Começando bem 2014: indicados ao DGA, PGA e WGA

Que tal menos filmes em 3D em 2014? (photo by

Que tal menos filmes em 3D em 2014? (photo by http://www.dailyfinance.com)

Ooooiii, pessoal! Feliz Ano Novo pra todos! Chego de volta a São Paulo e vejo uma caixa de entrada de e-mail abarrotada de mensagens de premiações e indicações louquinhas pra serem abertas e discutidas. Ao contrário do que fiz em outros anos, vou juntar tudo em apenas um post, porque estou no espírito de férias ainda! Não, não… brincadeirinha! Com uma safra tão rica de produções, é interessante ver as escolhas de três sindicatos que apontam os grandes favoritos ao Oscar.

DGA images

Dentre eles, o mais acertivo continua sendo o DGA (Directors Guild of America). Em apenas sete (!) vezes, o vencedor não coincidiu com o vencedor do Oscar de direção. Até o ano passado, quando Ben Affleck ficou estranhamente de fora da categoria, o último vencedor do DGA que não repetiu a façanha no Oscar foi Rob Marshall (Chicago) em 2003! Este ano, o páreo estava duríssimo. Não tinha como não deixar de lado alguns nomes consagrados. Assim, Alexander Payne (Nebraska), Spike Jonze (Ela) e Joel e Ethan Coen (Inside Llewyn Davis) foram eliminados por um nariz de diferença. Confira os selecionados:

DIRECTORS GUILD AWARDS

AlfonsoCuaron.ashxAlfonso Cuarón (Gravidade)
O diretor mexicano é um ótimo exemplo de como um profissional estrangeiro consegue atingir maturidade na indústria americana. Cuarón sempre primou por sua marca imagética. Seja um filme poético como A Princesinha, um blockbuster (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban), um road movie pós-moderno (E Sua Mãe Também) ou criando um novo marco tecnológico (Gravidade), o diretor de fotografia e colaborador assíduo, Emmanuel Lubezki, foi sempre fundamental em sua escrita. Seria uma grata surpresa uma dupla vitória neste Oscar: direção para Cuarón e o merecidíssimo de fotografia para Lubezki.

Paul Greengrass (Capitão Phillips)PaulGreengrass.ashx
Descoberto pelo ótimo drama Domingo Sangrento, que lhe rendeu o Urso de Ouro em 2002, o britânico Greengrass criou um nicho no cinema contemporâneo no qual ele pode trabalhar a linguagem documental numa ficção, gerando uma veracidade que espanta e emociona o público. Ele conseguiu essa proeza em Vôo United 93 na recriação do atentado terrorista do 11 de setembro e nesse episódio de pirataria moderna de Capitão Phillips, criando uma tensão interminável. Também emprestou seu estilo à série de ação e espionagem de Jason Bourne em A Supremacia Bourne e O Ultimato Bourne, que obrigou os produtores de James Bond a repensar a criação de Ian Fleming.

Steve McQueen (12 Anos de Escravidão)SteveMcQueen.ashx
Artista plástico premiado, este diretor britânico, que compartilha o mesmo nome artístico do ator Steve McQueen, está em extrema ascensão em apenas seu terceiro longa. Como bom entendedor do poder da imagem para uma história, ele busca aqueles enquadramentos que possam dizer algo sobre o filme que vemos. Em Shame, por exemplo, ele usa e abusa das linhas urbanas do cenário para contar um pouco mais sobre o personagem viciado em sexo numa cidade que ostenta a civilidade. Sendo um negro e com um filme sobre escravidão na manga, Steve McQueen corre na frente, afinal, eles adorariam a manchete: “O primeiro diretor afro-americano a ganhar um Oscar”. Sinceramente, espero que ele ganhe por méritos profissionais, e não raciais, pois trata-se de uma voz singular no cinema contemporâneo.

David O. Russell (Trapaça)DavidORussell.ashx
“Há um parafuso faltando aqui”, pensava eu ao falar de David O. Russell, na época em que vi Três Reis (1999) e Huckabees: A Vida é uma Comédia (2004). Não que isso seja ruim. Muito pelo contrário! Ele tinha um senso de humor bastante incomum que me atraía, mas eu sentia que ele não conseguiria decolar em Hollywood apenas com aquilo. Felizmente, nosso David O. Russell amadureceu seu cinema e nos entregou ótimos filmes como os recentes O Vencedor (2010) e O Lado Bom da Vida (2012). De longe, concordo, são filmes que você não dá nada. Não tem uma grandiosidade de um gladiador ou um grande navio afundando, mas ele explora tão bem a humanidade das histórias simples que fica impossível não lhe dar crédito. Além disso, tem se tornado um dos melhores diretores de atores dos últimos anos. Já conquistou sete indicações e três Oscars de atuação de seus elencos: Melissa Leo, Christian Bale e Jennifer Lawrence. Tem tudo pra conquistar mais com Trapaça e pode se tornar a grande surpresa da categoria.

scorsesewolf.ashxMartin Scorsese (O Lobo de Wall Street)
O que dizer de Marty? Nem posso dizer que ele é como vinho, que fica melhor a cada ano, pois também dirigiu obras-primas como Taxi Driver (1976) e Touro Indomável (1980) no passado. Mas definitivamente não existe diretor mais apaixonado por Cinema do que Scorsese. Isso já estava provado nas incontáveis entrevistas e no apoio às restaurações de películas antigas e perdidas no tempo. Ele comprovou essa paixão numa tocante homenagem à Sétima Arte e a Georges Méliès em A Invenção de Hugo Cabret. Talvez a polêmica sobre sexo e drogas de O Lobo de Wall Street atrapalhe na conquista de mais uma indicação ao Oscar, mas se ele está nesta lista, não acredito que seja favorecimento nenhum. Martin Scorsese cria filmes atemporais.

Ainda está cedo para previsões de vitória, mas até o momento, Alfonso Cuarón e Steve McQueen dividem a ponta, com David O. Russell cheirando o cangote deles logo atrás. E o vencedor tem 99% de vitória no Oscar, pois não creio em duas exceções consecutivas na história do DGA.

PGA headerJá o sindicato de Produtores teve uma tarefa mais fácil. Ou pelo menos, menos árdua do que o DGA, afinal poderiam selecionar 10 produções. Contudo, com uma grande variedade de candidatos de boa qualidade, dez vagas também não deram conta de tudo.

Vale destacar a importante marca para a produtora Megan Ellison (da Annapurna Pictures). Ela foi a única a conquistar duas indicações com Trapaça e Ela. Megan poderia ter conquistado três, mas Foxcatcher foi adiado para 2014. No ano passado, ela produziu dois filmes de qualidade e que ainda geraram discussão acalorada na mídia e na temporada de premiações: O Mestre e A Hora Mais Escura. Numa Hollywood dominada por produtores covardes e que só pensam em lucro, a presença de Megan Ellison me enche de esperança. Claro que ninguém é de ferro. Ela vai produzir o reboot de uma nova trilogia de O Exterminador do Futuro, que começa em 2015. Mas mesmo assim, acredito que ela não fará apenas pelas bilheterias. Guardem o nome dela, pois mais conquistas importantes estão por vir.

A produtora Megan Ellison (à dir) ao lado da diretora Kathryn Bigelow e da bela atriz Jessica Chastain na festa do Globo de Ouro 2013. (photo by www.vanityfair.com)

A produtora Megan Ellison (à dir) ao lado da diretora Kathryn Bigelow e da bela atriz Jessica Chastain na festa do Globo de Ouro 2013. (photo by http://www.vanityfair.com)

MELHORES PRODUTORES – LONGAS-METRAGENS

Trapaça (American Hustle)
Blue Jasmine (idem)
Capitão Phillips (Captain Phillips)
Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club)
Gravidade (Gravity)
Ela (Her)
Nebraska
Walt nos Bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks)
12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave)
O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street)

Em 2011, o PGA decidiu estender seus indicados para 10 fixos, o que não ocorre no Oscar, onde pode haver de 5 a 10. Vale ressaltar também o alto índice de acertos de vencedores em relação à Academia. Em seus 24 aninhos de existência, o PGA elegeu 17 vezes o vencedor de Melhor Filme no Oscar, incluindo os recentes Argo e O Artista. A última divergência ocorreu em 2007, quando Pequena Miss Sunshine perdeu para Os Infiltrados.

