COM 11 INDICAÇÕES, ‘CORINGA’ LIDERA o OSCAR 2020

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Todos os NOVE indicados a MELHOR FILME no Oscar 2020, de cima pra baixo, da esquerda pra direita: Coringa, Era Uma Vez em… Hollywood, O Irlandês, 1917, Parasita, Jojo Rabbit, Adoráveis Mulheres, História de um Casamento e Ford vs Ferrari

PELA PRIMEIRA VEZ, A NETFLIX É A CAMPEÃ DE INDICAÇÕES COM 24

Às 10h18 da manhã em ponto, horário de Brasília, o anúncio das indicações ao Oscar foram transmitidas ao vivo por meio dos canais oficiais da Academia no YouTube e Facebook, direto do Museu da Academia em Los Angeles. As instalações estão quase prontas para inaugurarem ainda este ano.

De lá, os atores John Cho e Issa Rae leram todos os indicados das 24 categorias em meio a umas piadinhas bobas, que muito lembram o anúncio do ano passado com Kumail Nanjiani e Tracee Ellis Ross. As piadas e comentários rasos a gente suporta, mas o que não entendemos é a falta de ilustratividade do evento. Custa colocar fotos dos indicados de cada categoria? Estão economizando no que ao fazer esse powerpoint simples e sem graça? Como se estivessem prevendo as indicações, colocaram o ator sul-coreano John Cho para acertar na pronúncia dos nomes coreanos. Já Issa Rae foi discreta mas direto no alvo ao dizer “Parabéns àqueles homens”, com uma expressão de “já sabia que não indicar mulheres”.

Para quem não conseguiu acompanhar ao vivo, segue link:

NÚMEROS DESTE OSCAR

Assim como no BAFTA, Coringa lidera com 11 indicações, o que ultrapassa, e muito, a estimativa já otimista da Warner de 8 indicações. Havia dúvidas se o filme conseguiria reconhecimento nas categorias de Som, Efeitos Sonoros, Figurino e para seu diretor Todd Phillips, que corria risco de ceder sua vaga para Greta Gerwig. Com uma bilheteria que ultrapassa 1 bilhão de dólares pelo mundo, esta adaptação dos quadrinhos realmente ganhou torcida e certamente deve atrair maior audiência para a cerimônia do Oscar, no dia 09 de Fevereiro, novamente sem um host. Vale ressaltar que Coringa é apenas a segunda adaptação de quadrinhos a ser indicada a Melhor Filme após Pantera Negra (2018), mas bateu o recorde com 11 indicações. Apesar dessas conquistas, permanecemos céticos em relação a uma vitória de Melhor Filme, uma vez que é um filme violento demais para os padrões da Academia e que dividiu a crítica. Joaquin Phoenix e a trilha são apostas mais seguras de vitórias no momento.

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Joaquin Phoenix recebe sua 4ª indicação ao Oscar por Coringa (pic by IMDb)

Em segundo lugar, empatados com 10 indicações, estão 3 três filmes: 1917, O Irlandês e Era Uma Vez em… Hollywood. Enquanto o primeiro surpreendeu ao ganhar o Globo de Ouro de Melhor Filme e Diretor para Sam Mendes, o segundo vem perdendo espaço, ganhando apenas o prêmio de Melhor Elenco no Critics’ Choice Awards. Apesar dessa queda notável, o filme de Martin Scorsese conquistou indicações em categorias-chave para vencer o Oscar de Melhor Filme: Roteiro Adaptado e Montagem. Pena que Al Pacino e Joe Pesci vão se anular e dar o Oscar para Brad Pitt, o que nos leva ao terceiro filme, que assim como 1917, pode ser uma alternativa viável para os membros da Academia que não querem prestigiar a Netflix.

Já em terceiro lugar, empatados com seis indicações cada, estão 4 filmes: Jojo Rabbit, História de um Casamento, Adoráveis Mulheres e Parasita, todos indicados a Melhor Filme. Desses quatro impressiona o crescimento de Adoráveis Mulheres, que ficou ausente dos prêmios iniciais da crítica, mas agora conquista indicações para suas duas atrizes Saoirse Ronan e Florence Pugh, Roteiro Adaptado para Gerwig, além das já previsíveis de Trilha Original e Figurino.

Num consenso geral, em nossa humilde opinião, numa safra tão rica e diversa de produções, pareceu-nos uma limitação concentrar tantas indicações em poucos filmes. Tivemos tantos filmes bons que ficaram de fora que é no mínimo injusto esse acúmulo. Só pra citar alguns: Jóias Brutas (podiam indicar para Filme, Direção, Ator, Roteiro Original, Montagem e Trilha), Nós (Atriz, Roteiro Original e Trilha), Fora de Série (Roteiro Original), As Golpistas (Atriz Coadjuvante), Luce (Ator, Atriz Coadjuvante e Roteiro Adaptado), O Relatório (Atriz Coadjuvante) e The Farewell (Roteiro Original).

E na contagem de indicações por estúdios, em ordem decrescente: Netflix (24), Sony (20), Disney (17), Warner (12), Universal (11), Neon (8), Fox Searchlight (6), Lionsgate (4) e Focus Features (2).

SEM MULHERES DISPUTANDO DIREÇÃO, MAS CYNTHIA ERIVO GARANTIU A DIVERSIDADE

Como já era esperado, apesar da onda de protestos, a categoria de Direção não indicou nenhuma mulher. Embora alguns nomes estivessem no caldeirão como Lulu Wang, Alma Har’el, Olivia Wilde e Melina Matsoukas, Greta Gerwig era o nome com maior potencial entre elas, mas seu filme Adoráveis Mulheres não foi uma unanimidade na temporada, e ela acabou ficando apenas com a indicação de Roteiro Adaptado.

Pelo menos, não haverá protestos em relação à diversidade étnica que teve o BAFTA, que indicou apenas atores brancos. A Academia excluiu a latina Jennifer Lopez, mas indicou Cynthia Erivo por sua corajosa performance em Harriet, no qual ela interpreta a escrava Harriet Tubman, que conseguiu fugir de seus patronos e voltou para resgatar vários outros escravos.

Cynthia Erivo

Cynthia Erivo indicada para Melhor Atriz por Harriet (pic by IMDb)

Ficamos felizes pelo reconhecimento dela, que também foi indicada pela Canção Original “Stand Up”, que vai cantar na cerimônia. Mas sentimento muito pela ausência de Lupita Nyong’o por aquela brilhante e inovadora atuação em Nós. Claro que muitos já previam que a atriz ficaria de fora da disputa por se tratar de um filme de terror/sci-fi, mas consideramos isso inadmissível. Lupita segue a mesma crucificação que sofreu Toni Collette por Hereditário no ano passado. Se a Academia tivesse indicado Nyong’o, mataria dois coelhos com uma cajadada: diversidade étnica e diversidade de gênero de cinema. Uma pena.

CORÉIA DO SUL DEBUTANDO COM FORÇA NO OSCAR

Nunca na história de 91 anos da Academia, um filme sul-coreano foi indicado em qualquer categoria. Com Parasita, tudo mudou num piscar de olhos. Indicado a 6 Oscars, o filme de Bong Joon Ho tem tudo para levar a primeira estatueta para o país, principalmente na categoria de Filme Internacional.

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A família Kim de Parasita, primeiro filme sul-coreano a ganhar a Palma de Ouro e o primeiro a ser indicado ao Oscar (pic by IMDb)

Lançado em outubro nos EUA, Parasita já conquistou mais de 30 milhões de dólares nas bilheterias e mais de 100 milhões ao redor do mundo. Com as indicações, o filme deve ser relançado em circuito comercial e ganhar ainda mais visibilidade. Quem sabe com o apoio popular Parasita também não leva o Oscar de Melhor Filme? Sabemos que não é uma luta fácil para um filme em idioma estrangeiro (Roma que o diga!), mas não é nada impossível para um filme que vem colhendo apenas críticas positivas.

Vale lembrar que a Coréia do Sul também foi indicada a Melhor Documentário-Curta por In the Absence, sobre o naufrágio de um cruzeiro que acarretou em centenas de mortes por falta de prevenção e socorro emergencial.

DESTAQUES ENTRE AUSÊNCIAS E SURPRESAS

Vamos fazer uma breve análise por categoria, mas de longe dá pra destacar alguns fatos baseados no que foi a temporada até o momento. Lupita Nyong’o, Jennifer Lopez, Awkwafina, Adam Sandler, Christian Bale, Eddie Murphy e Taron Egerton são as ausências mais sentidas se levarmos em conta o histórico das performances. Acontece, claro, ainda mais num ano repleto de filmes e interpretações de qualidade (quem nos dera se todo ano fosse rico assim…).

Outras ausências notáveis são Frozen 2 (Longa de Animação, mas foi indicado à Canção), Atlantique (Filme Internacional), Apollo 11 (Documentário), O Rei Leão (pela canção “Spirit” da Beyoncé) e As Loucuras de Rose (Atriz para Jessie Buckley e Canção pela tocante “Glasgow (No Place Like Home)”).

Não sei se é porque estamos mergulhados profundamente nas águas da temporada de premiações, mas nenhuma indicação aqui realmente nos surpreendeu de fato. Não teve nenhuma Marina de Tavira, Lesley Manville, Lenny Abrahamson ou Benh Zeitlin pra virar assunto na capa. Ninguém caiu de pára-quedas. Esperávamos que Jóias Brutas pudesse surpreender na reta final, mas pelo visto a ala conservadora da Academia ainda continua uma maioria maciça. Aliás, com um ano tão rico, a Academia indicou nove filmes a Melhor Filme. Por que não 10?

Confira todas as indicações e uma breve análise de cada:

MELHOR FILME

  • 1917 Pippa Harris, Callum McDougall, Sam Mendes, Jayne-Ann Tenggren
  • FORD VS FERRARI Peter Chernin, Jenno Topping, James Mangold
  • O IRLANDÊS Robert De Niro, Jane Rosenthal, Martin Scorsese, Emma Tillinger Koskoff
  • JOJO RABBIT Carthew Neal, Taika Waititi
  • CORINGA Bradley Cooper, Todd Phillips, Emma Tillinger Koskoff
  • ADORÁVEIS MULHERES Amy Pascal
  • HISTÓRIA DE UM CASAMENTO Noah Baumbach, David Heyman
  • ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD David Heyman, Shannon McIntosh, Quentin Tarantino
  • PARASITA Bong Joon-ho, Kwak Sin-ae

DIREÇÃO

  • 1917 Sam Mendes
  • O IRLANDÊS Martin Scorsese
  • CORINGA Todd Phillips
  • ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD Quentin Tarantino
  • PARASITA Bong Joon Ho

Os protestos feministas podem se espernear, mas a verdade é que a temporada de premiações já havia definido esses diretores há um bom tempo. Dos cinco indicados, apenas Todd Phillips não estava indicado ao DGA, que preferiu Taika Waititi (Jojo Rabbit). No Globo de Ouro, deu Sam Mendes. No Critics’ Choice deu empate entre Sam Mendes e Bong Joon Ho. Mas o que realmente vai definir é o vencedor do DGA, que é muito parelho em relação ao Oscar.

ATRIZ

  • CYNTHIA ERIVO (Harriet)
  • SCARLETT JOHANSSON (História de um Casamento)
  • SAOIRSE RONAN (Adoráveis Mulheres)
  • CHARLIZE THERON (O Escândalo)
  • RENÉE ZELLWEGER (Judy: Muito Além do Arco-Íris)

Infelizmente, Lupita Nyong’o foi esnobada, mesmo conseguindo uma indicação ao SAG. É realmente triste ver que os membros da Academia ainda têm tamanho preconceito com o gênero de terror e ficção científica. Na época do lançamento do filme em Março, estávamos tão empolgados com a possibilidade de Lupita ser indicada e ganhar o Oscar de Melhor Atriz, que já víamos as manchetes: “Lupita se torna a segunda negra a ganhar o Oscar depois de Halle Berry”, mas… não contávamos com tanto conservadorismo.

Cynthia Erivo estava nas possibilidades com Awkwafina, Lupita e Alfre Woodard, mas chamou muita atenção quando foi convidada a cantar no BAFTA, mas recusou em nome da falta de diversidade no evento. Ela também foi indicada pela canção “Stand Up”. Caso vença em uma das duas categorias, Erivo se tornará a mais jovem vencedora do EGOT (Emmy, Grammy, Oscar e Tony).

ATOR

  • ANTONIO BANDERAS (Dor e Glória)
  • LEONARDO DICAPRIO (Era uma Vez em… Hollywood)
  • ADAM DRIVER (História de um Casamento)
  • JOAQUIN PHOENIX (Coringa)
  • JONATHAN PRYCE (Dois Papas)

Muito bacana ver uma indicação à atuação em língua estrangeira de Antonio Banderas, ainda mais por se tratar de um reconhecimento muito raro. E apenas três atores conseguiram vencer com outro idioma: Sophia Loren, Roberto Benigni (pois é) e Marion Cotillard. Banderas interpreta ninguém menos do que o alter-ego do diretor espanhol Pedro Almodóvar em Dor e Glória, nesta que é sua oitava colaboração com o diretor.

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Antonio Banderas recebe sua primeira indicação e por um papel em espanhol de Dor e Glória (pic by IMDb)

Se existe uma surpresa nesta edição, esta foi de Taron Egerton injustamente esnobado por Rocketman. Não se trata apenas de uma cópia ou cosplay do cantor Elton John, mas uma intepretação de um ícone, cantando com sua própria voz as músicas e oferecendo densidade ao personagem, que facilmente seria uma caricatura nas mãos de outro ator. Embora Jonathan Pryce seja um ator veterano que há muito merecia uma indicação, trocaríamos ele por Taron.

ATRIZ COADJUVANTE

  • KATHY BATES (O Caso Richard Jewell)
  • LAURA DERN (História de um Casamento)
  • SCARLETT JOHANSSON (Jojo Rabbit)
  • FLORENCE PUGH (Adoráveis Mulheres)
  • MARGOT ROBBIE (O Escândalo)

Embora tenha ficado de fora do SAG por um erro imperdoável da distribuidora que inscreveu Kathy Bates como Atriz principal, sua indicação foi mais possível pela campanha que Clint Eastwood fez na reta final do ano, especialmente na festa da AFI, e claro, pelo prestígio que Bates tem junto à Academia. Esta é sua quarta indicação.

