturidade de Ben Affleck que, a esse ponto, não passa mais desapercebido pela temporada de premiações. Também deve obter indicações nas categorias Melhor Roteiro Original (Chris Terrio), Melhor Fotografia (Rodrigo Prieto), Melhor Montagem (William Goldenberg) e Melhor Trilha Musical (Alexandre Desplat), podendo totalizar oito indicações. Sem contar as chances no Globo de Ouro, que acontece no dia 13 de janeiro.

Argo é um filme bem dirigido, atuado e com qualidades técnicas, especialmente o roteiro e a montagem. Mas para a avaliação ainda conto o fato do filme trazer questões políticas de volta ao cenário hollywoodiano. E não se trata de mais um filme político chato e quadrado, senão não estaria fazendo o sucesso comercial que vem fazendo. E vem num momento curioso em que o vídeo Inocência dos Muçulmanos, que causou enorme rebuliço no Oriente Médio, ainda estremece a delicada relação entre os EUA e o Irã.

AVALIAÇÃO: MUITO BOM

007 – Operação Skyfall (Skyfall), de Sam Mendes (2012)

007 – Operação Skyfall

Após um longo hiato de quatro anos, finalmente a franquia mais lucrativa do cinema retorna às telas do cinema. 007 – Operação Skyfall acabou sofrendo esse atraso devido ao processo de falência do estúdio MGM (Metro Goldwyn Meyer), mas agora os produtores asseguraram que esse equívoco não voltará a acontecer, lembrando que Daniel Craig já assinou novo contrato para mais dois filmes com lançamento previsto para 2014 e 2016, com produção e filmagens acontecendo simultaneamente, dando a entender que se tratam de filmes sequenciais.

Com a aproximação da data comemorativa de 50 anos de James Bond, os produtores da série Barbara Broccoli e Michael G. Wilson buscavam algo grandioso que causasse uma reformulação. Para isso, chamaram o vencedor do Oscar de direção por Beleza Americana, Sam Mendes, para comandar o show. Em entrevista, Mendes revela que só passou a aceitar a idéia de dirigir um filme de Bond depois que o diretor Marc Forster foi convocado para assumir 007 – Quantum of Solace (2008), uma vez que Forster tem raízes mais autorais com uma filmografia que inclui o forte drama A Última Ceia (que rendeu o Oscar de melhor atriz para Halle Berry) e o drama O Caçador de Pipas, baseado no best-seller de Khaled Hosseini.

Sam Mendes (a esq.) dirigindo Daniel Craig na sequência inicial

Essa preocupação de Sam Mendes se mostra bastante pertinente, pois os diretores que assumem os filmes costumam ter esse rótulo de marionete dos produtores, não tendo qualquer poder e palavra final, algo considerado um terror pra diretores autorais como Mendes. Além desse aspecto, ele declarou numa entrevista ao site The Playlist que antes de aceitar a proposta, não considerava um desafio atraente. “Eu nunca fui interessado e não acho que vi todos os filmes com o Pierce Brosnan. Mas quando Daniel Craig foi escalado em 007 – Cassino Royale (2006), passei a me interessar porque ele era um amigo com quem trabalhei em Estrada Para a Perdição (2001). Inicialmente não considerei uma boa escolha, mas aí eu vi o filme e mudei de idéia, e até fiquei ansioso para ver o próximo. Fiquei levemente desapontado com 007 – Quantum of Solace, contudo acho que existem coisas boas numa boa olhada. Mas quando encontrei Daniel e ele me perguntou se eu estava interessado ou não, fui pego de surpresa dizendo sim de forma rápida. Foi apenas um bom timing.”

Com a contratação do diretor acertada, seus colaboradores assíduos tomaram as posições em seus respectivos departamentos. Assim, a série ganhou muito em qualidade, especialmente na trilha musical, com Thomas Newman substituindo David Arnold, e a fotografia belíssima de Roger Deakins, indicado nove vezes ao Oscar, mas sem nenhuma vitória. Aliás, não é exagero algum afirmar com certeza que o trabalho de fotografia de Deakins é o melhor de toda a série (23 filmes). Todas as sequências são imageticamente deslumbrantes, em especial ao clímax que se passa na Escócia, quando o vilão Silva destrói um casarão com granadas (foto abaixo).

