Oscar corta indicação de “Alone Yet Not Alone” como Melhor Canção Original

Pôster do filme Alone Yet Not Alone (photo by cinemagia.ro)

Pôster do filme Alone Yet Not Alone (photo by cinemagia.ro)

LOBBY DE MEMBRO INTERNO CAUSOU ELIMINAÇÃO

Numa decisão pra lá de incomum, a Academia decidiu eliminar um indicado. A canção “Alone Yet Not Alone” pertencente ao filme homônimo não está mais concorrendo ao prêmio porque houve acusações de que seu compositor, o ex-presidente do departamento de música Bruce Broughton, teria se aproveitado de sua posição como atual líder do comitê executivo para promover seu trabalho para obter votos.

O procedimento para eleger os indicados de Melhor Canção Original envolve a distribuição de um CD com todos os trabalhos elegíveis para os membros votantes do departamento de música. Segundo o acusado Broughton, ele apenas teria escrito para algumas pessoas e dito “Você poderia dar uma olhada nessa canção?”, o que seria menos direto do que o costumeiro lobby promovido pelos estúdios, que pode incluir desde a cópia do filme até brindes personalizados.

Visto sob esse ângulo, a campanha pessoal de Bruce Broughton não parece uma tática ilegal, porém, o problema maior é que ele faz parte da própria organização. É como naqueles concursos promocionais em que a cláusula “está vedada a participação de funcionários da empresa ou pessoas ligadas” é constante.

O compositor Bruce Broughton (photo by hollywoodinvienna.com)

O compositor Bruce Broughton (photo by hollywoodinvienna.com)

“Não importa o quão bem-intencionado ele tenha sido, usufruir de sua posição como ex-presidente e atual executivo do comitê para promover sua candidatura ao Oscar cria a impressão de uma injusta vantagem”, declarou a presidente da Academia, Cheryl Boone Isaac.

Apesar de concordar com a desqualificação da música, sou a favor de revisarem a questão do lobby, que muitas vezes é tão intenso e selvagem que acaba elegendo os filmes por sua campanha, e não por sua qualidade fílmica como deveria ser. Independente do filme promovido, a Weinstein Company de Harvey Weinstein (ex-dono da Miramax) tem conquistado alguns Oscars ao investir pesado nas campanhas, sendo a mais lembrada a vitória de Shakespeare Apaixonado e A Vida é Bela sobre O Resgate do Soldado Ryan e Além da Linha Vermelha em 1999.

É uma pena que um trabalho seja eliminado desta maneira. A atitude do compositor prejudicou a equipe que suou a camisa pra criar esta canção. Aliás, pra ficar mais feio ainda para Broughton, “Alone Yet Not Alone” é cantada por Joni Eareckson Tada, uma senhora cristã quadriplégica. No videoclipe abaixo, é possível conferir a canção e como ela consegue imprimir emoção na letra mesmo com o corpo e os pulmões debilitados. Não acredito que ganharia o Oscar, mas seria um belo candidato. Uma pena.

O fato da vaga aberta não ser preenchida por outra canção prejudica outras canções que poderiam conquistar a indicação como a comentada “Young and Beautiful”, de Lana Del Rey pelo filme O Grande Gatsby, por exemplo. Melhor para as quatro canções remanescentes:

“Let it Go”, de Frozen: Uma Aventura Congelante

“Happy”, de Meu Malvado Favorito 2

“The Moon Song”, de Ela

“Ordinary Love”, de Mandela: Long Walk to Freedom

CASOS RAROS NA ACADEMIA

Embora seja de uma raridade singular, esta eliminação não é inédita na história do Oscar.

Em 2012, a Academia descobriu que o curta-metragem Tuba Atlantic já havia sido transmitido pela TV norueguesa em 2010, tornando-o inelegível ao prêmio.

Em 1992, após o anúncio dos indicados, descobriram que o representante uruguaio A Place in the World foi todo produzido na Argentina e não continha controle artístico uruguaio o suficiente. O filme foi eliminado na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Cena de O Poderoso Chefão com Marlon Brando: trilha desqualificada (photo by hidefdiscnews.com)

Cena de O Poderoso Chefão com Marlon Brando: trilha desqualificada (photo by hidefdiscnews.com)

Em 1972, a trilha musical de Nino Rota para o clássico O Poderoso Chefão foi desqualificada, pois havia parte do tema previamente utilizado na comédia Fortunella. Curiosamente, o compositor italiano ganhou o Oscar dois anos depois com a trilha de O Poderoso Chefão 2, que tinha grandes semelhanças com a trilha do primeiro filme da trilogia.