Jennifer Lopez estava investindo pesado na campanha de As Golpistas, onde ela vive uma stripper que busca vingança contra seus clientes. Sua vaga era dada como certa, pois nunca esteve tão bem num filme, contudo, a partir do momento em que ficou de fora do BAFTA, ela também foi excluída do Oscar. E isso culminou com o crescimento citado de Adoráveis Mulheres e de Florence Pugh na disputa, sem contar a dupla indicação para Scarlett Johansson. Nunca indicam a atriz, e quando indicam, indicam duas vezes no mesmo ano. As chances de Scarlett ganhar são mínimas, principalmente pela divisão de votos consigo mesma.

ATOR COADJUVANTE

  • TOM HANKS (Um Lindo Dia na Vizinhança)
  • ANTHONY HOPKINS (Dois Papas)
  • AL PACINO (O Irlandês)
  • JOE PESCI (O Irlandês)
  • BRAD PITT (Era Uma Vez em… Hollywood)

Os indicados desta categoria era a mais estável de todas as quatro. Willem Dafoe corria muito por fora por sua performance em O Farol. Nesse esquema que está, o franco-favorito Brad Pitt está em ampla vantagem, já que seus competidores mais fortes, Al Pacino e Joe Pesci, vão certamente dividir os votos por O Irlandês. Muito bacana ver Anthony Hopkins e Tom Hanks de volta. Eles não concorriam desde 1998 (Amistad) e 2001 (Náufrago), respectivamente.

ROTEIRO ORIGINAL

  • 1917 Sam Mendes, Krysty Wilson-Cairns
  • ENTRE FACAS E SEGREDOS Rian Johnson
  • HISTÓRIA DE UM CASAMENTO Noah Baumbach
  • ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD Quentin Tarantino
  • PARASITA Han Jin Won, Bong Joon-ho

Com a inclusão de 1917 nesta categoria, o filme de Sam Mendes ganha ainda mais força para disputar o Oscar de Melhor Filme, pois sem um bom roteiro, dificilmente a produção ganha o prêmio da noite. Contudo, o prêmio deve ficar entre Quentin Tarantino e Noah Baumbach. Muito bacana ver o roteiro mirabolante de Rian Johnson de Entre Facas e Segredos, demonstrando que há sempre espaço para criatividade na categoria. Ficou faltando o roteiro de Fora de Série, mas talvez o aspecto de comédia teenager tenha afastado os votantes mais velhos.

ROTEIRO ADAPTADO

  • O IRLANDÊS Steven Zaillian
  • JOJO RABBIT Taika Waititi
  • CORINGA Todd Phillips, Scott Silver
  • ADORÁVEIS MULHERES Greta Gerwig
  • DOIS PAPAS Anthony McCarten

O prêmio estava praticamente entregue a Steven Zaillian pelo épico de Martin Scorsese, até a indicação de Greta Gerwig, que deve angariar muitos votos femininos, pois elogios não faltaram para esta nova e moderna adaptação do livro de Louisa May Alcott. A inclusão do roteiro de Coringa surpreende um pouco, mas totalmente justificável pela campanha.

FOTOGRAFIA

  • 1917 Roger Deakins
  • O IRLANDÊS Rodrigo Prieto
  • CORINGA Lawrence Sher
  • O FAROL Jarin Blaschke
  • ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD Robert Richardson

Dos diretores de fotografia indicados ao ASC, sindicato respectivo, apenas Phedon Papamichael (Ford vs Ferrari) ficou de fora, dando lugar para o belo PB texturizado de O Farol. O filme de Robert Eggers merecia esse reconhecimento pela aposta ousada e arriscada de filmar em locação, em película e com um formato mais antigo que remete ao século XIX. Roger Deakins, indicado por 1917, tem as melhores chances de levar seu segundo Oscar pela complexidade das filmagens para simular uma única tomada.

MONTAGEM

  • O IRLANDÊS Thelma Schoonmaker
  • JOJO RABBIT Tom Eagles
  • CORINGA Jeff Groth
  • FORD VS FERRARI Andrew Buckland, Michael McCusker
  • PARASITA Jinmo Yang

Não se trata de uma regra oficial, mas pelas estatísticas, se você quer ganhar o Oscar de Melhor Filme, no mínimo tem que estar indicado a Melhor Montagem. Claro que isso já foi uma verdade incontestável, principalmente na época de Rocky (1976), mas ainda hoje ela tem extrema importância na disputa. Apesar do trabalho de Thelma Schoonmaker ser o mais elogiado até aqui por dar ritmo às 3 horas e meia de filme, ainda são 3 horas e meia, e tem muita gente falando: “se tivesse cortado uns 20 minutos finais seria ainda melhor”. Além disso, a montadora já ganhou 3 estatuetas com filmes do próprio Scorsese antes: Touro Indomável, O Aviador e Os Infiltrados. Nosso favorito, e que pode surpreender, é a montagem precisa de Parasita. Embora desconhecido do grande público Jinmo Yang já editou os sucessos sul-coreanos Okja (2017) e Invasão Zumbi (2016).

DESIGN DE PRODUÇÃO

  • 1917 Dennis Gassner, Lee Sandales
  • O IRLANDÊS Bob Shaw, Regina Graves
  • JOJO RABBIT Ra Vincent, Nora Sopková
  • ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD Barbara Ling, Nancy Haigh
  • PARASITA Ha-jun Lee, Won-Woo Cho

Pela viagem à era de ouro de Hollywood nos anos 60, o filme de Tarantino leva boa vantagem. São casas, trailers, carros e sets de filmagens reconstruídos para contar a história de Rick Dalton e Cliff Booth. Mas vale destacar a mansão da família Park em Parasita, cuja importância é tão grande que se assemelha a um personagem à parte.

FIGURINO

  • O IRLANDÊS Christopher Peterson, Sandy Powell
  • JOJO RABBIT Mayes C. Rubeo
  • CORINGA Mark Bridges
  • ADORÁVEIS MULHERES Jacqueline Durran
  • ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD Arianne Phillips

A Academia adora premiar filmes de época nesta categoria, então naturalmente os figurinos de Adoráveis Mulheres larga na frente. Jacqueline Durran já foi premiada por Anna Karenina. Embora gostemos do figurino de Scarlett Johansson (inclusive o chapéu) em Jojo Rabbit, indicaríamos os figurinos da pequena vila sueca de Midsommar.

MAQUIAGEM E CABELO

  • 1917 Naomi Donne
  • O ESCÂNDALO Vivian Baker, Kazu Hiro, Anne Morgan
  • CORINGA Kay Georgiou, Nicki Ledermann
  • JUDY: MUITO ALÉM DO ARCO-ÍRIS Jeremy Woodhead
  • MALÉVOLA: DONA DO MAL Paul Gooch, Arjen Tuiten, David White

Toda vez dizemos a mesma coisa sobre maquiagem: “Aaaa… como sentimos falta de Rick Baker!”. Bom, é a primeira vez que a categoria tem cinco indicados (que se tornará comum a partir desta edição), o que sempre ajuda a reconhecer mais filmes, porém pode ter ano que vão sofrer pra achar boa maquiagem pra reconhecer. Desta leva, destacamos o trabalho excepcional de O Escândalo, que transformou Charlize Theron na repórter Megyn Kelly, e John Lithgow em Roger Ailes, com próteses. Também indicaríamos aquela criaturazinha estranha de Midsommar, mesmo que para alguns seja uma visão indigesta.

TRILHA ORIGINAL

  • 1917 Thomas Newman
  • CORINGA Hildur Guđnadóttir
  • ADORÁVEIS MULHERES Alexandre Desplat
  • HISTÓRIA DE UM CASAMENTO Randy Newman
  • STAR WARS: A ASCENSÃO SKYWALKER John Williams

Esnobado injustamente, Michael Abels provavelmente criou a melhor trilha do ano, mas ficou de fora também por preconceito em relação ao gênero. A curiosidade aqui é a disputa familiar entre os primos Randy e Thomas Newman. Mas enquanto Randy já ganhou dois Oscars, Thomas está em sua 15ª indicação sem vitória. Será que é desta vez? Se a islandesa Hildur Guđnadóttir (Coringa) permitir… E esta é a 52ª indicação para John Williams. Aos 87 anos, ele já tem 5 Oscars, mas não ganha desde A Lista de Schindler, láaa em 1994, e foi indicado ao Oscar pelos três filmes desta nova trilogia de Star Wars.

CANÇÃO ORIGINAL

  • “I Can’t Let You Throw Yourself Again”, de TOY STORY 4
  • “I’m Gonna Love Me Again”, de ROCKETMAN
  • “I’m Standing With You”, de SUPERAÇÃO: O MILAGRE DA FÉ
  • “Into the Unknown”, de FROZEN 2
  • “Stand Up”, de HARRIET

Apesar da canção de Elton John ser uma unanimidade, as canções de Harriet e Frozen 2 podem ultrapassar Rocketman, ainda mais pelo filme ter perdido força nas outras categorias como Ator e Figurino. Gostaríamos de ter visto a canção “Glasgow (No Place Like Home)” indicada para coroar a performance de Jessie Buckley em As Loucuras de Rose, que foi indicada ao BAFTA de Melhor Atriz. A canção de Toy Story 4 não vinha sendo reconhecida, porém levou a vaga das outras produções da Disney: O Rei Leão e Aladdin.

SOM

  • AD ASTRA Gary Rydstrom, Tom Johnson, Mark Ulano
  • ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD Michael Minkler, Christian P. Minkler, Mark Ulano
  • 1917 Scott Millan, Oliver Tarney, Rachael Tate, Mark Taylor, Stuart Wilson
  • CORINGA Tod Maitland, Alan Robert Murray, Tom Ozanich, Dean Zupancic
  • FORD VS FERRARI David Giammarco, Paul Massey, Steven A. Morrow, Donald Sylvester

A grande surpresa aqui é a inclusão de Ad Astra, que inicialmente foi promovido como grande candidato, mas caiu drasticamente na temporada. Essa indicação muito lembra a de Um Lugar Silencioso do ano passado, a única do filme. Embora o som de Ford vs Ferrari ser incrível, 1917 deve levar o prêmio pelas inúmeras explosões e tiros da Primeira Guerra Mundial. Chama a atenção a exclusão de Rocketman, já que musicais costumam se dar bem na categoria, que ano passado premiou Bohemian Rhapsody.

EFEITOS SONOROS

  • FORD VS FERRARI Donald Sylvester
  • CORINGA Alan Robert Murray
  • 1917 Oliver TarneyRachael Tate
  • ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD Wylie Stateman
  • STAR WARS: A ASCENSÃO SKYWALKER Matthew WoodDavid Acord

Assim na categoria de Som, a briga deve ficar entre 1917 e Ford vs Ferrari. São filmes que são extremamente bem explorados no aspecto sonoro e são melhor apreciados em salas de alta qualidade de som com a IMAX e XD. Os outros três indicados estão praticamente fazendo figuração na categoria, que poderia dar espaço para John Wick 3: Parabellum, por exemplo.

EFEITOS VISUAIS

  • 1917 Greg Butler, Guillaume Rocheron, Dominic Tuohy
  • VINGADORES: ULTIMATO Dan Deleeuw, Dan Sudick
  • O IRLANDÊS Leandro Estebecorena, Stephane Grabli, Pablo Helman
  • O REI LEÃO Andrew R. Jones, Robert Legato, Elliot Newman, Adam Valdez
  • STAR WARS: A ASCENSÃO SKYWALKER Roger Guyett, Paul Kavanagh, Neal Scanlan, Dominic Tuohy

Apesar de todos merecerem as indicações, os efeitos de Alita: Anjo de Combate poderia ter entrada na disputa. Talvez o aspecto visual estilo animé da protagonista tenha espantado os votantes, que buscam realismo nos efeitos.

FILME INTERNACIONAL

  • CORPUS CHRISTI Jan Komasa – POLÔNIA
  • HONEYLAND Tamara Kotevska, Ljubomir Stefanov – MACEDÔNIA DO NORTE
  • OS MISERÁVEIS Ladj Ly – FRANÇA
  • DOR E GLÓRIA Pedro Almodóvar, Agustín Almodóvar – ESPANHA
  • PARASITA Bong Joon-ho – CORÉIA DO SUL

Dos 10 filmes pré-selecionados, havia algumas certezas como as indicações de Parasita, Dor e Glória, e Os Miseráveis. As outras duas vagas eram uma incógnita. O documentário sobre a apicultora de Honeyland surpreendeu por conquistar dupla indicação por Filme Internacional pela Macedônia do Norte (eu sei, você nem sabia que tinha uma, ainda mais do norte) e por Melhor Documentário. Assim como Scarlett Johansson, duplamente indicada, Honeyland deve ficar sentado a cerimônia inteira. A ausência mais notada aqui foi de Atlantique, do Senegal, produzido pela Netflix. A surpresa da categoria reside no representante polonês Corpus Christi, que aborda uma transformação espiritual que resulta numa paróquia. Apesar de não ter entendido a indicação do filme, é curioso que não há nenhum filme indicado que trate de Holocausto desta vez. uma raridade. Porém Jojo Rabbit já satisfez a sede pelo tema nas demais categorias.

DOCUMENTÁRIO

  • THE CAVE Feras Fayyad, Kirstine Barfod, Sigrid Dyekjaer
  • DEMOCRACIA EM VERTIGEM Petra Costa, Joanna Natasegara, Shane Boris, Tiago Pavan
  • HONEYLAND Tamara Kotevska, Ljubomir Stefanov
  • AMERICAN FACTORY Steven Bognar, Julia Reichert
  • FOR SAMA Waad al-Kateab, Edward Watts

É sempre muito bacana ver um filme brasileiro entre os indicados. Mesmo não apreciando muito o documentário que apela para o emocional, Petra Costa teve uma visão instigante sobre o que aconteceu na política brasileira, especialmente no trecho em que analisa a postura de um Michel Temer ainda vice-presidente. Pra quem ainda não conferiu, vale a pena ver na Netflix.

Houve duas ausências aqui: Apollo 11, um documentário que impressiona pelo material rico do lançamento do foguete à Lua, e One Child Nation, sobre a política de natalidade da China. Com isso, o franco-favorito se torna For Sama, uma experiência feminina em tempos de guerra.

