Nove filmes seguem em busca do Oscar de Filme em Língua Estrangeira 2016. Brasil fica de fora mais uma vez…

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Cena do representante da França, Cinco Graças, um dos filmes classificados para a próxima fase (photo by cine.gr)

ACADEMIA LIMA 72 PRODUÇÕES DA COMPETIÇÃO. O FAVORITO O FILHO DE SAUL PERMANECE NO PÁREO.

Toda vez que vou postar algo relacionado à categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, a expressão: “Vira o disco” me vem à mente. Desde que fundei esse blog, é a categoria que mais reclamo, pois é a que mais necessita de uma reforma.

Primeiramente, vamos às notícias. Saiu a lista dos 9 filmes pré-selecionados dos 81 filmes internacionais inscritos. As 72 produções não-selecionadas podem dar adeus às chances de ganhar o Oscar, inclusive o filme brasileiro Que Horas Ela Volta?.

A War (photo by cine.gr)

A War, de Tobias Lindholm (photo by cine.gr)

Segue a lista:

The Brand New Testament (Le Tout Nouveau Testament), de Jaco Van Dormael – BÉLGICA
O Abraço da Serpente (El Abrazo de la Serpiente), de Ciro Guerra – COLÔMBIA
A War (Krigen), de Tobias Lindholm – DINAMARCA
O Esgrimista (Miekkailija), de Klaus Härö – FINLÂNDIA
Cinco Graças (Mustang), de Deniz Gamze Ergüven – FRANÇA
Labirinto de Mentiras (Im Labyrinth des Schweigens), de Giulio Ricciarelli – ALEMANHA
O Filho de Saul (Saul fia), de László Nemes – HUNGRIA
Viva, de Paddy Breathnach – IRLANDA
Theeb, de Naji Abu Nowar – JORDÂNIA

Claro que é difícil você criticar ou mesmo elogiar filmes sem ter visto, e alguns desses selecionados acima podem ser até de ótima qualidade, mas havia alguns títulos que sequer passaram dessa primeira triagem e eram considerados fortes candidatos como o taiwanês A Assassina, o sueco Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência, o austríaco Boa Noite, Mamãe e o brasileiro Que Horas Ela Volta?, que vinha conquistando seu espaço na temporada, principalmente depois da indicação ao Critics’ Choice Awards. Apesar de ter declarado que não acreditava em indicação, nas últimas semanas, confesso que estava mais confiante na passagem do Brasil, pelo menos nessa primeira peneira. Infelizmente, Central do Brasil continuará sendo nosso último representante indicado por mais um ano.

O Esgrimista (photo by cine.gr)

O Esgrimista, de Klaus Härö  (photo by cine.gr)

Aí você vai perguntar: “Mas não existe o Comitê de Filme em Língua Estrangeira justamente pra evitar essas ausências?”. Sim, existe, mas dessa lista de 9, o comitê seleciona apenas 3 com base em méritos artísticos e grau de importância em premiações e festivais. Os outros 6 são resultado dos votantes idosos que comparecem às sessões vespertinas para poder votar com base em suas taras obsessivas por filmes de temática bélica e Holocausto.

Uns dois anos atrás, fiz essa análise para tentar deduzir de onde vinham os votos desses 9 filmes. Vamos dar uma olhada no que temos este ano:

The Brand New Testament, de (photo by outnow.ch)

The Brand New Testament, de Jaco Van Dormael (photo by outnow.ch)

1. The Brand New Testament
Comédia sobre uma nova versão da bíblia, onde Deus estaria vivo e vivendo em Bruxelas com a filha. Apesar do tema religioso, tem Catherine Deneuve no elenco, e recentemente foi indicado ao Globo de Ouro. COMITÊ

2. O Abraço da Serpente
Drama em preto-e-branco sobre relação entre shaman amazônico e dois cientistas que buscam uma planta milagrosa. Foi indicado ao Independent Spirit Awards. VOTANTES

3. A War
Drama sobre a Guerra do Afeganistão e os crimes de guerra cometidos pelo comandante dinamarquês. COMITÊ

4. O Esgrimista
Fugindo da polícia secreta russa, jovem esgrimista estoniano é forçado a voltar para seu país, onde se torna professor de educação física numa escola local. VOTANTES

5. Cinco Graças
Cinco irmãs adolescentes amantes da liberdade são mantidas aprisionadas em casa pelos pais, depois que uma brincadeira inocente com meninos vai à tona. Casamentos passam a ser arranjados em seguida. Indicado ao Globo de Ouro e Independent Spirit Awards. VOTANTES

6. Labirinto de Mentiras
15 anos após a Segunda Guerra Mundial, os nazistas estão esquecidos até o dia em que um promotor público reconhece um comandante de Auschwitz dando aulas livremente. VOTANTES

7. O Filho de Saul
Saul trabalha no campo de concentração queimando corpos. Quando reconhece o corpo de seu filho, ele se arrisca para poder enterrá-lo. VOTANTES

8. Viva
Ao fazer uma performance como drag queen, jovem é surpreendido pelo pai, que estava ausente há 15 anos. Na volta da convivência, eles precisam acertar suas diferenças.  COMITÊ

9. Theeb
Theeb é um menino que tem a missão de guiar um oficial britânico pelo deserto durante a Primeira Guerra Mundial. VOTANTES

Viva (photo by cine.gr)

Viva, de Paddy Breathach (photo by cine.gr)

Como postei anteriormente, o ideal seria se a categoria estendesse o número de seus indicados para dez. Garimpar 10 produções americanas boas no ano pode ser difícil às vezes, mas 10 filmes mundo afora? Mais fácil do que indicar Meryl Streep! Mas aí vem a outra questão: chega de filmes só de guerra e nazismo! Vamos diversificar! Para isso, as regras precisam mudar. Por que não formar um comitê com profissionais internacionais e um americano? Como se fosse um júri de festival, que mudaria anualmente.