Em 1969, o documentário Young Americans foi anunciado o vencedor da categoria, mas um mês depois foi revelado que a produção já havia sido exibida em 1967, prazo anterior ao elegível. Nesse caso, o segundo mais votado, Journey into Self, acabou levando o Oscar no lugar.

Em 1932, o curta de comédia Stout Hearts and Willing Hands foi removida da competição antes do fim da apuração. Assim, outro curta da RKO Radio preencheu a vaga, contudo não houve explicação oficial para essa troca.

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Indicados à Palma de Ouro de Cannes 2013

Pôster do Festival de Cannes 2013, estrelado pelo casal hollywoodiano Paul Newman e Joanne Woodward

Pôster do Festival de Cannes 2013, estrelado pelo casal hollywoodiano Paul Newman e Joanne Woodward

Foi dada a largada do maior festival de cinema do mundo com o anúncio dos filmes indicados ao mais cobiçado prêmio: a Palma de Ouro. É importante destacar que o elo entre Cannes e o Oscar, outrora frio e distante, está numa crescente. Em 2011, o vencedor do prêmio de interpretação masculina, O Artista, acabou levando 5 Oscars incluindo Melhor Filme. Já neste ano,  além da produção franco-austríaca Amor, vencedora da Palma de Ouro, ter vencido o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, outros filmes que participaram das seleções de Cannes como Moonrise Kingdom e Indomável Sonhadora conquistaram indicações ao prêmio da Academia.

Essa ponte entre o Festival de Cannes, que ocorre em maio, e o Oscar, em fevereiro, tem sido benéfica para ambos. Enquanto os realizadores selecionados na França podem ambicionar vôos mais altos e comerciais com um possível reconhecimento nos EUA, o fato da lista de indicados ao Oscar terem esse “pedigree” de sucesso oriundo de Cannes eleva o patamar de qualidade da Academia, que já sofreu muitas críticas por valorizarem demais produções que se deram bem nas bilheterias sem levar muito em consideração a veia artística do filme.

O presidente do júri: Steven Spielberg (photo by goodfellasmovie.blogspot.com)

O presidente do júri: Steven Spielberg (photo by goodfellasmovie.blogspot.com)

Este ano, o presidente do júri de Cannes, Steven Spielberg, contará com uma seleção bem eclética que vai de nomes consagrados como os irmãos Coen e Roman Polanski (que já venceram a Palma de Ouro com Barton Fink – Delírios de Hollywood e O Pianista, respectivamente) até realizadores desconhecidos do cenário internacional como o espanhol Amat Escalante e italiana Valeria Bruni Tedeschi, atriz que já trabalhou com outro indicado este ano, o francês François Ozon, e o próprio Spielberg em Munique (2005).

Normalmente, os presidentes do júri evitam conceder a Palma às produções de seu país a fim de não criar polêmicas na divulgação dos premiados no encerramento, como o compatriota Quentin Tarantino já fez duas vezes. Em 2004, ele premiou o documentarista americano Michael Moore por Fahrenheit 11 de Setembro, e ficou marcado por ter dado explicações de sua escolha pela primeira vez na história do festival. Já em 2010, como presidente do Festival de Veneza, concedeu o Leão de Ouro à americana e ex-namorada Sofia Coppola por Um Lugar Qualquer. Ok, pode acontecer, afinal o sistema não é como futebol, no qual os árbitros não são do mesmo país ou estado dos times em campo, mas os reclamantes defendem que havia escolhas mais interessantes em competição.