Para a edição de 2014, as ausências mais sentidas foram Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum e Fruitvale Station: A Última Parada pela alta participação nas últimas listas de críticos. Mas vale citar também Álbum de Família, All is Lost e Philomena, que conseguiu uma indicação ao Globo de Ouro.

Dentre os 10 candidatos, Trapaça, 12 Anos de Escravidão e Gravidade largam na frente, mas Ela pode roubar o show sem grandes dificuldades por ser querido pela crítica. Por outro lado, se pensarmos em bilheteria, Gravidade tem todas as cartas por ter faturado mais de 600 milhões de dólares mundo afora, muito longe dos 208 milhões do segundo lugar Capitão Phillips. No Oscar, eu ainda acho que Gravidade deverá se concentrar nos prêmios mais técnicos como fotografia, montagem e som.

Gravidade: no páreo para o DGA e PGA (photo by www.beyondhollywood.com)

Gravidade: no páreo para o DGA e PGA (photo by http://www.beyondhollywood.com)

MELHORES PRODUTORES – ANIMAÇÕES

Os Croods (The Croods)
Meu Malvado Favorito 2 (Despicable Me 2)
Reino Escondido (Epic)
Frozen: Uma Aventura Congelante (Frozen)
Universidade Monstros (Monsters University)

Sem um dos grandes favoritos fora do páreo por não pertencer ao sindicato americano, a animação japonesa Vidas ao Vento, de Hayao Miyazaki, a categoria conta apenas com produções de grandes estúdios como Disney, Pixar, Dreamworks e Universal. Porém, essa ausência não deve reduzir as chances de Miyazaki conseguir sua segunda estatueta do Oscar. Ainda não conferi Frozen, mas premiaria Os Croods pela alta abrangência de público-alvo de sua história de uma família das cavernas se adaptando às mudanças na Terra.

Os Croods: caminho mais livre para o PGA (photo by www.beyondhollywood.com)

Os Croods: caminho mais livre para o PGA (photo by http://www.beyondhollywood.com)

MELHORES PRODUTORES – DOCUMENTÁRIOS

A Place at the Table
Far Out Isn’t Far Enough
Life According to Sam
We Steal Secrets: The Story of WikiLeaks
Which Way is the Front Line From Here? The Life and Time of Tim Hetherington

Com o documentário História que Contamos, de Sarah Polley, fora da competição, o grande favorito fica sendo We Steal Secrets, que aborda a história do WikiLeaks do exilado Julian Assange. Conta muito a favor ter o diretor Alex Gibney, de Um Táxi Para a Escuridão, que ganhou o Oscar em 2008. Infelizmente, não há previsão de estréia no Brasil para a maioria dos documentários, o que dificulta a análise dessa categoria.

Julian Assange no documentário de Alex Gibney (photo by www.elfilm.com)

Julian Assange no documentário de Alex Gibney (photo by http://www.elfilm.com)

Dos três sindicatos, o WGA é o menos badalado. Mas não porque se trataria de um prêmio menor, mas suas regras inviabilizam indicações de trabalhos pertinentes. Como os demais prêmios, ele exige a filiação do profissional ao sindicato, mas também a exigência da produção do filme sob a sua jurisdição, o que implica em mais regras que eliminam bons candidatos.

Desse modo, as estatísticas de acerto são bem menores. Os excluídos pela regra deste ano incluem: John Ridley (12 Anos de Escravidão), Steve Coogan e Jeff Pope (Philomena), Ryan Coogler (Fruitvale Station: A Última Parada), Peter Morgan (Rush: No Limite da Emoção) e Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix (Azul é a Cor Mais Quente). Já os trabalhos originais incluem: Alfonso Cuarón e Jonas Cuarón (Gravidade), Joel e Ethan Coen (Inside Llewyn Davis), Kelly Marcel e Sue Smith (Walt nos Bastidores de Mary Poppins) e Jason Reitman (Refém da Paixão).

Claro que se levarmos em consideração que a Academia também premia roteiros desclassificados pela WGA, essas exclusões não pesariam tanto na temporada. Só para citar um exemplo, o roteiro de Quentin Tarantino para Django Livre foi cortado da WGA, mas ganhou o Oscar.

ROTEIRO ORIGINAL

Eric Singer, David O. Russell (Trapaça)
Woody Allen (Blue Jasmine)
Craig Borten, Melisa Wallack (Clube de Compras Dallas)
Spike Jonze (Ela)
Bob Nelson (Nebraska)

ROTEIRO ADAPTADO

Tracy Letts (Álbum de Família)
Richard Linklater, Ethan Hawke, Julie Delpy (Antes da Meia-Noite)
Billy Ray (Capitão Phillips)
Peter Berg (O Grande Herói)
Terence Winter (O Lobo de Wall Street)

O diretor e roteirista Richard Linklater entre os atores e roteiristas Julie Delpy e Ethan Hawke no set de Antes da Meia-Noite (photo by www.elfilm.com)

O diretor e roteirista Richard Linklater entre os atores e roteiristas Julie Delpy e Ethan Hawke no set de Antes da Meia-Noite (photo by http://www.elfilm.com)

ROTEIRO DE DOCUMENTÁRIO

David Riker, Jeremy Scahill (Guerras Sujas)
Sara Lukinson, Michael Stevens (Herblock: The Black & the White)
Janet Tobias, Paul Laikin (No Place on Earth)
Sarah Polley (Histórias que Contamos)
Alex Gibney (We Steal Secrets: The Story of WikiLeaks)

Indicados ao BAFTA Rising Star de 2014 (photo by www.empireonline.com)

Indicados ao BAFTA Rising Star de 2014, do topo da esquerda à direita: Dane DeHaan, Lupita Nyong’o, Léa Seydoux, Will Poulter e George MacKay (photo by http://www.empireonline.com)

Também gostaria de aproveitar o post para divulgar os indicados ao Rising Star do BAFTA, concedido a um ator ou atriz revelação que se destacou no ano. Vencedores recentes incluem Juno Temple, Tom Hardy e Kristen Stewart. Porém, vale lembrar que os vencedores são eleitos pelo público, o que quase sempre resulta em vitória injusta. Talentos como Michael Fassbender, Carey Mulligan e Alicia Vikander já concorreram, mas perderam em edições anteriores. Particularmente, tenho certa aversão às escolhas do público como no MTV Movie Awards. Se dependesse dos votos na internet, os melhores filmes de todos os tempos seriam Star Wars e O Senhor dos Anéis para toda a eternidade…

Dane DeHaan
George MacKay
Lupita Nyong’o
Will Poulter
Léa Seydoux

* Fique atento às datas: O PGA divulga seus vencedores no dia 19 de janeiro. O DGA no dia 25, enquanto o WGA fica para o dia 1º de fevereiro.

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‘Argo’ resiste e vence o Oscar de Melhor Filme

O produtor e diretor Ben Affleck agradece seu Oscar, que tenta compensar sua ausência na lista de diretores (photo by dawn.com)

O produtor e diretor Ben Affleck agradece seu Oscar, que tenta compensar sua ausência na lista de diretores (photo by dawn.com)

Argo leva Melhor Filme. Ang Lee rouba o Oscar de direção. E Steven Spielberg tem seu primeiro ator vencedor do Oscar, o terceiro de Daniel Day-Lewis. A premiação do Oscar 2013 buscou ser o mais democrática possível, talvez na tentativa de compensar as ausências dos diretores Ben Affleck e Kathryn Bigelow numa noite de poucas surpresas.

Na tapete vermelho, as celebridades apostaram na simplicidade. Novamente a mais bem vestida é a atriz Jessica Chastain, desta vez num belo Giorgio Armani.

