Irã boicota o Oscar 2013 por causa do vídeo ‘Inocência dos Muçulmanos’

Asghar Farhadi com seu Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para o Irã. Pelo visto, não foi suficiente para evitar um boicote em 2013 (foto por Jason Merritt/ Getty Images)

Depois de ataques às embaixadas norte-americanas, bandeiras queimadas em público e recompensa de 100 mil dólares pela cabeça do diretor Nakoula Basseley Nakoula, responsável pelo vídeo produzido nos EUA Inocência dos Muçulmanos (Innocence of the Muslims), era questão de tempo essa pressão atingir o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Mesmo tendo vencido o último Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com o belo drama A Separação, de Asghar Farhadi, o Irã (leia-se seu governo) decidiu boicotar o Oscar devido ao incendiário vídeo que vem causando muita violência e revolta no mundo muçulmano entre o Paquistão e o Egito, resultando em mais de cinquenta mortos, incluindo o assassinato do embaixador americano na Líbia.

Nakoula Basseley Nakoula WANTED: A cabeça deste homem está valendo 100 mil dólares? Quando é o próximo vôo para os EUA? Quem está pagando é o político paquistanês Ghulam Ahmad Bilour.

O ministro da cultura do Irã, Mohammed Hosseini, admitiu pela imprensa de que o país já havia eleito o filme A Cube of Sugar (Ye habe Ghand), do diretor Seyyed Reza Mir-Karimi – que trata de um casamento que termina em funeral quando os pais do noivo morrem – para a competição internacional, mas voltaram atrás por considerarem Inocência dos Muçulmanos “um insulto intolerável para o Profeta do Islã”. Hosseini, juntamente com o chefe da agência controladora do cinema iraniano, Javad Shamaghdari, concordam com o boicote e incentivam outros países islâmicos a fazerem o mesmo.

Esse boicote só teria fim se as autoridades americanas revelassem à justiça os responsáveis pelo vídeo Inocência dos Muçulmanos. Em discurso nas Nações Unidas, o presidente Barack Obama condenou o filme anti-Islâmico, mas insistiu que os tumultos que ele acarretou não são justificados. “Não há palavras que sirvam como desculpa para a matança de pessoas inocentes. Nenhum vídeo justifica um ataque a uma embaixada”.

O presidente Barack Obama em discurso na ONU. “Nada justifica matança de inocentes” (foto por Associated Press)

Obviamente, o governo iraniano quer se aproveitar da projeção internacional do Oscar para demonstrar insatisfação com o governo norte-americano. Por mais que Obama concorde que o vídeo é uma ofensa, seu país prega a democracia e a liberdade de expressão. Se ele condena o diretor pelo filme, pode arranjar briga com a ONU e os defensores da Constituição. Se em circusntâncias normais, o presidente não tocaria nesse vespeiro, imagina em época de eleição!

Para os fanáticos religiosos islâmicos, cinema não tem nada a ver com Arte, mas uma arma para atingir os inimigos. Na competição da categoria de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, embora tenham comemorado a vitória sobre seus rivais de Israel (o filme Footnote, de Joseph Cedar) como se fosse uma guerra vencida, os iranianos mais radicais ainda reclamaram da exposição dos problemas de sua sociedade por meio da história de separação de um casal. Desse jeito, fica difícil de encontrar alguma conciliação se já emperram com questões mais insignificantes.

Independente do rumo que esses conflitos tomem, o Oscar, o filme iraniano A Cube of Sugar e seu diretor Seyyed Reza Mir-Karimi nada devem para os fundamentalistas islâmicos ofendidos por um vídeo tosco, mas infelizmente, acabam sendo os bodes expiatórios. Nas cidades em conflito, uma filial da rede de restaurantes KFC acabou sendo destruída só porque é americana. Isso é justo?

Sobrou para o representante iraniano A Cube of Sugar, de Seyyed Reza Mir-Karimi. O cinema paga o pato dos fundamentalistas islâmicos.

Aqui no Brasil, quando a classe média xiita fica revoltada com os “estadunidenses”, eles batem o pé e boicotam o McDonald’s. Sim, é um protesto devastador, mas bem mais sensato do que sair travestido de viking e arrasar com tudo pela frente.

*Devido a protestos de um grupo de muçulmanos no Brasil contra o Google (que detém os direitos do Youtube), uma corte em São Paulo ordenou que a empresa retire o vídeo do ar no prazo de 10 dias. Por isso, para quem ainda não viu o vídeo, aproveite para checar: https://cinemaoscareafins.wordpress.com/2012/09/19/video-causa-conflito-no-oriente-medio/. Curiosamente, essa decisão foi tomada um dia após o discurso da presidente Dilma Roussef na ONU contra a “islamofobia”. Para quem não conhece o jeito do PT (partido trabalhista) trabalhar, acostume-se. Eles adoram controlar com censura os meios de comunição e acreditam que o “Mensalão” é uma história de ficção científica. Nesse quesito, o país está a um passo do governo ditatorial de Hugo Chavez.