Theeb (photo by cine.gr)

Theeb, de Naji Abu Nowar (photo by cine.gr)

Por exemplo: Este ano, o comitê selecionado pela Academia será composto por David Lynch (diretor americano) e os internacionais: Pedro Almodóvar (Espanha), Zhangke Jia (China), Guillermo Del Toro (México), Jacques Audiard (França) e Walter Salles (Brasil). Eles se comprometeriam a assistir aos 81 filmes e selecionar os 5 finalistas, que aí poderiam ser votados pelos membros da Academia.

O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra (photo by cine.gr)

O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra (photo by cine.gr)

Enfim, todo ano faço sugestões na vã esperança de que algum dia um membro da Academia receba essa informação e cause alguma mudança. Acho uma categoria muitas vezes tratada como secundária, até mesmo pelos apresentadores do prêmio que chegam ao palco com aquela cara de “por que não me colocaram para apresentar Melhor Filme ou Diretor?”, mas que deveria ser mais valorizada pela instituição, cuja cerimônia depende dos números de audiência além da fronteira americana.

Labyrinth of Lies

Labirinto de Mentiras, de Giulio Ricciarelli (photo by cine.gr)

Contudo, acho que até o público já se habituou a ver filmes de Segunda Guerra Mundial e campos de concentração ganharem nessa categoria. E nesse quesito, nenhum outro representante melhor do que o húngaro O Filho de Saul, que deve ter passado para a segunda fase com sobras. Vi o filme de László Nemes na Mostra Internacional de Cinema, e pode ser que minha opinião crítica tenha sido afetada por todas essas questões que citei, mas o filme não me impressionou. Basicamente é a mesma história de sempre, mas com o diferencial de que a história toda do pai que quer enterrar o filho é filmada com “câmera na mão” (steadycam) e colada no protagonista o filme todo, deixando boa parte do fundo desfocada.

O Filho de Saul, de László Nemes (photo by cine.gr)

O Filho de Saul, de László Nemes (photo by cine.gr)

A lista dos 9 filmes não me agrada à princípio, porque gosto de ver coisas diferentes, ainda mais nessa categoria super manjada. Por isso estava na torcida pelo austríaco Boa Noite, Mamãe, que tem um terror psicológico que há muito não vejo por aqui… Gostaria muito que o chileno O Clube estivesse concorrendo, pois achei um dos melhores do ano por sua coragem em abordar o tema dos padres que cometeram abuso sexual, ao mesmo tempo em que deixa um forte desconforto no espectador. Daria uma ótima combinação para acompanhar um dos favoritos ao Oscar, Spotlight – Segredos Revelados, que trata do mesmo tema.

Na atual conjuntura, torço pelos The Brand New Testament e A War, porque parecem apresentar algo mais inusitado, e coincidentemente ou não, dois filmes que acredito que foram selecionados pelo Comitê. E claro, torço para que os selecionados apresentem algo a mais além da temática.

O anúncio dos 5 indicados a Melhor Filme em Língua Estrangeira será no dia 14 de janeiro.

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‘Carol’ lidera as indicações do Independent Spirit Awards 2016

Carol

Rooney Mara e Cate Blanchett em cena de Carol, de Todd Haynes (photo by outnow.ch)

PREMIAÇÃO DOS INDEPENDENTES DESTACA OSCARIZÁVEIS

Antes de analisar esta edição, cabe aqui recordar o crescimento da importância do Independent Spirit em relação ao Oscar. Considerado como anti-Oscar até os anos 90, quando a Academia premiava grandes produções de estúdios em sua grande maioria como Coração Valente e Titanic, o prêmio singelo focado em filmes independentes ganhou muita força por sua veia mais artística e claro, por seus baixos orçamentos que animam qualquer produtor em anos de crise econômica.

Nos últimos anos, Birdman, 12 Anos de Escravidão e O Artista se sagraram Melhor Filme tanto no Independent como no Oscar, assim como vários atores, cujas performances foram reconhecidas em ambas as premiações como Julianne Moore (Para Sempre Alice), J.K. Simmons (Whiplash: Em Busca da Perfeição), Patricia Arquette (Boyhood: Da Infância à Juventude), Matthew McConaughey (Clube de Compras Dallas), Cate Blanchett (Blue Jasmine), Jared Leto (Clube de Compras Dallas) e Lupita Nyong’o (12 Anos de Escravidão) só pra citar as duas últimas edições, ou seja, 7 vencedores coincididos em 8. Resumindo: O Independent Spirit só fica atrás do SAG Awards para garantir o Oscar de atuação. Portanto, nessa função de prévia do Oscar, o Independent Spirit tomou o lugar do Globo de Ouro há tempos.