Novamente, Jessica Chastain se tornou a mais bem vestida no tapete vermelho. Trajado em Giorgio Armani, ela acerta no cabelo e no batom vermelho (photo by http://www.redcarpet-fashionawards.com/page/6/)

Novamente, Jessica Chastain se tornou a mais bem vestida no tapete vermelho. Trajado em Giorgio Armani, ela acerta no cabelo e no batom vermelho (photo by http://www.redcarpet-fashionawards.com/page/6/)

Mesmo não sendo uma indicada, Charlize Theron ainda fica no segundo lugar com seu vestido Dior (photo by http://www.redcarpet-fashionawards.com/page/5/)

Mesmo não sendo uma indicada, Charlize Theron ainda fica no segundo lugar com seu vestido Dior (photo by http://www.redcarpet-fashionawards.com/page/5/)

Em terceiro lugar, Jennifer Lawrence abusa um pouco também com Dior, mas ela pode (photo by http://www.redcarpet-fashionawards.com/page/5/)

Em terceiro lugar, Jennifer Lawrence abusa um pouco também com Dior, mas ela pode (photo by http://www.redcarpet-fashionawards.com/page/5/)

Com menção honrosa, incluo a modelo Miranda Kerr. Apesar do vestido Valentino estar um pouco longe de ser um dos melhores, ela valoriza a roupa na Vanity Fair party (photo by http://www.gotceleb.com)

Com menção honrosa, incluo a modelo Miranda Kerr. Apesar do vestido Valentino estar um pouco longe de ser um dos melhores, ela valoriza a roupa na Vanity Fair party (photo by http://www.gotceleb.com)

Mesmo seu usar sua arma mais poderosa, o comediante Seth MacFarlane conseguiu criar momentos de bom humor. Assim que entra, ele solta um “Senhoras e senhores, bem-vindos ao Oscar… E a busca para fazer Tommy Lee Jones rir começa, agora!”. Quando cortam para o ator, ele sorri!

Ele inicia seu monólogo com alfinetadas na própria Academia. Ele explica que Argo é baseado numa missão secreta da CIA no Irã. “O filme é tão secreto que até o diretor é desconhecido pela Academia”. (Ben Affleck se mostra pouco confortável pelos aplausos). Eles sabem que erraram”. E depois parte para as celebridades com forte sarcasmo: “Ganhar um Oscar garante uma longa carreira. Jean Dujardin ganhou ano passado e agora ele está em todo lugar”. E ao elogiar a profundidade do método de Daniel Day-Lewis, ele pergunta: “O que aconteceria se, durante as filmagens, ele visse um celular? Ou se visse Don Cheadle no estúdio, ele tentaria libertá-lo?”

Quando o telão desce, vemos William Shatner como o Capitão Kirk de Jornada nas Estrelas. No papel, ele avisa a Seth MacFarlane que viajou do futuro para tentar impedir um desastre, mostrando a manchete do jornal do dia seguinte: “Seth MacFarlane: Pior Host do Oscar de todos os tempos.” Supostamente ele teria cantado a canção “We Saw Your Boobs” (Nós vimos seus peitos):

“Helen Hunt, we saw them in The Sessions, Scarlett Johansson we saw them on your phone
Jessica Chastain we saw your boobs in Lawless, Jodie Foster in The Accused….
and Kate Winslet in Heavenly Creatures, and Jude, and Hamlet, and Titantic, and Iris, and Little Children and the Reader and whatever you’re shooting right now, we saw your boobs!” (Haja pesquisa de tantos peitos em filmes!)

Seth MacFarlane durante apresentação do Oscar (photo by thehothits.com)

Seth MacFarlane durante apresentação do Oscar (photo by thehothits.com)

Tentando reverter o futuro desastroso, MacFarlane tenta animar com música e dança, mas só melhora com a encenação do filme O Vôo com meias com olhos. Na cena do avião virando, inserem uma gravação de um monte de meias numa secadora.

Ele ainda soltaria outra pérola depois da apresentação do clipe de Lincoln. “Daniel Day-Lewis é o segundo ator a ser indicado por interpretar Lincoln. Contudo, eu diria que o ator que realmente entrou na cabeça de Lincoln foi John Wilkes Booth” (ele atirou no presidente durante peça de teatro). Depois que a platéia vaia, ele completa: “Sério? 150 anos e ainda é muito cedo, hein? Eu tenho umas piadas de Napoleão, vocês vão ficar malucos”.

Ok. Resultados do Oscar. 18 acertos de 24. Este foi meu bolão de 2013. Confesso que apostei em algumas surpresas, mas elas não vieram: David O. Russell como diretor e Robert De Niro como coadjuvante.

Se fosse apontar apenas uma surpresa do Oscar, esta seria Melhor Maquiagem para Os Miseráveis. Foi tamanha surpresa que até a maquiadora se surpreendeu. Ela foi vestida com uma calça legging rosa (e devia estar até descalça na hora do anúncio do vencedor) e com um visual “estou atrasada mas cheguei”. O musical ainda levou Melhor Som e Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway, cujo discurso ficou muito politicamente correto, agradecendo às demais concorrentes.

Ang Lee com seu segundo Oscar de direção por As Aventuras de Pi (photo by digitalspy.com)

Ang Lee com seu segundo Oscar de direção por As Aventuras de Pi (photo by digitalspy.com)

A segunda surpresa ficaria com Ang Lee vencendo Melhor Diretor pela segunda vez (depois de O Segredo de Brokeback Mountain). Com as ausências de Ben Affleck e Kathryn Bigelow, a categoria ficou confusa e qualquer um poderia vencer. Muitos apontavam Steven Spielberg como favorito, mas como ele já tem 2 estatuetas e Lincoln é um filme de época quadrado, o desafio vencido por Ang Lee de realizar o tal “infilmável” projeto de As Aventuras de Pi prevaleceu na hora da votação. Este é seu segundo Oscar de direção, tendo vencido o primeiro pelo drama O Segredo de Brokeback Mountain em 2006.

Seu filme se tornou o recordista de prêmios da noite com 4: Melhor Diretor, Fotografia, Trilha Musical Original e Efeitos Visuais. Essas vitórias mais técnicas evidenciam maior privilégio de produções em que o 3D se sobressai. No caso de Fotografia, outros dois trabalhos de 3D foram recentemente premiados: Mauro Fiore por Avatar e Robert Richardson por A Invenção de Hugo Cabret.

Apesar de ter ganhado 4 estatuetas, As Aventuras de Pi viu sentado Argo levar Melhor Filme, terminando a noite com mais dois Oscars: Montagem e Roteiro Original. O filme de Ben Affleck havia ganhado todos os prêmios da indústria como o PGA, DGA e o Globo de Ouro, e não poderia ficar sem seu Oscar. Por um momento, por causa da presença da primeira-dama Michelle Obama no telão, imaginei que Lincoln poderia surpreender, já que se trata da vida de um ex-presidente dos EUA, mas felizmente, Argo prevaleceu. É o mais novo vencedor de Melhor Filme sem ter seu diretor sequer indicado.

Ao vivo da Casa Branca, Michelle Obama elogia o Cinema e apresenta o vencedor do Oscar de Melhor Filme (photo by Hollywoodreporter.com)

Ao vivo da Casa Branca, Michelle Obama elogia o Cinema e apresenta o vencedor do Oscar de Melhor Filme (photo by Hollywoodreporter.com)

Subiram ao palco os produtores George Clooney, Grant Heslov e Ben Affleck. Este último foi bastante humilde em seu discurso, elogiando Spielberg como gênio e que qualquer um dos outros oito filmes indicados poderiam estar recebendo tal honraria. O diretor reconheceu seu passado imaturo como ator, relembrando quando esteve no Oscar 15 anos atrás ao receber Melhor Roteiro Original por Gênio Indomável, pensando que nunca mais voltaria. Mas agradeceu as oportunidades que muitas pessoas presentes na cerimônia lhe deram para poder aprender e evoluir como profissional.

Ben Affleck ostenta seu segundo Oscar, mas desta vez como produtor por Argo (photo by bostinno.com)

Ben Affleck ostenta seu segundo Oscar, mas desta vez como produtor por Argo (photo by bostinno.com)

Ainda no campo da surpresa, a mais surpreendente em termos técnicos foi o empate inédito na categoria de Efeitos Sonoros, que ficou entre A Hora Mais Escura e 007 – Operação Skyfall. Este é o quarto empate na História do Oscar: O primeiro aconteceu em 1932, quando Fredric March (O Médico e o Monstro) e Wallace Beery (O Campeão) venceram como Melhor Ator, o segundo foi em 1969: Katharine Hepburn (O Leão no Inverno) e Barbra Streisand (Funny Girl – A Garota Genial) empataram como Melhor Atriz, e o terceiro foi Melhor Curta-Metragem de 1994, quando os trabalhos Franz Kafka’s It’s a Wonderful Life e Trevor dividiram a honraria.

E o Oscar de Efeitos Sonoros vai para: Paul N.J. Ottosson por A Hora Mais Escura... (photo by thespec.com)

E o Oscar de Efeitos Sonoros vai para: Paul N.J. Ottosson por A Hora Mais Escura… (photo by thespec.com)

...e Per Hallberg e Karen M. Baker por 007 - Operação Skyfall também (photo by muckrack.com)

…e Per Hallberg e Karen M. Baker por 007 – Operação Skyfall também (photo by muckrack.com)

Aliás, a atriz e cantora Barbra Streisand subiu ao palco para cantar o sucesso “The Way We Were” de Nosso Amor de Ontem (1973) em homenagem ao recém-falecido compositor Marvin Hamslich, com quem também trabalhou na canção “I’ve Finally Found Someone” de O Espelho Tem Duas Faces, de 1996.