LONGA DE ANIMAÇÃO

  • KLAUS Sergio Pablos, Jinko Gotoh, Marisa Roman
  • TOY STORY 4 Josh Cooley, Mark Nielsen, Jonas Rivera
  • COMO TREINAR O SEU DRAGÃO 3 Dean DeBloisBradford LewisBonnie Arnold
  • PERDI MEU CORPO Jérémy ClapinMarc Du Pontavice
  • LINK PERDIDO Chris ButlerArianne SutnerTravis Knight

Pois é, cadê Frozen 2? Apesar do sucesso comercial e popular, esta sequência não foi tão bem assim de crítica. Se o primeiro filme se baseou no sucesso da canção “Let it Go”, não podemos dizer o mesmo de Frozen 2 e a canção “Into the Unknown” que ainda não emplacou. Destaque para a presença da Netflix através de Klaus e Perdi Meu Corpo.

CURTA DE ANIMAÇÃO

  • DCERA (DAUGHTER) Daria Kashcheeva
  • HAIR LOVE Matthew A. CherryKaren Rupert Toliver
  • KITBULL Rosana SullivanKathryn Hendrickson
  • MEMORABLE Bruno ColletJean-François Le Corre
  • SISTER Siqi Song

DOCUMENTÁRIO-CURTA

  • IN THE ABSENCE Seung-jun YiGary Byung-Seok Kam
  • LEARNING TO SKATEBOARD IN A WARZONE (IF YOU’RE A GIRL) Carol DysingerElena Andreicheva
  • LIFE OVERTAKES ME Kristine SamuelsonJohn Haptas
  • ST. LOUIS SUPERMAN Sami KhanSmriti Mundhra
  • WALK RUN CHA-CHA Laura NixColette Sandstedt

CURTA-METRAGEM 

  • BROTHERHOOD Meryam JoobeurMaria Gracia Turgeon
  • NEFTA FOOTBALL CLUB Yves PiatDamien Megherbi
  • THE NEIGHBOR’S WINDOW Marshall Curry
  • SARIA Bryan BuckleyMatt Lefebvre
  • A SISTER Delphine Girard

Os trabalhos de curta das três categorias ainda precisam ser vistos, e mais pra frente podemos oferecer uma análise melhor da qualidade dos filmes e das chances de cada um para você votar no seu bolão.

ACADEMIA DIVULGA PRÉ-LISTA de NOVE CATEGORIAS. BRASIL FICA de FORA da DISPUTA de FILME INTERNACIONAL

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A PRÉ-SELEÇÃO ESTREITA A COMPETIÇÃO COM ALGUMAS SURPRESAS

É com pesar que informamos que A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, não avançou para a próxima fase do Oscar. Com uma boa campanha promovida pela Amazon Studios nos EUA, havia altas expectativas de indicação, já que o filme ganhou o prestigiado Un Certain Regard no Festival de Cannes e conquistou uma indicação ao Independent Spirit.

Para muitos especialistas, a ausência no Globo de Ouro foi fundamental para sua derrocada. Já para nós da página, o adiantamento de um mês da cerimônia pode ter causado uma bagunça no calendário, mas acima de tudo acreditamos no velho conservadorismo da Academia. Embora tenha havido o ingresso de inúmeros membros novos na instituição nos últimos anos, as regras para votar para os filmes desta categoria internacional não mudaram, assim como os votantes: velhinhos, judeus e com tempo de sobra para poder assistir aos candidatos estrangeiros numa sessão vespertina, por exemplo.

O resultado disso? Dentre os dez filmes pré-selecionados, três se passam na Segunda Guerra Mundial ou dialogam com o Holocausto, temas favoritos dessa faixa etária e étnica dos votantes. Claro que podem ser filmes ótimos, mas a aposta nesses temas batidos todos os anos frustram aqueles que buscam uma renovação dos filmes selecionados. E já que essa filosofia e regulamento não mudam, parece que existe uma fábrica de filmes de Segunda Guerra e Nazismo todos os anos ao redor do globo, porque eles sabem que suas chances de serem premiados com o Oscar são maiores. Só para citar alguns exemplos mais recentes que venceram: Ida, O Filho de Saul, Os Falsários e A Vida é Bela.

A pré-seleção desta categoria é dividida entre os votantes e uma comissão especial desde 2009. São 7 filmes selecionados pelos votantes, e três pela comissão, que foi criada para evitar que filmes de alta relevância no cenário internacional e premiados fiquem de fora da competição, como aconteceu com o romeno 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias em 2008. À princípio, parece-nos que Parasita, Dor e Glória e Atlantique foram as escolhas da comissão, e os demais foram votados.

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MELHOR FILME INTERNACIONAL

  • The Painted Bird – REPÚBLICA TCHECA
    Dir: Václav Marhoul
  • Truth and Justice – ESTÔNIA
    Dir: Tanel Toom
  • Les Misérables – FRANÇA
    Dir: Ladj Ly
  • Aqueles que Ficaram (Those Who Remained) – HUNGRIA
    Dir: Barnabás Tóth
  • Honeyland – MACEDÔNIA DO NORTE
    Dir: Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov
  • Corpus Christi – POLÔNIA
    Dir: Jan Komasa
  • Uma Mulher Alta (Beanpole) – RÚSSIA
    Dir: Kantemir Bagalov
  • Atlantique – SENEGAL
    Dir: Mati Diop
  • Parasita – CORÉIA DO SUL
    Dir: Bong Joon-Ho
  • Dor e Glória – ESPANHA
    Dir: Pedro Almodóvar

Desta seleção, cinco filmes tinham um histórico de premiações e participações de festivais que praticamente os asseguravam na pré-lista: Parasita, Dor e Glória, Honeyland, Atlantique e Les Misérables. Já entre os esnobados, destaque para o colombiano Monos, o italiano O Traidor, o argelino Papicha, o palestino O Paraíso Deve Ser Aqui, nosso brasileiro A Vida Invisível, e o japonês Weathering With You, que ainda pode concorrer na categoria de Melhor Longa de Animação. Aliás, o representante da Macedônia do Norte, Honeyland, pode acabar indicado em duas categorias: Filme Internacional e Documentário.

E para os milhões de cinéfilos desapontados com a não-inclusão de A Vida Invisível, fica a história de superação dos cineastas brasileiros, de poder fazer cinema de qualidade e identidade mesmo em tempos sombrios de extinção da Ancine, órgão que regulamentava o cinema nacional. O grande cinema não é necessariamente aquele que ganha prêmios, mas aquele que conquista e cativa o público. E felizmente, não houve falcatruas na seleção da comissão desta vez como em 2016 com Aquarius fora. Se seríamos indicados com Bacurau? Quem sabe? O importante é enviar um bom filme todo ano.

CHANCES EM OUTRAS CATEGORIAS

Embora não tenha sido o selecionado pela comissão francesa, Retrato de uma Jovem em Chamas pode ser indicado a Melhor Fotografia, Figurino e por que não Roteiro? Já Dor e Glória tem grandes chances também com Antonio Banderas como Melhor Ator, Pedro Almodóvar na disputa de Direção e até Direção de Arte.

Contudo, o grande estrangeiro que pode e deve dominar as indicações é o sul-coreano Parasita. Após conquistar de forma unânime a Palma de Ouro em Cannes, o filme conquistou vários outros prêmios, inclusive o de Melhor Filme pelos críticos de Los Angeles (LAFCA), Melhor Filme em Língua Estrangeira pelos críticos de Nova York (NYFCC) e pelo National Board of Review (NBR), além de ser indicado ao Globo de Ouro, Critics’ Choice e até Elenco no SAG Awards, coisa que não acontecia com um filme estrangeiro desde o italiano A Vida é Bela. Como já postamos aqui antes, Parasita é o Roma deste ano, porém com um grande diferencial: não é da Netflix, motivo pelo qual Green Book pode ter conseguido uma vantagem entre a ala mais conservadora da Academia. A questão que fica é: Parasita tem chances reais se ganhar o Oscar de Melhor Filme também, e se tornar o primeiro filme em língua estrangeira a vencer o maior prêmio da noite?


A Academia também afunilou os candidatos de outras oito categorias: Documentário, Documentário-Curta, Curta-Metragem, Curta de Animação, Maquiagem e Cabelo, Trilha Original, Canção Original e Efeitos Visuais, o que encerra inúmeras campanhas publicitárias dos desclassificados e intensifica as selecionadas.

DOCUMENTÁRIO

  • Advocate
  • American Factory
  • The Apollo
  • Apollo 11
  • Aquarela
  • The Biggest Little Farm
  • The Cave
  • Democracia em Vertigem (The Edge of Democracy)
  • For Sama
  • The Great Hack
  • Honeyland
  • Knock Down the House
  • Maiden
  • Midnight Family
  • One Child Nation

Com 159 produções inscritas, a categoria ficou limitada a 15 documentários. Entre os favoritos da lista: American Factory, Apollo 11, For Sama, Honeyland e One Child Nation podem conquistar as cinco indicações finais. Igualmente imprevisível como a categoria de Filme Internacional, o anúncio das indicações devem reservar surpresas como a inclusão de The Biggest Little Farm, Knock Down the House e até do brasileiro Democracia em Vertigem, de Petra Costa, que ganhou o título internacional de The Edge of Democracy, e está disponível no catálogo da Netflix. Particularmente, não gostamos tanto assim do documentário por ele desviar seu foco da que da democracia para defender um lado mais emotivo, mas ficamos feliz por esse reconhecimento da cineasta e sua equipe.

DOCUMENTÁRIO-CURTA

  • After Maria
  • Fire in Paradise
  • Ghosts of Sugar Land
  • In the Absence
  • Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)
  • Life Overtakes Me
  • The Nightcrawlers
  • St. Louis Superman
  • Stay Close
  • Walk Run Cha-Cha

Foram 69 inscrições que agora se resumem a dez curtas de documentário.

MAQUIAGEM E CABELO

  • O Escândalo
  • Meu Nome é Dolemite
  • Downton Abbey
  • Coringa
  • Judy: Muito Além do Arco-Íris
  • Adoráveis Mulheres
  • Malévola: Dona do Mal
  • 1917
  • Era uma Vez em…Hollywood
  • Rocketman

Haverá a exibição de um clipe de sete minutos de duração contendo todos os trabalhos pré-selecionados para que os membros do Departamento de Maquiagem possa reavaliar e eleger os cinco finalistas.

TRILHA MUSICAL ORIGINAL

Fifteen scores will advance in the original score category. One hundred seventy scores were eligible in the category. Members of the Music Branch vote to determine the shortlist and the nominees.

  • Alan Silvestri (Vingadores: Ultimato)
  • Theodore Shapiro (O Escândalo)
  • Alex Weston (The Farewell)
  • Marco Beltrami e Buck Sanders (Ford vs Ferrari)
  • Christophe Beck (Frozen 2)
  • Michael Giacchino (Jojo Rabbit)
  • Hildur Guðnadóttir (Coringa)
  • Nicholas Britell (O Rei)
  • Alexandre Desplat (Adoráveis Mulheres)
  • Randy Newman (História de um Casamento)
  • Daniel Pemberton (Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe)
  • Thomas Newman (1917)
  • Alberto Iglesias (Dor e Glória)
  • John Williams (Star Wars: A Ascensão de Skywalker)
  • Michael Abels (Nós)

Foram 170 composições inscritas na categoria, e agora restam quinze na competição. Destaque para a possível disputa entre os primos Randy Newman (História de um Casamento) e Thomas Newman (1917), mas enquanto Randy já levou dois Oscars de Canção por Monstros S.A. e Toy Story 3, Thomas ainda não levou a estatueta depois de um recorde de 14 indicações. Será que agora vai?

Além dos dois, destaque para os favoritos Alexandre Desplat por Adoráveis Mulheres, a islandesa Hildur Guðnadóttir por Coringa, Michael Abels por Nós e John Williams, que pode conquistar sua 52ª indicação ao Oscar (!) por Star Wars: A Ascensão Skywalker.

CANÇÃO ORIGINAL

  • “Speechless” (Aladdin)
  • “Letter To My Godfather” (The Black Godfather)
  • “I’m Standing With You” (Superação: O Milagre da Fé)
  • “Da Bronx” (The Bronx USA)
  • “Into The Unknown” (Frozen 2)
  • “Stand Up” (Harriet)
  • “Catchy Song” (Uma Aventura Lego 2)
  • “Never Too Late” (O Rei Leão)
  • “Spirit” from (O Rei Leão)
  • “Daily Battles” (Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe)
  • “A Glass of Soju” (Parasita)
  • “(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman)
  • “High Above The Water” (Toni Morrison: As Muitas que Eu sou)
  • “I Can’t Let You Throw Yourself Away” (Toy Story 4)
  • “Glasgow” (As Loucuras de Rose)

Quinze canções avançam dentre um total de 75 inscritas. Não sabemos se o musical Cats vai obter qualquer outra indicação (talvez de Efeitos Visuais?), mas sua grande chance com canção original foi pro espaço. A canção “Beautiful Ghosts” composta por Taylor Swift e Andrew Lloyd Webber, que foi indicada ao Globo de Ouro, sequer passou para a pré-seleção.

Pelo que acompanhamos até o momento, as canções “Speechless” (Aladdin), “Glasgow” (As Loucuras de Rose), “Spirit” (O Rei Leão), “(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman) e “Stand Up” (Harriet) têm boas chances de indicação, mas parece que o Oscar deve ir para “Into the Unknown” de Frozen 2. Com cinco canções pré-selecionadas, a Disney deve levar o ouro para casa.

A curiosidade aqui é a inclusão da música coreana “A Glass of Soju” (Um Copo de Soju), que é tocada nos créditos finais, e cantada pelo jovem ator Woo-sik Choi que protagoniza o filme, que expressa as saudades que o personagem nutre pelo pai.

CURTA DE ANIMAÇÃO

  • Dcera (Daughter)
  • Hair Love
  • He Can’t Live without Cosmos
  • Hors Piste
  • Kitbull
  • Memorable
  • Mind My Mind
  • The Physics of Sorrow
  • Sister
  • Uncle Thomas: Accounting for the Days

92 curtas de animação foram inscritos e restam apenas dez.

CURTA-METRAGEM

  • Brotherhood
  • The Christmas Gift
  • Little Hands
  • Miller & Son
  • Nefta Football Club
  • The Neighbors’ Window
  • Refugee
  • Saria
  • A Sister
  • Sometimes, I Think about Dying

Foram 191 curtas inscritos ao todo, e agora apenas dez continuam na disputa.