Neste ano, os convidados para o anúncio das indicações foram os atores Elizabeth Olsen, a Feiticeira Escarlate de Vingadores: Era de Ultron, e John Boyega, que estrela o novo filme da saga: Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força. Eles revelaram os indicados na manhã desta última terça-feira, dia 24, e a transmissão segue em link do Youtube:

O recordista em indicações é o novo filme de Todd Haynes, conhecido por Longe do Paraíso e Velvet Goldmine, Carol. Rotulado como o romance lésbico, o longa conquistou seis indicações, incluindo para a dupla de protagonistas Cate Blanchett e Rooney Mara, que competirão na mesma categoria. Claro que isso não significa que Mara não possa concorrer por Coadjuvante no Oscar, pois dependerá de sua inscrição pela campanha, mas certamente sua inclusão como atriz principal aqui, juntamente com o prêmio de atuação feminina em Cannes, reforçam sua indicação ao Oscar.

Em seguida, com cinco indicações, vem Beasts of No Nation, de Cary Joji Fukunaga, que aborda o treinamento de crianças para se formarem soldados com o intuito de lutarem em guerras civis no continente africano. Curiosamente, é a primeira produção da Netflix a concorrer ao prêmio, comprovando que as plataformas de streaming não vão se limitar às séries.

Michael Keaton e Mark Ruffalo em cena de Spotlight (photo by cine.gr)

Michael Keaton e Mark Ruffalo em cena de Spotlight (photo by cine.gr)

Com quatro indicações, Spotlight, drama jornalístico sobre escândalos verídicos de abusos de padres católicos, ganhou mais impulso para a temporada. Havia um certo receio de que o conservadorismo da Academia pudesse barrar a produção, mas com a alta de seu reconhecimento, fica praticamente impossível ignorar o filme, que já conquistou o prêmio de Melhor Elenco pelas performances de Mark Ruffalo, Michael Keaton, Rachel McAdams, Liev Schreiber e Stanley Tucci.

Com o mesmo número de indicações, a animação Anomalisa surpreendeu ao conquistar espaço nas principais categorias como Filme, Diretor e Roteiro. Contudo, a maior surpresa aqui é a inclusão do trabalho de dublagem da atriz Jennifer Jason Leigh como Atriz Coadjuvante. Sem contar com a presença de tela, a dublagem normalmente passa desapercebida pela maioria dos prêmios, pois muitos acreditam ainda que se trata de uma performance menor, ou mesmo limitada. As últimas duas atuações vocais que causaram um hype foram a de Scarlett Johansson, que faz a voz do sistema operacional em Ela (2013), e Ellen DeGeneres como a personagem amnésica Dory de Procurando Nemo (2003). Infelizmente, nenhuma das duas atrizes foram indicadas ao Oscar, mas alguns críticos já estão fazendo campanha para Jennifer Jason Leigh, que ainda conta com sua participação em Os 8 Odiados.

À direita, a personagem Lisa, dublada pela atriz Jennifer Jason Leigh (photo by observatoriodocinema.com.br)

À direita, a personagem Lisa, dublada pela atriz Jennifer Jason Leigh em Anomalisa  (photo by observatoriodocinema.com.br)

De todas as indicações, a que mais gostei foi para o diretor David Robert Mitchell por seu trabalho em Corrente do Mal. Trata-se de um terror pós-moderno que faz uma bela analogia à liberdade sexual entre os jovens de hoje. Fazer um filme de terror com conteúdo como fazia John Carpenter nos anos 70 e 80 está cada vez mais raro, e por isso mesmo, merece tal reconhecimento.

Vale destacar também as quatro indicações para o drama Tangerina, sobre duas prostitutas transsexuais que buscam vingança com seu cafetão na época do Natal em Los Angeles. Com um orçamento irrisório de 100 mil dólares e câmeras de iPhones modificadas, está competindo com grandes favoritos ao Oscar. Além disso, está lançando duas atrizes transsexuais para competir nas categorias de Atriz e Atriz Coadjuvante: Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor, respectivamente. Caso uma das duas seja indicada para o Oscar, será a primeira vez que um ator transgênero consegue o feito.

Da esquerda pra direita, as atrizes Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor em cena de Tangerina (photo by cine.gr)

Da esquerda pra direita, as atrizes Kitana Kiki Rodriguez e Mya Taylor em cena de Tangerina (photo by cine.gr)

Ainda sobre a lista de indicados, muitos especialistas acreditam que o drama O Quarto de Jack, considerado um “Oscar lock”, ficou aquém das expectativas na premiação. Segundo as apostas, faltaram indicações para Melhor Filme, Diretor (Lenny Abrahamson), Atriz Coadjuvante para Joan Allen, e Ator Coadjuvante Para Jacob Tremblay. Nesse cenário, a protagonista Brie Larson continua firme e forte na disputa para o Oscar de Atriz.

Outras ausências sentidas foram das atrizes Blythe Danner (I’ll See You in My Dreams), Lily Tomlin (Grandma), Saoirse Ronan (Brooklyn) e Elizabeth Banks (Love & Mercy), confirmando que estamos diante de um ano excepcional para atrizes como há muito não se via.

Diante desses indicados, com mais “cara de independente”, com exceções de Spotlight e Carol, talvez seja um ano de ruptura entre o Independent Spirit e o Oscar.