O vilão Silva num belíssimo contra-luz do diretor de fotografia Roger Deakins

Para o roteiro, os frequentes Neal Purvis e Robert Wade, que trabalham em conjunto desde 007 – O Mundo Não é o Bastante (1999), receberam suporte final do competente John Logan, indicado ao Oscar três vezes por Gladiador (2000), O Aviador (2004) e o recente A Invenção de Hugo Cabret (2011). Seu trabalho deu muito mais consistência ao trabalho da dupla, além de diálogos marcantes entre Bond e seu algoz, mas vale ressaltar que algumas idéias principais foram copiadas de Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008), de Christopher Nolan, principalmente no fato do vilão Raoul Silva ser um anarquista cibernético e em seguida se deixar ser preso de forma planejada para que pudesse fazer mais estrago e atingir seu objetivo como fez o Coringa de Heath Ledger.

Para acompanhar a influência de Nolan, o diretor Sam Mendes confirmou a importância que o segundo filme da trilogia de Batman para a realização de 007 – Operação Skyfall. “Estamos agora numa indústria onde os filmes são muito pequenos ou muito grandes e não há quase nada no meio. E seria uma tragédia se todos os filmes sérios fossem muito pequenos e todos os filmes pipoca fossem muito grandes e não tivessem nada a dizer. E o que Nolan provou é que você pode fazer um filme enorme que seja emocionante e divertido, e ao mesmo tempo, ter um monte de coisas a dizer sobre o mundo em que vivemos. E olha que Batman – O Cavaleiro das Trevas nem se passa em nosso mundo! Parecia que o filme era sobre o nosso mundo pós-11 de setembro, discutindo sobre nossos medos e por que eles existiam e achei que aquilo era incrivelmente corajoso e interessante. Isso ajudou a me dar a confiança para assumir este filme em direções que, sem Batman, não poderia ter sido possível. E não seria necessário temer uma reação negativa do público, pois dá pra se apoiar no tom negro do filme de Nolan que faturou zilhões de dólares nas bilheterias. Quer dizer, é possível fazer um filme mais obscuro que as pessoas querem ver.”

Além da base anarquista e a obsessão por destruição do Coringa, o vilão Raoul Silva apresenta como base outra personalidade contemporânea fortíssima: Julian Assange, o porta-voz do site WikiLeaks. Em 2006, o jornalista australiano e ciberativista se tornou o editor-chefe da WikiLeaks, um site de denúncias e vazamentos, responsável pela publicação de documentos secretos do governo do Quênia, de resíduos tóxicos na África, e a forte denúncia sobre o tratamento dado aos prisioneiros da Prisão de Guantánamo, que ele obtém como hacker de sites de algumas nações. Com ninguém satisfeito com a invasão de Assange, ele perdeu a cidadania sueca e desde junho desse ano, foi obrigado a se refugiar na embaixada do Equador em Londres, onde vive até hoje sob fortes ameaças. O vilão de Bond pegou emprestado o visual loiro e sua estratégia de vazar a identidade secreta de agentes britânicos infiltrados em facções terroristas no Youtube.

O vilão Raoul Silva (Javier Bardem). No detalhe, Julian Assange.

Com esse perfil cibernético, o personagem de Silva poderia facilmente ser um homem mais franzino, mas como os fãs da série preferem vilões que Bond possa ter uma luta corpo-a-corpo equilibrada, chamaram o encorpado Javier Bardem, que certamente ganhou o papel depois de assustar a todos com seu personagem Anton Chigurh de Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), dos irmãos Coen. Curiosamente, Bardem é o primeiro ator espanhol a interpretar o vilão principal do agente 007 e ele o fez com maestria. Seu Raoul Silva aparece na tela a partir da segunda metade do filme e mesmo assim consegue aparentar uma constante ameaça. Pelas qualidades citadas acima, já entraria para a galeria dos vilões de Bond mais memoráveis, mas existe uma outra vertente que o torna ainda mais interessante: seu lado homo-erótico. Sim, James Bond tem um antagonista homossexual! Obviamente, essa opção sexual do vilão fica apenas sugerida e nunca explícita por se tratar de um filme altamente comercial, no entanto, em sua primeira aparição, Silva senta em frente a Bond amarrado numa cadeira e abre sua camisa para checar seus ferimentos (foto abaixo), enquanto profere palavras de duplo sentido.