EFEITOS VISUAIS

  • Alita: Anjo de Combate
  • Vingadores: Ultimato
  • Capitã Marvel
  • Cats
  • Projeto Gemini
  • O Irlandês
  • O Rei Leão
  • 1917
  • Star Wars: A Ascensão Skywalker
  • O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio

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Assim como na categoria de Maquiagem, haverá um video-clipe, mas este com dez minutos de duração, contendo cenas selecionadas para reavaliação do Departamento de Efeitos Visuais desses dez selecionados para a escolha dos cinco indicados.

Por enquanto, os filmes que estão na frente da disputa são: Star Wars: A Ascensão Skywalker, O Rei Leão, Vingadores: Ultimato, O Irlandês e Alita: Anjo de Combate ou 1917. O curioso desta categoria será a disputa interna entre Martin Scorsese (O Irlandês) com a Marvel Studios (Vingadores: Ultimato) após aquela discussão do cineasta sobre a Marvel ser cinema ou não.

E vamos ver se a Academia concede pelo menos Oscar para esta nova trilogia de Star Wars, porque a última dos episódios I, II e III, também saiu de mãos abanando.

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A votação do Oscar começa no dia 02 de janeiro e o anúncio se dará no dia 13 do mesmo mês. A cerimônia do 92º Academy Awards será no dia 09 de Fevereiro.

NATIONAL BOARD OF REVIEW ELEGE ‘O IRLANDÊS’ como MELHOR FILME

Cena de O Irlandês com Joe Pesci e Robert De Niro (pic by IMDb)

NETFLIX TEM SEGUNDO DIA CONSECUTIVO DE VITÓRIA

Após ganhar 4 Gotham Awards com História de um Casamento, a Netflix continua sob o holofote pelo National Board of Review, que nomeou O Irlandês como Melhor Filme do ano, e melhor Roteiro Adaptado. Embora não tenha vencido em categorias de atuação, levou um prêmio especial colaborativo entre Martin Scorsese, Robert De Niro e Al Pacino.

Logo em seguida, temos Era Uma Vez… em Hollywood levando os prêmios de Direção para Quentin Tarantino e de Ator Coadjuvante para Brad Pitt, e temos Uncut Gems, que também levou dois prêmios: Roteiro Original e Ator para Adam Sandler.

Vencedor do prêmio de Melhor Ator: Adam Sandler em Uncut Gems

Ainda sobre as categorias de atuação, se por um lado tivemos a confirmação de Renée Zellwegger como favorita por Judy, por outro tivemos a surpresa de Kathy Bates como Coadjuvante por O Caso Richard Jewell, novo filme de Clint Eastwood.

Vencedora de Atriz Coadjuvante, kathy Bates em cena de O Caso Richard Jewell

Embora tenha acertado a vitória de Green Book no ano passado, o NBR não tem servido muito de parâmetro para o vencedor do Oscar, contudo, nos últimos anos elegeu filmes que sempre foram indicados a Melhor Filme como The Post, Machester à Beira-Mar, Mad Max: Estrada da Fúria, com a exceção de O Ano Mais Violento em 2014, que passou longe do Oscar.

O mesmo vale para as categorias de atuação. Muitos de seus vencedores acabam passando pras categorias do Oscar como houve em 2018: Viggo Mortensen, Lady Gaga, Sam Eliott e Regina King.

Embora o vencedor do prêmio de Filme Estrangeiro tenha sido o franco-favorito Parasita, na lista do top 5 de filmes estrangeiros está o brasileiro A Vida Invisível, concretizando uma ótima campanha da Amazon nos EUA. No lugar de Les Miserábles, outro francês foi eleito: Retrato de uma Jovem em Chamas, o que faz questionar se a comissão francesa fez a escolha certa.

VENCEDORES DO NATIONAL BOARD OF REVIEW:

MELHOR FILME
O Irlandês (The Irishman)

MELHOR DIREÇÃO
Quentin Tarantino (Era Uma Vez em… Hollywood)

MELHOR ATOR
Adam Sandler (Uncut Gems)

MELHOR ATRIZ
Renée Zellwegger (Judy)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Brad Pitt (Era Uma Vez… em Hollywood)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Kathy Bates (O Caso Richard Jewell)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Josh Safdie, Benny Safdie, Ronald Bronstein (Uncut Gems)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Steven Zaillian (O Irlandês)

MELHOR FOTOGRAFIA
Roger Deakins (1917)

MELHOR PERFORMANCE REVELAÇÃO
Paul Walter Hauser (O Caso Richard Jewell)

MELHOR DIREÇÃO DE DEBUTANTE
Melina Matsoukas (Queen & Slim)

MELHOR ANIMAÇÃO
Como Treinar o Seu Dragão 3

MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
Parasita, de Bong Joon-Ho

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Maiden

MELHOR ELENCO
Entre Facas e Segredos

NBR Icon Award: Martin Scorsese, Robert De Niro, Al Pacino

NBR Freedom of Expression Award: FOR SAMA

NBR Freedom of Expression Award: JUST MERCY

TOP FILMES (em ordem alfabética)
1917
Meu Nome é Dolemite (Dolemite is my Name)
Ford vs Ferrari
Jojo Rabbit
Entre facas e Segredos (Knives Out)
História de um Casamento (Marriage Story)
Era uma vez… em Hollywood (Once Upon a Time…in Hollywood)
O Caso Richard Jewell (Richard Jewell)
Uncut Gems
Waves

TOP 5 FILMES ESTRANGEIROS (em ordem alfabética)
Atlantics
A Vida Invisível (Invisible Life)
Dor e Glória (Pain and Glory)
Retrato de uma Jovem em Chamas (Portrait of a Lady on Fire)
Transit

TOP 5 DOCUMENTÁRIOS (em ordem alfabética)
Indústria Americana (American Factory)
Apollo 11
The Black Godfather
Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese
Wrestle

TOP FILMES INDEPENDENTES (em ordem alfabética)
The Farewell
Give Me Liberty
A Hidden Life
Judy
The Last Black Man in Man Francisco
Midsommar
he Nightingale
The Peanut Butter Falcon
The Souvenir
Wild Rose

‘A FAVORITA’ CONQUISTA 4 EUROPEAN FILM AWARDS

 

The Favourite 2

Rachel Weisz e Olivia Colman em cena de A Favorita (pic by IMDb)

FILME DE YORGOS LANTHIMOS AINDA TEM GÁS PARA ESTA TEMPORADA

Como de costume, a premiação européia elegeu com antecedência os vencedores das categorias mais técnicas como Fotografia e Montagem. Os vencedores dos principais prêmios como Filme, Direção e atuações serão revelados apenas no dia 07 de Dezembro em Berlim.

Indicado a 10 Oscars e vencedor do prêmio de Melhor Atriz deste ano para Olivia Colman, A Favorita não se encaixou no prazo do calendário de 2018 do European Film Awards (que fecha meses antes do fim do ano), mas mesmo disputando a edição seguinte, já saiu vitorioso em quatro categorias: Fotografia (Robbie Ryan), Montagem (Yorgos Mavropsaridis), Figurino (Sandy Powell) e Maquiagem (Nadia Stacey).

Pelas demais categorias anunciadas, o filme espanhol Dor e Glória conquistou o prêmio de Design de Produção (Antxon Gómez), enquanto o filme alemão System Crasher levou Trilha Musical (John Gürtler). Curiosamente, ambas as produções foram selecionadas por seus comitês para disputar o Oscar de Melhor Filme Internacional (ex-Melhor Filme em Língua Estrangeira) pela Espanha e Alemanha, respectivamente.

Dolor y Gloria

Asier Etxeandia e Leonardo Sbaraglia em cena de Dor e Glória (pic by IMDb)

A co-produção entre Uruguai, Espanha, Argentina, França e Alemanha, Uma Noite de 12 Anos, que acompanha os 12 anos de tortura sofridos por três prisioneiros no Uruguai tomado pela ditadura, levou o prêmio de design de Som, destacando sua importância nas cenas de escuridão na solitária.

Twelve year Night

Antonio de la Torre em cena de Uma Noite de 12 Anos (pic by IMDb)

Já o prêmio de Efeitos Visuais ficou com o sueco About Endlessness por apresentar imagens oníricas e filosóficas. Em sua passagem pelo último Festival de Veneza, saiu com o prêmio de Direção para o veterano Roy Andersson.

PRINCIPAIS CATEGORIAS DO EFA

Pelas categorias competitivas, cinco produções lideram as indicações: An Officer and a Spy, de Roman Polanski, O Traidor, de Marco Bellocchio, e os já citados Dor e GlóriaSystem Crasher e A Favorita, cada um com quatro indicações.

An Officer and a Spy

Jean Dujardin em cena de An Officer and a Spy (pic by IMDb)

Recentemente, o sindicato de diretores, roteiristas e produtores da França lançou uma proposta de novas regras para membros sob investigação criminal, o que levaria à suspensão do diretor polonês Roman Polanski, que sofreu uma nova acusação de estupro pela atriz Valentine Monnier que teria ocorrido em 1975. O diretor nega as acusações, enquanto seu novo filme levou mais de 380 mil pessoas aos cinemas na França.

Dentre as indicações, vale ressaltar o elogiadíssimo Retrato de uma Jovem em Chamas, que teve ótima passagem no Festival de Cannes, levando o prêmio de Roteiro. Céline Sciamma disputa o prêmio como diretora e roteirista, e suas duas atrizes Adèle Haenel e Noémie Merlant foram reconhecidas em uma única indicação para Melhor Atriz.

Portrait of a Lady on Fire 2

Noémie Merlant e Adèle Haenel em cena de Retrato de uma Jovem em Chamas (pic by IMDb)

Ainda sobre a disputa de Melhor Atriz, Olivia Colman pode ser novamente reconhecida por A Favorita. Já na categoria de Melhor Ator, vale destacar a indicação de Jean Dujardin por An Officer and a Spy. Sim, aquele ator francês que levou o Oscar de Ator em 2012 por O Artista, que você achava que nunca mais ia deslanchar.

RELEVÂNCIA COM O OSCAR

Por defender um calendário diferente das demais premiações, inclusive o Oscar e Globo de Ouro, o European Film Awards já se torna um ponto fora da curva na temporada. Contudo, alguns de seus filmes indicados costumam aparecer nas principais listas, o que pode ajudar as campanhas de Dor e Glória, Les Miserábles, O Traidor, System Crasher, Honeyland e outros trabalhos como de animação que estão na briga pelo Oscar 2020.

Nos últimos cinco anos, por exemplo, tivemos alguns vencedores do EFA que chegaram ao tapete vermelho do Oscar como Guerra Fria, The Square, As Faces de Toni Erdmann, 45 Anos, O Lagosta, Sr. Turner e Ida.

MELHOR FILME
• Les Misérables, de Ladj Ly
• An Officer and a Spy, de Roman Polanski
• Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
• System Crasher, de Nora Fingscheidt
• A Favorita, de Yorgos Lanthimos
• O Traidor, de Marco Bellocchio

MELHOR DIREÇÃO
Pedro Almodóvar (Dor e Glória)
Marco Bellocchio (O Traidor)
Yorgos Lanthimos (A Favorita)
Roman Polanski (An Officer and a Spy)
Céline Sciamma (Retrato de uma Jovem em Chamas)

MELHOR ATRIZ
Olivia Colman (A Favorita)
Trine Dyrholm (Rainha de Copas)
Noémie Merlant e Adèle Haenel (Retrato de uma Jovem em Chamas)
Viktoria Miroshnichenko (Uma Mulher Alta)
Helena Zengel (System Crasher)

MELHOR ATOR
Antonio Banderas (Dor e Glória)
Jean Dujardin (An Officer and a Spy)
Pierfrancesco Favino (O Traidor)
Levan Gelbakhiani (And Then We Danced)
Alexander Scheer (Gundermann)
Ingvar E. Sigurðsson (A White, White Day)

MELHOR ROTEIRO
Pedro Almodóvar (Dor e Glória)
Marco Bellocchio, Ludovica Rampoldi, Valia Santella, Francesco Piccolo (O Traidor)
Ladj Ly, Giordano Gederlini, Alexis Manenti (Les Misérables)
Robert Harris, Roman Polanski (An Officer and a Spy)
Céline Sciamma (Retrato de uma Jovem em Chamas)

MELHOR COMÉDIA
• Ditte & Louise, de Niclas Bendixen
• Tel Aviv Em Chamas, de Sameh Zoabi
• A Favorita, de Yorgos Lanthimos

MELHOR ANIMAÇÃO
• Buñuel In The Labyrinth Of The Tur­tles, de Salvador Simó
• Perdi Meu Corpo (J’ai Perdu Mon Corps), de Jérémy Clapin
• L’ex­tra­or­di­naire Voy­age de Marona, de Anca Damian
• Les Hi­ron­delles de Kaboul, de Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec

MELHOR DOCUMENTÁRIO
• For Sama, de Waad Al-kateab & Edward Watts
• Honeyland, de Ljubomir Stefanov & Tamara Kotevska
• Putin’s Witnesses, de Vitaly Mansky
• Selfie, de Agostino Ferrente
• The Disappearance Of My Mother, de Beniamino Barrese

DESCOBERTA EUROPÉIA
• Aniara, de Pella Kagerman, Hugo Lilja
• Atlantique
, de Mati Diop
• Blindsone, de Tuva Novotny
• Irina
, de Nadejda Koseva
• Les Miserábles
, de Ladj Ly
• Ray & Liz
, de Richard Billingham

MELHOR CURTA-METRAGEM
• Cães que Ladram aos Pássaros
• Rekon­strukce
• The Christ­mas Gift
• Les Ex­tra­or­di­naires Mésaven­tures de la Jeune Fille de Pierre
• Watermelon Juice

System Crasher

Helena Zengel em cena de System Crasher, que estava na programação da Mostra Internacional de SP (pic by IMDb)

***

A 32ª cerimônia do European Film Awards acontece no dia 07 de Dezembro.

93 PRODUÇÕES DISPUTAM O OSCAR DE FILME INTERNACIONAL

Alfonso Cuarón, com as três estatuetas que ganhou com Roma, incluindo o último Oscar de Filme em Língua Estrangeira

CATEGORIA QUE MUDOU DE NOME RECEBEU O TOTAL DE 94 INSCRIÇÕES

Sim, a categoria Filme em Língua Estrangeira, criada oficialmente na década de 50, foi rebatizada para Melhor Filme Internacional no último mês de Abril, pois consideraram o termo “Estrangeiro” ultrapassado. Outras mudanças significativas foram da pré-lista de dezembro, que pula de nove para dez filmes pré-selecionados, e pela primeira vez, os votantes poderão assistir aos dez filmes online, sem precisar comparecer às salas de Los Angeles, Nova York ou Londres.