Seguem as indicações do Independent Spirit Awards 2016:

MELHOR FILME
– Anomalisa
– Beasts of No Nation
– Carol
– Spotlight
– Tangerina (Tangerine)

MELHOR DIRETOR
– Sean Baker (Tangerina)
– Cary Joji Fukunaga (Beasts of No Nation)
– Todd Haynes (Carol)
– Charlie Kaufman & Duke Johnson (Anomalisa)
– Tom McCarthy (Spotlight)
– David Robert Mitchell (Corrente do Mal)

MELHOR ROTEIRO
– Charlie Kaufman (Anomalisa)
– Donald Margulies (O Fim da Turnê)
– Phyllis Nagy (Carol)
– Tom McCarthy & Josh Singer (Spotlight)
– S. Craig Zahler (Bone Tomahawk)

MELHOR FILME DE ESTRÉIA
– The Diary of a Teenage Girl
– James White
– Manos Sucias
– Mediterranea
– Songs My Brothers Taught Me

MELHOR ROTEIRO ESTREANTE
– Jesse Andrews (Eu, Você e a Garota que Vai Morrer)
– Jonas Carpignano (Mediterranea)
– Emma Donoghue (O Quarto de Jack)
– Marielle Heller (The Diary of a Teenage Girl)
– John Magary, Russell Harbaugh, Myna Joseph (The Mend)

MELHOR ATOR
– Christopher Abbott (James White)
– Abraham Attah (Beasts of No Nation)
– Ben Mendelsohn (Mississippi Grind)
– Jason Segel (O Fim da Turnê)
– Koudous Seihon (Mediterranea)

MELHOR ATRIZ
– Cate Blanchett (Carol)
– Brie Larson (O Quarto de Jack)
– Rooney Mara (Carol)
– Bel Powley (The Diary of A Teenage Girl)
– Kitana Kiki Rodriguez (Tangerina)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
– Kevin Corrigan (Resultados)
– Paul Dano (Love & Mercy)
– Idris Elba (Beasts of No Nation)
– Richard Jenkins (Bone Tomahawk)
– Michael Shannon (99 Homes)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
– Robin Bartlett (H.)
– Marin Ireland (Glass Chin)
– Jennifer Jason Leigh (Anomalisa)
– Cynthia Nixon (James White)
– Mya Taylor (Tangerina)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
– (T)error
– Best of Enemies
– Heart of a Dog
– The Look of Silence
– Meru
– The Russian Woodpecker

MELHOR FILME INTERNACIONAL
– Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência (En duva satt på en gren och funderade på tillvaron), de Roy Andersson
– Embrace of the Serpent (El Abrazo de la Serpiente), de Ciro Guerra
– Garotas (Bande de Filles), de Céline Sciamma
– Mustang, de Deniz Gamze Ergüven
– O Filho de Saul (Saul Fia), de László Nemes

MELHOR FOTOGRAFIA
– Beasts of No Nation
– Carol
– Corrente do Mal
– Meadlowland
– Songs My Brothers Taught Me

MELHOR MONTAGEM
– Heaven Knows What
– Corrente do Mal
– Manos Sucias
– O Quarto de Jack
– Spotlight

PRÊMIO JOHN CASSAVETES (Best Feature Under $500,000)
– Advantageous
– Christmas, Again
– Heaven Knows What
– Krisha
– Out of My Hand

PRÊMIO ROBERT ALTMAN (Best Ensemble)
* Spotlight

Kiehl’s Someone to Watch Award
– Chloé Zhao
– Felix Thompson
– Robert Machoian & Rodrigo Ojeda-Beck

PRÊMIO PIAGET DE PRODUTORES
– Darren Dean
– Mel Eslyn
– Rebecca Green and Laura D. Smith

A 31ª edição do Independent Spirit Awards acontece no dia 27 de fevereiro, como de costume, um dia antes da cerimônia do Oscar.

Idris Elba em cena de Beasts of No Nation, de Cary Fukunaga (photo by cine.gr)

Idris Elba em cena de Beasts of No Nation, de Cary Joji Fukunaga (photo by cine.gr)

81 filmes concorrem por 5 vagas de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2016

O diretor Pawel Pawlikowski posa com seu Oscar de Filme em Língua Estrangeira este ano por Ida (photo by thehindubissinessline.com)

O diretor Pawel Pawlikowski posa com seu Oscar de Filme em Língua Estrangeira este ano por Ida (photo by thehindubissinessline.com)

COM INSCRIÇÕES TERMINADAS, COMEÇAM AS ESPECULAÇÕES

Apesar de não ter havido quebra de recordes, 81 filmes foram selecionados para a disputa pelo Oscar de Filme de Língua Estrangeira, dois a menos do que o ano anterior com 83. A novidade deste ano atende pelo nosso vizinho Paraguai, que inscreveu um longa-metragem pela primeira vez ao prêmio. Embora as chances de vitória não sejam lá das maiores, é bacana ver mais um país latino concorrendo com uma obra que representa sua cultura, e também vale lembrar que a própria Academia tem se demonstrado mais aberta às produções de países sem muito histórico cinematográfico. Nesse ano, por exemplo, a Mauritânia e a Estônia receberam suas primeiras indicações por Timbuktu e Tangerinas, respectivamente. Então por que não sonhar com uma vaga?

E O BRASIL?

O Brasil corre atrás de sua 5ª indicação na categoria, algo que não acontece desde o longínquo ano de 1999, quando Central do Brasil perdeu para o italiano A Vida é Bela. O MinC selecionou a ‘dramédia’ Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, que ganhou o título internacional de The Second Mother, em referência ao personagem central de Regina Casé, que vive uma empregada doméstica que cuida do filho dos patrões como se fosse seu.