Incluindo a performance musical de Streisand, o Oscar 2013 dedicou bastante de seu tempo no ar para os musicais. A homenagem cansativa apresentou canções dos filmes Chicago, Dreamgirls – Em Busca de um Sonho e Os Miseráveis. Ainda no âmbito da música, Norah Jones cantou a simpática canção indicada de Ted: “Everybody Needs a Best Friend”, enquanto a cantora Shirley Bassey fez sua primeira apresentação no Oscar, cantando a clássica “Goldfinger”. Mesmo sem o mesmo vigor, aos 76 anos, a diva ainda impressiona pelas cordas vocais. Curiosamente, apesar do estrondoso sucesso, a canção sequer foi indicada ao Oscar na época. Sua performance no Oscar salvou a homenagem chocha aos 50 anos de James Bond com um clipe com trechos de vários filmes do espião.

A diva Dame Shirley Bassey em sua primeira apresentação no Oscar aos 76 anos (photo by oglobo.globo.com)

A diva Dame Shirley Bassey em sua primeira apresentação no Oscar aos 76 anos (photo by oglobo.globo.com)

Obviamente, ficou faltando também a indispensável presença dos seis atores (todos vivos) que deram vida ao personagem de Ian Fleming no palco: Sean Connery, George Lazenby, Roger Moore, Timothy Dalton, Pierce Brosnan e Daniel Craig. Talvez os produtores tentaram, mas como Connery ainda guarda rancores idiotas dos produtores da série, a homenagem terminou enxuta. Uma pena.

Já a merecida vitória de “Skyfall” como Melhor Canção Original coroou uma das melhores cantoras em atividade, Adele, homenageou o sucesso das canções-tema de James Bond e se tornou a primeira canção oscarizada da franquia de 23 filmes. Em sua primeira apresentação no Oscar, Adele não sentiu a pressão e cantou belamente com ótimos back vocals.

Adele em ótima performance de "Skyfall"... (photo by huffingtonpost.com)

Adele em ótima performance de “Skyfall”… (photo at huffingtonpost.com by Getty Images)

Adele com seu primeiro Oscar e o primeiro da franquia 007 (photo by digitalspy.com)

Adele com seu primeiro Oscar e o primeiro da franquia 007 (photo by digitalspy.com)

A vitória de Lincoln na categoria de Direção de Arte também não deixa de ser uma surpresa. Enquanto todos apostavam em Anna Karenina e Os Miseráveis, este Oscar acabou sendo uma espécie de compensação pelas inúmeras derrotas para Spielberg. A recriação dos cenários dos EUA de 1865 impressiona, mas está longe de encher os olhos como o trabalho de Sarah Greenwood de Anna Karenina.

Já nas categorias de atuação, não houve nenhuma surpresa. Acreditava que haveria pelo menos uma e que estaria em Melhor Ator Coadjuvante, mas não foi desta vez que Robert De Niro levou seu terceiro Oscar. Christoph Waltz subiu pela segunda vez em 3 anos pra receber seu segundo Oscar de coadjuvante (o primeiro foi por Bastardos Inglórios). A vitória de Waltz serviu como representante de todo o elenco: Jamie Foxx, Leonardo DiCaprio e Samuel L. Jackson, juntamente com o prêmio de Roteiro Original, serviu para comprovar que Quentin Tarantino é um dos melhores roteiristas em atividade.

Daniel Day-Lewis se tornou o primeiro a receber 3 Oscars de Melhor Ator. Além dessa importante conquista, trata-se do primeiro Oscar de uma atuação sob o comando de Steven Spielberg. Ao receber o prêmio, o ator diz: “É uma coisa estranha porque três anos atrás, na verdade eu havia me comprometido a interpretar Margaret Thatcher e Meryl (Streep) foi a primeira escolha de Steven (Spielberg) para Lincoln, e eu queria ver essa versão”. Em agradecimento à sua mulher, Rebecca Miller, ele continua: “Desde que nos casamos há 16 anos, minha esposa Rebecca viveu com alguns homens muito estranhos. Eles eram estranhos como indivíduos e talvez ainda mais estranhos quando estavam em grupo. Por sorte, ela é bem versátil e tem sido a perfeita companhia para todos eles”.

Daniel Day-Lewis recebe o Oscar de Meryl Streep e entra para a História (photo by usatoday.com)

Daniel Day-Lewis recebe o Oscar de Meryl Streep e entra para a História (photo by usatoday.com)

Apesar dos dois Oscars, Lincoln foi um dos grandes perdedores da noite (venceu 2 em 12 indicações). Se o filme não tivesse naufragado, o prêmio de Ator poderia ter ido para Joaquin Phoenix por sua explosiva interpretação em O Mestre.

Na ala feminina, a jovem Jennifer Lawrence confirmou seu favoritismo por O Lado Bom da Vida. Apesar da gafe de ter caído nas escadas do palco, ela recebeu aplausos de pé da platéia: “Vocês estão de pé porque se sentiram mal por eu ter caído e isso é embaraçoso, mas obrigada”. Em seu discurso, ela desejou feliz aniversário para Emmanuelle Riva, que completa 86 anos. Espero muito que este Oscar não desande sua carreira como atriz em ascensão, mesmo que já tenha engatilhado bons projetos como Serena e a sequência de Jogos Vorazes. Jennifer Lawrence se tornou a segunda atriz mais jovem a vencer nessa categoria aos 22 anos (Marlee Matlin permanece na 1ª posição aos 21, por Filhos do Silêncio).

Também em sua segunda indicação, Jessica Chastain perdeu por A Hora Mais Escura (que teve que se contentar com o Oscar de Efeitos Sonoros), mas ainda tem muito tempo para conseguir seu reconhecimento. Sua versatilidade mais do que comprovada já atrai os olhares de diretores consagrados e ela deve retornar ao Oscar até 2015 pelo filme dirigido por Liv Ullman, Miss Julie.

Jennifer Lawrence é traída pelo seu vestido e cai nos degraus para receber seu Oscar. (photo by popwatch.ew.com)

Jennifer Lawrence é traída pelo seu vestido e cai nos degraus para receber seu Oscar. (photo by popwatch.ew.com)

Não concordei com a vitória do filme da Pixar, Valente, na categoria de Melhor Animação. Reconheço a qualidade técnica, tanto do design como da própria animação do cabelo ruivo enrolado da protagonista, mas em termos de história, trata-se de um típico roteiro da velha Disney, muito semelhante a Irmão Urso, lançado em 2003. Para uma produtora que prioriza a qualidade dos roteiros de seus filmes, a Pixar falhou em Valente e por isso, não deveria ser premiada. Embora o roteiro de Frankenweenie seja uma espécie de colagem de homenagens e baseado em seu curta-metragem dos anos 80, Tim Burton merecia o Oscar.

Uma das melhores coisas desse Oscar foi a forma como eles expulsavam os vencedores com seus discursos chatos e longos do palco: a trilha de Tubarão crescia ao fundo até cortarem o áudio do microfone. A tática deu certo: os discursos ficaram mais curtos e um ou outro vencedor ficou bem nervoso nos agradecimentos, como o roteirista Chris Terrio de Argo.

Outra novidade foi a escalação de seis estudantes de cinema nos EUA para ajudar na entrega dos prêmios. A atitude se mostra bastante nobre e coerente, mas confesso que senti falta das trophy girls. Não sei… elas tinham um “algo a mais”! Espero que esta tenha sido apenas uma exceção à regra!

Uma dos seis estudantes de Cinema aguarda o anúncio do vencedor para entrar com a estatueta (photo by latimes.com)

Uma dos seis estudantes de Cinema aguarda o anúncio do vencedor para entrar com a estatueta (photo by latimes.com)

Apesar de não ter muita relevância, vale destacar aqui a estranheza da atriz Renée Zellwegger. No começo da cerimônia, ela já tinha uma aparência bastante anêmica, não só pela ausência total de maquiagem e cabelo desarrumado, mas pela palidez. Ao entrar no palco para apresentar os Oscars de Trilha Musical e Canção ao lado dos atores Richard Gere, Queen Latifah e Catherine Zeta-Jones, ela estava nitidamente zonza e parecia se esforçar para manter-se em pé. Além disso, não sei se Zellwegger está filmando algo no momento, mas ela fica bem melhor mais cheinha como a Bridget Jones.