Dos 94 filmes inscritos, logo de cara já houve uma desqualificação do Afeganistão. Havia questionamento de legitimidade do comitê que elegeu o representante do país, portanto foi descartado antes mesmo do anúncio dos oficialmente inscritos.

Em seguida, no dia 04 de Novembro, a Academia anunciou a desqualificação da Nigéria, que havia inscrito um filme na competição pela primeira vez com Lionheart. Segundo o departamento responsável que viu a película, houve uma infração do regulamento que exige língua não-inglesa predominante. Foi constatado que o filme continha apenas onze minutos no idioma estrangeiro. Essa ilegalidade causou revolta na Nigéria e conquistou apoio da cineasta Ava DuVernay.

Em sua conta do Twitter, a diretora de Selma esbravejou:
“Para a Academia, Vocês desqualificaram a primeiríssima inscrição da Nigéria para Melhor Filme Internacional porque está em Inglês. Mas Inglês é a língua oficial da Nigéria. Vocês estão barrando este país para que nunca dispute um Oscar em sua língua oficial?…”

Há duas formas de enxergar a situação. Pelo lado da Academia, regras são regras. Essa que exige predominância de língua não-inglesa existe há décadas. Faltou atenção ao comitê nigeriano ao regulamento da categoria. Já pelo lado da Nigéria, da modernização e do bom senso, a Academia não poderia ter sido mais flexível nessa questão do idioma ao modernizar o nome do prêmio de Filme em Língua Estrangeira para Filme Internacional? Quer dizer, todas as nações que foram colonizadas no passado jamais poderão disputar esse Oscar? Além disso, há algum tempo, é uma raridade vermos produções de um único país. Atualmente, o normal é a realização de co-produções em conjunto com dois ou mais países. Hoje, se um filme co-produzido por três países, apenas um pode selecioná-lo como representante no Oscar.

Não acreditamos que a Academia vá voltar atrás agora nessas questões, contudo os responsáveis do departamento podem estudar o caso para uma próxima cerimônia. Desta forma, permanecerão 92 filmes inscritos, número que mesmo assim iguala o recorde anterior de 2017.  Ainda sobre números, mesmo com a queda da Nigéria, temos 28 diretoras mulheres nessa disputa, um recorde na história da premiação.

COMO ESTÁ A DISPUTA ATÉ O MOMENTO?

Parasita, de Bong Joon-ho

PARASITA (Coréia do Sul) Dir: Bong Joon-ho
Vamos resumir assim: o filme sul-coreano Parasita está trilhando o mesmo caminho de Roma, de Alfonso Cuarón. Além de ter faturado prêmios importantes como a Palma de Ouro em Cannes, vem conquistando toda a crítica e o público de forma unânime, o que leva o filme a ser considerado inclusive para outras categorias como Melhor Filme, Direção, Roteiro Original, Fotografia, Direção de Arte e Ator Coadjuvante. Curiosamente, se concretizada, seria a primeira indicação do país na história do Oscar. Particularmente, sentimos que o Cinema Sul-coreano tem sido injustiçado há duas décadas pelo Oscar. Só para citar alguns filmes que mereciam uma indicação estão Oldboy (2002), Oasis (2002), Memórias de um Assassino (2003), Casa Vazia (2004), Secret Sunshine (2007), Poesia (2010), A Criada (2016) e Em Chamas (2018).

Dor e Glória, de Pedro Almodóvar

DOR E GLÓRIA (Espanha) Dir: Pedro Almodóvar
Quando o filme estava entre os indicados à Palma de Ouro deste ano, havia uma forte especulação de que Pedro Almodóvar ganharia pelo menos o prêmio de Direção ou o Grande Prêmio do Júri, mas acabou ficando apenas com o prêmio de interpretação masculina para Antonio Banderas, que vive o alter-ego do diretor espanhol. Muito querido entre os membros da Academia, o diretor já ganhou duas estatuetas: Filme em Língua Estrangeira por Tudo Sobre Minha Mãe em 2000, e Melhor Roteiro Original por Fale com Ela em 2003. Ao lado do representante sul-coreano, este espanhol está praticamente garantido entre os cinco indicados.

Les Misérables, de Ladj Ly

LES MISÉRABLES (França) Dir: Ladj Ly
Havia uma forte expectativa para que Retrato de uma Jovem em Chamas fosse o representante da França para o Oscar, mas talvez por motivos homofóbicos, o filme cedeu lugar a Les Misérables. Apesar de compartilhar o mesmo título da obra de Victor Hugo e o musical homônimo de 2012, o primeiro filme de Ladj Ly aborda a violência e o preconceito vivido por habitantes dos subúrbios franceses. A produção faturou o mesmo Prêmio do Júri ao lado do brasileiro Bacurau, o que pode facilitar um pouco sua campanha. Ladj Ly é o primeiro diretor negro que representa a França.

Monos, de Alejandro Landes

MONOS (Colômbia) Dir: Alejandro Landes
Para quem acompanha o Oscar, sabe que o cinema colombiano tem se destacado recentemente na premiação como o indicado O Abraço da Serpente (2015) e Pássaros de Verão (2018), que estava na última pré-lista. E pra elevar a ainda mais a campanha de Monos, os diretores mexicanos Alejandro González Iñárritu e Guillermo del Toro esbanjaram rasgaram elogios publicamente ao filme, o que certamente chamará a atenção de outros votantes, especialmente os latinos. Monos, que estava na Mostra Internacional de São Paulo, acompanha oito jovens militantes em um acampamento no alto da montanha. Eles precisam manter uma refém americana (Julianne Nicholson), mas os planos mudam quando eles matam acidentalmente uma vaca que os mantinha no local. Vale ressaltar que o diretor Alejandro Landes é brasileiro, filho de mãe colombiana.

Atlantics, de Mati Diop

ATLANTICS (Senegal) Dir: Mati Diop
A carreira do filme senegalês começou com sua indicação à Palma de Ouro em Cannes. Mati Diop se tornou a primeira mulher negra na competição oficial. Produção da Netflix, o filme aborda uma história de amor com a imigração ilegal como pano de fundo. Trata-se da segunda inscrição do país africano no Oscar, sendo que a primeira, Félicité, esteve entre os nove filmes pré-selecionados de 2018. Seria um reconhecimento para coroar o crescimento do cinema do continente africano, e dar um equilíbrio entre as produções indicadas, que costumam ficar restritas à Europa.

OUTROS EM DESTAQUE

Da esquerda para a direita: Honeyland, Papicha, O Paraíso Deve Ser Aqui, O Menino que Descobriu o Vento, e O Traidor

Honeyland (Macedônia do Norte): Elogiada produção de ficção que se assemelha a um documentário ao narrar a história de uma apicultora tradicional considerada a última da região.

Papicha (Argélia): Passado nos anos 90, acompanha a opressão sofrida por todas as mulheres por terroristas islâmicos, buscando alterar de forma conservadora seus hábitos, suas vestimentas e seus espaços públicos.

O Paraíso Deve Ser Aqui (Palestina): Trata-se de uma comédia autobiográfica do diretor Elia Suleiman que, ao viajar para fora de seu país para encontrar paz, acaba se deparando com os mesmos problemas de racismo e dificuldades sociais nas terras consideradas paraísos como EUA e França.

O Menino que Descobriu o Vento (Reino Unido): Embora tenha poucas chances no Oscar, pode surpreender por dirigido e atuado pelo ator indicado ao Oscar Chiwetel Ejiofor (de 12 Anos de Escravidão) e estar disponível na plataforma da Netflix. O filme narra a história de um menino no Malawi que desenvolve uma turbina de vento em seu vilarejo.

O Traidor (Itália): Além do renome do diretor Marco Bellocchio, o país europeu aposta na fama do mafioso Tommaso Buscetta, que fugiu para o Brasil e para os EUA e delatou a máfia italiana Costa Nostra. A atriz brasileira Maria Fernanda Cândido faz parte do elenco.

E O BRASIL?

A Academia de Cinema Brasileiro enfrentou um duro dilema este ano. Bacurau ou A Vida Invisível? Ambos os filmes haviam sido bem recebidos e premiados no Festival de Cannes. Enquanto o primeiro faturou o Prêmio do Júri (uma espécie de terceiro lugar), o segundo levou o cobiçado prêmio Un Certain Regard. Uma coisa era certa: o representante brasileiro tinha que ser um dos dois, mas qual?

A Vida Invisível, de Karim Ainouz

A presidente da comissão Anna Muylaert acabou desempatando a briga. Cinco votos para A Vida Invisível e quatro para Bacurau. Dentre as justificativas para a escolha, teria pesado a presença de Fernanda Montenegro no elenco, uma vez que ela já foi indicada ao Oscar por Central do Brasil. Além disso, Bacurau pode ser interpretado como uma afronta para o público norte-americano, pois eles são os vilões do filme de Kleber Mendonça Filho que se passa no sertão de Pernambuco. Já A Vida Invisível busca exaltar a força feminina através de suas protagonistas irmãs, algo em voga nas premiações.

Alguns alegam que Bacurau teria sido uma escolha mais ousada e por isso, teria mais chances de ser notado entre os votantes da Academia. Será? Claro que depende muito da campanha de publicidade rumo ao Oscar, que acontece em Fevereiro. Vamos torcer para que Vida Invisível se torne a 5ª indicação do Brasil após a última de Central do Brasil em 1999.

SEGUE LISTA COMPLETA DAS PRODUÇÕES INSCRITAS PARA O OSCAR 2020:

PAÍS FILME DIRETOR(A)(ES)
África do Sul Knuckle City Jahmil X.T. Qubeka
Albânia The Delegation Bujar Alimani
Alemanha System Crasher Nora Fingscheidt
Arábia Saudita The Perfect Candidate Haifaa al-Mansour
Argélia Papicha Mounia Meddour
Argentina Heroic Losers Sebastián Borensztein
Armênia Lengthy Night Edgar Baghdasaryan
Austrália Buoyancy Rodd Rathjen
Áustria Joy Sudabeh Mortezai
Bangladesh Alpha Nasiruddin Yousuff
Bélgica Our Mothers César Díaz
Bielorrússia Debut Anastasiya Miroshnichenko
Bolívia I Miss You Rodrigo Bellott
Bósnia Herzegovina The Son Ines Tanovic
Brasil A Vida Invisível Karim Aïnouz
Bulgária Ága Milko Lazarov
Camboja In the Life of Music Caylee So, Sok Visal
Canadá Antigone Sophie Deraspe
Cazaquistão Kazakh Khanate – Golden Throne Rustem Abdrashev
Chile Spider Andrés Wood
China Ne Zha Jiaozi
Colômbia Monos Alejandro Landes
Coréia do Sul Parasita Bong Joon-ho
Costa Rica The Awakening of the Ants Antonella Sudasassi
Croácia Mali Antonio Nuic
Cuba A Translator Rodrigo Barriuso, Sebastián Barriuso
Dinamarca Queen of Hearts May el-Toukhy
Egito Poisonous Roses Fawzi Saleh
Equador The Longest Night Gabriela Calvache
Eslováquia Let There Be Light Marko Skop
Eslovênia History of Love Sonja Prosenc
Espanha Dor e Glória Pedro Almodóvar
Estônia Truth and Justice Tanel Toom
Etiópia Running Against the Wind Jan Philipp Weyl
Filipinas Verdict Raymund Ribay Gutierrez
Finlândia Stupid Young Heart Selma Vilhunen
França Les Misérables Ladj Ly
Gana Azali Kwabena Gyansah
Geórgia Shindisi Dito Tsintsadze
Grécia When Tomatoes Met Wagner Marianna Economou
Holanda Instinct Halina Reijn
Honduras Blood, Passion and Coffee Carlos Membreño
Hong Kong The White Storm 2 – Drug Lords Herman Yau
Hungria Those Who Remained Barnabás Tóth
Índia Gully Boy Zoya Akhtar
Indonésia Memories of my Body Garin Nugroho
Irã Finding Fariden Kourosh Ataee, Azadeh Moussavi
Irlanda Gaza Garry Keane, Andrew McConnell
Islândia A White, White Day Hlynur Pálmason
Israel Incitement Yaron Zilberman
Itália O Traidor Marco Bellocchio
Japão Weathering With You Makoto Shinkai
Kosovo Zana Antoneta Kastrati
Látvia The Mover Davis Simanis
Líbano 1982 Oualid Mouaness
Lituânia Bridges of Time Kristine Briede, Audrius Stonys
Luxemburgo Tel Aviv on Fire Sameh Zoabi
Macedônia do Norte Honeyland Tamara Kotevska, Ljubomir Stefanov
Malásia M for Malaysia Dian Lee, Ineza Roussille
Marrocos Adam Maryam Touzani
México The Chambermaid Lila Avilés
Mongólia The Steed Erdenebileg Ganbold
Montenegro Neverending Past Andro Martinovic
Nepal Bulbul Binod Paudel
Nigéria Lionheart Genevieve Nnaji
Noruega Out Stealing Horses Hans Petter Moland
Palestina It Must Be Heaven Elia Suleiman
Panamá Everybody Changes Arturo Montenegro
Paquistão Laal Kabootar Kamal Khan
Peru Retablo Alvaro Delgado-Aparicio
Polônia Corpus Christi Jan Komasa
Portugal The Domain Tiago Guedes
Quênia Subira Ravneet Sippy Chadha
Quirguistão Aurora Bekzat Pirmatov
Reino Unido O Menino que Descobriu o Vento Chiwetel Ejiofor
Rep Dominicana The Projectionist José María Cabral
Rep Tcheca The Painted Bird Václav Marhoul
Romênia The Whistlers Corneliu Porumboiu
Rússia Beanpole Kantemir Balagov
Senegal Atlantics Mati Diop
Sérvia King Petar of Serbia Petar Ristovski
Singapura A Land Imagined Yeo Siew Hua
Suécia And Then We Danced Levan Akin
Suíça Wolkenbruch’s Wondrous Journey Into the Arms of a Shiksa Michael Steiner
Tailândia Krasue: Inhuman Kiss Sitisiri Mongkolsiri
Taiwan Dear Ex Mag Hsu, Hsu Chih-yen
Tunísia Dear Son Mohamed Ben Attia
Turquia Commitment Semih Kaplanoglu
Ucrânia Homeward Nariman Aliev
Uruguai The Moneychanger Federico Veiroj
Uzbequistão Hot Bread Umid Khamdamov
Venezuela Being Impossible Patricia Ortega
Vietnã Furie Lê Van Kiêt

A pré-lista com os dez filmes será divulgada no dia 16 de dezembro. O anúncio das indicações ao Oscar estão marcadas para o dia 13 de janeiro.