Com ou sem o Irã, as indicações ao Oscar 2013 serão anunciadas no dia 10 de janeiro de 2013.

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Vídeo causa conflito no Oriente Médio

Manifestantes um pouco alterados na embaixada norte-americana

Recentemente, o filme fictício sobre a vida de Maomé, Inocência dos Muçulmanos (Innocence of the Muslims), circulou pela internet e chegou ao povo que adotou sua religião. Aí que o pavio foi aceso. Para quem segue as notícias internacionais, nos países de maioria muçulmana, as embaixadas norte-americanas estão sofrendo fortes retaliações dos fundamentalistas islâmicos, assim como as franquias de restaurantes americanos nessas terras.

Resolvi ver o vídeo inteiro (com duração aproximada de 14 minutos) e postei abaixo o link do Youtube para quem tiver curiosidade e senso de humor. Na verdade, esse vídeo seria uma espécie de trailer, pois apresenta cortes repentinos de sequências variadas de cenário e personagens. Trata-se de uma produção mais tosca que os filmes do Ed Wood (considerado o pior diretor de todos os tempos), com atuações pífias e história com propósitos bastante discutíveis.

Por não seguir religião nenhuma, confesso que não entendo muito bem (apenas o suficiente para não seguir nenhuma). Mas o primeiro “erro” desse vídeo seria personificar a figura de Maomé. Não é um Jesus que dá pra simplesmente colocar um homem branco de barba e trajado com manta. Maomé é uma espécie de profeta, que equivale à figura de Moisés, escolhido por Deus, para divulgar Sua palavra pelo livro sagrado chamado Alcorão. Resumindo: os muçulmanos o idolatram. Agora, imaginem transformar a figura de Maomé num homem homossexual, mulherengo e pedófilo? Aí seria enfiar o braço inteiro no vespeiro. Os muçulmanos radicais estão que nem o povo de Springfield após uma briga: carregando tochas e tridentes, tocando a trilha musical de O Planeta dos Macacos!

Diante dos protestos e até uma iminente guerra, alguns atores que participaram do vídeo fizeram declarações para as mídias, alegando que foram enganados pelo suposto diretor. O roteiro que leram e interpretaram foi nitidamente alterado e dublado na pós-produção. Nas mãos dos atores, o título do roteiro era Desert Warriors (Guerreiros do Deserto), mas depois na edição, virou Inocência dos Muçulmanos. As dublagens podem ser facilmente detectadas e comprovadas por qualquer leigo, mas esse papo de que os atores foram ludibriados por completo soa como baboseira. Por mais que eles não tivessem idéia das alterações ou mesmo do fundo digital, eles sabiam que o texto remetia diretamente à religião (cenas com áudio original comprovam), usaram figurinos típicos do Oriente Médio e em algumas cenas, as ações de seus personagens se mostram bem vulgares para quaisquer bons costumes.

Aparentemente, o homem por trás da câmera se chama Nakoula Basseley Nakoula, um cristão extremista. Inicialmente, o filme fora dirigido por um tal Sam Bacile (inclusive, este é o nome da conta do vídeo no Youtube), mas após algumas investigações de linhas telefônicas, o responsável foi desmascarado. Aparentemente, Nakoula já fora sentenciado duas vezes nos EUA: em 2010 por fraudes bancárias, e em 1997, por fabricar metanfetamina. Ele se declarou culpado, pegando 1 ano de cadeia e 3 de liberdade condicional. Provavelmente, a justiça norte-americana deve recapturar o salafrário e fazê-lo cumprir duras penas, preferencialmente, com julgamento exibido em rede internacional para acalmar os ânimos muçulmanos.

Resolvido o caso, faz-se necessária uma discussão em torno da notícia:

1. Primeiramente, vamos considerar que Inocência dos Muçulmanos seja de fato um filme. Quem está certo e quem está errado? Existe lado certo e errado? Antes de responder a essas questões, é preciso saber qual o papel de um filme na sociedade. Na História do Cinema, já houve produções polêmicas que envolviam temas sexuais e políticos, sendo o italiano Pier Paolo Pasolini um dos mais famosos e controversos. Em seus filmes, havia uma mensagem que, como qualquer obra de Arte, merece ser analisada e discutida. Seu filme mais polêmico, Salò ou os 120 Dias de Sodoma (1975), foi banido na Itália e em outros países por vários anos por mostrar fortes cenas que misturam sexo com escatologia envolvendo membros da Igreja. A mensagem de Pasolini era simples: trazer a obra do escritor (igualmente polêmico) Marquês de Sade para os dias de fascismo de Benito Mussolini. Depois de terminar as filmagens, o diretor foi encontrado morto numa praia e as circunstâncias ainda são um mistério. Algum palpite?