James Bond encara Raoul Silva pela primeira vez com um diálogo picante

Para este fã de James Bond, o fato do vilão ter tendências homossexuais não impressiona. Aliás, até torna as coisas mais interessantes! Mas a resposta que James dá a uma indireta de Silva causou certo furor na minha sessão, repleta de fanáticos pelo agente secreto. (Para quem não viu o filme e não quer saber, não leia o fim deste parágrafo). Quando Silva sugere que Bond experimente uma nova experiência sexual, ele retruca um inesperado “e quem disse que é a minha primeira vez?”, deduzindo que o agente secreto mais mulherengo da história do cinema seria bissexual! 50 anos de Bond e os roteiristas entregam uma faceta totalmente inédita do personagem de Ian Fleming. Aliás, estaria ele rolando em seu caixão depois dessa? Com certeza, muitos fãs machistas adoradores da masculinidade extrema de Connery ficaram pasmos e irritados.

Apenas uma curiosidade em relação ao homossexualismo de Silva, apesar de muitos acreditarem que se trata do primeiro vilão gay da série, os assassinos mercenários Mr. Kidd e Mr. Wint foram os primeiros em 007 – Os Diamantes São Eternos (1971), estrelado por Sean Connery. Contudo, o homossexualismo da dupla se mostra mais uma amizade colorida e inofensiva. Em defesa de seu personagem, Javier Bardem comentou que o sexualismo exposto demonstraria poder diante de um oponente forte como Bond: “A cena era mais sobre colocar outra pessoa em uma situação muito desconfortável, tanto que até James Bond não saberia como resolver”.

Há muito tempo não víamos um vilão de Bond com fortes características sexuais. O último foi a sádica Xenia Onnatop, interpretada por Famke Janssen em 007 Contra GoldenEye (1995). Ela tinha orgasmos múltiplos ao matar pessoas e tinha como golpe favorito torcer suas pernas em volta do abdômen da vítima e asfixiá-la. Com tamanhas qualidades, ficou marcada na história de Bond como uma das melhores vilãs.

Seguindo com as comemorações dos 50 anos, existem algumas boas referências dos filmes anteriores como o automóvel Aston Martin DB5, com assento do passageiro ejetável, utilizado em 007 Contra Goldfinger, e principalmente na reformulação das personagens clássicas e fixas da série como o chefe de Bond, M, sua secretária Miss Moneypenny, e o que a maioria dos fãs estavam aguardando: o retorno do mestre-quarteleiro Q.

Na cena de introdução de Q, Ben Wishaw e Daniel Craig têm um diálogo bastante esclarecedor a respeito dos novos tempos tecnológicos, defendendo muito bem o motivo do personagem reaparecer tão jovem (o ator que viveu Q, Desmond Llewelyn estreou em Moscou Contra 007 (1963) com quase 50 anos de idade). Assim que Q se apresenta com aquele look nerd (óculos, penteado meio emo e aparência franzina), 007 não se aguenta e responde: “Você deve estar brincando.”

Apesar do diálogo esclarecedor, por se tratar de uma série antiga, houve críticas à juventude de um personagem conhecido como um senhor mais experiente e conservador. Contudo, como mostrado em A Rede Social, a nova geração de nerds realmente se mostra muito poderosa no mundo de hoje.

Ben Wishaw como o novo Q, armeiro do MI6. Começando com uma Walther PPK e um rádio transmissor.

Além da forte presença de M (Judi Dench), 007 – Operação Skyfall faz bonito na escalação das Bond girls. Ao contrário da época de Sean Connery e Roger Moore, as mulheres deixaram há muito de serem figuras frágeis e dóceis. Nesta produção, duas personagens femininas tridimensionais integram o hall das Bond girls como uma das melhores duplas dos últimos anos. A atriz francesa Bérénice Marlohe vive a misteriosa Sévérine, que presencia um assassinato e se torna peça chave no quebra-cabeça que James Bond deve seguir. Com um olhar bastante forte e sensual, Marlohe demonstra a fragilidade necessária para atrair Bond, deixando sua marca no filme, mesmo que em poucas cenas.