SUL-COREANO BONG JOON-HO LEVA A PALMA DE OURO EM CANNES POR ‘PARASITE’

O diretor Bong Joon-ho recebe a Palma de Ouro da atriz Catherine Deneuve

CINEMA ASIÁTICO SAI FORTALECIDO PARA A PRÓXIMA TEMPORADA DE PREMIAÇÕES

Apesar de todo o foco em cima do novo filme de Quentin Tarantino, Era Uma Vez em Hollywood, que ingressou na competição na segunda chamada e trouxe os astros Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Margot Robbie, o júri presidido pelo mexicano Alejandro González Iñárritu concedeu a Palma de Ouro para Parasite, a primeira Palma de Ouro para o cinema da Coréia do Sul.

O novo trabalho do diretor de instigantes filmes como Memórias de um Assassino (2003), O Hospedeiro (2006), Mother (2009) e O Expresso do Amanhã (2014) contém elementos de crítica social. Uma família coreana de baixa classe toda desempregada tenta melhorar seu status ao se infiltrar numa casa de ricos. Após a sessão no festival, foi reportado uma salva de palmas de pé por mais de cinco minutos, e sua consagração teria sido decidida de forma unânime.

Cenas de uma família em Parasite.

Esse reconhecimento acaba colocando no mapa não apenas o diretor, mas toda a filmografia do cinema sul-coreano recente, que vem pedindo passagem desde o início dos anos 2000, com diretores aclamados como Park Chan-wook, Lee Chang-dong, Kim Ki-duk e Kim Ji-woon. Oldboy (2003), Em Chamas (2018), Casa Vazia (2004) e Eu Vi o Diabo (2010) são alguns exemplos desse cinema asiático recente, que nunca recebeu uma mísera indicação ao Oscar, provavelmente pelo contexto violento e/ou sexual, mas que com essa Palma de Ouro, pode finalmente entrar na categoria de Filme em Língua Estrangeira da Academia.

O cinema brasileiro também saiu vitorioso do evento. Na verdade, duplamente vitorioso. Além do prêmio Un Certain Regard para A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Karim Aïnouz, Bacurau saiu com o prêmio do júri, compartilhado com Les Misérables. Em sua segunda competição oficial, o diretor pernambucano Kléber Mendonça Filho conquista uma espécie de terceiro lugar do festival. Agora a seleção do Brasil para o Oscar ficou difícil, hein? Vamos ver qual consegue melhor campanha até o mês de outubro, quando deve haver a votação da comissão.

O diretor Kléber Mendonça Filho discursa com seu prêmio do Júri por Bacurau. Pic by G1 Globo

O Grande Prêmio do Júri ficou com Atlantique, filme da diretora franco-senegalesa estreante Mati Diop. Ela narra a história de uma jovem prometida para casamento que se apaixona por um homem que sonha migrar ilegalmente para a Europa. Diop já havia quebrado o tabu ao ser a primeira negra na competição, e agora a primeira premiada.

Bastante emocionada, Mati Diop recebe o Grande Prêmio do Júri

Outra cineasta mulher premiada foi a francesa Céline Sciamma por seu roteiro de Portrait of a Lady on Fire. A história da relação entre uma pintora e a modelo de seu retrato foi bastante elogiada em Cannes, mas acabou ficando apenas com o prêmio de Roteiro.

Já premiados duas vezes com a Palma de Ouro nas décadas passadas, os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne marcaram presença na premiação ao levarem Melhor Direção por O Jovem Ahmed, sobre um jovem árabe que ingressa a radicalização islâmica, e planeja matar seu professor.

Jean-Pierre e Luc Dardenne vencem Melhor Direção por O Jovem Ahmed (pic by Yahoo)

Os prêmios de atuação ficaram com a britânica Emily Beecham por Little Joe, uma espécie de ficção científica com atmosfera de thriller, e com o espanhol Antonio Banderas por interpretar o alter-ego do diretor Pedro Almodóvar em Dor e Glória.

Emily Beecham vence por Little Joe (pic by Yahoo)

Antonio Banderas segura seu prêmio de atuação com Alejandro González Iñárritu (pic by AFP by El Universal)

Iñárritu foi o primeiro latino a presidir o júri de Cannes. Nesta edição, ele contou com a colaboração dos diretores franceses Enki Bilal e Robin Campillo, a atriz americana Elle Fanning, a atriz e diretora senegalesa Maimouna N’Diaye, o diretor grego Yorgos Lanthimos, diretor polonês Paweł Pawlikowski (ambos indicados ao Oscar deste ano), a diretora americana Kelly Reichardt, e a diretora italiana Alice Rohrwacher.

Segue lista completa dos vencedores desta 72a edição:

COMPETIÇÃO

Palma de Ouro: “Parasite,” de Bong Joon-ho

Grande Prêmio do Júri: “Atlantics,” Mati Diop

Direção: Jean-Pierre e Luc Dardenne, “Young Ahmed”

Ator: Antonio Banderas, “Pain and Glory”

Atriz: Emily Beecham, “Little Joe”

Prêmio do Júri — EMPATE: “Les Misérables,” Ladj Ly; “Bacurau,” Kléber Mendonça Filho

Roteiro: Céline Sciamma, “Portrait of a Lady on Fire”

Menção Especial: Elia Suleiman, “It Must Be Heaven”

OUTROS PRÊMIOS

Camera d’Or: “Our Mothers,” Cesar Diaz

Palma de Ouro de Melhor Curta: “The Distance Between the Sky and Us,” Vasilis Kekatos

Menção Especial para Curta: “Monster God,” Agustina San Martin

Prêmio Golden Eye de Documentário: “For Sama”

Prêmio do Júri Ecumênico: “Hidden Life,” Terrence Malick

Queer Palm: “Portrait of a Lady on Fire,”  Céline Sciamma

UN CERTAIN REGARD

Un Certain Regard Award: “The Invisible Life of Eurídice Gusmão,” Karim Aïnouz

Prêmio do Júri: “Fire Will Come,” Oliver Laxe

Direção: Kantemir Balagov, “Beanpole”

Atuação: Chiara Mastroianni, “On a Magical Night”

Roteiro: Meryem Benm’Barek, “Sofia”

Prêmio Especial do Júri: Albert Serra, “Liberté”

Menção Especial do Júri: “Joan of Arc,” Bruno Dumont

Coup de Coeur Award: “A Brother’s Love,” Monia Chokri; “The Climb,” Michael Angelo Covino

DIRECTORS’ FORTNIGHT

Society of Dramatic Authors and Composers Prize: “An Easy Girl,” Rebecca Zlotowski

Europa Cinemas Label: “Alice and the Mayor,” Nicolas Parisier

Illy Short Film Award: “Skip Day” (Patrick Bresnan, Ivete Lucas)

CRITICS’ WEEK

Nespresso Grand Prize: “I Lost My Body,” Jérémy Clapin

Society of Dramatic Authors and Composers Prize: César Díaz, “Our Mothers”

GAN Foundation Award for Distribution: The Jokers Films, French distributor for “Vivarium” by Lorcan Finnegan

Louis Roederer Foundation Rising Star Award: Ingvar E. Sigurðsson, “A White, White Day”

Leitz Cine Discovery Prize for Short Film: “She Runs,” Qiu Yang

Canal Plus Award for Short Film: “Ikki Illa Meint,” Andrias Høgenni

FIPRESCI

Competition: “It Must Be Heaven” (Elia Suleiman)

Un Certain Regard: “Beanpole” (Kantemir Balagov)

Directors’ Fortnight/Critics’ Week: “The Lighthouse” (Robert Eggers)

CINÉFONDATION

First Prize: “Mano a Mano,” Louise Courvoisier

Second Prize: “Hiéu,” Richard Van

Third Prize — TIE: “Ambience,” Wisam Al Jafari; “Duszyczka” (The Little Soul), Barbara Rupik

COM 12 FILMES DIRIGIDOS POR MULHERES, FESTIVAL DE CANNES SE TORNA MAIS INCLUSIVO

Cartaz oficial da 72a edição de Cannes com Agnès Varda na filmagem de seu primeiro longa

THIERRY FREMAUX, PRESIDENTE DO FESTIVAL, OUVIU OS PROTESTOS DE 2018

No ano passado, 82 mulheres, entre elas as atrizes Marion Cotillard, Salma Hayek, Kristen Stewart e Cate Blanchett, caminharam juntas pelo tapete vermelho para protestar contra a baixa representação feminina no evento. “As mulheres não são uma minoria neste mundo, apesar da nossa indústria dizer o contrário. Como mulheres, todas nós encaramos nossos próprios desafios, mas nós nos juntamos aqui nestes degraus como um símbolo de nossa determinação e comprometimento com o progresso”, leram Blanchett e Agnès Varda.

Embora não seja adepto de qualquer cota, os números femininos em Cannes realmente são irrisórios. Em 71 anos de história, foram apenas 82 filmes selecionados para a competição oficial, enquanto masculinos ultrapassam os 1.600. Vale lembrar também que apenas UMA mulher levou a Palma de Ouro, quando Jane Campion conquistou em 1993 com O Piano. Apesar da cadeira de direção ter sido altamente predominada por homens ao longo das décadas, o número de mulheres aumentou consideravelmente desde os anos 90 para cá.

Enfim, o presidente do Festival de Cannes acompanhou o descontentamento feminino e elegeu 4 diretoras para competir pela Palma de Ouro (os filmes estão assinalados com emojis na lista abaixo). Esse número, que representa 21% das 19 produções que estão concorrendo, é o melhor desde 2011. E do total do evento, são 13 diretoras convidadas que representam 12 filmes (um deles é co-dirigido por duas diretoras).

O número feminino pode aumentar caso haja mais mulheres numa pós-seleção que sempre ocorre antes da abertura do festival. Contudo, o filme mais aguardado desta segunda leva talvez seja o novo filme de Quentin Tarantino, Era uma vez em Hollywood, que está em fase final de montagem. Considerando que a carreira de Tarantino deslanchou por causa da Palma de Ouro por Pulp Fiction, ele deve fazer de tudo para conseguir entregar seu novo filme a tempo.

BRASIL DE VOLTA À COMPETIÇÃO OFICIAL

A última vez que o cinema nacional esteve entre os indicados à Palma de Ouro foi há 3 anos, justamente pelo filme anterior de Kléber Mendonça Filho, Aquarius, estrelado por Sônia Braga. Seu novo trabalho , co-dirigido por Juliano Dornelles, Bacurau, ou Nighthawk (título internacional), se passaria no Nordeste onde uma comunidade rural teria desaparecido com a morte de uma nonagenária.

Cena de Bacurau, de Kléber Mendonça Filho (pic by Gazeta Online)

Se antes a equipe do filme protestou contra o impeachment da ex-presidente Dilma Roussef no tapete vermelho (o que acarretou na desclassificação injusta do filme na seleção para o Oscar), imagino que neste ano deva sobrar para Jair Bolsonaro.

Já pela mostra Un Certain Regard, o cineasta Karim Aïnouz volta com A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (Invisible Life). O diretor cearense escalou a dama do teatro, Fernanda Montenegro, para viver Eurídice, que lutou contra o machismo dos anos 50 no Rio de Janeiro.

Cena de A Vida Invisível de Eurídice Gusmão

E A NETFLIX, CANNES?

Este ano é o segundo consecutivo que a plataforma de streaming foi banida da competição oficial por causa dos interesses das redes de cinema na França. Apesar do sucesso de Roma, de Alfonso Cuarón, que deveria ter passado em Cannes, o presidente Fremaux ainda resiste às mudanças.

Essa postura conservadora terá consequências desastrosas nos próximos anos, que muitos lançamentos de streaming migrarão automaticamente para outros festivais como Veneza. The Irishman, próximo filme de Martin Scorsese, que reunirá Robert De Niro e Al Pacino, lançamento de peso da Netflix em 2019, deverá estrear em Veneza, pegando carona para a temporada de premiações em setembro.

DA SELEÇÃO OFICIAL

Cannes continua sendo aquela panelinha de sempre, seja do ponto de vista positivo ou negativo. A seleção deles se apóia na credibilidade dos cineastas, tanto que temos os irmãos Dardenne, Ken Loach, Terrence Malick e até o novo de Pedro Almodóvar, que estreou comercialmente na Espanha. Curiosamente, foi o mesmo Almodóvar que expurgou a Netflix 3 anos, defendendo Cannes quando fora presidente do júri. Coincidência ou troca de amenidades?

Claro que a maioria dos filmes deve ser de boa qualidade, mas chega uma hora que não pra depender apenas dos renomados.

Nos bastidores de Dolor y Gloria, Antonio Banderas claramente interpreta o alter ego de Almodóvar (pic by fotogramas.es)

Lembrando que o presidente do júri deste ano é o mexicano vencedor de 2 Oscars, Alejandro González Iñárritu, fato que pode beneficiar produções de língua latina.

INDICADOS À PALMA DE OURO 2019:

THE DEAD DON’T DIE. Dir: Jim Jarmusch (Filme de Abertura)

ATLANTIQUE. Dir: Mati Diop 🙋🏻‍♀️

BACURAU. Dir: Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles

FRANKIE. Dir: Ira Sachs

A HIDDEN LIFE. Dir: Terrence Malick

IT MUST BE HEAVEN. Dir: Elia Suleiman

LES MISÉRABLES. Dir: Ladj Ly

LITTLE JOE. Dir: Jessica Hausner 🙋🏻‍♀️

MATTHIAS AND MAXIME. Dir: Xavier Dolan

OH MERCY! Dir: Arnaud Desplechin

PAIN & GLORY. Dir: Pedro Almodóvar

PARASITE. Dir: Bong Joon Ho

PORTRAIT OF A LADY ON FIRE. Dir: Céline Sciamma 🙋🏻‍♀️

SIBYL. Dir: Justine Triet 🙋🏻‍♀️

SORRY WE MISSED YOU. Dir: Ken Loach

THE TRAITOR. Dir: Marco Bellocchio

THE WHISTLERS. Dir: Corneliu Porumboiu

THE WILD GOOSE LAKE. Dir: Diao Yi’nan

THE YOUNG AHMED. Dir: Jean-Pierre Dardenne & Luc Dardenne

COMPETIÇÃO UN CERTAIN REGARD

Adam. Dir: Maryam Touzani

Beanpole. Dir: Kantemir Balagov

A Brother’s Love. Dir: Monia Chokri

Bull. Dir: Annie Silverstein

The Climb. Dir: Michael Covino

Evge. Dir: Nariman Aliev

Freedom. Dir: Albert Serra

Vida Invisível. Dir: Karim Aïnouz

Joan of Arc. Dir: Bruno Dumont

Chambre 212. Dir: Christophe Honoré

Papicha. Dir: Mounia Meddour

Port Authority. Dir: Danielle Lessovitz

Summer of Changsha. Dir: Zu Feng

The Swallows of Kabul. Dir: Zabou Breitman & Eléa Gobé Mévellec

A Sun That Never Sets. Dir: Olivier Laxe

Zhuo Ren Mi Mi. Dir: Midi Z

FORA DE COMPETIÇÃO

The Best Years of a Life. Dir: Claude Lelouch

Diego Maradona. Dir: Asif Kapadia

La Belle Époque. Dir: Nicolas Bedos

Rocketman. Dir: Dexter Fletcher

Too Old to Die Young – North of Hollywood, West of Hell. Dir: Nicolas Winding Refn

MIDNIGHT SCREENINGS

The Gangster, the Cop, the Devil. Dir: Lee Won-Tae

SPECIAL SCREENINGS

Family Romance, LLC. Dir: Werner Herzog

For Sama. Dir: Waad Al Kateab, Edward Watts

Que Sea Ley. Dir: Juan Solanas

Share. Dir: Pippa Bianco

To Be Alive and Know It. Dir: Alain Cavalier

Tommaso. Dir: Abel Ferrara

***

O 72o Festival de Cannes começa no dia 14 de Maio e termina no dia 25.

FESTIVAL DE CANNES: GODARD e SPIKE LEE estão de VOLTA pela DISPUTA da PALMA DE OURO

Todos lo Saben.jpg

Penélope Cruz e Javier Bardem em cena de Todos lo Saben, de Asghar Farhadi, que abrirá o Festival de Cannes

SELEÇÃO CONTÉM A PRESENÇA ILUSTRE DE JEAN-LUC GODARD E TRÊS CINEASTAS MULHERES

Olá, pessoal que segue o blog! Após um período de hibernação pós-Oscar, eis que retorno com a divulgação dos filmes selecionados para o Festival de Cannes, que entra em sua 71ª edição, lembrando que a presidente do júri deste ano é a atriz australiana Cate Blanchett.

AINDA SOBRE A NETFLIX

Antes de divagar sobre a seleção em si, gostaria de abrir um breve adendo ainda relacionado à desavença entre Cannes e Netflix, que começou ano passado, quando o então presidente do júri, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, lançou a declaração polêmica de que não premiaria (sem sequer conferir) nenhuma das duas produções da Netflix porque não seriam exibidas na tela grande. Para tentar apaziguar os ânimos, o coordenador de Cannes Thierry Frémaux decidiu que a partir de 2018, os filmes selecionados precisariam necessariamente ser exibidos em salas de cinema.

Após esse destrato, o diretor de conteúdo da Netflix anunciou que ficará de fora do Festival de Cannes este ano. Desse modo, candidatos em potencial como Roma, o novo filme de Alfonso Cuarón, e Norway, de Paul Greengrass, estão descartados. Porém, o problema reside na provável ausência de um dos maiores diretores de todos os tempos: Orson Welles. Sim, aquele mesmo de um tal Cidadão Kane, que é bem cotado pela crítica.

A filha dele, Beatrice Welles, finalizou o último trabalho do pai intitulado The Other Side of the Wind (O Outro Lado do Vento, em tradução livre), que foi filmado na década de 70, mas devido a problemas financeiros teve enormes dificuldades de ser lançado. Até que em 2017, a Netflix comprou os direitos e se comprometeu a fazer um grande lançamento, que seria em Cannes. E agora? Através de um e-mail, Beatrice fez um apelo ao coordenador de Cannes para reconsiderar a respeito da inclusão de produções da plataforma de streaming:

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Da esquerda para a direita: John Huston, Orson Welles e Peter Bogdanovich em set de The Other Side of the Wind.

 

“Fiquei bem chateada e preocupada em ler nos jornais a respeito do conflito com o Festival de Cannes. Tenho que falar pelo meu pai. Eu vi como as grandes companhias de produção destruíram sua vida, seu trabalho, e ao fazê-lo, um pouco do homem que amei tanto. Eu odiaria muito ver a Netflix ser mais uma dessas companhias.”

DISSECANDO A SELEÇÃO

Deixando um pouco a polêmica Arte vs. Distribuição de lado, a seleção de Cannes deste ano apresenta algumas peculiaridades. Dos 18 filmes que competem pela Palma de Ouro, temos apenas dois filmes norte-americanos: BlacKKKlansman, de Spike Lee, e Under the Silver Lake, de David Robert Mitchell, diretor do ótimo Corrente do Mal. Spike Lee não disputava a Palma de Ouro desde 1991 por Febre da Selva, formando um hiato de 27 anos. Com a baixa aderência de americanos, o tapete vermelho não será tão glamoroso com as ausências das celebridades hollywoodianas, mas acredito que este era o objetivo do festival: atrair mais qualidade e menos glamour.

Este ano, temos três filmes dirigidos por mulheres: Eva Husson, Nadine Labacki e Alice Rohrwacher. Embora não tenha alcançado o recorde de 2011, quando houve quatro mulheres, essa porcentagem feminina tem se elevado desde 2000. Sobre o assunto, o Frémaux deu a seguinte declaração: “Em Cannes, nunca teremos uma seleção baseada em uma discriminação positiva em relação às mulheres. Há uma diferença entre as mulheres cineastas e o movimento Me Too.”  Claro que Cannes, assim como o Oscar, pode dar uma força ao olhar com mais carinho os filmes dirigidos por mulheres, mas não são obrigados a selecioná-los pensando meramente no politicamente correto. Além disso, novamente eles elegeram uma presidente mulher com o intuito de lançar um olhar feminino na competição e quem sabe possibilitar uma segunda Palma de Ouro para uma cineasta (a primeira foi para Jane Campion e seu belo O Piano em 1993).

Dois dos diretores em competição estão presos em seus respectivos países: o iraniano Jafar Panahi, e o ucraniano Kirill Serebrennikov. Frémaux tentará apelar aos governos desses países para liberá-los e apresentar seus trabalhos na França, mas acredito que não conseguirá, pois os artistas podem pedir exílio político em território estrangeiro.

Ao contrário dos anos anteriores, a seleção deste ano não está recheada de nomes conhecidos dos festivais internacionais. Temos aqui o mestre francês Jean-Luc Godard com Le Livre d’Image, mas a maioria é composta por nomes internacionais emergentes como o polonês Pawel Pawlikowski (que venceu o Oscar por Ida em 2015), o italiano Matteo Garrone (conhecido pelo polêmico Gomorra) e o chinês Jia Zhang-Ke (conhecido por O Mundo e As Montanhas se Separam).

Por motivos desconhecidos, muitos nomes frequentes de Cannes estão ausentes (pelo menos até o momento, já que deve haver a inclusão de mais dois ou três filmes ainda) como Naomi Kawase, Jacques Audiard, Xavier Dolan, Nuri Bilge Ceylan e Olivier Assayas. Existe a possibilidade de seus trabalhos não terem conseguido finalizar a tempo do prazo do festival, mas também uma decisão de apostar em novos talentos.

Entre os nomes por hora excluídos, mas que podem surgir ainda, está o dinamarquês Lars von Trier, aquele mesmo que foi banido do festival em 2011 por ter feito comentários de teor nazista e defendido Hitler. Ele tem um filme bastante polêmico a ser lançado este ano: The House that Jack Built, no qual Matt Dillon interpreta um serial killer que mata mais de 12 pessoas e consegue ocultar os corpos. Alguns comentários de pessoas que já teriam visto alegam que existem fortes cenas de brutalidade e violência. Outros excluídos bastante citados são os britânicos Mike Leigh, que tem o drama histórico Peterloo, e Terry Gilliam com seu eterno The Man Who Killed Don Quixote, que não teria sido selecionado por legais.

SESSÕES ESPECIAIS

Vale lembrar que haverá pelo menos uma sessão de 2001: Uma Odisséia no Espaço em homenagem aos 50 anos de seu lançamento em 1968. O diretor britânico Christopher Nolan, bastante fã do filme, será host desta sessão. Esperamos que essa empolgação chegue a alguma sala aqui no Brasil, já que a ficção científica de Kubrick merece ser visto na tela grande e com som de ótima qualidade.

Ainda sobre homenagens, o diretor brasileiro Cacá Diegues terá seu novo filme exibido fora de competição. O Grande Circo Místico, sobre uma família austríaca que mantém um circo, estrelado por Jesuíta Barbosa, Bruna Linzmeyer e Antônio Fagundes, terá sessão especial no festival. Cacá Diegues já competiu pela Palma de Ouro em três oportunidades com Bye Bye Brasil (1980), Quilombo (1984) e Um Trem Para as Estrelas (1987), mas nunca levou.

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Jesuíta Barbosa e Bruna Linzmeyer em cena de O Grande Circo Místico, de Cacá Diegues

E importante citar que outro cineasta brasileiro estará presente em Cannes. Joe Penna, nascido em São Paulo, residente nos EUA, que ficou conhecido por seu canal no YouTube, realizou seu primeiro longa-metragem intitulado Arctic, sobre um homem aguardando resgate no Ártico. Logo em seu projeto de estréia, conseguiu a presença marcante do ótimo Mads Mikkelsen, conhecido por viver Hannibal Lecter na série de TV, e que venceu o prêmio de Ator em Cannes pelo ótimo A Caça.

arctic.jpg

Cena de Arctic, de Joe Penna, estrelado por Madds Mikkelsen

INDICADOS À PALMA DE OURO:

  • Everybody Knows – FILME DE ABERTURA
    Dir: Asghar Farhadi
  • En Guerre (At War)
    Dir: Stephane Brize
  • Dogman
    Dir: Matteo Garrone
  • Le Livre d’Image
    Dir: Jean-Luc Godard
  • Netemo Sametemo (Asako I & II)
    Dir: Ryusuke Hamaguchi
  • Plaire Aimer et Courir Vite (Sorry Angel)
    Dir: Christophe Honore
  • Les Filles du Soleil (Girls of the Sun)
    Dir: Eva Husson
  • Ash Is Purest White
    Dir: Jia Zhang-Ke
  • Shoplifters
    Dir: Kore-Eda Hirokazu
  • Capharnaum
    Dir: Nadine Labaki
  • Buh-Ning (Burning)
    Dir: Lee Chang-Dong
  • BlacKKKlansman
    Dir: Spike Lee
  • Under the Silver Lake
    Dir: David Robert Mitchell
  • Three Faces
    Dir: Jafar Panahi
  • Zimna Wojna (Cold War)
    Dir: Pawel Pawlikowski
  • Lazzaro Felice
    Dir: Alice Rohrwacher
  • Yomeddine
    Dir: A.B. Shawky
  • Leto
    Dir: Kirill Serebrennikov

FORA DE COMPETIÇÃO

  • Solo: A Star Wars Story
    Dir: Ron Howard
  • Le Grand Bain
    Dir: Gilles Lelouche

SESSÕES ESPECIAIS

  • 10 Years in Thailand
    Dir: Aditya Assarat, Wisit Sasanatieng, Chulayarnon Sriphol e Apichatpong Weerasthakul
  • The State Against Mandela and the Others
    Dir: Nicolas Champeaux e Gilles Porte
  • O Grande Circo Místico (The Great Mystical Circus)
    Dir: Carlos Diegues
  • La Traversee
    Dir: Romain Goupil
  • A Touts Vents (To the Four Winds)
    Dir: Michel Toesca
  • Les Ames Mortes (Dead Souls)
    Dir: Wang Bing
  • Pope Francis – A Man of His Word
    Dir: Wim Wenders

MIDNIGHT SCREENINGS

  • Arctic
    Dir: Joe Penna
  • Gongjak (The Spy Gone North)
    Dir: Yoon Jong-Bing

UN CERTAIN REGARD

  • Grans (Border)
    Dir: Ali Abbasi
  • Sofia
    Dir: Meyem Benm’Barek
  • Les Chatouilles (Little Tickles)
    Dir: Andrea Bescond & Eric Metayer
  • Long Day’s Journey Into Night
    Dir: Bi Gan
  • Manto
    Dir: Nandita Das
  • A Genoux les Gars (Sextape)
    Dir: Antoine Desrosieres
  • Girl
    Dir: Lukas Dhont
  • Guele d’Ange (Angel Face)
    Dir: Vanessa Filho
  • Euphoria
    Dir: Valeria Golino
  • Mon Tissu Prefere (My Favorite Fabric)
    Dir: Gaya Jiji
  • Rafiki (Friend)
    Dir: Wanuri Kahiu
  • Die Stropers (The Harvesters)
    Dir: Etienne Kallos
  • In My Room
    Dir: Ulrich Kohler
  • El Angel
    Dir: Luis Ortega
  • The Gentle Indifference of the World
    Dir: Adilkhan Yerzhanov

***

O Festival de Cannes se inicia no dia 8 de Maio e termina no dia 19, quando devem ser anunciados os vencedores eleitos pelo júri.

NOVE FILMES AVANÇAM para o OSCAR de FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA. Mais uma vez, BRASIL não se classifica

 

 

EXCLUSÃO MAIS SENTIDA É A DO FRANCÊS 120 BATIMENTOS POR MINUTO

A Academia revelou os nove filmes que se classificaram para a lista prévia que disputará as cinco vagas na categoria de Filme em Língua Estrangeira. Lembrando que houve novo recorde este ano com 92 produções internacionais inscritas.

Pra quem não conhece o sistema de votação, os votantes que comprovaram que viram TODOS os 92 filmes (na grande maioria, idosos que têm o tempo livre pra isso) elegem seis semi-finalistas, enquanto um comitê especial  formado por vinte pessoas elege os outros três. Esse comitê foi criado depois que filmes relevantes como o romeno 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu, e o mexicano Luz Silenciosa, de Carlos Reygadas, ficaram de fora da seleção do Oscar de 2008, causando revolta entre cinéfilos e cineastas. Normalmente, esses três filmes foram bem no circuito internacional de festivais e tem uma temática mais ousada.

Seguem os nove semi-finalistas, sendo os assinalados em vermelho minhas deduções da escolha do comitê:

UMA MULHER FANTÁSTICA (UNA MUJER FANTÁSTICA)
Dir: Sebastián Lelio – CHILE

EM PEDAÇOS (IN THE FADE)
Dir: Fatih Akin – ALEMANHA

ON BODY AND SOUL
Dir: Ildikó Enyedi – HUNGRIA

FOXTROT
Dir: Samuel Maoz – ISRAEL

THE INSULT
Dir: Ziad Doueiri – LÍBANO

LOVELESS
Dir: Andrey Zvyagintsev – RÚSSIA

FÉLICITÉ
Dir: Alain Gomis – SENEGAL

THE WOUND
Dir: John Trengove – ÁFRICA DO SUL

THE SQUARE
Dir: Ruben Östlund – SUÉCIA

JUSTIFICATIVAS

Apesar das mudanças recorrentes na Academia, principalmente com a inclusão de vários membros internacionais novos, a categoria de Filme em Língua Estrangeira ainda pena demais para eleger as melhores produções do ano. Já comentei aqui e ainda insisto: deveriam elevar o número de indicados para dez filmes, sendo cinco escolhidos pelos votantes idosos, e cinco pelo comitê, porque se depender apenas dos votantes idosos, teríamos apenas filmes de temática religiosa, preferencialmente com cenário da Segunda Guerra Mundial, campos de concentração, Holocausto e sofrimento em geral.

UMA MULHER FANTÁSTICA. O representante chileno tem como protagonista uma transsexual, interpretada por Daniela Vega. Quando seu namorado mais velho morre, ela precisa enfrentar o preconceito da família dele a fim de sofrer luto como uma mulher. Como todos sabem, pessoas idosas e mais conservadoras têm aversão a qualquer coisa relacionada à sexualidade, principalmente se for LGBT. Ponto pro comitê especial.

LOVELESS. O representante russo pode já ter sido indicado ao Oscar em 2015 com o ótimo drama social Leviatã, mas seu novo filme não parece destinado aos conservadores. Loveless tem uma sinopse normal: o desaparecimento de um menino em meio às brigas de seus pais , porém ele é pesado, denso e com desdobramentos que fazem o espectador pensar sobre aborto, individualidade e imaturidade. Seu formato e ritmo não é dos que costuma agradar os velhinhos. Ponto pro comitê especial.

THE SQUARE. Além de vencer a Palma de Ouro em Cannes, sob a batuta do presidente do júri, Pedro Almodóvar, o representante sueco tem comédia de humor negro em sua receita, algo não muito bem digerido por conservadores, que podem não entender a piada. O comitê certamente levou a carreira internacional bem-sucedida do filme em conta, além da frustração do diretor Ruben Ostlund quando soube que seu filme anterior, Força Maior, não havia sido indicado ao Oscar (segue link do vídeo):

EXCLUÍDOS NOTÓRIOS

120 Batimentos Por Minuto (França)

Dessas três seleções do comitê, se fossem quatro, certamente o filme de Robin Campillo estaria entre os nove. A produção que trata do movimento ativista que pede ajuda do governo e da indústria farmacêutica para combater a epidemia do vírus da Aids nos anos 90 vinha colecionando prêmios (como o Grande Prêmio do Júri em Cannes e os prêmios de Filme Estrangeiro no LAFCA e NYFCC) e indicações relevantes como no Critics’ Choice Awards. Se este filme sobre o universo LGBT não pode participar do Oscar, espera-se que Me Chame Pelo Seu Nome possa vingar nas categorias principais.

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EXCLUÍDO: 120 Batimentos Por Minuto, de Robin Campillo

First They Killed My Father (Camboja)

O representante do Camboja tinha como maior trunfo Angelina Jolie. Em sua quarta incursão como diretora, ela optou por recontar os horrores vividos por uma ativista de direitos humanos quando o país era dominado pelo regime do Khmer Vermelho. Como o mundo inteiro já sabe, Jolie tem forte apelo humanista através de suas ações como ativista, e esse filme consegue unir suas duas paixões. Honestamente, acreditava que sua indicação nesta categoria seria garantida, inclusive pensando numa possível indicação na categoria de Direção. Mas pelo visto, a produção da Netflix não agradou os votantes, mesmo havendo muito sofrimento na tela.

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EXCLUÍDO: First They Killed my Father, de Angelina Jolie

Bingo: O Rei das Manhãs (Brasil)

Faltou uma carreira internacional para o filme de estréia de Daniel Rezende. Apesar do personagem Bozo ser americano e internacional, faltou presença mais marcante em festivais ao redor do mundo que pudesse proporcionar maior notoriedade. O último indicado brasileiro ao Oscar, Central do Brasil, venceu o Urso de Ouro no festival alemão de Berlim. Aí fica a pergunta: Se Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky, tivesse sido selecionado, o Brasil estaria nessa lista pelo menos? Nunca saberemos! O último filme brasileiro que conseguiu passar para esta pré-lista foi O Ano em que meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger, em 2007. Também faz tempo…

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EXCLUÍDO: Bingo: O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende

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Os cinco filmes indicados serão revelados no dia 23 de janeiro.

Cannes & Almodóvar vs. Netflix & TILDA SWINTON!

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Equipe do filme Okja, da Netflix, no Festival de Cannes. No centro, o diretor Bong Joon-ho ao lado da atriz Tilda Swinton e Jake Gyllenhaal. Pic by AFP.com

EM SEGUNDO DIA DO FESTIVAL, NETFLIX CAUSA GRANDE ALVOROÇO

Sim, tá rolando uma treta em Cannes! E a musa Tilda Swinton calou a boca do povo! Por isso venho aqui pra compartilhar com vocês não apenas a treta, mas toda uma discussão sobre o futuro do cinema como o conhecemos hoje.

Vamos pela cronologia dos fatos:

1 – NETFLIX NA SELEÇÃO OFICIAL DE CANNES

Dentre os indicados à Palma de Ouro, havia duas produções de streaming da Netflix competindo pela primeira vez na história do evento: The Meyerowitz Stories, de Noah Baumbach; e Okja, do sul-coreano Bong Joon-ho.

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Cena do filme Okja, de Bong Joon-ho. Pic by cine.gr

2 – INCÔMODO ENTRE OS DISTRIBUIDORES DE CINEMA NA FRANÇA

Como se trata de um festival bastante tradicional, obviamente que os inúmeros distribuidores de cinema não gostaram nem um pouco do início da invasão da Netflix em Cannes, já que as produções não serão exibidas nas salas de cinema comercialmente, apenas pela plataforma da própria Netflix. Mais do que deixar de lucrar, os distribuidores estão enfurecidos com a possibilidade da profissão se tornar obsoleta num futuro não muito distante.

3 – OS ORGANIZADORES TOMAM PROVIDÊNCIAS

Com a insatisfação dos distribuidores no ouvido, os organizadores se viram obrigados a tomar providências para agradar gregos e troianos. Assim, passou a exigir que os filmes de streaming sejam exibidos em salas de cinema para que possam competir a partir de 2018.

4 – NETFLIX REAGE COM SENSATEZ

Depois de sofrer retaliações, a Netflix poderia reclamar ou se espernear, mas tem ciência do ótimo impacto de ter produções selecionadas e por isso, anunciou que está estudando a possibilidade de lançar seus filmes em algumas salas selecionadas.

5 – ALMODÓVAR USUFRUI DE SUA AUTORIDADE

Como presidente do júri deste ano, o cineasta Pedro Almodóvar, resolveu fazer declaração sobre o assunto, mas de forma intimidatória: “Não concederei não apenas a Palma de Ouro, mas qualquer outro prêmio para um filme que não poderei ver na tela grande”. Embora o júri seja formado por outros artistas como os atores Will Smith, Jessica Chastain, Fan Bingbing, e os cineastas Paolo Sorrentino, Park Chan-wook, Maren Ade e Agnès Jaoui, além do compositor Gabriel Yared, o presidente sempre tem a palavra final, portanto, existe forte possibilidade desses dois filmes da Netflix saírem de mãos abanando apenas por causa de seu formato.

Jury Press Conference - The 70th Annual Cannes Film Festival

À direita, o presidente do júri Pedro Almodóvar em coletiva de imprensa. Pic by The Upcoming

6 – TILDA SWINTON CALA A BOCA DE ALMODÓVAR

Durante a conferência do filme em Cannes, a atriz do filme Okja, a britânica Tilda Swinton, rebateu a declaração do presidente do júri Pedro Almodóvar: “NÃO VIEMOS AQUI PELOS PRÊMIOS”. Cadê aquela musiquinha do “Turn down for what” com os óculos escuros pra Tilda Swinton???

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Tilda Swinton responde às perguntas dos jornalistas em coletiva de Okja em Cannes. Ao fundo, Jake Gyllenhaal. (pic by thestar.com)

ADENDO: A EXIBIÇÃO DE ‘OKJA’ EM CANNES

Depois de toda essa discussão, até parece que sabotaram a exibição do longa Okja! Após alguns minutos de exibição, o filme foi interrompido por problemas técnicos. Alguns membros da imprensa estrangeira aproveitaram para vaiar, mas o diretor Bong Joon-ho soube ter jogo de cintura após o término da sessão, quando disse: “Fiquei feliz pelos problemas técnicos. Assim vocês tiveram a oportunidade de ver duas vezes a sequência de abertura!”.

ANÁLISE PERTINENTE EM RELAÇÃO AO FUTURO DO CINEMA

Bom, mas tirando a sarrafada da Tilda Swinton, o que é necessário entender aqui é que a Netflix é o FUTURO. Simples. Para quem acompanha cinema, sabe que houve uma queda significativa de conteúdo nas salas de exibição. Os estúdios não querem mais arriscar em novas idéias, e preferem ficar limitados a adaptações de quadrinhos, refilmagens e sequências, pois as chances de prejuízo são praticamente inexistentes. Claro que não estou criticando esses filmes de estúdio (eu mesmo sou fã dos filmes da Marvel), mas cinema não deve ficar restrito a essas produções. Cinema é uma arte que precisa sempre se reinventar para poder sobreviver.

E a Netflix está providenciando isso. Há pouco tempo, eles deixaram de ser uma mera plataforma de exibição para produzir conteúdo. Começaram com as séries de TV , que logo conquistaram o grande público como as pioneiras House of Cards e Orange is the New Black, e agora estão fazendo grandes contratos com diretores renomados e renegados do cinema como os já citados Bong Joon-ho e Noah Baumbach. Esses mesmos diretores sabem que estão perdendo espaço nas salas de cinema e por isso, estão buscando alternativas para produzirem seus filmes. Vale lembrar que recentemente o diretor David Lynch anunciou sua aposentadoria de filmes, concentrando seus esforços na série Twin Peaks. Quem sabe ele não consegue retornar com a ajuda da Netflix também?

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Tela da Netflix com destaque para a série House of Cards, sucesso absoluto de crítica e público. 

Quando o Festival de Cannes impõe restrições à Netflix, ele está adiando o futuro. Mesmo sendo cinéfilo que gosta de frequentar salas de cinema, não dá pra simplesmente ignorar uma plataforma tão promissora. Logo de cara, já desbancou as locadoras do mundo todo, e agora a tendência é aposentar as salas de cinema.

ÉPOCA DE TRANSIÇÃO

Embora a Netflix seja o futuro, ele não vem da noite para o dia. É necessário um período de adaptação do público e até mesmo da crítica. Acredito que o ideal nesse caso seja que a Netflix inicialmente disponibilize seus filmes em salas selecionadas de cinema, e que retire suas produções dos cinemas gradativamente. Hoje, podem lançar um filme para 200 salas nos EUA. Daqui a 6 meses, 150 salas, e assim sucessivamente. E o público que vai decidir isso. Se hoje pagam bem pra assistir mega-produções da Disney nos cinemas, eles podem elevar os números positivos das produções de streaming.

Voltando ao discurso do Almodóvar, ele lança sua opinião para que possamos refletir sobre essas mudanças. “Plataformas digitais são um novo meio de oferecer trabalho, o que é interessante e positivo. Mas elas não devem tomar o lugar de formatos existentes. Elas não deveriam mudar os hábitos dos espectadores. Essa é a grande questão do debate.”, declarou o diretor.

Realmente, assistir a um filme na tela grande do cinema é uma experiência de outro nível. A tela grande consegue aprimorar a experiência de ver um filme, e até mesmo melhorar a qualidade daquele filme meio capenga. É verdade. E tem uma questão primordial nesse modo de assistir a um filme: a concentração do espectador. Na sala de cinema, além da imagem e áudio de qualidades, existe o foco. Não há interrupções de telefone, barulho ou mesmo de distrações dentro da sala de cinema, que certamente existem em casa. Então, nesse sentido, o Almodóvar tem razão.

Mas pra ele, que já é um cineasta de renome que frequenta os festivais e sempre tem público nos cinemas, é mais fácil condenar a Netflix. Mas e praquele diretor em começo de carreira? Ou mesmo praquele que foi esquecido pelos grandes estúdios como o já citado David Lynch? Hoje, eles têm duas alternativas: Ou imploram por financiamento por leis de incentivo ou eles cedem para o streaming que vai produzir os filmes e vão oferecer para milhões de espectadores via plataforma.

O próprio diretor Bong Joon-ho ressaltou sua experiência de ter trabalhado com a Netflix: “Eu amei ter trabalhado com a Netflix. Eles me deram muito apoio. O orçamento para este filme foi considerável. Dar esse tipo de orçamento para um diretor não é muito comum.” A Netflix concedeu 50 milhões de dólares para a produção de Okja. Uma boa grana para quem teve astros como Tilda Swinton, Jake Gyllenhaal, Lily Collins e Paul Dano, sem contar com os efeitos especiais.

Enfim, fechando a discussão, nada desse debate todo justifica Pedro Almodóvar fechar as portas para as duas produções por causa da plataforma! Por isso, adorei Tilda Swinton, que ressaltou o privilégio de estar em Cannes, e de lembrar que o real intuito do filme é ser visto e passar sua mensagem. Os prêmios são mera consequência.

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A 70ª edição do Festival de Cannes termina dia 28 de maio, quando serão anunciados os vencedores.

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