Cena de Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, presentante do Brasil este ano (photo by cine.gr)

Cena de Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, presentante do Brasil este ano (photo by cine.gr)

O filme funciona bem como crítica social e um retrato das classes brasileiras, assim como comédia graças à atuação de Casé. Ganhou prêmios importantes em festivais como o de Sundance e Berlim, o que sempre ajuda na campanha e também na conquista do próprio público brasileiro que costuma olhar com mais atenção as produções premiadas, mas ainda está bem longe da própria campanha vitoriosa de Central do Brasil. A seleção de Que Horas Ela Volta? me agrada por representar bem o que acontece no país, o que não deixa de ser uma decisão corajosa, mas em termos de chances reais, acredito que o Brasil terá de esperar mais um ano ainda por uma nova indicação.

FAVORITOS ATÉ O MOMENTO

Em se tratando de Oscar de Filme em Língua Estrangeira, digamos que é uma caixinha de surpresas. Às vezes acontece de haver um franco-favorito como o iraniano A Separação ou o austríaco Amor, mas na maioria das vezes a Academia gosta de surpreender, infelizmente pra pior. São raríssimos os casos em que me surpreendi positivamente como quando o argentino O Segredo dos Seus Olhos e do alemão A Vida dos Outros levaram o prêmio batendo os favoritos.

Nessa altura do campeonato ainda é difícil prever os reais favoritos. Muitas vezes a gente se baseia em participações e premiações em grandes festivais como Cannes e Veneza, mas nada é 100% garantido. Ano passado, muitos apostaram no turco Winter Sleep como dono de uma das indicações por ter levado a Palma de Ouro, mas acabou nem passando pras semi-finais. Mas, se existe algum tipo de certeza, o chamado ‘Oscar lock’, este seria o representante húngaro O Filho de Saul, de László Nemes. Além de ter levado o Grande Prêmio do Júri em Cannes, tem o elemento-chave para quase todo filme vencedor desta categoria: 2ª Guerra Mundial e Judeus.

Cena de O Filho de Saul, ainda sem previsão de estréia no Brasil (photo by cine.gr)

Cena de O Filho de Saul, ainda sem previsão de estréia no Brasil (photo by cine.gr)

A trama do filme se passa em 1944, no campo de concentração de Auschwitz, onde o prisioneiro Saul tem a ingrata tarefa de queimar os corpos de seus colegas até encontrar o corpo daquele que acredita ser seu filho. O filme tem toda a receita pronta para ganhar a estatueta. Podem me cobrar em fevereiro: O Filho de Saul vai ganhar o Oscar.

Além do húngaro, existem alguns filmes que estão sendo bem comentados pela crítica internacional e devem figurar pelo menos na lista dos semi-finalistas, graças ao comitê executivo criado pelo produtor Mark Johnson. Explico. Depois que o super bem criticado filme romeno 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu, ficou de fora da categoria de Filme em Língua Estrangeira de 2008, a Academia criou com a ajuda de Johnson um comitê responsável por selecionar três títulos na lista dos nove semi-finalistas para que não dependam exclusivamente dos votos dos velhinhos judeus que assistem às sessões dos filmes estrangeiros. Foi graças aos esforços desse comitê que filmes mais ousados foram indicados como o grego Dente Canino em 2010. Acredito que se esse comitê tivesse existido desde o início dos anos 2000, filmes muito bons porém violentos teriam sido indicados como o brasileiro Cidade de Deus e o sul-coreano Oldboy.

Enfim, águas passadas. Agora o comitê tem a chance de promover mais três filmes relevantes no cenário internacional. Eles têm o chileno O Clube, que tem um tema polêmico de padres católicos que se isolam numa casa após cometerem abuso sexual com menores. O filme é dirigido por Pablo Larraín, anteriormente indicado por No; Tem o sueco Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência, que ganhou o Leão de Ouro de 2014 e tem o nome do diretor veterano Roy Andersson pra ajudar; E de Taiwan, The Assassin concorre como filme mais belo visualmente e a Academia tem uma chance de ouro para premiar um dos melhores diretores asiáticos da atualidade: Hou Hsiao-Hsien, que levou o prêmio de Direção em Cannes este ano. Caso o filme asiático não passe, existe uma boa possibilidade de concorrer nas categorias de Figurino e Direção de Arte.

Bela cena de The Assassin, de Hou Hsiao-Hsien (photo by cine.gr)

Bela cena de The Assassin, de Hou Hsiao-Hsien (photo by cine.gr)

Cena de Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência, de Roy Andersson. (photo by cine.gr)

Cena de Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência, de Roy Andersson. (photo by cine.gr)

Cena de O Clube, de (photo by cine.gr)

Cena de O Clube, de Pablo Larraín (photo by cine.gr)

Outro representante bem comentado foi o português As Mil e uma Noites: Vol. 2, o Desolado, de Miguel Gomes. Trata-se da segunda parte da trilogia baseada na obra anônima de contos, pelo qual o diretor busca fazer críticas à política econômica atual de seu país. Ao contrário do que acontece com todos os filmes divididos em volumes, esta trilogia toda foi lançada no mesmo ano, totalizando mais de 6 horas de filme. A escolha pelo segundo volume foi uma aposta dos organizadores em Portugal, muito provavelmente para instigar ainda mais os votantes a conferir os demais filmes da trilogia.

Cena de As Mil e uma Noites,: Vol. 2, O Desolado, de Miguel Gomes (photo by outnow.ch)

Cena de As Mil e uma Noites,: Vol. 2, O Desolado, de Miguel Gomes (photo by outnow.ch)

Vale também citar aqui o filme romeno Aferim!, de Radu Jude, que levou o Urso de Prata de Melhor Diretor no último Festival de Berlim. Filmado em preto-e-branco, esse western moderno romeno se passa no século XIX, e apresenta uma trama de captura de um escravo cigano que teve um caso com a esposa de seu dono. Seria uma forma de crítica ao escravismo de que persiste na Romênia atual. Apresenta uma bela fotografia PB e pode surpreender.