É claro que o nosso cineasta Nakoula Basseley Nakoula não é exatamente um Pasolini, mas os princípios seriam os mesmos.

Salò, ou os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini. Se for pra comparar, o vídeo do Youtube é fichinha.

2. Seguindo esse pensamento, pela legislação, o suposto cineasta estaria livre de qualquer pena pelo filme, pois a liberdade de expressão o protege. Desse modo, a justiça deve condená-lo pelos demais crimes de fraude. Além disso, esse vídeo tosco seria uma consequência natural da Arte estando à disposição de todos. Multiplicando-se a quantidade de produções e o fácil acesso à mídia pelo Youtube, era questão de tempo algo desse naipe acontecer. Essa é uma matemática pura e simples de se entender.

Embora, Nakoula estivesse em seu direito fazer um filme, de forma alguma estou defendendo o autor do vídeo, pois ele foi bastante infeliz por ter criado uma história puramente provocativa e gratuita. Para esse tipo de “artista”, a liberdade de expressão serve como papel higiênico, mas trata-se de um direito conquistado pela civilização, devendo ser utilizada de forma consciente e com propriedade.

E as críticas a Nakoula não param por aí. O que se pode esperar de um “artista” que enganou alguns profissionais que trabalharam no filme? Esse indivíduo mau caráter distorceu o trabalho deles e agora está sendo processado pelas atrizes. Mas a pior consequência de sua irresponsabilidade deve ganhar maiores proporções. Por se tratar de uma produção realizada em solo americano, as autoridades dos Estados Unidos se vêem obrigadas a pedir desculpas publicamente para evitar maiores tragédias.

3. Agora, pelo outro lado da história, convenhamos que qualquer pessoa com bom senso jamais daria tanta importância para um vídeo desses. Ok, todos sabemos o quão radicais são alguns religiosos, mas nesse casos, quanto mais atenção se dá a esse vídeo, mais ele cresce na mídia, aumentando as chances de começar uma guerra sem fundamento. Os estragos causados até o momento denotam a delicadeza da situação.

Apesar de muitos culparem o filme, foram as pessoas que aceitaram a mensagem provocativa do vídeo e aumentaram a tensão internacional. A relação entre os norte-americanos e o povo muçulmano e do Oriente Médio não tem sido a mesma desde os ataques terroristas do 11 de Setembro de 2001. Além do caos aéreo e das questões de segurança, o preconceito vem causando muitas tragédias como o recente ataque à comunidade Sikh, que prega justamente a tolerância. Ou as autoridades norte-americanas tratam logo essa questão tensa, ou podemos presenciar uma nova guerra mundial na próxima década.

Paquistaneses se aquecem em volta da fogueira, coincidentemente, na bandeira americana.

4. Como disse anteriormente, eu não tenho religião alguma. Mas o que podemos dizer de uma religião que quer condenar uma menina de 11 anos à morte por ter queimado um Alcorão? (Veja notícia de agosto/12: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/08/menina-e-presa-por-queimar-paginas-do-alcorao-no-paquistao.html) Seria mais fácil supôr que a menina estaria possuída por um demônio do que analisar se ela tem capacidade ou não para distinguir o certo do errado, e se ela tem alguma doença mental. Mesmo assim, alguns poderiam defender essa atitude com as diferenças sócio-culturais, que realmente existem e devem ser respeitadas. Porém, uma coisa é ver um boliviano não tomar banho diariamente pelo costume da neve ou um indiano não comer carne bovina por questões religiosas. Outra coisa é ver um muçulmano querer matar uma criança por queimar um livro sagrado (como se crianças soubessem o que fazem toda hora).

Por favor, não me levem a mal. Acredito em valores e respeito todas as religiões, mas vale ressaltar aquele bom e velho ditado: “Tudo que é demais faz mal”. Não levem tudo muito à sério, não seja extremista. Até onde eu sei, todas as religiões pregam a paz e a aceitação, certo? Mas não é o que estamos vendo hoje nos noticiários.

5. No final deste ano, estréia o novo filme de Paul Thomas Anderson, The Master, que trata dos primórdios da Cientologia. Se o filme for provocativo, de péssima qualidade e receber indicações ao Oscar, Tom Cruise e John Travolta prometem destruir Hollywood. Fiquem atentos!

Veja o vídeo Innocence of the Muslims pelo próprio postador e tirem suas próprias conclusões: