87 PRODUÇÕES CONCORREM ao OSCAR 2019 de FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA

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Alfonso Cuarón dirige cena com Yalitza Aparicio em Roma (pic by imdb)

VENCEDOR DO OSCAR POR ‘GRAVIDADE’, ALFONSO CUARÓN COMPETE PELO MÉXICO

OK, os portões do ENEM fecharam! Ninguém mais entra, ninguém mais sai. 87 países enviaram seus filmes representantes para disputarem as 5 cobiçadas indicações na categoria de Filme em Língua Estrangeira. É importante ressaltar aqui que houve uma ligeira redução de inscritos comparando com o ano passado, quando houve 92 filmes.

Este ano marca a estréia na lista de dois países que muita gente sequer sabia da existência: Malawi e Niger, ambas nações do continente africano. Duas produções ainda aguardam aprovação da Academia: o filme cubano Sergio & Sergei, e o representante do Quirguistão Night Accident.

COMO ESTÁ A DISPUTA ATÉ O MOMENTO?

Ao contrário dos últimos anos, 2019 já tem um franco-favorito: Roma, de Alfonso Cuarón, que ganhou o Leão de Ouro em Veneza, é o representante oficial do México, que nunca ganhou o Oscar de Filme em Língua Estrangeira na história da Academia. Por todos os lugares por quais passa, independente de qual crítico, o filme biográfico do diretor é uma extrema unanimidade, inclusive, com alta possibilidade de concorrer ao Oscar de Melhor Filme (seria a primeira indicação da Netflix) e com boas chances de vencer! Essa dobradinha Melhor Filme e Melhor Filme em Língua Estrangeira nunca aconteceu antes.

Pra quem não se recorda, Alfonso Cuarón já venceu dois Oscars pela ficção científica Gravidade em 2014: Melhor Montagem e Melhor Direção. Ele já havia concorrido antes por Filhos da Esperança em 2007 (Roteiro Adaptado e Montagem) e por E Sua Mãe Também em 2002 (Roteiro Original). Tornou-se o primeiro diretor hispânico a vencer o Oscar de Diretor, abrindo a porta para seus compadres Alejandro González Iñárritu e Guillermo Del Toro.

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Sakura Andô (mãe) e Lily Franky (pai) interagem com menina adotada em Assunto de Família (pic by imdb)

Claro que, mesmo diante desse sucesso estrondoso, só vamos ter 100% de certeza quando o filme for anunciado vencedor no palco da cerimônia. Até lá, muita água ainda vai rolar nesse rio de filmes. O representante japonês, Assunto de Família, de Hirokazu Koreeda, figura como uma espécie de segundo lugar nessa bolsa de apostas. Cineasta com presença frequente em grandes festivais internacionais, Koreeda ganhou enorme impulso após a vitória da Palma de Ouro em Cannes com este singelo drama sobre uma família de ladrões que adota uma menina de rua.

Dá pra praticamente cravar que Roma e Assunto de Família já estão garantidos na categoria. As outras 3 vagas podem ir para:

POLÔNIA: Guerra Fria (Cold War), de Pawel Pawlikowski
– Temos aqui o diretor que ganhou o Oscar de Filme Estrangeiro por Ida em 2014, fazendo um novo filme em preto-e-branco com pano de fundo da guerra, tema que muitos votantes adoram. Cold War levou o prêmio de Direção em Cannes. E conta com a belíssima fotografia PB de Lukasz Zal (que foi indicado ao Oscar por Ida).

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Joanna Kulig em cena de Guerra Fria (pic by imdb)

CORÉIA DO SUL: Em Chamas (Burning), de Lee Chang-dong
– Bastante elogiado em Cannes, de onde saiu com o FIPRESCI Prize, que reconhece a vertente artística, Em Chamas pode se tornar a primeira indicação da Coréia do Sul ao Oscar após o país perder grande chance com A Criada em 2016. Seu diretor Lee Chang-dong tem um currículo internacional respeitável, já tendo vencido o prêmio de roteiro por Poesia (2010) em Cannes.

Burning

Ah-In Yoo, Jong-seo Jeon e Steven Yeun em cena de Em Chamas (pic by imdb)

PARAGUAI: As Herdeiras (Las Herederas), de Marcelo Martinessi
– Em sua passagem pelo Festival de Berlim, o filme conquistou o prêmio de Melhor Atriz para Ana Brun. O filme narra a decadência financeira de uma família da elite paraguaia. O longa paraguaio já estreou no Brasil.

The Heiresses

Ana Brun e Ana Ivanova em cena de As Herdeiras (pic by humanitieskansas.org)

BÉLGICA: Girl, de Lukas Dhont
– A produção acompanha a trajetória de Lara, uma menina de 15 anos nascida num corpo de menino, que tem o sonho de ser bailarina. Girl teve boa passagem pela mostra Un Certain Regard de Cannes, e pode se beneficiar da recente vitória de outro filme LGBT no Oscar: Uma Mulher Fantástica.

Girl

Victor Polster como a bailarina Lara em cena de Girl (pic by imdb)

Outros filmes bem cotados são o dinamarquês A Culpa, de Gustave Möller; o alemão Never Look Away, de Florian Henckel von Donnnersmarck (que venceu o Oscar por A Vida dos Outros); e o libanês Capernaum, de Nadine Labaki.

E O BRASIL?

A Academia de Cinema Brasileiro nomeou O Grande Circo Místico, de Cacá Diegues, para concorrer ao Oscar. Como o filme ainda não estreou em solo brasileiro, acabou não contando com o voto popular. Internacionalmente, o longa teve passagem bem discreta em mostra paralela não-competitiva de Cannes. A seleção se baseou na extensa filmografia do diretor, que este ano foi integrado à Academia de Letras Brasileira, e na temática circense que já fez sucesso décadas atrás na categoria como com A Estrada da Vida, de Federico Fellini.

O Grande Circo Místico

Jesuíta Barbosa em cena de O Grande Circo Místico (pic by imdb)

A menos que haja uma mega reviravolta na campanha nos EUA, o filme tem tudo para morrer na praia, infelizmente. A escolha mais sensata teria sido entre Benzinho e As Boas Maneiras, que tiveram carreira internacional mais rica, que facilitaria na divulgação. Porém, vamos continuar torcendo… pelo menos até conferir a qualidade do filme!

PREPARE-SE!

No final de dezembro, sai a pré-lista com 9 produções. E os cinco indicados serão conhecidos no dia do anúncio das indicações: 22 de janeiro. A cerimônia acontecerá no dia 24 de fevereiro.

SEGUE A LISTA DAS 87 PRODUÇÕES INSCRITAS PARA O OSCAR 2019:

PAÍS FILME DIRETOR(A)(ES)
Afeganistão Rona Azim’s Mother Jamshid Mahmoudi
África do Sul Sew the Winter to my Skin Jahmil X.T. Qubeka
Alemanha Never Look Away Florian H. von Donnersmarck
Argélia Until the End of Time Yasmine Chouikh
Argentina El Ángel Luis Ortega
Armênia Spitak Alexander Kott
Austrália Jirga Benjamin Gilmour
Áustria The Waldheim Waltz Ruth Beckermann
Bangladesh No Bed of Roses Mostofa Sarwar Farook
Bélgica Girl Lukas Dhont
Bielorrússia Crystal Swan Darya Zhuk
Bolívia The Goalkeeper Rodrigo ‘Gory’ Patiño
Bósnia Herzegovina Never Leave Me Ainda Begi´c
Brasil O Grande Circo Místico Cacá Diegues
Bulgária Omnipresent Ilian Djevelekov
Camboja Graves Without a Name Rithy Panh
Canadá Family Ties Sophie Dupuis
Cazaquistão Ayka Sergey Dvortsevoy
Chile …And Suddenly the Dawn Silvio Caiozzi
China Hidden Man Jiang Wen
Colômbia Birds of Passage Cristina Gallego, Ciro Guerra
Coréia do Sul Em Chamas Lee Chang-dong
Costa Rica Medea Alexandra Latishev
Croácia The Eighth Comissioner Ivan Salaj
Dinamarca Culpa Gustav Möller
Egito Yomeddine A.B. Shawky
Equador A Son of Man Jamaicanoproblem
Eslováquia The Interpreter Martin Šulík
Eslovênia Ivan Janez Burger
Espanha Champions Javier Fesser
Estônia Take it or Leave it Liina Trishkina-Vanhatalo
Filipinas Signal Rock Chito S. Roño
Finlândia Euthanizer Teemu Nikki
França Memoir of War Emmanuel Finkiel
Geórgia Namme Zaza Khalvashi
Grécia Polyxeni Dora Masklavanou
Holanda O Banqueiro da Resistência Joram Lürsen
Hong Kong Operation Red Sea Dante Lam
Hungria Sunset László Nemes
Iêmen 10 Days Before the Wedding Amr Gamal
Índia Village Rockstars Rima Das
Indonésia Marlina the Murderer in Four Acts Mouly Surya
Irã Sem Data, Sem Assinatura Vahid Jalivand
Iraque The Journey Mohamed Jabarah Al-Daradji
Islândia Woman at War Benedikt Erlingsson
Israel The Cakemaker Ofir Raul Graizer
Itália Dogman Matteo Garrone
Japão Assunto de Família Hirokazu Koreeda
Kosovo The Marriage Blerta Zeqiri
Letônia To Be Continued Ivars Seleckis
Líbano Capernaum Nadine Labaki
Lituânia Wonderful Losers: A Different World Arunas Matelis
Luxemburgo Gutland Govinda Van Maele
Macedônia Secret Ingredient Gjorce Stavreski
Malawi The Road to Sunrise Shemu Joyah
Marrocos Burnout Nour-Eddine Lakhmari
México Roma Alfonso Cuarón
Montenegro Iskra Gojko Berkuljan
Nepal Panchayat Shivam Adhikari
Níger The Wedding Ring Rahmatou Keïta
Noruega What Will People Say Iram Haq
Nova Zelândia Yellow is Borbidden Pietra Brettkelly
Palestina Ghost Hunting Raed Andoni
Panamá Ruben Blades is not my Name Abner Benaim
Paquistão Cake Assim Abbasi
Paraguai As Herdeiras Marcelo Martinessi
Peru Eternity Oscar Catacora
Polônia Guerra Fria Pawel Pawlikowski
Portugal Pilgrimage João Botelho
Quênia Supa Modo Likarion Wainaina
Reino Unido I Am Not a Witch Rungano Nyoni
Rep Dominicana Cocote Nelson Carlo De Los S. Arias
Rep Tcheca Winter Flies Olmo Omerzu
Romênia I Do Not Care If We Go Down in History as Barbarians Radu Jude
Rússia Sobibor Konstantin Khabensky
Sérvia Offenders Dejan Zecevic
Singapura Buffalo Boys Mike Wiluan
Suécia Border Ali Abbasi
Suíça Eldorado Markus Imhoof
Tailândia Malila the Farewell Flower Anucha Boonyawatana
Taiwan The Great Buddha+ Hsin-Yao Huang
Tunísia Beauty and the Dogs Kaouther Bem Hania
Turquia The Wild Pear Tree Nuri Bilge Ceylan
Ucrânia Donbass Sergei Loznitsa
Uruguai Uma Noite de 12 Anos Álvaro Brechner
Venezuela The Family Gustavo Rondón Córdova
Vietnã The Tailor Buu Loc Tran, Kay Nguyen
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‘SHOPLIFTERS’, DO AUTOR JAPONÊS HIROKAZU KORE-EDA, VENCE A PALMA DE OURO

 

 

hirokazu cannes

O diretor japonês Hirokazu Kore-eda ostenta sua Palma de Ouro. No fundo, a presidente do júri Cate Blanchett. Pic by Eric Gaillard/REUTERS

APESAR DAS EXPECTATIVAS PARA UMA SEGUNDA PALMA DE OURO PARA UMA MULHER, CANNES PREMIOU SEGUNDO FILME ASIÁTICO NESTE SÉCULO

Havia três filmes indicados à Palma de Ouro nesta edição dirigidos por mulheres, o júri era formado por maioria feminina e encabeçada pela presidente Cate Blanchett, e tudo indicava que a segunda Palma de Ouro poderia acontecer desde 1993, quando O Piano venceu, MAS ainda não foi desta vez. Como a própria Blanchett disse em entrevista, adoraria ver uma mulher recebendo a honraria, mas “Palma de Ouro não é o Nobel da Paz”.

O prêmio máximo da noite foi concedido ao cineasta autoral japonês Hirokazu Kore-eda por Shoplifters, um drama sócio-familiar sobre uma menina que vive nas ruas que é adotada por uma família pobre que a ensina a furtar em supermercados. Assim como o título francês, o brasileiro tende a ser “Assunto de Família”. Kore-eda ficou conhecido aqui no Brasil por Depois da Vida (1998), aquele em que as pessoas têm uma semana depois da morte para escolher uma memória, e pelo premiado em Cannes Ninguém Pode Saber (2004), quando o ator-mirim Yûya Yagira levou o prêmio de interpretação masculina.

Shoplifters

Cena de Shoplifters, vencedor da Palma de Ouro. Pic by outnow.ch

Contudo, meu favorito dele é Pais e Filhos (2013), que aborda uma difícil situação de troca de bebês na maternidade. Para quem acompanha a carreira do diretor, sabe que ele tem uma predileção por temas familiares, mas como poucos, consegue fazer retratos bastante intimistas de seus personagens. Mesmo em seu penúltimo trabalho, o policial O Terceiro Assassinato, mesmo tendo um crime como foco, ele ainda explora relações conturbadas de família.

Esta foi apenas a segunda Palma de Ouro para um diretor asiático neste século XXI, que não ocorria desde 2010, quando o tailandês Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas levou o prêmio. Apenas um fato curioso, longe de querer cobrar cotas para asiáticos em Cannes. Aliás, boa parte da imprensa apontou que a Palma teria sido uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra para Hirokazu Kore-eda, já que ele tem seis passagens pela Croissette. Este foi sua quinta indicação à Palma de Ouro, e ele tinha levado apenas um Prêmio do Júri (tipo 3º lugar) com Pais e Filhos.

Muito bem cotado entre a crítica estrangeira, BlacKkKlansman, de Spike Lee, acabou levando o Grande Prêmio do Júri. Respeitando uma tradição em sua filmografia, a crítica ao racismo está novamente presente nesta trama em que um negro se infiltra na organização Ku Klux Klan. Presente na cerimônia, o diretor aceitou o prêmio em nome da “República Popular do Brooklyn, Nova York”, fazendo menção à sua terra natal. Animado, Spike declarou: “Cannes foi o local perfeito para lançar o filme. Espero que o filme possa nos tirar de nossa estagnação mental de forma global, e voltar à verdade, bondade, amor e sem ódio”, e obviamente, aproveitou para dar cutucadas em Donald Trump: “Com este governo, estamos regredindo no tempo.” Particularmente, torço para que este BlacKkKlansman, assim como futuros trabalhos, voltem a ser os meios de expressão que ele utilizava tão bem para dialogar sobre racismo.

Spike Lee Cannes

Spike Lee posa com seu Grande Prêmio do Júri por BlacKkKlansman. Pic by NY Daily News

Apesar de não terem levado a Palma de Ouro para casa, das três mulheres indicadas, duas levaram importantes prêmios nesta edição. Enquanto o Prêmio do Júri foi para a diretora libanesa Nadine Labaki por seu filme Capernaum, no qual retrata a vida de um menino de rua em Beirute que decide processar seus pais pela vida que tem, a diretora italiana Alice Rohrwacher dividiu o prêmio de Roteiro por Happy as Lazzaro com o cineasta iraniano Jafar Panahi por Três Faces.

Os prêmios de interpretação foram concedidos à talentos desconhecidos este ano. Do lado masculino, o ator italiano Marcello Fonte, que interpretou um franzino dono de pet shop que precisa tomar uma atitude drástica em Dogman, levou o prêmio, enquanto na ala feminina, a jovem cazaque Samal Yeslyamova conquistou a honra por sua performance como uma imigrante do Quirguistão que abandona seu bebê numa gélida Rússia em Ayka.

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Marcello Fonte e Samal Yeslyamova posam com seus prêmios de interpretação de Cannes. Pic by zimbio

Já pelo prêmio de Direção, o polonês Pawel Pawlikowski foi reconhecido pelo drama Cold War, sobre o romance entre dois músicos contada através de elipses, bela fotografia preto-e-branco, e enquadramentos rígidos como conhecemos em Ida, vencedor do Oscar de Filme em Língua Estrangeira em 2014.

Contudo, talvez o que mais tenha chamado a atenção no dia da premiação, tenha sido a presença da atriz italiana Asia Argento. Pouco antes do anúncio do primeiro prêmio, ela surgiu no palco e soltou uma bomba: “Tenho algumas palavras para dizer: Em 1997, fui estuprada por Harvey Weinstein aqui em Cannes. Eu tinha 21 anos. Este festival era a área de caça dele. Quero lançar uma previsão: Harvey Weinstein nunca será bem-vindo aqui novamente. Ele viverá em desgraça, evitado pela comunidade fílmica que o acolheu e acobertou seus crimes. Mesmo esta noite, sentados entre vocês, existem aqueles que ainda devem ser responsabilizados por comportamentos que não pertencem à essa indústria. Vocês sabem quem vocês são, e mais importante, nós sabemos quem vocês são, e não vamos mais permitir que se saiam impunes.”

Asia Argento Cannes

Asia Argento demonstrando a força feminina no dia do encerramento do festival de Cannes. Pic by Mashable

A declaração da atriz denota que os movimentos feministas como o #MeToo causaram rebuliço no evento. Embora a organização não tenha sido culpada pelo crime sexual ocorrido em 97, tomou providências e disponibilizou pela primeira vez uma linha direta para reportar qualquer ocorrência do tipo ou comportamento suspeito.

Se desse lado o festival soube se adequar aos tempos atuais, a briga com a Netflix devido ao sistema de streaming não se encaixar no antiquado sistema de exibição francês foi um ponto bastante negativo para Cannes. Sem poder contar com as novas produções da empresa americana, repletas de diretores renomados, para suas seleções, o festival francês pode perder relevância no cenário internacional.

BRASIL EM CANNES

Embora não estivesse concorrendo na mostra oficial neste ano, a produção nacional contou com três co-produções premiadas. Pela mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar), o documentário com toques de ficção Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos (intitulado internacionalmente como The Dead and the Others), dirigido pela brasileira Renée Nader Messora e o português João Salaviza, que conta uma jornada espiritual indígena, venceu o Prêmio do Júri.

Festival Internacional de Cine de Cannes

À direita, os diretores de Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos: João Salaviza e Renée Nader Messora, recebendo o Prêmio do Júri da mostra Un Certain Regard. Pic by Estadão

Co-produzido em parceria com a França e Portugal, o filme Diamantino venceu o Grande Prêmio da mostra da Semana da Crítica. Dirigido pela dupla Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, o filme tem como protagonista uma espécie de Cristiano Ronaldo, jogador de futebol e modelo. E já O Órfão, de Carolina Markowicz, levou o prêmio Queer Palm de Curta-Metragem.

VENCEDORES DA 71ª EDIÇÃO DO FESTIVAL DE CANNES

COMPETIÇÃO

PALMA DE OURO
Shoplifters

Dir: Hirokazu Kore-eda

GRANDE PRÊMIO DO JÚRI
BlacKkKlansman

Dir: Spike Lee

PRÊMIO DO JÚRI
Capernaum
Dir: Nadine Labaki

DIRETOR
Pawel Pawlikowski (Cold War)

ATOR
Marcello Fonte (Dogman)

ATRIZ
Samal Yeslyamova (Ayka)

ROTEIRO
Alice Rohrwacher (Happy as Lazzaro)
Jafar Panahi, Nader Saeivar (Three Faces)

PALMA DE OURO ESPECIAL
Jean-Luc Godard

 

UN CERTAIN REGARD

PRÊMIO UN CERTAIN REGARD
Border

Dir: Ali Abbasi

DIRETOR
Sergei Loznitsa (Donbass)

ATUAÇÃO
Victor Polster (Girl)

ROTEIRO
Meryem Benm’Barek (Sofia)

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI
João Salaviza & Renée Nader Messora (Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos)

 

OUTROS PRÊMIOS

CAMERA D’OR
Girl

Dir: Lukas Dhont

PALMA DE OURO PARA CURTA
All These Creatures

Dir: Charles Williams

MENÇÃO ESPECIAL PARA CURTA
On the Border

Dir: Shujun Wei

PRÊMIO DO JÚRI ECUMÊNICO
Capernaum

Dir: Nadine Labaki

MENÇÃO ESPECIAL DO JÚRI ECUMÊNICO
BlacKkKlansman

Dir: Spike Lee

QUEER PALM
Girl

Dir: Lukas Dhont

 

 

DIRECTORS’ FORTNIGHT

PRÊMIO ART CINEMA
Climax

Dir: Gaspar Noé

PRÊMIO SOCIETY OF DRAMATIC AUTHORS AND COMPOSERS
The Trouble With You

Dir: Pierre Salvadori

EUROPA CINEMAS LABEL
Lucia’s Grace

Dir: Gianni Zanasi

PRÊMIO ILLY DE CURTA-METRAGEM
Skip Day

Dir: Patrick Bresnan, Ivete Lucas

 

SEMANA DA CRÍTICA

GRANDE PRÊMIO
Diamantino

Dir: Gabriel Abrantes, Daniel Schmidt

PRÊMIO SOCIETY OF DRAMATIC AUTHORS AND COMPOSERS
Woman at War
Dir: Benedikt Erlingsson

GAN Foundation Award for Distribution
Sir

PRÊMIO LOUIS ROEDERER FOUNDATION RISING STAR
Felix Maritaud (Sauvage)

CURTA-METRAGEM
Hector Malot – The Last Day Of The Year

Dir: Jacqueline Lentzou

 

FIPRESCI

COMPETIÇÃO
Burning

Dir: Lee Chang-dong

UN CERTAIN REGARD
Girl

Dir: Lukas Dhont

Directors’ Fortnight/Critics’ Week
One Day

Dir: Zsófa Szilagyi

 

CINÉFONDATION

PRIMEIRO PRÊMIO
The Summer of the Electric Lion
Dir: Diego Céspedes

SEGUNDO PRÊMIO
Calendar

Dir: Igor Poplauhin

The Storms in Our Blood
Dir: Shen Di

TERCEIRO PRÊMIO
Inanimate

Dir: Lucia Bulgheroni

FESTIVAL DE CANNES: GODARD e SPIKE LEE estão de VOLTA pela DISPUTA da PALMA DE OURO

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Penélope Cruz e Javier Bardem em cena de Todos lo Saben, de Asghar Farhadi, que abrirá o Festival de Cannes

SELEÇÃO CONTÉM A PRESENÇA ILUSTRE DE JEAN-LUC GODARD E TRÊS CINEASTAS MULHERES

Olá, pessoal que segue o blog! Após um período de hibernação pós-Oscar, eis que retorno com a divulgação dos filmes selecionados para o Festival de Cannes, que entra em sua 71ª edição, lembrando que a presidente do júri deste ano é a atriz australiana Cate Blanchett.

AINDA SOBRE A NETFLIX

Antes de divagar sobre a seleção em si, gostaria de abrir um breve adendo ainda relacionado à desavença entre Cannes e Netflix, que começou ano passado, quando o então presidente do júri, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, lançou a declaração polêmica de que não premiaria (sem sequer conferir) nenhuma das duas produções da Netflix porque não seriam exibidas na tela grande. Para tentar apaziguar os ânimos, o coordenador de Cannes Thierry Frémaux decidiu que a partir de 2018, os filmes selecionados precisariam necessariamente ser exibidos em salas de cinema.

Após esse destrato, o diretor de conteúdo da Netflix anunciou que ficará de fora do Festival de Cannes este ano. Desse modo, candidatos em potencial como Roma, o novo filme de Alfonso Cuarón, e Norway, de Paul Greengrass, estão descartados. Porém, o problema reside na provável ausência de um dos maiores diretores de todos os tempos: Orson Welles. Sim, aquele mesmo de um tal Cidadão Kane, que é bem cotado pela crítica.

A filha dele, Beatrice Welles, finalizou o último trabalho do pai intitulado The Other Side of the Wind (O Outro Lado do Vento, em tradução livre), que foi filmado na década de 70, mas devido a problemas financeiros teve enormes dificuldades de ser lançado. Até que em 2017, a Netflix comprou os direitos e se comprometeu a fazer um grande lançamento, que seria em Cannes. E agora? Através de um e-mail, Beatrice fez um apelo ao coordenador de Cannes para reconsiderar a respeito da inclusão de produções da plataforma de streaming:

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Da esquerda para a direita: John Huston, Orson Welles e Peter Bogdanovich em set de The Other Side of the Wind.

 

“Fiquei bem chateada e preocupada em ler nos jornais a respeito do conflito com o Festival de Cannes. Tenho que falar pelo meu pai. Eu vi como as grandes companhias de produção destruíram sua vida, seu trabalho, e ao fazê-lo, um pouco do homem que amei tanto. Eu odiaria muito ver a Netflix ser mais uma dessas companhias.”

DISSECANDO A SELEÇÃO

Deixando um pouco a polêmica Arte vs. Distribuição de lado, a seleção de Cannes deste ano apresenta algumas peculiaridades. Dos 18 filmes que competem pela Palma de Ouro, temos apenas dois filmes norte-americanos: BlacKKKlansman, de Spike Lee, e Under the Silver Lake, de David Robert Mitchell, diretor do ótimo Corrente do Mal. Spike Lee não disputava a Palma de Ouro desde 1991 por Febre da Selva, formando um hiato de 27 anos. Com a baixa aderência de americanos, o tapete vermelho não será tão glamoroso com as ausências das celebridades hollywoodianas, mas acredito que este era o objetivo do festival: atrair mais qualidade e menos glamour.

Este ano, temos três filmes dirigidos por mulheres: Eva Husson, Nadine Labacki e Alice Rohrwacher. Embora não tenha alcançado o recorde de 2011, quando houve quatro mulheres, essa porcentagem feminina tem se elevado desde 2000. Sobre o assunto, o Frémaux deu a seguinte declaração: “Em Cannes, nunca teremos uma seleção baseada em uma discriminação positiva em relação às mulheres. Há uma diferença entre as mulheres cineastas e o movimento Me Too.”  Claro que Cannes, assim como o Oscar, pode dar uma força ao olhar com mais carinho os filmes dirigidos por mulheres, mas não são obrigados a selecioná-los pensando meramente no politicamente correto. Além disso, novamente eles elegeram uma presidente mulher com o intuito de lançar um olhar feminino na competição e quem sabe possibilitar uma segunda Palma de Ouro para uma cineasta (a primeira foi para Jane Campion e seu belo O Piano em 1993).

Dois dos diretores em competição estão presos em seus respectivos países: o iraniano Jafar Panahi, e o ucraniano Kirill Serebrennikov. Frémaux tentará apelar aos governos desses países para liberá-los e apresentar seus trabalhos na França, mas acredito que não conseguirá, pois os artistas podem pedir exílio político em território estrangeiro.

Ao contrário dos anos anteriores, a seleção deste ano não está recheada de nomes conhecidos dos festivais internacionais. Temos aqui o mestre francês Jean-Luc Godard com Le Livre d’Image, mas a maioria é composta por nomes internacionais emergentes como o polonês Pawel Pawlikowski (que venceu o Oscar por Ida em 2015), o italiano Matteo Garrone (conhecido pelo polêmico Gomorra) e o chinês Jia Zhang-Ke (conhecido por O Mundo e As Montanhas se Separam).

Por motivos desconhecidos, muitos nomes frequentes de Cannes estão ausentes (pelo menos até o momento, já que deve haver a inclusão de mais dois ou três filmes ainda) como Naomi Kawase, Jacques Audiard, Xavier Dolan, Nuri Bilge Ceylan e Olivier Assayas. Existe a possibilidade de seus trabalhos não terem conseguido finalizar a tempo do prazo do festival, mas também uma decisão de apostar em novos talentos.

Entre os nomes por hora excluídos, mas que podem surgir ainda, está o dinamarquês Lars von Trier, aquele mesmo que foi banido do festival em 2011 por ter feito comentários de teor nazista e defendido Hitler. Ele tem um filme bastante polêmico a ser lançado este ano: The House that Jack Built, no qual Matt Dillon interpreta um serial killer que mata mais de 12 pessoas e consegue ocultar os corpos. Alguns comentários de pessoas que já teriam visto alegam que existem fortes cenas de brutalidade e violência. Outros excluídos bastante citados são os britânicos Mike Leigh, que tem o drama histórico Peterloo, e Terry Gilliam com seu eterno The Man Who Killed Don Quixote, que não teria sido selecionado por legais.

SESSÕES ESPECIAIS

Vale lembrar que haverá pelo menos uma sessão de 2001: Uma Odisséia no Espaço em homenagem aos 50 anos de seu lançamento em 1968. O diretor britânico Christopher Nolan, bastante fã do filme, será host desta sessão. Esperamos que essa empolgação chegue a alguma sala aqui no Brasil, já que a ficção científica de Kubrick merece ser visto na tela grande e com som de ótima qualidade.

Ainda sobre homenagens, o diretor brasileiro Cacá Diegues terá seu novo filme exibido fora de competição. O Grande Circo Místico, sobre uma família austríaca que mantém um circo, estrelado por Jesuíta Barbosa, Bruna Linzmeyer e Antônio Fagundes, terá sessão especial no festival. Cacá Diegues já competiu pela Palma de Ouro em três oportunidades com Bye Bye Brasil (1980), Quilombo (1984) e Um Trem Para as Estrelas (1987), mas nunca levou.

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Jesuíta Barbosa e Bruna Linzmeyer em cena de O Grande Circo Místico, de Cacá Diegues

E importante citar que outro cineasta brasileiro estará presente em Cannes. Joe Penna, nascido em São Paulo, residente nos EUA, que ficou conhecido por seu canal no YouTube, realizou seu primeiro longa-metragem intitulado Arctic, sobre um homem aguardando resgate no Ártico. Logo em seu projeto de estréia, conseguiu a presença marcante do ótimo Mads Mikkelsen, conhecido por viver Hannibal Lecter na série de TV, e que venceu o prêmio de Ator em Cannes pelo ótimo A Caça.

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Cena de Arctic, de Joe Penna, estrelado por Madds Mikkelsen

INDICADOS À PALMA DE OURO:

  • Everybody Knows – FILME DE ABERTURA
    Dir: Asghar Farhadi
  • En Guerre (At War)
    Dir: Stephane Brize
  • Dogman
    Dir: Matteo Garrone
  • Le Livre d’Image
    Dir: Jean-Luc Godard
  • Netemo Sametemo (Asako I & II)
    Dir: Ryusuke Hamaguchi
  • Plaire Aimer et Courir Vite (Sorry Angel)
    Dir: Christophe Honore
  • Les Filles du Soleil (Girls of the Sun)
    Dir: Eva Husson
  • Ash Is Purest White
    Dir: Jia Zhang-Ke
  • Shoplifters
    Dir: Kore-Eda Hirokazu
  • Capharnaum
    Dir: Nadine Labaki
  • Buh-Ning (Burning)
    Dir: Lee Chang-Dong
  • BlacKKKlansman
    Dir: Spike Lee
  • Under the Silver Lake
    Dir: David Robert Mitchell
  • Three Faces
    Dir: Jafar Panahi
  • Zimna Wojna (Cold War)
    Dir: Pawel Pawlikowski
  • Lazzaro Felice
    Dir: Alice Rohrwacher
  • Yomeddine
    Dir: A.B. Shawky
  • Leto
    Dir: Kirill Serebrennikov

FORA DE COMPETIÇÃO

  • Solo: A Star Wars Story
    Dir: Ron Howard
  • Le Grand Bain
    Dir: Gilles Lelouche

SESSÕES ESPECIAIS

  • 10 Years in Thailand
    Dir: Aditya Assarat, Wisit Sasanatieng, Chulayarnon Sriphol e Apichatpong Weerasthakul
  • The State Against Mandela and the Others
    Dir: Nicolas Champeaux e Gilles Porte
  • O Grande Circo Místico (The Great Mystical Circus)
    Dir: Carlos Diegues
  • La Traversee
    Dir: Romain Goupil
  • A Touts Vents (To the Four Winds)
    Dir: Michel Toesca
  • Les Ames Mortes (Dead Souls)
    Dir: Wang Bing
  • Pope Francis – A Man of His Word
    Dir: Wim Wenders

MIDNIGHT SCREENINGS

  • Arctic
    Dir: Joe Penna
  • Gongjak (The Spy Gone North)
    Dir: Yoon Jong-Bing

UN CERTAIN REGARD

  • Grans (Border)
    Dir: Ali Abbasi
  • Sofia
    Dir: Meyem Benm’Barek
  • Les Chatouilles (Little Tickles)
    Dir: Andrea Bescond & Eric Metayer
  • Long Day’s Journey Into Night
    Dir: Bi Gan
  • Manto
    Dir: Nandita Das
  • A Genoux les Gars (Sextape)
    Dir: Antoine Desrosieres
  • Girl
    Dir: Lukas Dhont
  • Guele d’Ange (Angel Face)
    Dir: Vanessa Filho
  • Euphoria
    Dir: Valeria Golino
  • Mon Tissu Prefere (My Favorite Fabric)
    Dir: Gaya Jiji
  • Rafiki (Friend)
    Dir: Wanuri Kahiu
  • Die Stropers (The Harvesters)
    Dir: Etienne Kallos
  • In My Room
    Dir: Ulrich Kohler
  • El Angel
    Dir: Luis Ortega
  • The Gentle Indifference of the World
    Dir: Adilkhan Yerzhanov

***

O Festival de Cannes se inicia no dia 8 de Maio e termina no dia 19, quando devem ser anunciados os vencedores eleitos pelo júri.