Segue a lista dos indicados à Palma de Ouro, lembrando que no decorrer do evento, cerca de três filmes são inclusos na competição oficial:

Palma de Ouro

Palma de Ouro

PALMA DE OURO

O Grande Gatsby (The Great Gatsby), de Baz Luhrmann (FILME DE ABERTURA)

Un Château en Italie, de Valeria Bruni-Tedeschi
Inside Llewyn Davis, de Ethan Coen e Joel Coen
Michael Kohlhaas, de Arnaud del Pallières
Jimmy P. (Psychotherapy of Plains Indian), de Arnaud Desplechin
Heli, de Amat Escalante
Le Passé (The Past), de Asghar Farhadi
The Immigrant, de James Gray
Grigris, de Mahamat-Saleh Haroun
Tian Zhu Ding (A Touch of Sin), de Jia Zhanke
Soshite Chichi ni Naru (Like Father, Like Son), de Kore-eda Hirokazu
La Vie d’Adèle (Blue is the Warmest Color), de Abdellatif Kechiche
Wara no Tate (Shield of Straw), de Takashi Miike
Jeune et Jolie (Young and Beautiful), de François Ozon
Nebraska, de Alexander Payne
La Vénus à la Fourrure, de Roman Polanski
Behind the Candelabra, de Steven Soderbergh
La Grande Bellezza (The Great Beauty), de Paolo Sorrentino
Borgman, de Alex van Warmerdam
Only God Forgives, de Nicolas Winding Refn

Zulu, de Jérôme Salle (FILME DE ENCERRAMENTO)

Independente dos vencedores, já vale conferir novos trabalhos de diretores de visão singular como os japoneses Takashi Miike e Kore-eda Hirokazu, o chinês Jia Zhang Ke (que sabe retratar como ninguém as transformações da China na globalização), o dinamarquês Nicolas Winding Refn, que ganhou o prêmio de direção com Drive, e o italiano Paolo Sorrentino, que está em ascensão.

Particularmente, fiquei feliz com a indicação de Alexander Payne por Nebraska. O diretor é um dos poucos americanos que sabem conciliar sua veia comercial ao lado de estrelas como George Clooney e Jack Nicholson com uma perspectiva bastante humana. Para este novo projeto Nebraska, havia rumores de que o ator Robert Duvall assumiria o papel de protagonista aos 82 anos, mas outro veterano conquistou o papel principal: Bruce Dern, 76, pai da atriz Laura Dern. Ele foi considerado uma das grandes promessas no campo da atuação na década de 70, chegando a ser indicado ao Oscar de coadjuvante por Amargo Regresso, mas não vingou em Hollywood.

Claro que não tem como não mencionar o novo filme de Steven Soderbergh, afinal, o diretor tem sérios planos de parar de fazer filmes para lançamento em salas de cinema, muito em razão da covardia dos grandes estúdios de Hollywood. Numa entrevista, Soderbergh revelou que o filme foi planejado para lançamento em cinema, mas acabou indo para o ar pelo canal HBO porque os estúdios alegaram que a história era “muito gay”. “Ninguém queria fazer. Fomos atrás de todo mundo na cidade. Todos disseram que era muito gay. E isso veio depois de O Segredo de Brokeback Mountain(!), que nem é engraçado como esse filme. Fiquei chocado. Não fez nenhum sentido para nós.” Behind the Candelabra conta o caso de amor verídico entre o músico Liberace (Michael Douglas) e o bem mais jovem Scott (Matt Damon).

Michael Douglas e Matt Damon já caracterizados em Behind the Candelabra, de Steven Soderbergh: "Gay demais"? (photo by www.cine.gr)

Michael Douglas e Matt Damon já caracterizados em Behind the Candelabra, de Steven Soderbergh: “Gay demais”? (photo by http://www.cine.gr)

Além dessa polêmica, com a indicação de Behind the Candelabra, o Festival de Cannes garante a presença de estrelas hollywoodianas no tapete vermelho. Além dos já citados Michael Douglas e Matt Damon, a veterana Debbie Reynolds (do musical Cantando na Chuva), Dan Aykroyd e Rob Lowe podem comparecer ao evento. Já Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire e Carey Mulligan devem marcar presença pela nova adaptação de O Grande Gatsby, de Baz Luhrmann, ainda mais que o filme abrirá o festival. Mulligan ainda compete pelo novo filme dos irmãos Coen, Inside Llewyn Davis, que conta também com Justin Timberlake e John Goodman. E ainda estão convidados Ryan Gosling e Kristin Scott Thomas pelo novo filme de Nicolas Winding Refn, Only God Forgives, que aborda uma vingança no submundo do crime em Bangkok.