Cena de Aferim!, de Radu Jude, que levou o Urso de Prata de Diretor (photo by outnow.ch)

Cena de Aferim!, de Radu Jude (photo by outnow.ch)

MINHA TORCIDA

Como muitos sabem, gosto de defender material diferente no Oscar, especialmente quando o candidato possui características diferentes, criativas, bizarras. Apesar de não ter visto ainda, o representante da Áustria deste ano parece ter todos esses elementos citados. Goodnight Mommy é sobre dois meninos gêmeos que se mudam para uma nova casa com sua mãe depois que ela passa por uma cirurgia plástica facial. Coberto por ataduras no rosto, a mãe se torna irreconhecível pelos filhos.

Cena do terror psicológico Goodnight Mommy, de Severin Fiala e Veronika Franz (photo by outnow,ch)

Cena do terror psicológico Goodnight Mommy, de Severin Fiala e Veronika Franz (photo by outnow,ch)

Existe uma bizarrice que lembra o do grego Dente Canino, mas é nitidamente um filme de terror psicológico, daqueles excelentes que Roman Polanski costumava fazer nos anos 60 e 70. Caso o filme austríaco seja reconhecido por prêmios da crítica americana, existe uma boa chance de ser defendido pelo comitê, caso contrário, não deve passar de uma ótima e corajosa tentativa.

Confira o trailer:

Segue a lista com os 81 filmes inscritos oficialmente para a 88ª edição do Academy Awards:

• AFEGANISTÃO: Utopia
Dir: Hassan Nazer

• ÁFRICA DO SUL: The Two of Us
Dir: Ernest Nkosi

• ALBÂNIA: Bota
Dir: Iris Elezi & Thomas Logoreci

• ALEMANHA: Labirinto de Mentiras (Im Labyrinth des Schweigens)
Dir: Giulio Ricciarelli

• ARGÉLIA: Twilight of Shadows
Dir: Mohamed Lakhdar Hamina

• ARGENTINA: The Clan (El Clan)
Dir: Pablo Trapero

• AUSTRÁLIA: Arrows of the Thunder Dragon
Dir: Greg Sneddon

• ÁUSTRIA: Goodnight Mommy
Dir: Veronika Franz & Severin Fiala

• BANGLADESH: Jalal’s Story
Dir: Abu Shahed Emon

• BÉLGICA: The Brand New Testament
Dir: Jaco Van Dormael

• BÓSNIA HERZEGOVINA: Our Everyday Story
Dir: Ines Tanović

• BRASIL: Que Horas Ela Volta? (The Second Mother)
Dir: Anna Muylaert

• BULGÁRIA: The Judgment
Dir: Stephan Komandarev

• CAMBOJA: The Last Reel
Dir: Sotho Kulikar

• CANADÁ: Félix and Meira
Dir: Maxime Giroux

• CAZAQUISTÃO: Stranger
Dir: Yermek Tursunov

• CHILE: O Clube (El Club)
Dir: Pablo Larraín

• CHINA: Go Away Mr. Tumor
Dir: Han Yan

• COLÔMBIA: O Abraço da Serpente (El Abrazo de la Serpiente)
Dir: Ciro Guerra

• CORÉIA DO SUL: The Throne
Dir: Lee Joon-ik

• COSTA DO MARFIM: Run
Dir: Philippe Lacôte

• COSTA RICA: Imprisoned
Dir: Esteban Ramírez

• CROÁCIA: The High Sun
Dir: Dalibor Matanić

• DINAMARCA: Guerra (Krigen)
Dir: Tobias Lindholm

• ESLOVÁQUIA: Goat
Dir: Ivan Ostrochovský

• ESLOVÊNIA: The Tree
Dir: Sonja Prosenc

• ESPANHA: Flowers
Dir: Jon Garaño & Jose Mari Goenaga

• ESTÔNIA: 1944
Dir: Elmo Nüganen

• ETIÓPIA: Cordeiro (Lamb)
Dir: Yared Zeleke

• FILIPINAS: Heneral Luna
Dir: Jerrold Tarog

• FINLÂNDIA: The Fencer
Dir: Klaus Härö

• FRANÇA: Mustang
Dir: Deniz Gamze Ergüven

• GEORGIA: Moira
Dir: Levan Tutberidze

• GRÉCIA: Xenia
Dir: Panos H. Koutras

• GUATEMALA: Ixcanul
Dir: Jayro Bustamante

• HOLANDA: The Paradise Suite
Dir: Joost van Ginkel

• HONG KONG: To the Fore
Dir: Dante Lam

• HUNGRIA: O Filho de Saul (Saul Fia)
Dir: László Nemes

• ÍNDIA: Court
Dir: Chaitanya Tamhane

• IRÃ: Muhammad: The Messenger of God
Dir: Majid Majidi

• IRAQUE: Memories on Stone
Dir: Shawkat Amin Korki

• IRLANDA: Viva
Dir: Paddy Breathnach

• ISLÂNDIA: A Ovelha Negra (Hrútar)
Dir: Grímur Hákonarson

• ISRAEL: Baba Joon
Dir: Yuval Delshad

• ITÁLIA: Don’t Be Bad
Dir: Claudio Caligari

• JAPÃO: 100 Yen Love
Dir: Masaharu Take

• JORDÂNIA: Theeb
Dir: Naji Abu Nowar

• KOSOVO: Pai (Babai)
Dir: Visar Morina

• LETÔNIA: Modris
Dir: Juris Kursietis

• LÍBANO: Void
Dir: Naji Bechara, Jad Beyrouthy, Zeina Makki, Tarek Korkomaz, Christelle Ighniades, Maria Abdel Karim & Salim Haber

