Governors Awards ou Campanha para o Oscar?

governors-awards-2016

Os homenageados no Governors Awards deste ano, da esquerda pra direita: Jackie Chan, Frederick Wiseman, Anne V. Coates e Lynn Stalmaster (photo by scmp.com)

EVENTO SE TORNOU CHAMARIZ PARA CAMPANHA PARA O OSCAR

Nesse último fim-de-semana, aconteceu o Governors Awards, que tem como único objetivo a realização das homenagens aos vencedores do Oscar Honorário, que este ano foram Jackie Chan, Anne V. Coates, Frederick Wiseman e Lynn Stalmaster. Certo? Bem… não necessariamente. Desde a criação dessa festa separada da cerimônia do Oscar há sete anos, o evento passou a ser palco de campanhas descaradas de filmes e atores, já que acontece em novembro, início da temporada de premiações.

Embora os homenageados recebam o Oscar Honorário das mãos de artistas com quem eles já trabalharam anteriormente, na platéia vimos muitos dos nomes que estão nas listas de previsões do Oscar 2017 (veja Preview completo: Previsões Oscar 2017!). Só para citar alguns: Warren Beatty, Annette Bening (promovendo Rules Don’t Apply), Nicole Kidman, Dev Patel (Lion), Mark Wahlberg (Horizonte Profundo: Desastre no Golfo), Jeff Bridges (Hell or High Water), Ava DuVernay (o documentário The 13th), Andrew Garfield (Até o Último Homem) e Emma Stone (La La Land: Cantando Estações).

lion-red-carpet-governors

Da esquerda para direita: Dev Patel, Priyanka Bose, Sunny Pawar e Nicole Kidman fazem campanha no Governors Awards pelo filme Lion (photo by facebook.com/theacademy)

loving-governors

Equipe do filme Loving, da esquerda pra direita: o diretor Jeff Nichols, Ruth Negga e Joel Edgerton (photo by facebook.com/theacademy)

20th-century-governors

O diretor Mike Mills com Annette Bening e Greta Gerwig fazem campanha por 20th Century Women no Governors Awards (photo by facebook.com/theacademy)

15039591_10153983110436406_4658167370805896845_o

À esquerda, a presidente Cheryl Boone Isaacs posa com Amy Adams (que promove A Chegada e Animais Noturnos), Octavia Spencer e Taraji P. Henson (que promovem Estrelas Além do Tempo) e Viola Davis (que promove Fences). Photo by facebook.com/theacademy)

hell-or-high-water-governors

Ben Foster e Chris Pine marcaram presença para promover o drama Hell or High Water (photo by facebook.com/theacademy)

Se isso soa antiético ou, no mínimo, incoerente, fica aberto à interpretação de cada um, mas o fato é que a Academia divulgou novas regras anti-campanha há poucas semanas junto aos grandes estúdios. Só para citar um trecho desse documento: “Membros da Academia não podem ser convidados ou comparecer em qualquer evento em que não haja projeção de filmes, festas ou jantares que são promovidos para indevidamente influenciar membros ou minar a integridade de seu voto.” E aí eu pergunto: E o Governors Awards? Não estaria suscetível a esse regulamento também?

O jornalista Kristopher Tapley da Variety deu uma boa sugestão: “Se a Academia realmente estiver empenhada contra campanhas, o que a impede de migrar o Governors Awards para Junho ou Julho?”. Mas ele mesmo responde com uma questão: “Se mudassem o calendário, as estrelas do momento iriam ao evento?”. Correriam sério risco do evento ficar às moscas e parecer aquelas reuniões de condomínio sem sorteio de vagas de garagem: ninguém vai. Portanto, querendo ou não, existe uma troca implícita e amistosa de promoção do evento por espaço para campanhas.

Por mais que a atual presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs, esteja repleta de boas intenções (este ano, ela convidou inúmeros novos membros da Academia: negros, asiáticos, latinos e internacionais para tentar acabar com o #OscarSoWhite), essa proibição de campanhas pode estar fadada ao fracasso, pois esse sistema hollywoodiano funciona desde a década de 60. Seria necessário um amplo estudo junto aos estúdios para que a promoção seja feita de forma legal e com regras que coibam benefícios e presentes (gift bags) para os votantes.

Particularmente, eu liberaria as campanhas no Governors Awards, inclusive com tempo específico para isso, contato que seja depois do momento dos homenageados do ano, para que não haja riscos das estrelas abandonarem a festa depois da campanha. Não acredito que esse contato dos artistas com votantes e a mídia altere drasticamente a votação. Se o votante não gostou de um filme ou de uma performance, não é com sorrisos e coquetéis numa festa que a opinião dele vai mudar. Pelo menos, não deveria…

***

Ainda sobre o Governors Awards, fiquei extremamente feliz pela honraria concedida a Jackie Chan. Acompanhei seus filmes desde minha pré-adolescência, quando alugava seus VHSs com meu irmão na locadora. Aquela sua coreografia de artes marciais fazia meus olhos brilharem, seus erros de gravação nos créditos finais de cada filme eram muito aguardados, e acima de tudo, seu carisma era ímpar independente de qual personagem interpretasse. Eu tinha vários favoritos dele, mas adorava um em especial: Operação Condor – Um Kickboxer Muito Louco (1991), que vi incontáveis vezes no SBT. Esse filme tem tudo: ação, comédia, aventura, suspense, drama, porradaria! Quem conhece sabe do que estou falando!

Vê-lo discursar com seu Oscar em mãos foi uma satisfação pra mim, e tenho certeza de que foi também para cada espectador de seus filmes e de filmes de artes marciais em geral, esse gênero tão subvalorizado. Com todo respeito aos demais homenageados da noite (adoro os trabalhos de montagem de Anne V. Coates), mas achei excepcional a escolha de Jackie. Embora seja conservadora, a Academia tem sempre buscado tirar essa imagem e ampliar seu reconhecimento cinematográfico. E isso é de tirar o chapéu!

Veja o discurso de agradecimento de Jackie Chan abaixo:

***

As indicações serão divulgadas no dia 24 de janeiro e a cerimônia do Oscar 2017 será no dia 26 de fevereiro.

Anúncios

‘Carol’ leva 4 prêmios e domina o New York Film Critics Circle 2015

Carol-copyright-Number-9-Filmsx

À esquerda, Todd Haynes dirige Cate Blanchett em cena de Carol (photo by http://www.cineimage.ch)

CÍRCULO DE CRÍTICOS NOVA-IORQUINOS SAÚDAM SUA CIDADE NAS TELAS

Não sei se é questão de “patriotada”, mas o crítico Kristopher Tapley da Variety notou um fato curioso na lista de premiados este ano pelo círculo de críticos de Nova York. A maioria dos filmes premiados se passa na cidade norte-americana: Melhor Filme, Diretor (Todd Haynes), Roteiro e Fotografia para Carol; Melhor Documentário para In Jackson Heights; Melhor Ator Coadjuvante (Mark Rylance) para Ponte dos Espiões; e Melhor Atriz (Saoirse Ronan) para Brooklyn. Apesar de soar como a tradicional puxada de sardinha, existe uma feliz coincidência de produções em destaque que se passam em Nova York. Afinal, quem não gosta de assistir a um filme realizado na sua própria cidade?

Com a vitória predominante do drama Carol, Todd Haynes praticamente garante sua primeira indicação ao Oscar de Diretor. Entre seus filmes mais reconhecidos estão Velvet Goldmine e Longe do Paraíso, pelo qual foi indicado para Roteiro Original em 2003. Curiosamente, as protagonistas interpretadas por Cate Blanchett e Rooney Mara ficaram de fora no NYFCC. Recentemente, ambas foram indicadas a Melhor Atriz no Independent Spirit Awards, e a tendência para o Oscar é que Blanchett concorra como Atriz e Mara como Coadjuvante. A premiação pelos críticos nova-iorquinos impulsiona Carol e obriga os votantes da Academia a conferirem o trabalho, e de quebra, pode render a segunda indicação a um dos melhores diretores de fotografia da atualidade, Edward Lachman.

Outro forte concorrente para o Oscar, o drama jornalístico Spotlight, não ficou de fora da lista. Michael Keaton, que este ano teve seu retorno triunfal com Birdman, consegue se manter no topo com outra performance premiada. Contudo, existe uma discussão pra saber se seu personagem é principal ou secundário, o que poderia fortalecê-lo em caso de campanha para a categoria de coadjuvante no Oscar.

spotlight michale keaton

Michael Keaton ao lado de Rachel McAdams em cena de Spotlight, de Tom McCarthy (photo by cine.gr)

Já Saoirse Ronan consegue feito incrível ao bater as atrizes de Carol e também Brie Larson (O Quarto de Jack). Aos 21 anos, ela vive uma personagem dividida entre o amor de dois homens na Brooklyn dos anos 50 e também entre aceitar ou não suas raízes irlandesas. Americana (nova-iorquina!), a atriz consegue chamar atenção também pelo seu Inglês com sotaque irlandês.

brooklyn saoirse

Doomhnall Gleeson com Saoirse Ronan em Brooklyn (photo by cine.gr)

Assim como os atores principais conseguiram um novo fôlego na corrida com os prêmios do NYFCC, os coadjuvantes também deram passos largos num ano bem competitivo. Mark Rylance, que entregou uma atuação que deu alma ao novo filme de Steven Spielberg, certamente mereceu pelo menos um prêmio significativo na temporada. O que gosto bastante de Ponte dos Espiões é o paralelo que Spielberg constrói entre os anos 60 da Guerra Fria com a atual situação imigratória global, levantando a questão: “Não somos todos imigrantes?”.

bridge of spies mark rylance

Mark Rylance à esquerda com Tom Hanks em cena de Ponte dos Espiões (photo by outnow.ch)

No caso de Kristen Stewart, sua vitória impressiona ainda mais por se tratar de uma jovem estrela hollywoodiana (da saga Crepúsculo) e pelo fato do drama Acima das Nuvens, de Olivier Assayas, ter sido lançado em 2014, ou seja, houve um longo percurso até chegar a essa lista. Vale lembrar aqui que Stewart é a primeira atriz americana a ganhar o prestigiado César Award na França. Se ela estiver na lista do Globo de Ouro ou SAG, ela estará na categoria no Oscar.

clouds kristen stewart

Kristen Stewart em Acima das Nuvens, de Olivier Assayas (photo by cine.gr)

A animação Divertida Mente coleciona mais um importante prêmio e caminha sem maiores dificuldades para conquistar o oitavo Oscar para a Pixar. Havia uma alta aposta de que a animação de Charlie Kaufman e Duke Johnson, Anomalisa, iria bater seu franco-favoritismo, mas não se concretizou.

Já o filme húngaro, O Filho de Saul, embora tenha perdido como filme estrangeiro para Timbuktu (que foi indicado ao Oscar este ano pela Mauritânia), ainda conseguiu o prêmio de Filme de Estréia para o diretor László Nemes. De tabela também foi o prêmio especial para o compositor italiano Ennio Morricone, que pode conquistar sua sexta indicação. Ele recebeu o Oscar Honorário em 2007 pelo conjunto da obra.

Pela categoria de Não-Ficção, In Jackson Heights foi reconhecido como melhor documentário ao dissecar o distrito do Queens, NY. Entretanto, não foi classificado para a lista de 15 semi-finalistas no Oscar.

Seguem os vencedores do NYFCC 2015:

MELHOR FILME: Carol, de Todd Haynes

MELHOR DIRETOR: Todd Haynes (Carol)

MELHOR ATOR: Michael Keaton (Spotlight)

MELHOR ATRIZ: Saoirse Ronan (Brooklyn)

MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mark Rylance (Ponte dos Espiões)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Kristen Stewart (Acima das Nuvens)

MELHOR ROTEIRO: Phyllis Nagy (Carol)

MELHOR FOTOGRAFIA: Edward Lachman (Carol)

MELHOR ANIMAÇÃO: Divertida Mente, de Pete Docter

MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Timbuktu, de Abderrahmane Sissako

MELHOR FILME DE NÃO-FICÇÃO: In Jackson Heights, de Frederick Wiseman

MELHOR FILME DE ESTRÉIA: O Filho de Saul, de László Nemes

PRÊMIO ESPECIAL: William Becker e Janus Films