Bérénice Marlohe como a misteriosa Sévérine

Por este lado da lei, temos outra Bond girl excepcional, a britânica Naomie Harris. Ela teve seu primeiro papel de destaque no terror de zumbis moderno de Extermínio (2002), de Danny Boyle, e nos anos seguintes, atuou em alguns filmes de ação em destaque como Piratas do Caribe: O Baú da Morte (2006), Piratas do Caribe: No Fim do Mundo (2007), Miami Vice (2006) e curiosamente em O Ladrão de Diamantes (2004), estrelado pelo então James Bond, Pierce Brosnan. Com maior experiência em ação, Harris foi escalada para viver a agente novata Eve, que tem participação fundamental na sequência inicial.

Naomie Harris como Eve

Como se trata de um personagem altamente sexual, vale ressaltar aqui que em 007 – Operação Skyfall, James Bond tem relações com três mulheres, algo que nunca aconteceu desde que Daniel Craig assumiu o smoking. Seria um sinal de retomada até nesse quesito? Felizmente, os produtores souberam escolher belíssimas atrizes. Bérénice Marlohe, Naomie Harris e Tonia Sotiropoulou formam a grande beleza do filme.

Aliás, ainda no assunto da presença feminina, a cantora de sucesso Adele compôs a música-tema homônima Skyfall, que foi lançada na internet no dia 05 de outubro, quando Bond completava 50 anos. Além de já ter alavancado um grande sucesso nas paradas, sendo uma das mais compradas no iTunes, a canção remete ao tom mais clássico das músicas de 007, especialmente Shirley Bassey e sua majestosa Goldfinger. Pelo sucesso da canção, da intérprete Adele e do filme nas bilheterias, existe uma forte possibilidade de ser indicada a Melhor Canção Original no Oscar 2013, fato que não acontece desde 1982, quando For Your Eyes Only de Sheena Easton (007 – Somente Para Seus Olhos) foi indicada ao Oscar. Segue vídeo com a música de Adele abaixo:

Contudo, a figura feminina mais importante certamente é M. Sua personagem se encontra sob forte pressão neste filme e representa as mudanças necessárias para entender o mundo de hoje do pós-11 de setembro sob o olhar da segurança da sociedade.

Judi Dench como a chefe operacional M

Após o atentado, muitos se questionam se as autoridades estão realmente preparadas para esse novo tipo de ameaça. Esse constante e contínuo medo assola toda a população, que teme novos atentados pelo mundo todo. E este novo filme de 007 traz essa questão à tona, colocando uma ultrapassada porém experiente M numa audição com uma jovem Ministra de Defesa, respondendo à pergunta: “Qual o papel de agentes secretos no século XXI?”. Devido aos recentes erros que M cometeu, dá a entender que ela está defasada para o cargo, porém, ela defende a importância e o valor de seus espiões subordinados diante da invisibilidade do inimigo de hoje, pois não tem nação ou bandeira para identificá-lo. Esse cenário repleto de paranóia e racismo é o pano de fundo dos últimos filmes de James Bond, que sempre primaram em refletir características da sociedade de sua época. 007 – Operação Skyfall adiciona mais um importante capítulo deste início do século XXI.

O 23º filme de Bond vale por tudo isso, mas o fato de alguns elementos principais terem sido quase um plágio de Batman – O Cavaleiro das Trevas me incomodou um pouco. Além disso, pecou pela quebra de ritmo no meio do filme (cabiam mais umas duas sequências de ação) e a sequência final com o vilão Silva se tornou morosa e desgastante pra pouca novidade. Também acrescento que a personagem de Albert Finney, o velho Kincade, ficou mal aproveitado.

Skyfall deu um passo importante na série. Os produtores provaram que estão dispostos a largar o conservadorismo de vez e inserir James Bond em seu devido lugar no século XXI. Esperamos que o nível de qualidade do diretor escolhido para a próxima aventura esteja do mesmo nível de Sam Mendes, assim como os atores principais. Valeu também pela inclusão de Ralph Fiennes, pois os filmes ganham uma credibilidade notória com sua presença.

Avaliação: BOM

A equipe principal responsável por 007 – Operação Skyfall. Da esquerda para a direita: Javier Bardem, Bérénice Marlohe, Sam Mendes, Judi Dench, Daniel Craig, Naomie Harris e os produtores Barbara Broccoli e Michael G. Wilson (photo by Sony Pictures realeasing)