• LITUÂNIA: The Summer of Sangaile
Dir: Alanté Kavaïté

• LUXEMBURGO: Baby (A)lone
Dir: Donato Rotunno

• MACEDÔNIA: Honey Night
Dir: Ivo Trajkov

• MALÁSIA: Men Who Save the World
Dir: Liew Seng Tat

• MARROCOS: Aida
Dir: Driss Mrini

• MÉXICO: 600 Miles
Dir: Gabriel Ripstein

• MONTENEGRO: You Carry Me
Dir: Ivona Juka

• NEPAL: Talakjung vs Tulke
Dir: Basnet Nischal

• NORUEGA: The Wave
Dir: Roar Uthaug

• PAQUISTÃO: Moor
Dir: Jami

• PALESTINA: The Wanted 18
Dir: Amer Shomali & Paul Cowan

• PARAGUAI: Cloudy Times
Dir: Arami Ullón

• PERU: NN
Dir: Héctor Gálvez

• POLÔNIA: 11 Minutes
Dir: Jerzy Skolimowski

• PORTUGAL: As Mil e Uma Noites – Volume 2, O Desolado (Arabian Nights – Volume 2, The Desolate One)
Dir: Miguel Gomes

• QUIRGUISTÃO: Heavenly Nomadic
Dir: Mirlan Abdykalykov

• REINO UNIDO: Under Milk Wood
Dir: Kevin Allen

• REPÚBLICANA DOMINICANA: Sand Dollars
Dir: Laura Amelia Guzmán & Israel Cárdenas

• REPÚBLICA TCHECA: Home Care
Dir: Slavek Horak

• ROMÊNIA: Aferim!
Dir: Radu Jude

• RÚSSIA: Sunstroke
Dir: Nikita Mikhalkov

• SÉRVIA: Enclave
Dir: Goran Radovanović

• SINGAPURA: 7 Letters
Dir: Royston Tan, Kelvin Tong, Eric Khoo, Jack Neo, Tan Pin Pin, Boo Junfeng & K. Rajagopal

• SUÉCIA: Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência (En duva satt på en gren och funderade på tillvaron)
Dir: Roy Andersson

• SUÍÇA: Iraqi Odyssey
Dir: Samir

• TAILÂNDIA: How to Win at Checkers (Every Time)
Dir: Josh Kim

• TAIWAN: The Assassin
Dir: Hou Hsiao-hsien

• TURQUIA: Sivas
Dir: Kaan Müjdeci

• URUGUAI: A Moonless Night
Dir: Germán Tejeira

• VENEZUELA: Lo que Lleva el Río (Gone with the River)
Dir: Mario Crespo

• VIETNÃ: Jackpot
Dir: Dustin Nguyen

As indicações serão anunciadas no dia 14 de janeiro de 2016. A 88ª cerimônia do Oscar acontece em 28 de fevereiro.

‘Que Horas Ela Volta?’ representará o Brasil no Oscar 2016

Pôster de Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert (photo by quadroporquadro.com.br)

Pôster de Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert (photo by quadroporquadro.com.br)

BRASIL SELECIONA FILME EM ALTA INTERNACIONALMENTE

Na última quinta-feira, dia 10, o MinC anunciou o filme que representará o país na corrida pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. A nova produção, escrita e dirigida por Anna Muylaert, Que Horas Ela Volta?, ou The Second Mother, como é conhecido internacionalmente, já era apontada por muitos como a grande favorita entre os oito que competiam.

Os demais sete filmes competidores foram:

  • A História da Eternidade, de Camila Cavalcante
  • Alguém Qualquer, de Tristan Aronovich
  • Campo de Jogo, de Eryc Rocha
  • Casa Grande, de Felipe Barbosa
  • Entrando numa Roubada, de André Miraes
  • A Estrada 47, de Vicente Ferraz
  • Estranhos, de Paulo Alcântara

Quando vi o cartaz de A Estrada 47 e descobri que se trata de um filme sobre a Segunda Guerra Mundial com soldados brasileiros, na hora pensei: “Taí o representante brasileiro no Oscar do ano que vem!”, afinal a Academia adora duas coisas nessa categoria: Guerra e Judeus. Portanto, pra mim foi uma surpresa a seleção deste drama com humor. Até o momento em que pude conferir no cinema.

Em Que Horas Ela Volta?, acompanhamos a vida da emprega doméstica Val, que cuida do filho dos patrões como se fosse seu, mas precisa lidar com a filha que não vê há mais de 10 anos, quando ela sai de Pernambuco pra morar com ela em São Paulo.

À esquerda, Camila Márdila contracena com Regina Casé. Elas interpretam filha e mãe, respectivamente. (photo by outnow.ch)

À esquerda, Camila Márdila contracena com Regina Casé. Elas interpretam filha e mãe, respectivamente. (photo by outnow.ch)

Talvez alguns cinéfilos me crucifiquem aqui, mas a trama me lembrou um pouco a do néo-clássico Teorema (1968), de Pier Paolo Pasolini, no qual vemos um estranho (Terence Stamp) entrar na casa e na vida de todos os membros de uma família da burguesia italiana, bagunçando toda a estrutura familiar pra sempre. Claro que, em menor escala, o filme de Muylaert tem sua crítica social, abordando os limites da classe mais baixa e o papel do nordestino na maior cidade do país, quase como os de imigrantes de países subdesenvolvidos em países de primeiro mundo.