Carey Mulligan e Justin Timberlake em Inside Llewyn Davis

Carey Mulligan e Justin Timberlake em Inside Llewyn Davis (photo by http://www.elfilm.com)

Apesar de contar também com a presença das estrelas Joaquin Phoenix, Jeremy Renner e Marion Cotillard, vale a pena ficar atento ao novo filme James Gray, The Immigrant (Lowlife). Embora seja relativamente jovem, o diretor tem chamado atenção por seu trabalho com o elenco, tendo valorizado o potencial de Joaquin Phoenix através dos filmes Os Donos da Noite (2007) e Amantes (2008). Talvez um dos prêmios de atuação saia deste filme.

Joaquin Phoenix e Marion Cotillard em The Immigrant, de James Gray (photo by www.elfilm.com

Joaquin Phoenix e Marion Cotillard em The Immigrant, de James Gray (photo by http://www.elfilm.com

E pra fechar, a indicação de Le Passé (The Past) possibilita o público de conferir o primeiro filme do iraniano Asghar Farhadi depois do sucesso de A Separação (vencedor do Urso de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro) numa produção em língua francesa, dirigindo a atriz Bérènice Bejo (de O Artista).

Bérènice Bejo em Le Passé (The Past), do iraniano Asghar Farhadi (photo by www.cineimage.ch)

Bérènice Bejo em Le Passé (The Past), do iraniano Asghar Farhadi (photo by http://www.cineimage.ch)

O Festival de Cannes também oferece outras seleções, sendo a mais instigante a Mostra Un Certain Regard, que visa buscar um olhar inovador que reflita os problemas dos tempos atuais. Em 2012, o mexicano Depois de Lúcia se sagrou vencedor dessa competição ao questionar a eficiência do sistema educacional (confira post sobre o filme em https://cinemaoscareafins.wordpress.com/2013/03/24/depois-de-lucia-despues-de-lucia-de-michel-franco-2012/).

Seleção Un Certain Regard

Seleção Un Certain Regard

UN CERTAIN REGARD (Um Certo Olhar):

The Bling Ring, de Sofia Coppola
Omar, de Hany Abu-Assad
Death March, de Adolfo Alix Jr.
Fruitvale, de Ryan Coogler
Les Salauds, de Claire Denis
Norte, Hangganan Ng Kasaysayan (Norte, the End of History), de Lav Diaz
As I Lay Dying, de James Franco
Miele, de Valeria Golino
L’Inconnu du Lac, de Alain Guiraudie
Bends, de Flora Lau
L’Image Manquante, de Rithy Panh
La Jaula de Oro, de Diego Quemada-Diez
Sarah Préfère la Course (Sarah Would Rather Run), de Chloé Robichaud
Grand Central, de Rebecca Zlotowski

FORA DE COMPETIÇÃO

All is Lost, de J.C. Chandor
Blood Ties, de Guillaume Canet

Resumidamente, vale destacar a forte presença de Sofia Coppola com o filme pop The Bling Ring, sobre uma gangue real de jovens de classe média alta roubando casas de celebridades em Beverly Hills. Coppola apostou suas fichas na jovem Emma Watson, da extinta cinessérie Harry Potter, que comprova que cresceu uma bela atriz.

Emma Watson (à dir.) em cena de The Bling Ring (photo by OutNow.CH)

Emma Watson (à dir.) em cena de The Bling Ring (photo by OutNow.CH)

Os atores James Franco e Valeria Golino foram selecionados por trabalhos na direção, denotando uma forte tendência de novos diretores oriundos da escola de atuação tendo como forte referência Ben Affleck (vencedor do Oscar de Melhor Filme por Argo).

E Fruitvale, de Ryan Coogler, que já ganhou o Grande Prêmio do Jury – Dramático no Festival de Sundance, volta a concorrer por outro importante reconhecimento em Cannes, podendo seguir os mesmos passos de Indomável Sonhadora, de Benh Zeitlin.

O Festival de Cannes 2013 tem início no dia 15 de maio e vai até o dia 26, quando serão divulgados os vencedores desta edição.