Na foto não parece tanto, mas Renée Zellwegger estava sob efeito de narcóticos (photo by arts.nationalpost.com)

Na foto não parece tanto, mas Renée Zellwegger estava sob efeito de narcóticos (photo by arts.nationalpost.com)

Finalizando, o balanço geral do Oscar 2013:

4 Oscars: As Aventuras de Pi

3 Oscars: Argo/ Os Miseráveis

2 Oscars: Lincoln/ Django Livre/ 007 – Operação Skyfall

1 Oscar: O Lado Bom da Vida/ Amor/ Anna Karenina/ A Hora Mais Escura/ Valente/ Searching for Sugar Man

Confira lista dos vencedores:

MELHOR FILME
ARGO (ARGO)

MELHOR DIRETOR
Ang Lee (As Aventuras de Pi)

MELHOR ATOR
Daniel Day-Lewis (Lincoln)

MELHOR ATRIZ
Jennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christoph Waltz (Django Livre)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Anne Hathaway (Os Miseráveis)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Quentin Tarantino (Django Livre)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Chris Terrio (Argo)

MELHOR FOTOGRAFIA
Claudio Miranda (As Aventuras de Pi)

MELHOR MONTAGEM
William Goldenberg (Argo)

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
Rick Carter e Jim Erickson (Lincoln)

MELHOR FIGURINO
Jacqueline Durran (Anna Karenina)

MELHOR MAQUIAGEM
• Lisa Westcott, Julie Dartnell (Os Miseráveis)

MELHOR TRILHA MUSICAL ORIGINAL
Mychael Danna (As Aventuras de Pi)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Skyfall”, de Adele Adkins e Paul Epworth (007 – Operação Skyfall)

MELHOR SOM
Andy Nelson, Mark Paterson, Simon Hayes (Os Miseráveis)

MELHORES EFEITOS SONOROS (Empate)
Per Hallberg, Karen M. Baker (007 – Operação Skyfall)
Paul N.J.Ottosson (A Hora Mais Escura)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Bill Westenhofer, Gillaume Rocheron, Erik De Boer, Donald Elliott (As Aventuras de Pi)

MELHOR ANIMAÇÃO
Valente (Brave), de Mark Andrews e Brenda Chapman

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Amor, de Michael Haneke (Áustria)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Searching for Sugar Man, de Malik Benjelloul e Simon Chinn

MELHOR DOCUMENTÁRIO CURTA
Inocente, de Sean Fine e Andrea Nix

MELHOR CURTA-METRAGEM
Curfew, de Shawn Christensen

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO
Paperman
, de John Kahrs

Christoph Waltz recebe seu segundo Oscar de coadjuvante sob a direção de Quentin Tarantino (photo by movies.yahoo.com)

Christoph Waltz recebe seu segundo Oscar de coadjuvante sob a direção de Quentin Tarantino (photo by movies.yahoo.com)

‘Anna Karenina’, ‘As Aventuras de Pi’ e ‘007 – Operação Skyfall’ vencem o Art Directors Guild 2013

Logo do Art Directors Guild (photo by cinema7arte.com)

Logo do Art Directors Guild (photo by cinema7arte.com)

A premiação do Art Directors Guild de cinema se divide em três categorias: Filme de Época, Filme de Fantasia e Filme Contemporâneo. Em cerca de 70%, os vencedores de Filme de Época também levam o Oscar. Casos mais recentes são A Invenção de Hugo Cabret e O Curioso Caso de Benjamin Button.

Assim como no Costume Designers Guild (sindicato de figurinistas), que também premia essas três categorias, por razões óbvias de pesquisa e precisão, os filmes de época chamam mais a atenção para o público. Quando esses trabalhos têm extrema importância para a trama e as personagens, como foi no caso de Memórias de uma Gueixa, os responsáveis se tornam automaticamente franco-favoritos ao prêmio da Academia.

Na categoria de filme de época deste ano, a adaptação do romance homônimo de Leo Tolstoy foi a grande vitoriosa. Em sua quinta colaboração com o diretor Joe Wright (sendo a terceira de época), a designer de produção Sarah Greenwood realiza um belíssimo trabalho de recriação da arquitetura da alta sociedade da Rússia do século XIX. Apesar do filme em si não ter sido indicado aos prêmios principais como Melhor Filme, Anna Karenina eleva suas chances no Oscar, uma vez que seus concorrentes já foram batidos no Art Directors Guild. E esta é a quarta indicação de Sarah Greenwood, mas sem vitórias até o momento.

Trabalho detalhado de Sarah Greenwood demonstra a supremacia dos filmes de época atuais (photo by BeyondHollywood.com)

Trabalho detalhado de Sarah Greenwood em Anna Karenina demonstra a supremacia dos filmes de época atuais (photo by BeyondHollywood.com)

Já entre os filmes de fantasia, o novo filme de Ang Lee, que arrebatou 11 indicações ao Oscar, levou a melhor. A produção de David Gropman e Anna Pinnock de As Aventuras de Pi não se limita ao bote salva-vidas. Existe a arquitetura da Índia (da escola ao parque botânico), a piscina que o tio de Pi se deslumbra, a grande embarcação que naufraga e a plantação nativa da ilha dos lêmures. Como o filme foi o vice-recordista de indicações, talvez a Academia compense uma eventual derrota nas categorias principais com esse reconhecimento mais técnico. Gropman fora indicado anteriormente por Regras da Vida em 2000, mas nunca levou o Oscar.

O lar do tigre Richard Parker na visão de David Gropman e Ang Lee em As Aventuras de Pi (photo by OutNow.CH)

O lar do tigre Richard Parker na visão de David Gropman e Ang Lee em As Aventuras de Pi (photo by OutNow.CH)

Na categoria de Filmes Contemporâneos, a 23ª aventura do agente secreto britânico James Bond saiu com o prêmio. 007 – Operação Skyfall conta com a experiência de Dennis Gassner, que já realizou grandes trabalhos em Bugsy (pelo qual ganhou seu único Oscar), Estrada Para Perdição e A Bússola de Ouro. Desta vez, trouxe de volta o glamour de cenários de 007 como a sequência do cassino em Taiwan, a mansão Skyfall na Escócia e os túneis subterrâneos do novo MI6. Particularmente, também aprecio aquela ilha deserta e abandonada que serve como esconderijo do vilão Silva. Há algumas esculturas de pedra quebradas que dão um certo charme ao local. Deveria ser indicado, mas como são apenas cinco finalistas, filmes de época e fantasia largam na frente.

Dennis Gassner cria um cassino luxuoso em Taiwan em 007 - Operação Skyfall (photo by OutNow.CH)

Dennis Gassner cria um cassino luxuoso em Taiwan em 007 – Operação Skyfall (photo by OutNow.CH)

Curiosamente, para apresentar o prêmio especial da noite para os diretores de arte da franquia de James Bond, chamaram a Bond Girl Janes Seymour de 007 – Viva e Deixe Morrer. Ela entregou o Cinematic Imagery Award para Sir Ken Adam, Allen Cameron, Peter Lamont e Dennis Gassner. Lamont e Gassner estavam presentes e aceitaram o prêmio em nome dos demais. Pena que Ken Adam não estava presente, pois ele se tornou o grande realizador da arquitetura dos esconderijos dos vilões clássicos de Bond. Só para citar alguns: o complexo nuclear de Dr. No e o falso Fort Knox em 007 Contra Goldfinger. Grande parte do sucesso da adaptação da obra do escritor Ian Fleming para o cinema se deve ao seu trabalho de gênio.

O complexo secreto do primeiro vilão de 007, Dr. No (photo by OutNow.CH)

O complexo secreto do primeiro vilão de 007, Dr. No (photo by OutNow.CH)

Também houve um prêmio pelo conjunto da obra para Herman Zimmerman, responsável pelo design de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração (Star Trek: Next Generation) e mais seis filmes da franquia. Em um vídeo de agradecimento, ele revela: “nunca senti que ser um diretor de arte fosse um trabalho. Muitas horas, mas era muito diversão.”