No filme nacional, um dos grandes diferenciais atende pelo nome de Regina Casé. Sim, aquela apresentadora da Rede Globo do programa dominical “Esquenta!”. Ela surpreende com tamanho carisma e bom humor, que fica impossível de não se identificar e torcer por sua personagem diante das adversidades. A partir da segunda metade do filme, ela divide as atenções com Camila Márdila, que interpreta sua filha, e sua atuação fica ainda mais consistente por justamente elevar a questão de sua ausência na criação da filha.

Pelas atuações, as duas receberam um prêmio especial no último Festival de Berlim, de onde também saiu com o prêmio do público. A diretora comemorou bastante a seleção de seu trabalho, uma vez que deve aumentar a renda nas bilheterias, que até o momento foi de apenas 66 mil espectadores no Brasil. “Existe um público que está sabendo, mais elitizado. Mas acredito que a natureza dele é popular. Não temos verba para publicidade em ônibus, outdoor. [A escolha] pode fazer com que o filme chegue mais longe. Isso, para mim, é a grande notícia de hoje.”, declarou Muylaert em entrevista à Folha de S. Paulo.

Na coletiva de imprensa do filme Que Horas Ela Volta? no Festival de Berlim, da esquerda para a direita: o produtor Fabiano Gullane, a atriz Camila Márdila e a diretora Anna Muylaert (photo by berlinale.de)

Na coletiva de imprensa do filme Que Horas Ela Volta? no Festival de Berlim, da esquerda para a direita: o produtor Fabiano Gullane, a atriz Camila Márdila e a diretora Anna Muylaert (photo by berlinale.de)

Quanto às chances reais do filme no Oscar, ela comentou: “Ele está quente na imprensa internacional. Na americana, incluisve. As críticas são incrivelmente positivas.”. Além de Berlim, Que Horas Ela Volta? conquistou o prêmio especial do júri no Festival de Sundance, e as críticas vêm do site Rotten Tomatoes, com o número altíssimo de 96% de aprovação, e do site Indiewire. Quando vi o filme no cinema, tive a boa sensação que costumo ter quando assisto a um bom filme argentino e isso é ótimo, pois o cinema dos hermanos privilegia um bom roteiro, boas atuações e reflete a situação político-social do país. E a Argentina já levou duas estatuetas do Oscar.

Claro que se tivesse um filme de guerra com judeus seria o ideal (não, eu não concordo com esse sistema, mas é assim que funciona pra ganhar), mas considero uma decisão coerente da comissão do MinC ao selecionar um filme que proporcione uma identificação com o povo ali representado.  Poderiam ter ido na cola das maiores bilheterias e selecionado outra produção mais popular, mas optaram por algo que passasse alguma mensagem sobre a atual situação do país. Pode não resultar em prêmio, nem mesmo em indicação, mas mostra um amadurecimento da cinema como Arte.

Por enquanto, a concorrência pelo Oscar está apenas esquentando. Nosso vizinho Chile escolheu O Clube, de Pablo Larraín, que foi indicado por No. Taiwan escolheu The Assassin, de Hou Hsiao-Hsien, que levou o prêmio de direção em Cannes. A Suécia vai com o vencedor do Leão de Ouro de 2014, o drama Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre a Existência, de Roy Andersson. E até o momento, o concorrente mais forte vem da Hungria, com Son of Saul (Saul Fia), de László Nemes. Além de ter conquistado o Grande Prêmio do Júri em Cannes, tem como cenário um campo de concentração, e aí já viu, né? Os velhinhos votantes da Academia vão chorar horrores lembrando de seus antepassados e dar seus votos. Claro que o filme pode ser maravilhoso, mas é um artifício que todo cineasta do planeta já conhece pra ganhar esse Oscar.

Cena do representante húngaro Son of Saul (Saul fia), de László Nemes (photo by cine.gr)

Cena do representante húngaro Son of Saul (Saul fia), de László Nemes (photo by cine.gr)

Nos últimos anos, o Brasil selecionou filmes razoáveis e bons como Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, O Som ao Redor, O Palhaço e Tropa de Elite 2: Agora o Inimigo é Outro. Na minha humilde opinião, Tropa de Elite 2, de José Padilha, merecia facilmente estar entre os finalistas, mas sequer passou pra segunda fase do processo de seleção. Sabem qual foi o último a conseguir essa proeza? O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger, de 2006. Apesar de ser um filme bom, ele tinha uma carta na manga: um dos personagens centrais era judeu.

Enfim, além dessa cartilha para ganhar o Oscar de Filme em Língua Estrangeira que posto todo ano aqui, o filme de Anna Muylaert está seguindo uma estratégia que já funcionou: lançar o filme primeiro em festivais internacionais, conseguir voltar ao país com alguma consagração e obter apoio nacional mais facilmente. Foi assim com Central do Brasil, de Walter Salles, que, aliás, foi a última produção brasileira indicada ao Oscar nessa categoria no longínquo ano de 1999.

Haverá uma pré-seleção, que reduz todos os representantes numa lista de nove filmes, e em seguida, a lista dos cinco indicados será divulgada no dia 14 de janeiro.