Peter O’Toole (1932 – 2013)

Peter O'Toole

Peter O’Toole (photo by uproarcomics.co.uk)

PROTAGONISTA DE LAWRENCE DA ARÁBIA MORRE AOS 81 ANOS

A primeira vez que ouvi falar no nome Peter O’Toole foi no final dos anos 90, quando eu pesquisava a história do Oscar. Na época, não tinha computador, muito menos internet em casa, então eu aproveitava meus longos intervalos escolares pra pesquisar no laboratório de informática do colégio. Foi aí que descobri o clássico de David Lean, Lawrence da Arábia, e seu protagonista, um ator loiro de aparência enigmática e olhos azuis hipnotizantes. Quem era aquele ator e por que ele perdeu sete vezes o Oscar?

Conhecendo o sistema da Academia ao longo dos anos, decidi que Peter O’Toole foi apenas azarado. Em sua primeira indicação, justamente por Lawrence da Arábia, em 1963, era ainda um rosto novo em Hollywood, que não tinha como competir com a grandeza de Gregory Peck. “Teremos muitas chances de premiá-lo”, devem ter pensado os membros da Academia. E realmente tiveram, mas sempre havia uma desculpa como a divisão de votos entre Burton e ele por Becket, o Favorito do Rei, ou simplesmente alguém favorito no caminho de O’Toole. Ao todo, foi indicado oito vezes, sempre como Melhor Ator, mas sem nenhuma vitória. Acompanhe os concorrentes dele em cada edição do prêmio:

OSCAR 1963
– Burt Lancaster (O Homem de Alcatraz)
– Jack Lemmon (Vício Maldito)
– Marcello Mastroianni (Divórcio à Italiana)
• Gregory Peck (O Sol é Para Todos)
– Peter O’Toole (Lawrence da Arábia)


Sophia Loren anuncia os indicados e o vencedor, Gregory Peck

OSCAR 1965
– Richard Burton (Becket, o Favorito do Rei)
• Rex Harrison (Minha Bela Dama)
– Peter O’Toole (Becket, o Favorito do Rei)
– Anthony Quinn (Zorba, o Grego)
– Peter Sellers (Doutor Fantástico)

OSCAR 1969
– Alan Arkin (Por que Tem de ser Assim?)
– Alan Bates (O Homem de Kiev)
– Ron Moody (Oliver!)
– Peter O’Toole (O Leão no Inverno)
• Cliff Robertson (Os Dois Mundos de Charly)

OSCAR 1970
– Richard Burton (Ana dos Mil Dias)
– Dustin Hoffman (Perdidos na Noite)
– Peter O’Toole (Adeus, Mr. Chips)
– Jon Voight (Perdidos na Noite)
• John Wayne (Bravura Indômita)

OSCAR 1973
– Marlon Brando (O Poderoso Chefão)
– Michael Caine (Jogo Mortal)
– Laurence Olivier (Jogo Mortal)
– Peter O’Toole (A Classe Governante)
– Paul Winfield (Lágrimas da Esperança)

OSCAR 1981
• Robert De Niro (Touro Indomável)
– Robert Duvall (O Grande Santini – O Dom da Fúria)
– John Hurt (O Homem Elefante)
– Jack Lemmon (Tributo)
– Peter O’Toole (O Substituto)

OSCAR 1983
– Dustin Hoffman (Tootsie)
• Ben Kingsley (Gandhi)
– Jack Lemmon (Desaparecido – Um Grande Mistério)
– Paul Newman (O Veredicto)
– Peter O’Toole (Um Cara Muito Baratinado)

OSCAR 2007
– Leonardo DiCaprio (Diamante de Sangue)
– Ryan Gosling (Half Nelson – Encurralados)
– Peter O’Toole (Venus)
– Will Smith (À Procura da Felicidade)
• Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)

No Globo de Ouro, ele teve mais sorte. Ganhou por Becket, o Favorito do Rei, O Leão no Inverno e Adeus, Mr. Chips, além de um extinto Most Promising Newcomer por Lawrence da Arábia, pelo qual também levou o BAFTA de Melhor Ator Britânico. Apesar de indicado duas vezes ao Framboesa de Ouro já no início da sua fase em decadência, em 1985 por Supergirl e em 1987 por Clube Paraíso, felizmente nunca foi coroado.

Formado pela escola britânica Royal Academy of Dramatic Arts, onde estudou com Albert Finney, Alan Bates e Richard Harris, Peter O’Toole ainda atuaria vários anos no palco pela prestigiosa companhia de teatro Bristol Old Vic e em programas televisivos nos anos 50 até ser escalado pelo diretor David Lean para estrelar sua mega-produção no deserto que o transformaria numa celebridade internacional. Apesar de historicamente incorreto, Lawrence da Arábia foi um grande sucesso por abranger política e sexualidade.

Lawrence da Arábia, de David Lean (photo by www.britannica.com)

Peter O’Toole como T.E. Lawrence ao lado de Omar Shariff em Lawrence da Arábia, de David Lean (photo by http://www.britannica.com)

O ano era 1962 e os realizadores tinham de ter extrema cautela para abordar o sexo a fim de evitar a censura. Baseado na vida real do herói nada convencional T.E. Lawrence, o filme poderia se tornar mais um épico nos moldes hollywoodianos, mas nas mãos de David Lean, tornou-se um dos mais belos filmes do cinema mantendo algumas brechas para interpretação e ambigüidades. Bastava procurar que era possível conferir os trejeitos afeminados do protagonista, tanto que numa comversa, o dramaturgo Noël Coward disse a Peter O’Toole: “If you’d been any prettier, it would have been Florence of Arabia (Se você tivesse sido mais bonito, teria sido Florence da Arábia)”. Indo mais à fundo na questão sexual, a seqüência em que Lawrence é torturado pelos turcos revelaria suas tendências sadomasoquistas (!). Com cortes na versão original de 1962, a seqüência foi restaurada na versão de 1989.

Certamente, foi a melhor performance do ator, que soube explorar esse lado mais dúbio de seu personagem militar. Com ampla experiência nos palcos, foi inúmeras vezes escalado para viver nobres como o Rei Henrique II nos filmes Becket, o Favorito do Rei (1964) e O Leão no Inverno (1968), e tinha queda por papéis de pessoas sonhadoras como Don Quixote em O Homem de La Mancha (1972), um fugitivo que quer ser dublê em O Substituto (1980) e um ator à la Errol Flynn que tem espírito de grandeza em Um Cara Muito Baratinado (1982).

Peter O'Toole como o personagem de Miguel de Cervantes ao lado de James Coco como Sancho Panza em O Homem de La Mancha (photo by http://v-effekt.blogspot.com.br/2013/02/a-historia-de-estoria-o-homem-de-la.html)

Peter O’Toole como o personagem de Miguel de Cervantes ao lado de James Coco como Sancho Panza em O Homem de La Mancha (photo by http://v-effekt.blogspot.com.br/2013/02/a-historia-de-estoria-o-homem-de-la.html)

Em 2003, o então presidente da Academia, Frank Pierson, selecionou-o como homenageado pelo Oscar Honorário. Segundo seu discurso, Pierson fez questão de premiá-lo por ser a única pessoa que o demitiu como roteirista. Embora lisonjeado, o ator recusou a oferta por acreditar que ainda conseguiria a tão cobiçada estaueta numa competição oficial. Contudo, numa justificativa apoiativa, o presidente citou Paul Newman como exemplo, que havia recebido o Honorário em 1986 e logo no ano seguinte, o Oscar de Melhor Ator por A Cor do Dinheiro. Funcionou. Depois de 3 meses, ele aceitou a homenagem, apresentada por Meryl Streep e aplaudido de pé por mais de um minuto.


“Always a bridesmaid never a bride (Sempre madrinha de casamento, nunca a noiva)” – humor britânico de Peter O’Toole encanta pela cutucada gentil

As palavras de Frank Pierson surtiram efeito. Seu Oscar Honorário o colocou de volta à frente dos holofotes. Atuou no blockbuster Tróia (2004), Stardust: O Mistério da Estrela (2007), na animação vencedora do Oscar da Pixar Ratatouille (numa excepcional dublagem do crítico gastronômico Anton Ego), na série de TV Os Tudors, e claro, na comédia dramática Venus, pela qual recebeu sua oitava e última indicação ao Oscar.

Peter O'Toole como Maurice, um idoso de aparência frágil que ainda curte farrear ao lado de moças jovens em Venus (2006) - photo by www.outnow.ch

Peter O’Toole como Maurice, um idoso de aparência frágil que ainda curte farrear ao lado de moças jovens em Venus (2006) – photo by http://www.outnow.ch

Durante as filmagens de Venus, o ator quebrou seu quadril e teve que passar por uma cirurgia delicada. Impressionado com seu retorno após três semanas, o diretor Roger Michell destacou sua dedicação exemplar ao filme perante sofrimento de dores diárias no set. Muitos apostavam que a Academia finalmente faria justiça quando ele foi indicado, mas sua derrota teve como uma das razões seu recente Oscar Honorário, o que nos coloca diante da questão: “Se O’Toole não recebesse o Oscar Honorário, teria obtido o papel e a consagração de Venus?”


É possível ver um longo suspiro de Peter O’Toole no momento do anúncio do vencedor. Mesmo após décadas ausente, ele nunca perdeu as esperanças.

Peter O’Toole nos deixou no último dia 14 de dezembro em Londres aos 81 anos. A causa de sua morte não foi divulgada até o momento, porém o ator já havia sofrido com um câncer de estômago nos anos 70. Embora não tenha conseguido seu Oscar competitivo, o fato de ser o recordista de derrotas fez com que milhares de pessoas o conhecessem e apreciassem seu trabalho memorável. Dencanse em paz, Peter O’Toole.

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