Seguem indicados e vencedores de 2013:

FILME CONTEMPORÂNEO

• Dennis Gassner (007 – Operação Skyfall)

– Jeremy Hindle (A Hora Mais Escura)

– Nelson Coates (O Vôo)

– Alan MacDonald (O Exótico Hotel Marigold)

– Eugenio Caballero (O Impossível)

FILME DE ÉPOCA

– Sharon Seymour (Argo)

– Eve Stewart (Os Miseráveis)

– Rick Carter (Lincoln)

– J. Michael Riva (Django Livre)

• Sarah Greenwood (Anna Karenina)

FILME DE FANTASIA

– Arthur Max (Prometheus)

• David Gropman (As Aventuras de Pi)

– Nathan Crowley e Kevin Kavanaugh (Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge)

– Hugh Bateup e Uli Hanisch (A Viagem)

– Dan Hennah (O Hobbit: Uma Jornada Inesperada)

Indicados ao Producers Guild e Writers Guild 2013

Adoro quando crianças prestam atenção aos filmes! Não, esta é uma criança holandesa... (Foto por Robin Utrecht/EFE)

Adoro quando crianças prestam atenção aos filmes! Não, esta é uma criança holandesa… (Foto por Robin Utrecht/EFE)

Primeiramente, Feliz Ano Novo para todos! Happy New Year for everyone! Que 2013 seja infinitamente superior ao ano passado, especialmente na parte financeira, na qualidade crítica dos filmes em cartaz e na educação e bom senso dos frequentadores das salas de cinema! Bom, dito isso, vamos aos negócios!

Mal o ano começou e os sindicatos dos produtores e dos escritores divulgaram a lista de indicados ao prêmio. Em relação ao primeiro, em condições normais, os filmes presentes nessa lista costumam ter meio caminho andado para uma vaga na categoria Melhor Filme no Oscar.

O Producers Guild Awards já premia as produções fílmicas desde 1990. Seguindo as estatísticas, o reconhecimento serve como um bom parâmetro: dos 23 filmes premiados, 16 levaram o Oscar de Melhor Filme.

Curiosamente, os vencedores dos últimos cinco anos, repetiram o feito no Oscar: Onde os Fracos Não Têm Vez, Quem Quer Ser um Milionário?, Guerra ao Terror, O Discurso do Rei, e O Artista. Tudo leva a crer que o vencedor deste ano sairá com as duas estatuetas.

Segue a lista dos dez indicados ao PGA:

– Argo (Argo)

– Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild)

– Django Livre (Django Unchained)

– Os Miseráveis (Les Misérables)

– As Aventuras de Pi (Life of Pi)

– Lincoln (Lincoln)

– Moonrise Kingdom (Moonrise Kingdom)

– O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook)

– 007 – Operação Skyfall (Skyfall)

– A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty)

Olhando a lista, duas grandes surpresas podem ser notadas. Apesar do filme ser bom, 007 – Operação Skyfall faz parte de uma franquia de 23 filmes que nunca foi muito popular em premiações, até mesmo porque houve épocas em que o personagem ficou caricato e supérfluo. Os filmes do agente secreto sempre ficaram restritas às categorias técnicas como de Melhores Efeitos Sonoros e Melhor Canção. Contudo, como 007 – Operação Skyfall foi o primeiro da série a ultrapassar a barreira do bilhão nas bilheterias internacionais e tem sido bem elogiado pelos trabalhos do diretor Sam Mendes e do elenco, o filme pode conquistar mais do que indicações técnicas e canção (para Adele).

Com Daniel Craig, os filmes de James Bond atingiram um novo patamar nas bilheterias e com a crítica, sem abrir mão da tradição de Ian Fleming (foto por BeyondHollywood.com)

Com Daniel Craig, os filmes de James Bond atingiram um novo patamar nas bilheterias e com a crítica, sem abrir mão da tradição de Ian Fleming (foto por BeyondHollywood.com)

Por outro lado, a ausência de The Master deve ter sido bastante discutida entre os críticos e especialistas. De acordo c0m a temporada de premiação, o novo filme de Paul Thomas Anderson é típico daqueles “ame ou odeie”, o que não é novidade na curta filmografia do diretor. Anderson tem um estilo bastante frio e incomum, mas mesmo um cinéfilo descontente conseguiria distinguir alguma qualidade em seu trabalho. Alguns acreditam que o fato de ele mexer no tema (sagrado) da Cientologia, pode ter afundado seu barco antes de chegar ao Oscar (teoria da conspiração que também acredito). Resta saber se as prováveis indicações de seus atores Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman e Amy Adams podem resgatar o prestígio da produção no tapete vermelho.

Podem Joaquin Phoenix e os demais atores salvar The Master do esquecimento? (foto por BeyondHollywood.com)

Podem Joaquin Phoenix e os demais atores salvar The Master do esquecimento? (foto por BeyondHollywood.com)

Pode soar um comentário vazio, mas a lista do PGA se mostra bem consistente. Qualquer um dos dez têm chances reais de vitória. Entretanto, acho que o prêmio deve ficar entre Argo, Lincoln e A Hora Mais Escura, de acordo com o histórico de críticas e premiações.

Já o Writers Guild of America tem um histórico meio conturbado com a Academia. No WGA, regras rígidas desqualificam alguns roteiros que podem ganhar o Oscar em seguida. Em 2011, o roteiro de O Discurso do Rei sequer figurou na lista de indicados do WGA, mas levou Melhor Roteiro Original no Oscar. Além disso outros roteiros foram inelegíveis naquele ano simplesmente porque não foram escritos por membros do sindicato de roteiristas: Toy Story 3, Inverno da Alma e Namorados Para Sempre. Em 2012, felizmente os vencedores coincidiram: Roteiro Original para Woody Allen (Meia-Noite em Paris) e Roteiro Adaptado para Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash (Os Descendentes).

Seguem as listas dos indicados deste ano:

INDICADOS A ROTEIRO ORIGINAL

  • John Gatins (Flight)
  • Rian Johnson (Looper: Assassinos do Futuro)
  • Paul Thomas Anderson (The Master)
  • Wes Anderson & Roman Coppola (Moonrise Kingdom)
  • Mark Boal (A Hora Mais Escura)

INDICADOS A ROTEIRO ADAPTADO

  • Chris Terrio (Argo); Baseado numa seleção de The Master of Disguise por Antonio J. Mendez e o artigo na revista Wired “The Great Escape” por Joshuah Bearman
  • David Magee (As Aventuras de Pi); baseado no romance de Yann Martel
  • Tony Kushner (Lincoln); baseado em partes do livro Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln de Doris Kearns Goodwin
  • Stephen Chbosky (As Vantagens de Ser Invisível); baseado em seu livro
  • David O. Russell (O Lado Bom da Vida); baseado no romance de Matthew Quick

INDICADOS A ROTEIRO DE DOCUMENTÁRIO

  • Sarah Burns, David McMahon e Ken Burns (The Central Park Five)
  • Kirby Dick (The Invisible War)
  • Alex Gibney (Mea Maxima Culpa: Silence in the House of God)
  • Malik Bendejelloul (Searching for Sugar Man)
  • Brian Knappenberger (We Are Legion: The Story of the Hacktivists)
  • Amy Berg & Billy McMillin (West of Memphis)

Na categoria de Roteiro Original, a briga deve ficar entre Paul Thomas Anderson (The Master) e Mark Boal (A Hora Mais Escura). Se o primeiro ganhar (assumindo que até lá o filme tenha conquistado várias indicações ao Oscar), Anderson pode finalmente comemorar seu primeiro Oscar da carreira. Agora, se Boal sair vitorioso, tem grandes chances de conquistar seu segundo Oscar (depois de Guerra ao Terror). O roteiro de A Hora Mais Escura sofreu alterações brutas devido à morte de Osama Bin Laden, uma vez que o projeto visava analisar a demora na captura do terrorista mais procurado do mundo.

Kathryn Bigelow ao lado do roteirista Mark Boal, responsáveis pela transformação do roteiro de A Hora Mais Escura (foto por OutNow.CH)

Kathryn Bigelow ao lado do roteirista Mark Boal, responsáveis pela transformação do roteiro de A Hora Mais Escura (foto por OutNow.CH)

Já em Roteiro Adaptado, Chris Terrio (Argo) e David O. Russell (O Lado Bom da Vida) saem na frente dos demais. O grande crédito do primeiro foi revirar o baú e encontrar essa história verídica fantástica. Só os fatos da história impressionam e carregariam um bom filme. Já o segundo consiste em transformar uma história aparentemente banal de relacionamentos humanos em algo excepcional com a ajuda de um elenco afiado.

Os personagens de John Goodman e Ben Affleck tramam  resgate dos diplomatas no Irã (foto por OutNow.CH)

Os personagens de John Goodman e Ben Affleck tramam resgate dos diplomatas no Irã em Argo (foto por OutNow.CH)

Em relação aos documentários, The Central Park Five tem boas chances por abordar um tema polêmico de acusação criminal sustentada por racismo em 1989. Mas vale ressaltar que a busca do paradeiro de um músico dos anos 70 de Searching for Sugar Man vem conquistando vários prêmios da categoria.

Cena do documentário Searching for Sugar Man, que procura respostas do paradeiro de um artista outrora consagrado (foto por OutNow.CH)

Cena do documentário Searching for Sugar Man, que procura respostas do paradeiro de um artista outrora consagrado (foto por OutNow.CH)

Aparentemente, os roteiros de Les Misérables e Django Livre ficaram de fora por questões de votação, e não por serem inelegíveis. Mas não devem ficar de fora do Oscar 2013…

Os vencedores do Producers Guild Awards serão anunciados no dia 26 de janeiro. Enquanto o Writers Guild divulgará a lista no dia 17 de fevereiro.

007 – Operação Skyfall (Skyfall), de Sam Mendes (2012)

007 – Operação Skyfall

Após um longo hiato de quatro anos, finalmente a franquia mais lucrativa do cinema retorna às telas do cinema. 007 – Operação Skyfall acabou sofrendo esse atraso devido ao processo de falência do estúdio MGM (Metro Goldwyn Meyer), mas agora os produtores asseguraram que esse equívoco não voltará a acontecer, lembrando que Daniel Craig já assinou novo contrato para mais dois filmes com lançamento previsto para 2014 e 2016, com produção e filmagens acontecendo simultaneamente, dando a entender que se tratam de filmes sequenciais.

Com a aproximação da data comemorativa de 50 anos de James Bond, os produtores da série Barbara Broccoli e Michael G. Wilson buscavam algo grandioso que causasse uma reformulação. Para isso, chamaram o vencedor do Oscar de direção por Beleza Americana, Sam Mendes, para comandar o show. Em entrevista, Mendes revela que só passou a aceitar a idéia de dirigir um filme de Bond depois que o diretor Marc Forster foi convocado para assumir 007 – Quantum of Solace (2008), uma vez que Forster tem raízes mais autorais com uma filmografia que inclui o forte drama A Última Ceia (que rendeu o Oscar de melhor atriz para Halle Berry) e o drama O Caçador de Pipas, baseado no best-seller de Khaled Hosseini.

Sam Mendes (a esq.) dirigindo Daniel Craig na sequência inicial

Essa preocupação de Sam Mendes se mostra bastante pertinente, pois os diretores que assumem os filmes costumam ter esse rótulo de marionete dos produtores, não tendo qualquer poder e palavra final, algo considerado um terror pra diretores autorais como Mendes. Além desse aspecto, ele declarou numa entrevista ao site The Playlist que antes de aceitar a proposta, não considerava um desafio atraente. “Eu nunca fui interessado e não acho que vi todos os filmes com o Pierce Brosnan. Mas quando Daniel Craig foi escalado em 007 – Cassino Royale (2006), passei a me interessar porque ele era um amigo com quem trabalhei em Estrada Para a Perdição (2001). Inicialmente não considerei uma boa escolha, mas aí eu vi o filme e mudei de idéia, e até fiquei ansioso para ver o próximo. Fiquei levemente desapontado com 007 – Quantum of Solace, contudo acho que existem coisas boas numa boa olhada. Mas quando encontrei Daniel e ele me perguntou se eu estava interessado ou não, fui pego de surpresa dizendo sim de forma rápida. Foi apenas um bom timing.”

Com a contratação do diretor acertada, seus colaboradores assíduos tomaram as posições em seus respectivos departamentos. Assim, a série ganhou muito em qualidade, especialmente na trilha musical, com Thomas Newman substituindo David Arnold, e a fotografia belíssima de Roger Deakins, indicado nove vezes ao Oscar, mas sem nenhuma vitória. Aliás, não é exagero algum afirmar com certeza que o trabalho de fotografia de Deakins é o melhor de toda a série (23 filmes). Todas as sequências são imageticamente deslumbrantes, em especial ao clímax que se passa na Escócia, quando o vilão Silva destrói um casarão com granadas (foto abaixo).

O vilão Silva num belíssimo contra-luz do diretor de fotografia Roger Deakins

Para o roteiro, os frequentes Neal Purvis e Robert Wade, que trabalham em conjunto desde 007 – O Mundo Não é o Bastante (1999), receberam suporte final do competente John Logan, indicado ao Oscar três vezes por Gladiador (2000), O Aviador (2004) e o recente A Invenção de Hugo Cabret (2011). Seu trabalho deu muito mais consistência ao trabalho da dupla, além de diálogos marcantes entre Bond e seu algoz, mas vale ressaltar que algumas idéias principais foram copiadas de Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008), de Christopher Nolan, principalmente no fato do vilão Raoul Silva ser um anarquista cibernético e em seguida se deixar ser preso de forma planejada para que pudesse fazer mais estrago e atingir seu objetivo como fez o Coringa de Heath Ledger.

Para acompanhar a influência de Nolan, o diretor Sam Mendes confirmou a importância que o segundo filme da trilogia de Batman para a realização de 007 – Operação Skyfall. “Estamos agora numa indústria onde os filmes são muito pequenos ou muito grandes e não há quase nada no meio. E seria uma tragédia se todos os filmes sérios fossem muito pequenos e todos os filmes pipoca fossem muito grandes e não tivessem nada a dizer. E o que Nolan provou é que você pode fazer um filme enorme que seja emocionante e divertido, e ao mesmo tempo, ter um monte de coisas a dizer sobre o mundo em que vivemos. E olha que Batman – O Cavaleiro das Trevas nem se passa em nosso mundo! Parecia que o filme era sobre o nosso mundo pós-11 de setembro, discutindo sobre nossos medos e por que eles existiam e achei que aquilo era incrivelmente corajoso e interessante. Isso ajudou a me dar a confiança para assumir este filme em direções que, sem Batman, não poderia ter sido possível. E não seria necessário temer uma reação negativa do público, pois dá pra se apoiar no tom negro do filme de Nolan que faturou zilhões de dólares nas bilheterias. Quer dizer, é possível fazer um filme mais obscuro que as pessoas querem ver.”

Além da base anarquista e a obsessão por destruição do Coringa, o vilão Raoul Silva apresenta como base outra personalidade contemporânea fortíssima: Julian Assange, o porta-voz do site WikiLeaks. Em 2006, o jornalista australiano e ciberativista se tornou o editor-chefe da WikiLeaks, um site de denúncias e vazamentos, responsável pela publicação de documentos secretos do governo do Quênia, de resíduos tóxicos na África, e a forte denúncia sobre o tratamento dado aos prisioneiros da Prisão de Guantánamo, que ele obtém como hacker de sites de algumas nações. Com ninguém satisfeito com a invasão de Assange, ele perdeu a cidadania sueca e desde junho desse ano, foi obrigado a se refugiar na embaixada do Equador em Londres, onde vive até hoje sob fortes ameaças. O vilão de Bond pegou emprestado o visual loiro e sua estratégia de vazar a identidade secreta de agentes britânicos infiltrados em facções terroristas no Youtube.

O vilão Raoul Silva (Javier Bardem). No detalhe, Julian Assange.

Com esse perfil cibernético, o personagem de Silva poderia facilmente ser um homem mais franzino, mas como os fãs da série preferem vilões que Bond possa ter uma luta corpo-a-corpo equilibrada, chamaram o encorpado Javier Bardem, que certamente ganhou o papel depois de assustar a todos com seu personagem Anton Chigurh de Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), dos irmãos Coen. Curiosamente, Bardem é o primeiro ator espanhol a interpretar o vilão principal do agente 007 e ele o fez com maestria. Seu Raoul Silva aparece na tela a partir da segunda metade do filme e mesmo assim consegue aparentar uma constante ameaça. Pelas qualidades citadas acima, já entraria para a galeria dos vilões de Bond mais memoráveis, mas existe uma outra vertente que o torna ainda mais interessante: seu lado homo-erótico. Sim, James Bond tem um antagonista homossexual! Obviamente, essa opção sexual do vilão fica apenas sugerida e nunca explícita por se tratar de um filme altamente comercial, no entanto, em sua primeira aparição, Silva senta em frente a Bond amarrado numa cadeira e abre sua camisa para checar seus ferimentos (foto abaixo), enquanto profere palavras de duplo sentido.

James Bond encara Raoul Silva pela primeira vez com um diálogo picante

Para este fã de James Bond, o fato do vilão ter tendências homossexuais não impressiona. Aliás, até torna as coisas mais interessantes! Mas a resposta que James dá a uma indireta de Silva causou certo furor na minha sessão, repleta de fanáticos pelo agente secreto. (Para quem não viu o filme e não quer saber, não leia o fim deste parágrafo). Quando Silva sugere que Bond experimente uma nova experiência sexual, ele retruca um inesperado “e quem disse que é a minha primeira vez?”, deduzindo que o agente secreto mais mulherengo da história do cinema seria bissexual! 50 anos de Bond e os roteiristas entregam uma faceta totalmente inédita do personagem de Ian Fleming. Aliás, estaria ele rolando em seu caixão depois dessa? Com certeza, muitos fãs machistas adoradores da masculinidade extrema de Connery ficaram pasmos e irritados.

Apenas uma curiosidade em relação ao homossexualismo de Silva, apesar de muitos acreditarem que se trata do primeiro vilão gay da série, os assassinos mercenários Mr. Kidd e Mr. Wint foram os primeiros em 007 – Os Diamantes São Eternos (1971), estrelado por Sean Connery. Contudo, o homossexualismo da dupla se mostra mais uma amizade colorida e inofensiva. Em defesa de seu personagem, Javier Bardem comentou que o sexualismo exposto demonstraria poder diante de um oponente forte como Bond: “A cena era mais sobre colocar outra pessoa em uma situação muito desconfortável, tanto que até James Bond não saberia como resolver”.

Há muito tempo não víamos um vilão de Bond com fortes características sexuais. O último foi a sádica Xenia Onnatop, interpretada por Famke Janssen em 007 Contra GoldenEye (1995). Ela tinha orgasmos múltiplos ao matar pessoas e tinha como golpe favorito torcer suas pernas em volta do abdômen da vítima e asfixiá-la. Com tamanhas qualidades, ficou marcada na história de Bond como uma das melhores vilãs.

Seguindo com as comemorações dos 50 anos, existem algumas boas referências dos filmes anteriores como o automóvel Aston Martin DB5, com assento do passageiro ejetável, utilizado em 007 Contra Goldfinger, e principalmente na reformulação das personagens clássicas e fixas da série como o chefe de Bond, M, sua secretária Miss Moneypenny, e o que a maioria dos fãs estavam aguardando: o retorno do mestre-quarteleiro Q.

Na cena de introdução de Q, Ben Wishaw e Daniel Craig têm um diálogo bastante esclarecedor a respeito dos novos tempos tecnológicos, defendendo muito bem o motivo do personagem reaparecer tão jovem (o ator que viveu Q, Desmond Llewelyn estreou em Moscou Contra 007 (1963) com quase 50 anos de idade). Assim que Q se apresenta com aquele look nerd (óculos, penteado meio emo e aparência franzina), 007 não se aguenta e responde: “Você deve estar brincando.”

Apesar do diálogo esclarecedor, por se tratar de uma série antiga, houve críticas à juventude de um personagem conhecido como um senhor mais experiente e conservador. Contudo, como mostrado em A Rede Social, a nova geração de nerds realmente se mostra muito poderosa no mundo de hoje.

Ben Wishaw como o novo Q, armeiro do MI6. Começando com uma Walther PPK e um rádio transmissor.

Além da forte presença de M (Judi Dench), 007 – Operação Skyfall faz bonito na escalação das Bond girls. Ao contrário da época de Sean Connery e Roger Moore, as mulheres deixaram há muito de serem figuras frágeis e dóceis. Nesta produção, duas personagens femininas tridimensionais integram o hall das Bond girls como uma das melhores duplas dos últimos anos. A atriz francesa Bérénice Marlohe vive a misteriosa Sévérine, que presencia um assassinato e se torna peça chave no quebra-cabeça que James Bond deve seguir. Com um olhar bastante forte e sensual, Marlohe demonstra a fragilidade necessária para atrair Bond, deixando sua marca no filme, mesmo que em poucas cenas.

Bérénice Marlohe como a misteriosa Sévérine

Por este lado da lei, temos outra Bond girl excepcional, a britânica Naomie Harris. Ela teve seu primeiro papel de destaque no terror de zumbis moderno de Extermínio (2002), de Danny Boyle, e nos anos seguintes, atuou em alguns filmes de ação em destaque como Piratas do Caribe: O Baú da Morte (2006), Piratas do Caribe: No Fim do Mundo (2007), Miami Vice (2006) e curiosamente em O Ladrão de Diamantes (2004), estrelado pelo então James Bond, Pierce Brosnan. Com maior experiência em ação, Harris foi escalada para viver a agente novata Eve, que tem participação fundamental na sequência inicial.

Naomie Harris como Eve

Como se trata de um personagem altamente sexual, vale ressaltar aqui que em 007 – Operação Skyfall, James Bond tem relações com três mulheres, algo que nunca aconteceu desde que Daniel Craig assumiu o smoking. Seria um sinal de retomada até nesse quesito? Felizmente, os produtores souberam escolher belíssimas atrizes. Bérénice Marlohe, Naomie Harris e Tonia Sotiropoulou formam a grande beleza do filme.

Aliás, ainda no assunto da presença feminina, a cantora de sucesso Adele compôs a música-tema homônima Skyfall, que foi lançada na internet no dia 05 de outubro, quando Bond completava 50 anos. Além de já ter alavancado um grande sucesso nas paradas, sendo uma das mais compradas no iTunes, a canção remete ao tom mais clássico das músicas de 007, especialmente Shirley Bassey e sua majestosa Goldfinger. Pelo sucesso da canção, da intérprete Adele e do filme nas bilheterias, existe uma forte possibilidade de ser indicada a Melhor Canção Original no Oscar 2013, fato que não acontece desde 1982, quando For Your Eyes Only de Sheena Easton (007 – Somente Para Seus Olhos) foi indicada ao Oscar. Segue vídeo com a música de Adele abaixo:

Contudo, a figura feminina mais importante certamente é M. Sua personagem se encontra sob forte pressão neste filme e representa as mudanças necessárias para entender o mundo de hoje do pós-11 de setembro sob o olhar da segurança da sociedade.

Judi Dench como a chefe operacional M

Após o atentado, muitos se questionam se as autoridades estão realmente preparadas para esse novo tipo de ameaça. Esse constante e contínuo medo assola toda a população, que teme novos atentados pelo mundo todo. E este novo filme de 007 traz essa questão à tona, colocando uma ultrapassada porém experiente M numa audição com uma jovem Ministra de Defesa, respondendo à pergunta: “Qual o papel de agentes secretos no século XXI?”. Devido aos recentes erros que M cometeu, dá a entender que ela está defasada para o cargo, porém, ela defende a importância e o valor de seus espiões subordinados diante da invisibilidade do inimigo de hoje, pois não tem nação ou bandeira para identificá-lo. Esse cenário repleto de paranóia e racismo é o pano de fundo dos últimos filmes de James Bond, que sempre primaram em refletir características da sociedade de sua época. 007 – Operação Skyfall adiciona mais um importante capítulo deste início do século XXI.

O 23º filme de Bond vale por tudo isso, mas o fato de alguns elementos principais terem sido quase um plágio de Batman – O Cavaleiro das Trevas me incomodou um pouco. Além disso, pecou pela quebra de ritmo no meio do filme (cabiam mais umas duas sequências de ação) e a sequência final com o vilão Silva se tornou morosa e desgastante pra pouca novidade. Também acrescento que a personagem de Albert Finney, o velho Kincade, ficou mal aproveitado.

Skyfall deu um passo importante na série. Os produtores provaram que estão dispostos a largar o conservadorismo de vez e inserir James Bond em seu devido lugar no século XXI. Esperamos que o nível de qualidade do diretor escolhido para a próxima aventura esteja do mesmo nível de Sam Mendes, assim como os atores principais. Valeu também pela inclusão de Ralph Fiennes, pois os filmes ganham uma credibilidade notória com sua presença.

Avaliação: BOM

A equipe principal responsável por 007 – Operação Skyfall. Da esquerda para a direita: Javier Bardem, Bérénice Marlohe, Sam Mendes, Judi Dench, Daniel Craig, Naomie Harris e os produtores Barbara Broccoli e Michael G. Wilson (photo by Sony Pictures realeasing)